Cinema e Argumento

46º Festival de Cinema de Gramado #6: Crítica | “Mormaço”, de Marina Meliande

De Roterdã para Gramado: Mormaço, de Marina Meliande, alterna entre o realismo e a alegoria para falar sobre a truculência e a exaustão nas grandes cidades.

Mormaço é um ponto fora da curva. Exibido no Festival de Roterdã deste ano, o drama dirigido por Marina Meliande consegue o feito estranhamente fascinante lembrar outros filmes ao mesmo tempo em que tem uma identidade particular. Tematicamente, é sobre como as grandes cidades são capazes de engolir e transformar seus habitantes, seja em termos literais ou metafóricos. Da perspectiva estrutural, temos duas obras em uma: a primeira é um drama que, para o bem e para o mal, lembra Aquarius no sentido de relatar a vida de pessoas que recusam a ceder suas moradias para projetos políticos ou capitalistas, enquanto a segunda pula do plano realista para a completa alegoria. Evocando, mas jamais emulando filmes cujos ecos surgem apenas como coincidência (o roteiro começou a ser escrito em 2012), Mormaço é, especialmente na primeira parte, fragilizado pela semelhança temática com outras obras, elevando-se, por outro lado, com assustadora vitalidade na segunda, quando garimpa conturbados horrores da nossa sociedade ao mesmo tempo em que promove um angustiante exercício de estilo.

Ao mostrar o apodrecimento de uma vida urbana que se corrompe por interesses e se utiliza da truculência para oprimir os menos favorecidos, o filme apresenta a perspectiva de Ana (Marina Provenzzano), uma jovem defensora pública que trabalha em prol dos moradores da Vila Autódromo, uma das comunidades ameaçadas de remoção para as obras de construção do Parque Olímpico do Rio. Ela, uma mulher independente que mora sozinha em um apartamento da capital carioca, acredita na luta a ponto de permitir que todo o processo, incluindo as derrotas que se revelam inevitáveis, atinjam o seu estado físico e emocional. Meliande, que faz jus a sua assumida intenção de conduzir a história sem nenhuma panfletagem, suscita um discurso claro e contundente através de olhares pouco usuais, como o feminino, aqui simbolizado nessa personagem representante de uma geração cuja exaustão é diretamente definida por uma cidade impiedosa em suas dimensões, exigências e injustiças. 

Até certo ponto, Mormaço apresenta seu universo e seu posicionamento com uma condução mais clássica. O jogo se inverte depois, quando Meliande recupera angústias diárias de uma população oprimida e sem voz para fazer fazer do relato uma experiência aterrorizante. Imersiva, a segunda metade de Mormaço cresce minuto a minuto, mergulhando o espectador em um pesadelo social muitíssimo bem traduzido pela excepcional parte técnica. Mais maduro e eficaz do que 90% das obras que chegam aos cinemas e que assumem ou flertam com a natureza do horror, o projeto causa estranheza ao transformar um filme em outro. A vitória, por outro lado, está na unidade temática: Mormaço é firme em suas convicções, e ainda mais fascinante quando as transporta para a experimentação, decisão responsável por engrandecer um filme que, no realismo ou na alegoria, fala muito sobre as doenças do nosso país que pouco têm a ver com diagnósticos médicos.

46º Festival de Cinema de Gramado #4: Crítica | “Benzinho”, de Gustavo Pizzi

Karine Teles e Adriana Esteves em Benzinho: nova pérola do cinema brasileiro registra as complexidades femininas e maternais a partir de cotidianas transformações do ambiente familiar.

Assim como Aquarius, o drama Benzinho é um filme sobre resistência, mesmo que de outro tipo, e talvez ainda mais acachapante. Enquanto no celebrado longa de Kleber Mendonça Filho acompanhávamos os dias em que Clara (Sonia Braga), uma jornalista de sucesso, negava-se a vender o seu querido apartamento localizado à beira do mar recifense, o novo projeto assinado por Gustavo Pizzi (Riscado) traz a protagonista Irene (Karine Teles) enfrentando as pequenas batalhas do dia a dia: o marido vive de sonho em sonho sem realizar muita coisa, os filhos pequenos exigem constante atenção, a irmã sofre com um marido agressivo, as contas não param de chegar e, de repente, o filho mais velho é convidado a jogar handebol na Alemanha. Ajudando todos à volta, Irene não recebe de volta o mesmo cuidado, mas se vira nos trinta nesse registro que, cercado de delicadeza, é uma verdadeira homenagem a todas as mulheres que fazem o mundo girar com mais amor e compreensão.

