Cinema e Argumento

“O Primeiro Homem”: sem narrativa musical e roteiro de autoria própria, Damien Chazelle pouco impressiona em um terreno atípico na sua carreira

Your dad’s going to the Moon.

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Josh Singer, baseado no livro “First Man: The Life of Neil A. Armstrong”, de James R. Hansen

Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Kyle Chandler, Christopher Abbott, Pablo Schreiber, Ciarán Hinds, Ethan Embry, Jason Clarke, Corey Stoll, Shea Whigham, Patrick Fugit, Lukas Haas

First Man, EUA, 2018, Drama, 141 minutos

Sinopse: A vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling) e sua jornada para se tornar o primeiro homem a andar na Lua. Os sacrifícios e custos de Neil e toda uma nação durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais. (Adoro Cinema)

O Primeiro Homem não deixa de ser um terreno desconhecido para Damien Chazelle, diretor que vem trilhando uma carreira exitosa no Cinema com títulos premiados como Whiplash: Em Busca da Perfeição e La La Land: Cantando Estações. É de certa forma desconhecido porque, pela primeira vez, Chazelle tanto não dirige um roteiro de autoria própria quanto deixa de lado qualquer tipo de narrativa musical, característica que permeou sua filmografia desde a estreia com o longa Guy and Madeline on a Park Bench. Somente o cineasta pode dizer se tais mudanças de alguma forma afetaram partes do processo criativo, mas, como espectador, é possível aceitar a teoria com alguma convicção, pois é frustrante ver um filme inegavelmente bem dirigido ser limitado por um roteiro morno e que jamais se equivale ao imenso imaginário despertado pela chegada dos astronautas norte-americanos à Lua. 

Originalmente um projeto destinado ao veterano Clint Eastwood, O Primeiro Homem traz Steven Spielberg na produção executiva, o que tem sido utilizado como grande atrativo em manchetes de portais e em materiais de divulgação. Na verdade, não passa de puro chamarisco, já que o longa de Chazelle não tenta se equivaler ou emular o terreno de ficção que Spielberg tanto ajudou a criar e a popularizar ao longo das décadas. Para ser justo, o filme é, na realidade, um relato espacial mais íntimo, propondo uma série de contrastes entre a vida cotidiana na Terra e as dimensões infinitas do espaço sideral. Para isso, o roteiro escrito por John Singer (The Post: A Guerra Secreta, Spotlight: Segredos Revelados) se afasta do ícone Neil Armstrong (Ryan Gosling) para tratá-lo como um homem comum que, após passar por uma dolorosa perda familiar, encontra-se deslocado junto à família e aos amigos. Exercer a profissão, portanto, nunca fez tanto sentido para Armstrong: viajar ao espaço é, antes de qualquer coisa, um processo pessoal e uma fuga íntima dessa vida bagunçada e dolorosa na Terra.

Considerando o todo, é justo dizer que O Primeiro Homem funciona por explorar o plano humano em meio a cenários intergaláticos (a sequência que mostra a chegada de Neil à Lua é poderosa porque mostra o quanto nós, seres humanos, somos realmente insignificantes aqui na Terra ou em qualquer ponto do universo). No entanto, o mesmo não se aplica para uma visão mais microscópica do roteiro, que é quase banal na dramatização cotidiana da vida do protagonista. A própria perda familiar que acontece na arrancada da história e motiva boa parte das decisões do personagem é resgatada pontualmente, como se fosse apenas uma forma de encorpar o combustível dramático do filme. Outro aspecto raso a ser considerado é a participação da esposa de Armstrong, vivida por Claire Foy e aqui traduzida como a clássica dona-de-casa que segura a barra, os destemperos e a ausência de um marido que abraça o trabalho ao invés da família em um momento de grande confusão emocional. Por sorte, Foy é boa atriz e muito maior do que o papel que lhe foi proporcionado.

À parte o roteiro morno, que pouco se esmera em curiosidade ou criatividade ao se infiltrar nas pesquisas e simulações da NASA para chegar à Lua, a maior limitação de O Primeiro Homem era realmente difícil de prever: Ryan Gosling. Um dos atores mais queridos de sua geração, Gosling também é um dos mais versáteis (veja ou relembre A Garota Ideal, Drive, Namorados Para Sempre, O Lugar Onde Tudo Termina e Amor a Toda Prova para comprovar), e por isso mesmo impressiona a sua falta de presença como Neil Armstrong. Mirando na interpretação econômica ou no chamado minimalismo, o ator envereda para a apatia, sem dar as merecidas dimensões para as pequenas ou grandes complexidades vividas por um personagem que não sabe muito bem onde sente os seus pais mais firmados no chão. Além da falta de tempero do roteiro, O Primeiro Homem carece de um protagonista marcante e que, principalmente, desperte algum tipo de torcida.

