Cinema e Argumento

“As Boas Maneiras”: formação humana e familiar em noite de lua cheia

Você gosta de criança?

Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra

Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Felipe Kenji, Andrea Marquee

Brasil, 2018, Drama/Terror, 135 minutos

Sinopse: ​Clara (Isabél Zuaa), enfermeira solitária da periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana (Marjorie Estiano) como babá de seu futuro filho. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.​ (Adoro Cinema)

Se você precisa categorizar As Boas Maneiras, a escolha mais óbvia seria dizer que essa é uma obra de terror. No entanto, assim como tudo na carreira da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, tal classificação só tende a simplificar a riqueza cinematográfica de seus trabalhos e dos importantes temas que ambos costumam tratar tanto nos longas que dirigem juntos (Trabalhar Cansa) quanto nos que comandam individualmente (Sinfonia da NecrópoleO Silêncio do Céu). As Boas Maneiras confirma a regra: por ter uma atmosfera de suspense fantástico, o longa é predominantemente interpretado pelo público a partir dessa perspectiva, quando, na verdade, ganha diferentes dimensões ao fazer com que a trama oscile, com extrema fluidez e versatilidade, entre momentos de mistério, drama e romance, sendo alguns deles, inclusive, pontuados por sequências musicais! Tanto frescor e desapego aos padrões fazem de Rojas e Dutra dois dos mais talentosos e instigantes realizadores de sua geração. E, para quem se propor a conferir As Boas Maneiras, outras tantas surpresas chegam com esse longa que, na última edição do Festival do Rio, faturou as categorias de melhor filme, atriz coadjuvante (Marjorie Estiano) e fotografia.

Assim como os melhores relatos de terror, As Boas Maneiras usa elementos do gênero para falar sobre questões muito mais amplas e não têm nada de irrealistas. Se é difícil falar sobre o filme sem entregar elementos cruciais de sua narrativa, o que talvez baste saber é algo que os próprios diretores defendem sobre a história: ela é, em suma, sobre a formação de uma família. Nada mais justo para o mundo atual, onde redefinimos constantemente conceitos ao mesmo tempo em que nadamos contra uma corrente conservadora e elitista que defende o modelo tradicional de todo tipo de relação. As Boas Maneiras é também uma resposta direta a esse público, cujo repúdio extrapola o âmbito familiar, transformando o fato de ser “diferente” em um ato de resistência. E, por isso, As Boas Maneiras pode muito bem se configurar como um relato político, pois defende, através da alegoria, uma causa importantíssima e contemporânea que ganha leitura nas camadas de duas protagonistas opostas em quase todos os aspectos, começando pela cor da pele até a posição social em que ambas se encontram. 

Após um acontecimento que modifica por completo a sua história, As Boas Maneiras passa a concentrar sua discussão em um outro personagem. Essa quebra, contudo, não representa uma fragilidade. Muito pelo contrário, já que, na medida em que se encaminha para o desfecho, o longa potencializa a sua encenação, agora com um outro viés, sobre o que realmente define as relações humanas. Para tanto, todos os personagens de As Boas Maneiras se justificam em cena, uma vez que Dutra e Rojas, também autores do roteiro, definem muito bem a personalidade de cada um deles. Ainda que deixem para o espectador a tarefa de imaginar elementos que embasam determinados pontos dramáticos, isso surge mais como mérito do que como problema, já que as incógnitas contribuem diretamente para a atmosfera tensa que se instala já no primeiro e desconfortável encontro entre uma babá e a sua futura patroa. Seja no mistério ou na essência familiar, o projeto enaltece Isabél Zuaa, uma atriz forte e que se transforma durante o desenrolar da história, sempre muito bem acompanhada por Marjorie Estiano, pelo garotinho Miguel Lobo (um pequeno furacão!), pela “cantriz” Cida Moreira e por Andrea Marquee. É um elenco de peso, com a cara e o talento de um país que, apesar de tantas mazelas, segue se empoderando e se democratizando na tela do cinema graças a filmes como As Boas Maneiras

Rapidamente: “Maze Runner: A Cura Mortal”, “Perfeita é a Mãe 2”, “Roman J. Israel” e “Todas as Razões Para Esquecer”

Johnny Massaro em Todas as Razões Para Esquecer: filme trata com leveza e bom humor o término de um relacionamento a partir do ponto de vista masculino.