Exibido em janeiro deste ano no Festival de Sundance, Benzinho foi um projeto realizado praticamente em família. À época, o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Teles eram casados e não só escreveram o filme juntos como também escalaram os próprios filhos e um sobrinho para interpretar as crianças. Nesse time, entraram ainda outros dois atores igualmente fundamentais: Adriana Esteves e Otávio Müller. E o resultado se vê com muita naturalidade na tela, com um elenco que faz sentir o entrosamento do grupo em prol de um projeto afetivo e colaborativo. No entanto, inevitavelmente, Benzinho é centrado na Irene de Karine Teles, vista aqui como uma mulher em suas múltiplas facetas, e não como coadjuvante ou mero objeto. A personagem é uma imensidão de emoções e complexidades, todas elas provocadas pela anunciada despedida do filho que está prestes a partir para o exterior. O curioso contraste é que, por ser sempre tão confiante ao resolver os percalços do cotidiano, todos (inclusive ela) pensam que tudo está bem, quando, na verdade, não está.

Benzinho sugere ser um filme sobre a chamada síndrome do ninho vazio, mas gosto de vê-lo como um retrato muito mais completo: ao perceber que a partida do filho é inevitável, Irene resolve mexer com a sua própria vida, o que envolve desde a conclusão dos estudos até a busca por um novo emprego. E a delicadeza com que o roteiro de Pizzi e Teles captura o infinito universo de uma mulher a partir das mínimas coisas da vida é refinadíssima, pois Benzinho não deixa de registrar a alegria em meio a um material que poderia facilmente render um grande dramalhão. Dessa forma, o longa é fiel à vida como ela é, seja ao mostrar a dinâmica de uma família que passa por muitas dificuldades à própria escolha das palavras do roteiro, já que não há qualquer artificialidade nos diálogos. Por mostrar pessoas que continuam sorrindo e sonhando apesar dos obstáculos, Benzinho comove, e o faz com a maior simplicidade do mundo, tarefa muito mais difícil de cumprir do que o público está acostumado a considerar.

Com um elenco irrepreensível, Benzinho tem seu coração na grande performance de Karine Teles. Uma das intérpretes brasileiras mais talentosas em atividade (claro que a dona Bárbara de Que Horas Ela Volta? é inesquecível, mas não deixem de garimpar Riscado, que ela realizou também em parceria com Gustavo Pizzi), Karine é maravilhosa ao traduzir todas as transformações internas de uma mulher que tenta não transparecer as emoções que ela mesma não consegue diagnosticar com tanta certeza. Muito do que Karine traz para Benzinho vem de sua experiência como mãe e, claro, das mulheres que ela assume homenagear nesse projeto, mas sequências como a final, capazes de, silenciosamente, somente em gestos e olhares, fazer a perfeita síntese de um universo particular, podem ser materializadas apenas por quem tem vasto talento ou repertório como ela. Karine e o filme como um todo proporcionam aquela sensação tão fascinante de um cinema que consegue dar uma rasteira emocional no espectador ao mesmo tempo em que o reergue de forma esperançosa. E não é exatamente assim que a vida costuma funcionar? 

“Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo”: continuação aprimora aspectos do filme original, mas não compensa a ausência de Meryl Streep como protagonista

You are still my love and my life, still my one and only…


Direção: Ol Parker
Roteiro: Ol Parker, baseado em história de Catherine Johnson, Ol Parker e Richard Curtis

Elenco: Lily James, Amanda Seyfried, Julie Walters, Christine Baranski, Pierce Brosnan, Dominic Cooper, Andy Garcia, Stellan Skarsgård, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Cher, Meryl Streep, Josh Dylan, Jeremy Irvine, Hugh Skinner

Mamma Mia! Here We Go Again, Reino Unido/EUA, 2018, Musical, 114 minutos

Sinopse: Sophie (Amanda Seyfried) está prestes a reinaugurar o hotel da mãe (Meryl Streep), agora totalmente reformado. Para tanto convida seus três “pais”, Harry (Colin Firth), Sam (Pierce Brosnan) e Bill (Stellan Skarsgard) e as eternas amigas da mãe, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), ao mesmo tempo em que precisa lidar com a distância do marido Sky (Dominic Cooper), que está fazendo um curso de hotelaria em Nova York. O reencontro serve para desenterrar memórias sobre a juventude de Donna (Lily James), no final dos anos 70, quando ela resolve se estabelecer na Grécia.