Transcorridos cinco anos entre o lançamento de Gravidade e agora o de O Primeiro Homem, conclui-se que a febre de filmes ambientados no espaço ainda não resultou em nenhuma obra capaz de se equiparar à ficção dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón em termos de qualidade. Não que elas tenham essa obrigação, mas, dada a lembrança ainda intacta de uma obra que redefiniu a recente safra das obras do gênero, a comparação segue inevitável. Damien Chazelle, que reúne aqui praticamente os mesmos colaboradores de Whiplash e La La Land, faz de sua incursão espacial uma experiência sólida sob a perspectiva técnica e sensorial, evidenciando o contraponto com uma história que, dessa vez sem a sua assinatura no roteiro, não corresponde à dimensão que o diretor se propõe a traduzir em imagens. Coincidência ou não, Chazelle já pavimenta um caminho de retorno às origens: atualmente, ele está em plena produção de The Eddy, uma série dramática encomendada pela Netflix onde a música se apresenta mais uma vez como epicentro narrativo. Dito isso, é de se perguntar mais uma vez: teria sido O Primeiro Homem um rápido parênteses em sua carreira?

“As Herdeiras”: drama paraguaio mergulha nos delicados significados de uma autodescoberta feminina após os 60 anos

Direção: Marcelo Martinessi

Roteiro: Marcelo Martinessi

Elenco: Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova, María Martins, Nilda Gonzalez, Alicia Guerra, Mecha Armele, Ana Banks, Beto Barsotti, Regina Duarte, Norma Codas, Natalia Calcena, Clotilde Cabral

Las Herederas, Paraguai/Alemanha/Uruguai/Brasil/Noruega/França, 2018, Drama, 98 minutos

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora. (Adoro Cinema)

Considerando que um Kikito esculpido em bronze pesa em torno de 3,5 kg, as atrizes Margarita Irun e Ana Ivanova, representantes do filme paraguaio As Herdeiras na cerimônia de premiação do 46º Festival de Cinema de Gramado, devem ter saído do Brasil pagando excesso de bagagem no aeroporto, pois foram nada menos do que seis categorias conquistadas pelo longa no evento serrano, entre elas a raríssima tríplice coroa de melhor filme pelo júris oficial, popular e da crítica. Aliás, um dos Kikitos ainda se transformou em três, já que o prêmio de melhor atriz foi divido entre as três intérpretes principais do filme. Tudo bem que a seleção de longas estrangeiros não foi lá muito elogiada este ano em Gramado, mas, conferindo As Herdeiras, dá para entender o porquê de tanto carinho por essa obra que tem muitas chances de, pela primeira vez e com muita justiça, levar o Paraguai para o quinteto de finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Centrado exclusivamente em figuras femininas (os homens mal são vistos em cena e, quando o são, estão desfocados ou fora de quadro), As Herdeiras registra a temporada em que Chela (Ana Brun) precisa lidar com a ausência de sua companheira que acaba de ir para a prisão por ter acumulado dívidas jamais acertadas. O longa parte de um encarceramento, mas, no fundo, é sobre libertação: quando passa a ter que encarar a vida com as próprias pernas, a protagonista, antes tão dependente da mulher com quem viveu por mais de 30 anos, começa a se abrir para um mundo que ela nunca se permitiu conhecer. A pegada é menos óbvia do que pode parecer, pois As Herdeiras é o tipo de filme que explora aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que, isoladamente, não parecem significar muita coisa, mas que, quando vistos com certa perspectiva, traduzem toda uma vida. O cinema brasileiro, inclusive, produziu uma obra de conceito semelhante: o tocante Pela Janela, de Caroline Leone, que pode muito bem ser considerado um filme-irmão de As Herdeiras.

