“O Processo”: o registro desolador de um pesadelo recente (e ainda presente)

É um jogo de cartas marcadas.

Direção: Maria Augusta Ramos

Roteiro: Maria Augusta Ramos

Brasil, 2018, Documentário, 142 minutos

Sinopse: O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo. (Adoro Cinema)

Abraçando a ideia de que a realidade pode ser mais chocante do que a ficção, a cineasta Maria Augusta Ramos realizou O Processo sem qualquer tipo de intervenção: o que se vê na tela durante os 142 minutos de projeção são imagens de bastidores do Planalto e do Congresso Nacional durante o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Não há depoimentos registrados especialmente para o documentário, tampouco condução de entrevistas ou análises de especialistas das áreas jurídicas, políticas ou econômicas. A matéria-prima do documentário são imagens já históricas, como a embaraçosa votação na Câmara dos Deputados e o discurso de despedida de Dilma como presidente do Brasil, complementadas por tudo o que a equipe capturou em seu acesso exclusivo a reuniões estratégicas realizadas ao longo do processo de impeachment da então presidente Dilma. Acreditando, com toda a razão, que as imagens por si só seriam suficientes para dar a devida dimensão do circo e da farsa montadas para destituir a primeira mulher governante do Brasil, Maria Augusta Ramos toca fundo não apenas na ferida de um sistema político seletivo e intransigente, mas também na desesperança de uma população que segue a deus-dará.

Boa parte dos políticos de direita negaram o acesso da equipe de filmagens aos seus bastidores, o que torna O Processo um documentário intimamente ligado aos discursos pró-Dilma, aqui centralizados em duas figuras protagonistas: o advogado José Eduardo Cardozo e a senadora Gleisi Hofmann. Mesmo com a limitação imposta pela política de direita, o documentário dá ampla visibilidade aos dois lados da trincheira quando recupera momentos-chave tanto dos bastidores quanto de sessões públicas. A diretora Maria Augusta Ramos e a montadora Karen Akerman ouvem os dois lados em todos os momentos cruciais, evitando qualquer acusação de terem selecionado depoimentos quando eles melhor serviam a algum posicionamento político do filme. E é aí que o fato da câmera só observar os bastidores faz a completa diferença: enquanto Dilma Rousseff e a cúpula do PT surgem racionais, objetivos e bem articulados, nomes da oposição como a jurista Janaína Paschoal, coautora do pedido de impeachment, beiram o descontrole, causando inclusive momentos de humor involuntário tamanha a quantidade de discursos mais passionais do que argumentativos. 

Em ordem cronológica, O Processo coloca na tela um período nefasto e recente de nossa política que, desde agora, pode e deve ser visto com certa perspectiva. Sentado na sala de cinema para conferir uma longa narrativa sobre o impeachment, fica ainda mais clara a forma orquestrada, seletiva e irresponsável com que o esse processo foi conduzido, começando pela tenebrosa votação na Câmara dos Deputados que abre o documentário, onde Eduardo Cunha, presidente da Câmara, liderava o movimento pró-impeachment mesmo com incontáveis provas e acusações que deveriam ter lhe tirado do cargo antes mesmo de qualquer movimento contra Dilma Rousseff. A partir daí, O Processo faz uma detalhada retrospectiva desse longo jogo de cartas marcadas, onde se percebe, a cada cena registrada, que os argumentos e os recursos bem defendidos pelo PT jamais teriam chance frente ao sistema imposto. O documentário causa um embrulho no estômago por conta disso: caso você não tenha percebido na época, agora está representado, com extrema clareza, que nada de fato poderia ser feito para reverter um jogo cujo resultado já estava decidido muito antes do início da partida.

Considerando a passionalidade, milhões de pessoas apoiavam a destituição da presidente, mas O Processo nos lembra que, independente de seu posicionamento, os fins não justificam os meios. E, nesse momento específico da trajetória brasileira, os meios foram escusos e suficientes para escancarar que a corrupção não é o mal de um partido, mas sim de toda uma sociedade. Impossível, no entanto, acusar O Processo de não problematizar a política de esquerda, por assim dizer: é essencial a cena em que os representantes do Partido dos Trabalhadores versam sobre as razões que levaram ao enfraquecimento da presidente e ao fortalecimento do pedido de impeachment. A falta de inserção de Dilma nos movimentos feministas e do próprio partido nas reivindicações populares despertam reflexões e autocríticas necessárias para a compreensão de toda a engrenagem que culminou no afastamento de Dilma, inclusive, e não menos importante, a relação com a imprensa, sempre tão difícil e parcial, mas tratada, de certa forma, como um simples argumento de vitimização do partido (conforme levantado pelo documentário, o PT foi o governo democrático que mais fechou rádios comunitárias em todo o Brasil, uma contradição difícil de justificar).  

Verdade seja dita que é quase impossível avaliar O Processo sem se deixar levar por posicionamentos políticos, mas essa é uma questão do próprio espectador, uma vez que o documentário faz o mínimo possível para influenciar plateias. Além de não ser propaganda eleitoral, o resultado estarrece justamente por sua narrativa sóbria, onde nem mesmo o nome de cada documentado aparece na tela. Prova maior disso são os simples, mas assombrosos letreiros finais que listam todas as mudanças políticas e sociais promovidas Michel Temer após assumir a presidência. Os fatos falam por si só e confirmam todo o interesse que havia por trás do impeachment, cujas razões oficiais que formalizaram o processo, no final das contas, dificilmente serão lembradas pela população. Como eleitor de Dilma (sinto que devia esclarecer isso, caso já não estivesse evidente pelo texto), fiquei, ao final da sessão, com um inconsolável sentimento tristeza por reviver tamanho pesadelo. Já como cinéfilo, há comemoração, pois O Processo é de uma dignidade tremenda —  e de uma relevância histórica indiscutivelmente urgente.

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