MAZE RUNNER: A CURA MORTAL (Maze Runner: The Death Cure, 2018, de Wes Ball): Sempre gostei de Maze Runner por sua total falta de pretensão em meio a uma enxurrada de franquias infanto-juvenis baseadas em bestseller como Jogos VorazesDivergente. A trilogia comandada pelo diretor Wes Ball nunca quis ser mais do que um eficiente entretenimento, e esse senso de diversão tem seu ponto alto no capítulo derradeiro chamada A Cura Mortal, que, infelizmente, chegou aos cinemas com uma tremenda falta de timing (o protagonista se machucou durante as gravações, atrasando um ano todo o cronograma de finalização e divulgação do filme). O desfecho não merecia mais esse golpe em termos de repercussão (Maze Runner, por alguma razão, nunca chegou a se tornar um verdadeiro hit) porque a trama, ainda que trabalhada em soluções fáceis demais, tem um pique admirável ao conduzir cenas de ação que, pelo realismo e pelo uso mínimo de efeitos digitais, fazem o espectador sentir o perigo e a adrenalina muito mais do que em em outros longas recentes do mesmo estilo. A Cura Mortal, assim como os capítulos anteriores de Maze Runner, tem pouco a dizer dramaticamente (uma prejudicada nesse sentido é Patricia Clarkson, cujo maior destaque ao longo da franquia foi uma esquecível reviravolta), mas será que não é um tanto injusto cobrar do projeto algo que ele próprio nunca prometeu?

PERFEITA É A MÃE 2 (A Bad Moms Christmas, 2017, de Jon Lucas e Scott Moore): Subestimado, o primeiro filme de Perfeita é a Mãe! trazia um elenco feminino de excelente timing cômico em uma história que, a partir de um tom de comédia mais popular, questionava os papeis impostos às mulheres, especialmente às mães, em um mundo onde o conceito de perfeição tem sido cada vez mais desconstruído e determinadas obrigações são felizmente questionadas. Aí imaginem a minha empolgação quando Christine Baranski e Susan Sarandon foram somadas ao time já formado por Mila Kunis, Kathryn Hahn e Kristin Bell para uma continuação. Porém, o entusiasmo termina quando o filme começa: além de antiquado na forma e com prazo de validade já estourado (comédias natalinas envolvendo confusões e desavenças familiares parecem cada vez mais experiências de décadas passadas), Perfeita é a Mãe 2 surpreende de forma negativa ao mudar a pegada do humor, agora predominantemente físico, sexual e gráfico. Dependendo do filme, situações com tapas, pontapés, drogas e ereções podem ter lá sua graça, mas aqui até o talentoso elenco surge pouco à vontade com um texto ralo e sem timing, que chega a comprometer atuações como as de Kathryn Hahn e Susan Sarandon. Previsível do início ao fim e em boa parte de mau gosto, Perfeita é a Mãe 2 é uma ressaca desnecessária.

ROMAN J. ISRAEL (Roman J. Israel, Esq., 2017, de Dan Gilroy): Os indicados ao Oscar 2018 foram anunciados em janeiro, mas ainda hoje tento entender as razões que levaram Denzel Washington a ser lembrado por um filme morno como Roman J. Israel. Denzel é sempre bom ator, mas, vindo de um desempenho intenso como o de Um Limite Entre Nós, sua presença aqui pouco impressiona. Em grande parte, há de se culpar o filme comandando por Dan Gilroy, cineasta que debutou com o visceral O Abutre, mas que, em Roman J. Israel, não preserva o mesmo talento e entusiasmo ao mais uma vez fazer um estudo de personagem. À parte a obra não ter ritmo ou criatividade, Gilroy, que também é autor do roteiro, não extrai complexidade de um protagonista desinteressante, cujas transformações ao longo da história também não são devidamente sentidas. Partindo do relato de um advogado mundano que, ao trocar de empresa, passa a enfrentar dilemas éticos, morais e profissionais ao ter que defender um homem acusado de homicídio, Roman J. Israel planta algumas promessas que acabam não se cumprindo, mas que, na medida do possível, são bem defendidas pelo desempenho sempre crível de Denzel Washington. Ainda assim, é pouco e inexpressivo para um diretor que, em seu filme anterior, já foi muito mais fundo e intenso em questões que, de certa maneira, também não deixam ser discutidas aqui.

TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER (idem, 2018, de Pedro Coutinho): Com o uso cada vez mais popular do termo white people problems, um longa como Todas as Razões Para Esquecer teria imensa dificuldade em ser levado a sério. Isso se o diretor Pedro Coutinho não contasse a história com leveza, contemporaneidade e um perceptível conhecimento acerca das consequências de um coração partido. Sem essas qualidades, o filme não passaria de um amontoado de situações rasas sobre um garoto branco, carioca e de classe média que trabalha em uma grande agência de publicidade e tenta superar um término de namoro entre um porre e outro. A obra em si não é necessariamente inventiva — filmes como Ela(500) Dias Com Ela, também sobre corações despedaçados, são referências óbvias inclusive na construção visual, e a tentativa de dar estofo dramático a personagens como a psicóloga vivida por Regina Braga não soam convincentes —, mas há uma certa despretensão na obra, que, ao invés de proferir filosofias ou se aprofundar em reflexões, olha para o vazio de uma geração confusa sentimentalmente tentando fazer com que ela, de alguma forma, possa se identificar com tudo aquilo, percebendo que, apesar das pedras no caminho, tudo fica bem, de um jeito ou de outro. E esse material, digamos, agridoce, ainda é certeiro para Johnny Massaro, que, após o ótimo desempenho em O Filme da Minha Vida, constrói, com versatilidade, as qualidades e defeitos de um personagem que, em teoria, sempre fica a um passo de se tornar caricato.

“O Animal Cordial”: terror brasileiro subverte o gênero slasher e explora os diferentes sentidos da brutalidade

Sabia que eu já matei muita gente?

Direção: Gabriela Amaral Almeida

Roteiro: Gabriela Amaral Almeida

Elenco: Luciana Paes, Murilo Benício, Irandhir Santos, Camila Morgado, Humberto Carrão, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Diego Avelino, Eduardo Gomes, Ariclenes Barroso

Brasil, 2018, Terror/Suspense, 96 minutos

Sinopse: São Paulo. Inácio (Murilo Benício) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado).

É uma questão cultural e histórica: uma significativa parcela das plateias brasileiras alimenta um infundado preconceito com a produção audiovisual de seu próprio país, ainda mais se tratando do chamado “cinema de gênero” (termo que refuto porque sempre me parece redundante, afinal todo cinema tem pelo menos um ou mais gêneros). Recupero essa percepção porque, após conferir O Animal Cordial na programação do Fantaspoa 2018, tive a certeza de que, caso fosse produzido por norte-americanos e estrelado por um elenco Hollywoodiano, o primeiro longa-metragem assinado por Gabriela Amaral Almeida daria o que falar. A partir dessa teoria de que, dada a sua nacionalidade, o filme não será devidamente valorizado, quem sai perdendo é o próprio público, que deixa de apreciar um dos trabalhos mais viscerais do cinema nacional em anos — e também uma das obras de terror mais impactantes e descontruídas da recente safra do gênero, independente da origem de quem está por trás das câmeras.

Impactante alegoria sobre barbáries sociais, o longa se utiliza da violência e de uma dose cavalar de sangue para discutir o nosso eventual retorno a um estado primitivo quando enfrentamos situações extremas. A trama parte de um assalto, mas o filme captura uma outra perspectiva: a dos comportamentos desencadeados por esse violento acontecimento. E não falamos propriamente das brutalidades cometidas ao longo de um pesadelo vivido em um pequeno restaurante paulista. A força emocional de O Animal Cordial está menos nos acontecimentos e mais na personalidade muito bem definida de personagens carregados de curvas emocionais. Mais: o longa adota como conceito que não há violência física que se equipare, por exemplo, à agressão emocional da homofobia ou ao desprezo de um casal elitista pela garçonete que trabalha no restaurante. Afinal, o verdadeiro terror é se deparar com a pior índole do ser humano nas mínimas situações.