As mais delicadas significações começam quando Chela decide fazer bicos como uma espécie de taxista, transportando diversas senhoras de sua vizinhança para hospitais ou jogos de carteado. Para uma mulher que nunca conduziu a sua própria vida, é altamente simbólico que ela vença o seu receio de dirigir, como se estivesse finalmente assumindo a direção de sua existência. Chela também resiste em receber presentes de suas clientes e, mesmo com os problemas financeiros que enfrenta, também parece não se importar tanto com o dinheiro que recebe pelos serviços, situações que refletem o quanto ela inconscientemente faz aquilo pela nova vida que descobriu na ausência de sua companheira e não exatamente pela necessidade de alguns trocados. A transformação da personagem é minuciosa e silenciosa, bem ao estilo do filme com um todo, o que entrega um tremendo desafio para Ana Brun, uma atriz que, pasmem, está em seu primeiro trabalho no cinema! Brun é grandiosa no minimalismo, e por isso é tamanha a surpresa de sua estreia: tal força, em boa parte dos casos, só emana de quem já tem vasta experiência na dramaturgia, mas ela é um ponto fora da curva, dona de um talento nato.

Com a mesmíssima surpresa se descobre que o diretor e roteirista Marcelo Martinessi também está em seu primeiro longa-metragem. Martinessi havia feito três curtas anteriormente, informação que não chega a nos preparar para a expressiva maturidade que vemos em As Herdeiras. Sua direção lapida com firmeza um roteiro que desenvolve com consistência três universos muito particulares e suscetíveis a estereótipos ou superficialidades: o feminino, o homossexual e o da terceira idade, todos representados com sutileza nas passagens onde a protagonista, que sempre teve dificuldade em assumir e verbalizar a sua orientação sexual, de repente se vê desejando uma de suas clientes e percebendo que, mesmo solitária e depois dos 60, uma mulher ainda tem sim muito a descobrir sobre si própria. Premiado também no Festival de Berlim, onde levou os prêmios de melhor atriz para Ana Brun e de melhor filme pelo júri da crítica, As Herdeiras é mais uma merecida viagem repleta de consagrações que o cinema de língua latina faz pelo mundo. E o melhor: levando para diferentes telas a sua indiscutível vocação para pequenas grandes histórias que empoderam as vidas de uma parcela da sociedade que ainda não é tão representada na ficção quanto deveria.

Rapidamente: “10 Segundos Para Vencer”, “O Avental Rosa”, “A Cidade dos Piratas” e “Ferrugem”

Grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado, Ferrugem está na lista dos filmes que disputam a vaga para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

10 SEGUNDOS PARA VENCER (idem, 2018, de José Alvarenga Jr.): Cinebiografia do boxeador brasileiro Éder Jofre, 10 Segundos Para Vencer é o primeiro longa-metragem abertamente dramático assinado por José Alvarenga Jr., que fez carreira dirigindo comédias mais populares e de expressivas bilheterias, como Divã, Os Normais, Cilada.com e vários títulos dos Trapalhões entre os anos 1980 e 1990. Para essa nova investida, ele optou por um formato seguro e já consolidado nas biografias produzidas pelo cinema brasileiro, onde a história, que transita pelo clássico arco dramático de apogeu, decadência e reerguimento, tem início, meio e fim muito bem definidos, sem nada muito novo em forma ou estrutura. O que dá mesmo força ao projeto é a leitura do esporte como uma ferramenta de interação humana, e não como mero exercício físico ou passatempo: para Éder Jofre, lutar era uma missão de vida e também o que lhe conectava com um pai rígido, exigente e que esperava do filho uma trajetória gloriosa dentro e fora dos ringues. Talvez a escolha por esse olhar mais íntimo e familiar do personagem explique a leitura um tanto insuficiente que 10 Segundos Para Vencer faz do ícone Éder Jofre, poucas vezes devidamente dimensionado como uma mítica figura do cenário esportivo brasileiro. Por ser muito mais sobre laços e ruídos afetivos entre pai e filho, o roteiro abre as portas para que Daniel Oliveira, em plena entrega física, crie uma ótima química com o grande Osmar Prado, aqui em desempenho marcante, buscando todo tipo de humanidade e complexidade em um sujeito que, treinador do próprio filho, dificilmente encontra o equilíbrio saudável entre o seu papel de pai e a sua missão como uma incansável líderança do boxe. Organicamente, Osmar toma conta do filme, ao mesmo tempo em que há generosidade de sobra em sua dinâmica com os outros atores em cena. Não há o que quesionar: o nocaute de 10 Segundos Para Vencer é dele.