Desprezado pela crítica quando chegou aos cinemas em 2008, Mamma Mia! agora volta à vida com uma continuação que reflete muito mais do que o imenso sucesso de público do primeiro filme, que chegou a ser maior bilheteria registrada no Reino Unido até Avatar tomar o posto no ano seguinte: em Lá Vamos Nós de Novo, subtítulo escolhido para a sequência, percebemos que o musical envelheceu muito bem porque se tornou uma obra querida inclusive para quem torcia o nariz dez anos atrás. Levou tempo, mas as pessoas aceitaram abraçar Mamma Mia!. Não restam dúvidas de que o longa original era frequentemente tosco e mal dirigido por Phyllida Lloyd. No entanto, como ficar de mal com uma produção embalada por hits do ABBA, emoldurada com lindas paisagens gregas e energizada por uma Meryl Streep que voava as tranças ao som de Dancing Queen? Cafona, inverossímil e muitas vezes primário, Mamma Mia!, de repente, viu tais defeitos se tornarem parte de sua adorada identidade, permitindo que essa continuação recém estreada nos cinemas brasileiros seja um dos títulos mais esperados do calendário comercial norte-americano em 2018.

Para os temerosos com a ideia de uma sequência, a grata surpresa é que, em inúmeros pontos, Lá Vamos Nós de Novo é superior ao original. Com a saída da diretora Phyllida Lloyd, que recusou o convite de comandar a sequência (ela, com toda razão, também não dirigiu mais nada para o cinema depois de A Dama de Ferro), o espectador ganha um filme com maior esmero técnico e criatividade. Ol Parker, roteirista de O Exótico Hotel Marigold 1 e 2, repara várias das escolhas amadoras da antecessora, que vinha do teatro e tinha em Mamma Mia! a sua primeira experiência idealizada para a tela grande. Na continuação, a música se conecta de maneira mais orgânica e menos gratuita à história, inclusive com aquelas que, para satisfazer o grande público, precisam ser repetidas, como a própria canção-título. O contexto é melhor, as coreografias são aprimoradas e a trilha instrumental, assinada por Anne Dudley (Elle), faz releituras de arranjos do ABBA com graça e reverência.

Aliás, por falar em nostalgia, Lá Vamos Nós de Novo preserva a vitoriosa identidade do filme anterior e, na medida do possível, cria um clima para chamar de seu. Preserva-se aqui a alma brega, as paisagens ensolaradas, o perfil cômico de cada personagem e as coincidências fáceis. Além disso, ao transferir boa parte da narrativa para a adolescência de Donna Sheridan (Meryl Streep na versão madura, Lily James na juventude), o musical tem a chance de introduzir novos atores, explorar situações que escapam do musical em que se baseia e contar com o carisma de uma protagonista diferente. É nesse universo que Lá Vamos Nós de Novo pulsa como nos melhores momentos do original, especialmente porque Lily James leva a missão de corpo e alma: lembrada por seus papéis na fábula em live action de Cinderela e no seriado Downton Abbey, a atriz alcança um vigoroso equilíbrio entre a capacidade de emular a personagem interpretada por Meryl Streep e a de fazer suas próprias criações, sem jamais se limitar à mera cópia. Se há uma estrela no filme, essa é indiscutivelmente Lily.

A jovem atriz faz tão bem ao filme porque mantém acesa, no físico e no espírito, a chama de uma Donna Sheridan que agora se faz ausente. Por razões explicadas logo no início da projeção, Donna segue como o centro dos pensamentos e das motivações de cada personagens, mas dessa vez apenas na memória. Infelizmente, isso não deixa de condenar o projeto: por melhor que seja, Lily James não é Meryl Streep, cuja presença norteava a força, a energia e a emoção do longa anterior. A premiada atriz não deixa de aparecer (em uma cena comovente, por sinal), mas é muito pouco para uma história que tanto homenageia a sua lembrança e que constantemente nos lembra que o primeiro Mamma Mia! era irresistível muito em função de seu gigante talento. Sem ela, em termos de uma trama propriamente dita, Lá Vamos de Novo não parece ir a lugar algum. A falta que Donna faz ainda é muito mais forte do que a homenagem que o filme tenta prestar a ela. Nesse contexto, entra a participação de Cher, promovida como um grande acontecimento que poderia ser a jogada perfeita para compensar a ausência de um ícone com outro, mas isso acaba não se cumprindo: divertidíssima e com presença expansiva, Cher é somente uma curiosidade, inclusive pouco justificada, já que sua personagem era inclusive tida como morta no longa de 2008.