Por se focar majoritariamente no comportamento e na natureza de seus personagens, O Animal Cordial amplia a inegável tensão que cai nos ombros do espectador durante toda projeção, começando pelos protagonistas Inácio (Murilo Benício) e Sara (Luciana Paes), pessoas que, diante do assalto, de repente encontram um tipo de protagonismo que, talvez, jamais tiveram do ponto de vista profissional e emocional em suas cotidianidades. A abordagem do roteiro é certeira porque ela se distancia de tantos outros relatos de terror ao questionar as complexidades de cada personagem, colocando quase em segundo plano o desenrolar do assalto em si. Como um drama tradicional, é possível que O Animal Cordial não tivesse metade do seu impacto, já que muitas das discussões levantadas pelo roteiro — o perigo de amar, os calos emocionais, a exploração profissional — ganham novas leituras e dimensões quando se contrastam com a extrema violência física (e não passa despercebida a maneira como o sangue desempenha papel crucial nas diversas construções de sentido do filme).

A diretora Gabriela Amaral Almeida diz que O Animal Cordial representa o seu desejo pessoal de fazer um filme que ela própria nunca viu. E faz total sentido. Gênero que, no geral, objetifica ou despreza as mulheres ao assassiná-las das mais diferentes formas, o terror ganha aqui um exemplar raro, pois Gabriela usa a falência da masculinidade como espinha dorsal do filme, onde o único homem que mostra dignidade e retidão de caráter é justamente o cozinheiro gay. Enquanto isso, a presença feminina, centrada na figura de Luciana Paes, exerce influência direta em praticamente todos os acontecimentos do roteiro. Como um exemplar do terror slasherO Animal Cordial renega a misógina concepção de seu gênero, inclusive em uma poderosa cena de sexo, onde a mulher, novamente, é quem detém o controle absoluto.

Outro aspecto que chama a atenção é o elenco estelar e de primeiríssima qualidade, algo raro se tratando de obras específicas como essa. Murilo Benício, possivelmente no papel de sua vida, e Luciana Paes, uma atriz que segue despontando como uma das mais talentosas e autorais de sua geração, encabeçam o time de atores, acompanhados de coadjuvantes igualmente intensos, como Irandhir Santos, certeiro na caracterização de um cozinheiro que reivindica seus direitos profissionais e humanos, e Camila Morgado, representando a mulher rica que se vê em uma situação onde jamais imaginou que um dia pudesse estar em função de sua posição social. A presença e o comprometimento de profissionais reconhecidos como eles com um projeto cru, brutal e despudorado comprova o grande prestígio de um filme que, sim, deve satisfazer os dedicados fãs de terror, mas também impactar — e muito — quem estiver aberto a pensar o ser humano por outras vias que não sejam as tradicionais.

“O Processo” é o registro desolador de um pesadelo recente (e ainda presente)

É um jogo de cartas marcadas.

Direção: Maria Augusta Ramos

Roteiro: Maria Augusta Ramos

Brasil, 2018, Documentário, 142 minutos

Sinopse: O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo. (Adoro Cinema)

Abraçando a ideia de que a realidade pode ser mais chocante do que a ficção, a cineasta Maria Augusta Ramos realizou O Processo sem qualquer tipo de intervenção: o que se vê na tela durante os 142 minutos de projeção são imagens de bastidores do Planalto e do Congresso Nacional durante o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Não há depoimentos registrados especialmente para o documentário, tampouco condução de entrevistas ou análises de especialistas das áreas jurídicas, políticas ou econômicas. A matéria-prima do documentário são imagens já históricas, como a embaraçosa votação na Câmara dos Deputados e o discurso de despedida de Dilma como presidente do Brasil, complementadas por tudo o que a equipe capturou em seu acesso exclusivo a reuniões estratégicas realizadas ao longo do processo de impeachment da então presidente Dilma. Acreditando, com toda a razão, que as imagens por si só seriam suficientes para dar a devida dimensão do circo e da farsa montadas para destituir a primeira mulher governante do Brasil, Maria Augusta Ramos toca fundo não apenas na ferida de um sistema político seletivo e intransigente, mas também na desesperança de uma população que segue a deus-dará.

Boa parte dos políticos de direita negaram o acesso da equipe de filmagens aos seus bastidores, o que torna O Processo um documentário intimamente ligado aos discursos pró-Dilma, aqui centralizados em duas figuras protagonistas: o advogado José Eduardo Cardozo e a senadora Gleisi Hofmann. Mesmo com a limitação imposta pela política de direita, o documentário dá ampla visibilidade aos dois lados da trincheira quando recupera momentos-chave tanto dos bastidores quanto de sessões públicas. A diretora Maria Augusta Ramos e a montadora Karen Akerman ouvem os dois lados em todos os momentos cruciais, evitando qualquer acusação de terem selecionado depoimentos quando eles melhor serviam a algum posicionamento político do filme. E é aí que o fato da câmera só observar os bastidores faz a completa diferença: enquanto Dilma Rousseff e a cúpula do PT surgem racionais, objetivos e bem articulados, nomes da oposição como a jurista Janaína Paschoal, coautora do pedido de impeachment, beiram o descontrole, causando inclusive momentos de humor involuntário tamanha a quantidade de discursos mais passionais do que argumentativos. 