O AVENTAL ROSA (idem, 2018, de Jayme Monjardim): Apresentado pelo próprio Jayme Monjardim como o seu primeiro trabalho mais autoral depois de super produções realizadas para o cinema e para TV, O Avental Rosa é uma homenagem ao trabalho solidário e dedicado de pessoas que cuidam de pacientes terminais, tema sempre muito delicado por ser suscetível ao discurso fácil e à panfletagem. Ao preservar muito da linguagem televisiva que tanto consagrou Monjardim na televisão, o filme se desenrola basicamente como uma novela compactada em duas horas de projeção. São pouquíssimos os traços verdadeiramente cinematográficos na tela, começando pelo roteiro, recheado de lições de moral, coincidências e diálogos redundantes, onde são explicados conflitos e questionamentos que já estavam claríssimos através das atitudes de cada personagem. E mais: com um tom fortíssimo de melodrama e de auto-ajuda, o diretor reproduz diversos cacoetes reconhecidos da TV, como quando a protagonista, atormentada pelas discussões de um dia conturbadíssimo emocionalmente, não consegue dormir e se revira na cama com flashbacks e ecos das frases que lhe foram ditas. Na estética, a lógica se repete, pois, quando ganha um creme para a pele de presente, Alicia (Cyria Coentro) passa longos minutos caminhando pela casa e passando o produto lentamente na pele, como se estivesse em um comercial de cosméticos. Com uma grande escala de orçamento, como aconteceu em Olga, é possível maquiar bastante coisa. Já em um filme menor e mais intimista como proposto aqui, as fragilidades emergem de forma mais evidente. Por isso mesmo, conclui-se que O Avental Rosa é feito para o público adepto e afeito à linguagem televisiva. Como desde 2012 não assisto à uma novela sequer (e a última foi Avenida Brasil, que era mais sofisticada do que a média apresentada em horário nobre), não consegui estabelecer qualquer conexão com o longa.

A CIDADE DOS PIRATAS (idem, 2018, de Otto Guerra): A animação A Cidade dos Piratas é tão divertidamente caótica quanto o próprio diretor Otto Guerra, além de ser uma fidelíssima alegoria sobre os nossos tempos, ainda que essa seja apenas uma coincidência do roteiro, que começou a ser escrito em 2001. À parte as questões políticas e sociais tão reivindicadas pelo diretor dentro e fora de seus trabalhos, o filme propõe uma interessante metalinguagem ao colocar o próprio Otto dentro da história: tudo começa quando ele se vê em plena crise existencial e artística após a descoberta de um câncer e de que Laerte, autora dos quadrinhos em que o filme se baseia, de repente passou a renegar os seus próprios personagens. São fatos que realmente aconteceram e que, nos bastidores, bagunçaram por completo a ideia do projeto, algo que Otto viu como uma irresistível oportunidade, incorporando muitos dos acontecimentos na tela. No bom sentido da comparação, isso faz de A Cidade dos Piratas o trabalho mais maluco já assinado pelo animador gaúcho: com personagens improváveis, inúmeras liberdades, humor afiado e, por que não, uma imensa dose de realismo no meio disso tudo, o longa coloca o espectador em terrenos incertos e imprevisíveis, provocando reações que, para o bem ou para o mal, podem ser medidas conforme o gosto de cada um pelo já reconhecido estilo do animador. No raríssimo terreno de animações brasileiras para adultos, A Cidade dos Piratas nos lembra o quanto Otto continua sendo uma figura única e provocadora, que conta uma história como bem entende, sem estar preso a regras ou domesticações, qualidade celebrada pontualmente pelo 46º Festival de Cinema de Gramado com uma menção honrosa entregue ao filme pelo júri oficial. 