Sem um elo mais consistente, a mesma sensação respinga no roteiro, que é frágil nas duas linhas temporais estabelecidas para a narrativa. Na juventude de Donna, por exemplo, Lá Vamos Nós de Novo falha ao dizer qualquer coisa que já não tenha sido mencionada no filme anterior. Nós já sabemos que Donna se relacionará com três homens, eventualmente se apaixonará por um deles, viverá desencontros e, ao fim, criará sozinha a sua filha sem saber quem é o pai. Por mais que o filme tente criar envolvimento com cada revelação ou desdobramento, simplesmente não há como. Enquanto isso, nos dias em que Sophie (Amanda Seyfried) celebra a sua mãe, os dilemas pipocam da forma mais rasteira possível (o namorado passando uma temporada em Nova Iorque, a tempestade violenta e inesperada na véspera de uma inauguração) para depois serem resolvidos com a maior facilidade do mundo. Entretanto, assim como no filme original, Lá Vamos Nós de Novo é o tipo de filme onde o espectador escolhe se é possível ou não se desarmar e partir para o abraço. Caso escolha, encontrará o bom e velho Mamma Mia! que já conhece: repleto de defeitos, mas também vivo, alegre, despretensioso, sonhador e até dotado de um certo fascínio ao abraçar o ridículo como um elemento do seu sucesso.

“Hannah”: com desempenho monumental, Charlotte Rampling empodera espécie de reality show sobre ausência e solidão

Direção: Andrea Pallaoro

Roteiro: Andrea Pallaoro e Orlando Tirado

Elenco:  Charlotte Rampling, André Wilms, Stéphanie Van Vyve, Simon Bisschop, Jessica Fanhan, Fatou Traoré,  Jean-Michel Balthazar, Gaspard Savini, Julien Vargas, Luca Avallone,  Miriam Fauci, Ambra Mattioli, Mathilde Rault

Itália/França/Bélgica, 2017, Drama, 95 minutos

Sinopse: Hannah (Charlotte Rampling) é uma mulher de terceira idade que divide-se entre as aulas de teatro, a natação e o trabalho como empregada doméstica. Quando o marido vai preso, ela não tem alternativa a não ser a solidão e tenta refazer laços perdidos com descendentes, mas há um segredo na família que dificulta seu relacionamento com terceiros. (Adoro Cinema)

Hannah é um filme que exige imensa preparação por parte do espectador. E isso é o que reconhece o próprio diretor Andrea Pallaoro, que, quando exibiu o longa pela primeira vez no Festival de Veneza deste ano, não escondeu seu nervosismo quanto à recepção do público. Pallaoro sabia que havia realizado um projeto difícil e desafiadora em muitos aspectos, mas que contava com um elemento decisivo na relação da obra com a plateia: o desempenho de Charlotte Rampling, para quem o cineasta italiano escreveu especialmente o papel principal. Nas tantas entrevistas que deu sobre Hannah, ele diz que Rampling é um fator crucial no processo de preencher as várias lacunas propositais deixada pelo roteiro e que, sem ela o filme talvez nem tivesse saído do papel. E, de fato, é nessa relação indissociável com a atriz que a trama se engrandece e se empodera, ainda que o desempenho da atriz contribua para que Hannah se consolide como uma experiência pesada e exaustiva.

O cerne dessa imensa densidade é de fácil diagnóstico: quase um reality show sobre ausência e solidão, Hannah apenas observa os dias de uma mulher que, após a prisão do marido, precisa readaptar toda sua vida, agora aos pedaços e sem a presença da família, que, por alguma razão, também a condena pelo desconhecido ato que levou o marido à prisão. Não há conflitos na forma clássica que o público costuma exigir: praticamente sem diálogos, o filme acompanha a personagem em afazeres banais, seja nas aulas de teatro e natação ou no simples preparo de um bolo. Também não há respostas para qualquer pergunta: desconhecemos o crime que o marido teria cometido (e é possível deduzir que o filho do casal parece ter algum tipo de culpa nessa situação), tampouco entendemos por completo a real dinâmica estabelecida pela protagonista com outros personagens coadjuvantes, como as crianças do andar de cima que causam uma infiltração no seu apartamento ou a rica patroa para quem Hannah (Rampling) presta serviços domésticos. Do início ao fim, o longa joga perguntas, mas não sente necessidade de respondê-las, como se construísse um thriller existencial, termo muito associado ao resultado final desde as primeiras exibições em festivais mundiais.

A dimensão, na realidade, está na perspectiva: à margem, Hannah (Rampling) é sufocada por uma existência que, para ela, está decididamente morta. Sua inadequação social no grupo de teatro é uma clara prova disso, pois, nas aulas, ela finalmente fala, pula, caminha, conversa, mas incorpora tudo aquilo como uma terapia interna, e não necessariamente como uma ferramenta de socialização. A maneira com que o diretor mostra Hannah observando, com extrema distância, o pulo de um grupo de crianças na piscina ou a discussão de um casal no metrô também reforça a posição isolada que tomou conta do seu emocional e do seu comportamento. Fora isso, só o fato de Hannah ser uma mulher na terceira idade, carregando a amargura trazida pela ausência da família, especialmente a do neto de quem sente tanta falta, e as expressões de alguém que passou por muita coisa na vida já conferem ao longa uma melancolia traduzida ainda na falta de cores de uma fotografia pensada para ser tão morta quanto a personagem principal.