Em ordem cronológica, O Processo coloca na tela um período nefasto e recente de nossa política que, desde agora, pode e deve ser visto com certa perspectiva. Sentado na sala de cinema para conferir uma longa narrativa sobre o impeachment, fica ainda mais clara a forma orquestrada, seletiva e irresponsável com que o esse processo foi conduzido, começando pela tenebrosa votação na Câmara dos Deputados que abre o documentário, onde Eduardo Cunha, presidente da Câmara, liderava o movimento pró-impeachment mesmo com incontáveis provas e acusações que deveriam ter lhe tirado do cargo antes mesmo de qualquer movimento contra Dilma Rousseff. A partir daí, O Processo faz uma detalhada retrospectiva desse longo jogo de cartas marcadas, onde se percebe, a cada cena registrada, que os argumentos e os recursos bem defendidos pelo PT jamais teriam chance frente ao sistema imposto. O documentário causa um embrulho no estômago por conta disso: caso você não tenha percebido na época, agora está representado, com extrema clareza, que nada de fato poderia ser feito para reverter um jogo cujo resultado já estava decidido muito antes do início da partida.

Considerando a passionalidade, milhões de pessoas apoiavam a destituição da presidente, mas O Processo nos lembra que, independente de seu posicionamento, os fins não justificam os meios. E, nesse momento específico da trajetória brasileira, os meios foram escusos e suficientes para escancarar que a corrupção não é o mal de um partido, mas sim de toda uma sociedade. Impossível, no entanto, acusar O Processo de não problematizar a política de esquerda, por assim dizer: é essencial a cena em que os representantes do Partido dos Trabalhadores versam sobre as razões que levaram ao enfraquecimento da presidente e ao fortalecimento do pedido de impeachment. A falta de inserção de Dilma nos movimentos feministas e do próprio partido nas reivindicações populares despertam reflexões e autocríticas necessárias para a compreensão de toda a engrenagem que culminou no afastamento de Dilma, inclusive, e não menos importante, a relação com a imprensa, sempre tão difícil e parcial, mas tratada, de certa forma, como um simples argumento de vitimização do partido (conforme levantado pelo documentário, o PT foi o governo democrático que mais fechou rádios comunitárias em todo o Brasil, uma contradição difícil de justificar).  

Verdade seja dita que é quase impossível avaliar O Processo sem se deixar levar por posicionamentos políticos, mas essa é uma questão do próprio espectador, uma vez que o documentário faz o mínimo possível para influenciar plateias. Além de não ser propaganda eleitoral, o resultado estarrece justamente por sua narrativa sóbria, onde nem mesmo o nome de cada documentado aparece na tela. Prova maior disso são os simples, mas assombrosos letreiros finais que listam todas as mudanças políticas e sociais promovidas Michel Temer após assumir a presidência. Os fatos falam por si só e confirmam todo o interesse que havia por trás do impeachment, cujas razões oficiais que formalizaram o processo, no final das contas, dificilmente serão lembradas pela população. Como eleitor de Dilma (sinto que devia esclarecer isso, caso já não estivesse evidente pelo texto), fiquei, ao final da sessão, com um inconsolável sentimento tristeza por reviver tamanho pesadelo. Já como cinéfilo, há comemoração, pois O Processo é de uma dignidade tremenda —  e de uma relevância histórica indiscutivelmente urgente.

“Um Lugar Silencioso”: em frente e atrás das câmeras, John Krasinski recupera o poder do silêncio

Who are we if we can’t protect them?