FERRUGEM (idem, 2018, de Aly Muritiba): Com as redes sociais tomando conta do nosso cotidiano e da maneira com que nos relacionamos com outras pessoas e inclusive com nós próprios, é muito lógico que o cinema também passe a refletir sobre esse delicado momento geracional. O Brasil, claro, faz parte dessa safra: depois do recente Aos Teus Olhos, agora temos Ferrugem, o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado com os Kikitos de melhor filme, roteiro e direção. Menos verbal e expositivo do que os retratos desse tema costumam ser (e do que vimos em Aos Teus Olhos, por exemplo), o filme de Aly Muritiba levanta suas discussões a partir de perspectivas bastante distintas. A primeira é a de uma garota que, após ter um vídeo íntimo vazado na internet, passa a viver um verdadeiro pesadelo no colégio. A segunda é a de um menino que, por razões um tanto nebulosas, lida muito mal como um observador de todo aquele caos. É corajosa e inesperada a virada que Ferrugem dá na metade da projeção para inverter o foco da narrativa. Todo ato tem uma consequência, e é radiografando a reverberação da culpa, seja ela íntima ou coletiva, que a história ganha uma atmosfera diferenciada para discussões que estão em voga e que ainda serão exploradas de tantas outras maneiras semelhantes no cinema. Ferrugem não é um filme para o público jovem no sentido de ser uma experiência catártica ou embalada comercialmente para esse tipo de público. Pelo contrário: contemplativo, o projeto é muito mais sobre comportamentos do que sobre acontecimentos, tornando-se até um tanto anti-climático dependendo das expectativas, principalmente na segunda parte, muito bem defendida pela ótima performance do jovem Giovanni Di Lorenzo, mesmo que seu personagem não seja o tipo de persona que desperte empatia no espectador. Ferrugem não chega a ser um grande filme, mas as importantes reticências deixadas por ele quanto ao que nos tornamos frente a movimentos tecnológicos ou geracionais colocam o resultado em um patamar no mínimo diferenciado.

“O Conto”: incômoda produção da HBO mergulha nas verdades que criamos (e aceitamos) para sobreviver

Why can’t I remember myself?

Direção: Jennifer Fox

Roteiro: Jennifer Fox

Elenco: Laura Dern, Jason Ritter, Ellen Burstyn,  Elizabeth Debicki, Frances Conroy, Common, Jessica Sarah Flaum, John Heard, Chelsea Alden, Isabelle Nélisse, Matthew Rauch, Tina Parker, Isabella Amara

EUA/Alemanha, 2018, Drama, 114 minutos

Sinopse: Jennifer (Laura Dern) tem uma ótima carreira como documentarista e professora e um relacionamento repleto de carinho e respeito mútuo com seu noivo, Martin (Common). Porém, quando sua mãe encontra uma história que ela escreveu para escola quando tinha 13 anos contando sobre um relacionamento que teve com dois adultos, ela é obrigada a revisitar um passado traumático e reconciliar suas lembranças com o que de fato aconteceu com ela. (Adoro Cinema)

O Conto teve seus direitos de distribuição adquiridos pela HBO na última edição do Festival de Sundance, quando despertou grandes sensações entre público e crítica após a sua primeira exibição. Ao contrário do que se poderia esperar para uma produção questionadora, incômoda e até mesmo polêmica, as reações foram basicamente positivas, ressaltando a urgência do tema discutido. No filme, a diretora Jennifer Fox, também autora do roteiro, relembra a sua primeira (e conturbadíssima) relação sexual, quando ainda era a criança. E ela escolhe um ponto de vista interessante: o da mulher já adulta e bem realizada (Laura Dern) que sempre viveu aparentemente bem com tais lembranças, mas que começa a questionar certezas e verdades quando sua mãe (Ellen Burstyn) encontra, escandalizada, um diário que conta toda a história de forma detalhada.

A provocação de O Conto está em lidar com um assunto delicadíssimo através de uma personagem que, a princípio, não enxerga sua própria condição como algo a ser levado a sério. Isso até a protagonista finalmente perceber que a vida adulta muitas vezes se resume às verdades que criamos e aceitamos para de alguma forma sobreviver a diferentes tipos traumas. É na desconstrução de inúmeras certezas que o filme de Jennifer Fox se torna poderoso, especialmente porque o roteiro trabalha muito bem a questão de como nossas memórias são capazes de adaptar o que de fato aconteceu apenas para corroborar aquilo que queremos tomar como verdade. A relação entre o que realmente se desenrolou e o que a protagonista crê ser realidade é representada com muito impacto, pois O Conto encena uma determinada circunstância que, vista de fora, precisa ser imediatamente diagnosticada e vista como condenável.

Incômoda, a produção toca em inúmeros tabus que evitamos discutir se tratando de sexualidade, em especial a feminina, sempre questionada e colocada à prova pela sociedade. Há precisão e consistência em tudo que O Conto discute a partir dessa perspectiva, o que, infelizmente, não se reflete na forma, que simplifica e tenta dramatizar ainda mais uma história que por si só já impacta e provoca. As tentativas de elevar o tom de urgência são rasteiras, como na primeira meia hora, onde o filme cria cerimônia e suspense para até mesmo verbalizar o que os personagens tanto clamam como traumático e absurdo sem nunca dar qualquer pista sobre o que eles estão falando. A insistência da trilha e o vai e vem na história também atrasam uma trama que talvez fluísse melhor com uma narrativa linear, acumulando no espectador a expectativa para descobrir como toda aquela conturbada infância seria traduzida para a vida adulta.