Direção: John Krasinski

Roteiro: Bryan Woods, John Krasinski e Scott Beck, baseado em estória de Bryan Woods e Scott Beck

Elenco: John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Leon Russom, Cade Woodward

A Quiet Place, EUA, 2018, Suspense/Terror, 90 minutos

Sinopse: Em uma fazenda dos Estados Unidos, uma família do meio-oeste é perseguida por uma entidade fantasmagórica assustadora. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som. (Adoro Cinema)

Quem mora em qualquer capital e, dependendo do filme, é obrigado a frequentar cinema de shopping sabe como funciona o pesadelo: conversa, risadas, celulares ligados, barulho e, muitas vezes, tudo que é tipo de comida entrando na sala de cinema. Quando se trata de filme de terror, então, pior ainda, pois esse é um gênero que o grande público costuma tratar como brincadeira, esperando, a cada cena, algum susto para, logo em seguida, soltar risada. Digo por experiência própria: Invocação do Mal 2It – A Coisa, minhas últimas experiências com o gênero na tela grande, foram péssimas, agravadas pelas próprias pessoas que compartilhavam a sala comigo. Mas aí, recuperando a esperança, chega um filme como Um Lugar Silencioso, que chuta a porta, acaba com a farra e obriga o mais inquieto dos seres humanos a não emitir qualquer som ao longo de aproximadamente 90 minutos.

O silêncio impera porque Um Lugar Silencioso basicamente não tem diálogos? Também, mas a grande sacada do ator John Krasinski (o eterno Jim Halpert, do seriado The Office) é recuperar algo que o cinema de terror, pelo menos o comercial, tem esquecido nos últimos: o poder do silêncio. Eliminando palavras, puxando o freio de mão da trilha e redimensionando a força de qualquer som inesperado em uma trama que de histriônica não tem nada, Krasinski coloca o espectador na mesma condição do personagens, demandando que você assista ao filme sem emitir qualquer som. Óbvio que esse é um movimento coletivo — se o cinema inteiro está quieto, a tendência é que você também fique —, mas com a diferença de que aqui o silêncio é componente crucial na relação com o filme, pois é como se a sua vida dependesse do silêncio tanto quanto a dos personagens no outro lado da tela.

Os vícios do gênero são passados a limpo em Um Lugar Silencioso, que abre a trama com um acontecimento trágico, já deixando um recado muito claro: o de que, dali em diante, tudo pode acontecer. Isso maximiza a tensão já inerente ao roteiro que Krasinski escreveu junto a Bryan Woods e Scott Beck, que alcança grandiosidade em questões que vão além do mero silêncio: o horror parece eminente porque, apesar do clima pós-apocalíptico, o filme é essencialmente humano e passado em uma casa abandonada com apenas quatro personagens. Há essa compreensão de quanto menor o núcleo de personagens em um filme, maiores são as chances de nos importarmos emocionalmente com eles. Mais do que um grande filme do gênero, estamos , de certa forma, diante de uma alegoria sobre como ter filhos (e não poder protegê-los) pode ser deveras aterrorizante.

Do pânico às lágrimas (acredite, o estofo dramático do filme quanto às relações familiares chega a ser comovente), Um Lugar Silencioso é tão bem construído no suspense que potencializa inclusive artifícios fáceis, a exemplo do prego que aparece onde não deveria ou de um acontecimento a longo tempo esperado e planejado que toma forma na hora mais inconveniente possível. Inclusive, é de se admirar como, mesmo em seus momentos mais gráficos (é uma antiga reclamação minha com histórias de terror: elas costumam mostrar mais do que deveriam), o longa não perde o clima e a força. Parte desse mérito vem de um apuro técnico admirável, em especial do magnífico trabalho de som e da fotografia, que, nas sequências noturnas, é de deixar os nervos à flor da pele.  

Sucesso mundial (não são nem duas semanas em cartaz e o filme já faturou dez vezes mais que o seu orçamento modesto de 17 milhões de dólares), Um Lugar Silencioso é uma vitória para todos os envolvidos: para o cinema de gênero popular, para as plateias que são relembradas do poder imersivo de filmes de terror e principalmente para todo o elenco (Krasinski, que agora tem a confiança da indústria como realizador; Emily Blunt, finalmente com um filme à altura de seu talento; Noah Jupe, que já era uma revelação no recente Extraordinário; e Millicent Simmonds, talentosa atriz surda que volta a abrir espaço para a inclusão após Sem Fôlego). É uma experiência indispensável mesmo para quem não tem relação assídua com o terror e que tem fôlego de sobra para se tornar uma obra digna de ser referenciada.