Com a estrutura proposta, O Conto muitas vezes limita Laura Dern a ser uma espécie de Amy Adams em Animais Noturnos: ela lê e relembra, volta a ler e reflete, em um ciclo que eventualmente acontece alguma coisa para somente no terço final ganhar um material mais completo, onde, aí sim, a atriz mostra seu talento indiscutível e habitual. Apesar disso, as fragilidades são compensadas por discussões que certamente reverberam após a sessão e que são redimensionadas pela maneira aberta com que a diretora expõe a sua vida, inclusive assumindo toda a negação que, durante muitos anos, abraçou para não ter que encarar traumas nefastos. Nesse sentido, O Conto assombra porque consegue, na medida do possível, nos colocar no lugar da protagonista, questionando até que ponto precisamos abraçar a negação como ferramenta para a sobrevivência.

46º Festival de Cinema de Gramado #7: Crítica | “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues

Jesuíta Barbosa como Celavi em O Grande Circo Místico: 18º longa do diretor Cacá Diegues atravessa um século e cinco gerações de uma mesma família circense.

Em seu 18º longa-metragem, o cineasta Cacá Diegues reuniu um elenco à altura da mitologia que lhe é atribuída no cinema brasileiro: entre papeis menores e outros de destaque, nomes como Jesuíta Barbosa, Mariana Ximenes, Juliano Cazarré, Bruna Linzmeyer, Antonio Fagundes e Marcos Frota se alternam em uma história ambiciosa que acompanha, ao longo de um século, o apogeu e a decadência de cinco gerações de uma mesma família circense. Para dar vida a O Grande Circo Místico, filme de abertura do 46º Festival de Cinema de Gramado, Cacá levou mais de dez anos entre a criação do roteiro e o corte final, dado que amplia a expectativa com uma obra que já desperta curiosidade em função da talentosa equipe reunida à frente e atrás das câmeras. Tanto tempo de maturação, entretanto, misteriosamente não livrou o filme de fragilidades recorrentes em histórias que tentam dar conta de um imenso período em menos de duas horas de projeção.

O Grande Circo Místico até joga confetes na arte circense com apresentações esteticamente idealizadas e embaladas por canções irrepreensíveis de Chico Buarque e Edu Lobo. Por outro lado, a intenção é capturar os horrores de uma arte que, com o passar dos anos, perdeu público, incentivo e, por que não, a sua própria humanidade. Para cada cena colorida nos picadeiros, há pelo menos outras duas de bastidores que descortinam violências sexuais, problemas com drogas e outras tragédias que acometem a vida de pessoas cujo propósito profissional é, ironicamente, entreter plateias. Tal proposta já faz de O Grande Circo Místico um filme distante do que seus festivos materiais promocionais indicam, mas o que embaralha o jogo é a questão estrutural. Com incontáveis saltos no tempo, o filme esvazia sua dramaticidade ao não aprofundar situações e personagens. É tiro e queda: com superficialidade e pressa, pessimismo não funciona e soa somente como artifício para tentar conferir algum tipo de consistência à trama.

A leveza mais expressiva de O Grande Circo Místico está em Celavi (Jesuíta Barbosa), misterioso e carismático personagem que não envelhece e acompanha as diferentes fases da família circense. Jesuíta, cuja carreira profissional tem origem no teatro, não exerce papel necessariamente decisivo na trama, mas é o observador que, a cada aparição, traz o encanto e a graça para uma história pesada (e, com seu carisma e talento habituais, Jesuíta cria uma persona de fato interessante). Quanto aos demais atores que estão apenas de passagem (alguns deles, como Antonio Fagundes ou Marcos Frota, estão limitados a uma ou duas cenas), há uma visível entrega — e, no caso de Mariana Ximenes e Juliano Cazarré, donos dos papeis mais trágicos, até certa potência emocional. Eles se esmeram em uma obra truncada e que, pulverizada em ritmo e narrativa, não consegue conectar plateia e personagens. Para tanta espera, O Grande Circo Místico deveria ter armado um espetáculo melhor amarrado e mais grandioso.