Tais leituras são impulsionadas pelo desempenho monumental de Charlotte Rampling, que chegou a ser premiado em Veneza — e vejam que raridade: com essa honraria, Rampling fica a um passo de conquistar a tríplice coroa dos principais festivais de cinema do mundo (ganhou Berlim por 45 Anos e agora resta “apenas” Cannes para ela chegar lá), um cenário no mínimo sem precedentes para uma atriz acima dos 70 anos. A veterana britânica normalmente já exala mistério com sua forte persona, mas aqui ela é fundamental, pois vem de seu trabalho uma gigantesca parte do que interpretamos em Hannah. Afinal, uma vez quase sem texto e sem conflitos factuais, cabe ao olhar sempre marcante de Rampling a missão de capturar a profundidade emocional de uma mulher que sente não pertencer mais a lugar algum. Nem imagino o desgaste de tamanha entrega a esse exercício de cinema lento, observador e repleto de lacunas. Como espectador, a recompensa é poderosa tanto pelo desempenho da atriz quanto por ela nos ajudar a atravessar uma obra de digestão complicada, desgastante e que, sem dúvida, perderá espectadores pelo caminho. 

Rapidamente: “Eu, Tonya”, “A Melhor Escolha”, “Uma Mulher Fantástica” e “Vingadores: Guerra Infinita”

Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica é um relato digno e delicado sobre o luto a partir da perspectiva de uma personagem trans.

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, de Craig Gillespie): É interessante ver um filme como Eu, Tonya durante a era das fake news: dispensando a imparcialidade e caminhando na linha tênue entre o que é a nossa opinião e o que é de fato verdade, o longa assinado por Craig Gillespie, do ótimo A Garota Ideal, assume o seu relato de defesa na história de Tonya Harding (Margot Robbie), ex-patinadora que, nos anos 1990, foi acusada de estar envolvida no planejamento de um ataque que seu então marido colocou em prática contra Nancy Kerrigan, também patinadora e concorrente de Tonya nas competições da modalidade. Com estilo ácido, ágil e desbocado, o filme cria uma mistura entre drama, comédia e documentário que questiona a veracidade (ou a intensidade) de fatos e perspectivas. O recado é claro: em circunstâncias extremas e suspeitas, tudo se resume ao que cada um vê. Margot Robbie é maravilhosa em todas as fases e facetas de Tonya Harding, naquele tipo de desempenho que define uma carreira em ascensão. Já Allison Janney, vencedora absoluta dos prêmios de atriz coadjuvante em 2018, é sempre uma ótima atriz, mas aqui está presa a uma caricatura unilateral e que se justifica de maneira simplista. Sua personagem, aliás, sintetiza aquele que é o maior problema de Eu, Tonya: o de ultrapassar a linha do politicamente incorreto para convidar o público a rir de temas que são problemas reais da nossa realidade, como o machismo, a violência doméstica e todo tipo de abuso emocional. É o único desajuste questionável (e, por que não, irresponsável) de um filme predominantemente repleto de frescor em clima, ideias e ritmo.

A MELHOR ESCOLHA (Last Flag Flying, 2017, de Richard Linklater): Fiel ao seu estilo de olhar para momentos e situações que, isoladamente, parecem corriqueiros, mas que, quando vistos em perspectiva, explicam muita coisa sobre quem nos tornamos, o diretor Richard Linklater realiza A Melhor Escolha com as qualidades e delicadezas que lhe são habituais, mas dessa vez em menor escala, mesmo com um elenco de primeiríssima qualidade (Bryan Cranston, Steve Carell, Laurence Fishburne). E, quando digo menor escala, faço referência ao próprio roteiro, que fala sobre a camaradagem masculina, os anos que nos separam e as situações que nos reúnem com inspiração moderadíssima, muitas vezes até optando por situações e arcos dramáticos previsíveis. Pela linearidade de estrutura e ideias (é fácil deduzir qual será a transformação de cada um dos personagens), A Melhor Escolha se alonga mais do que tem a dizer, o que entrega aos três atores principais a tarefa de ser a base do carisma e do principal interesse da obra. Cranston e Fishburne, como os bons atores que são, tornam a viagem prazerosa, mas cito mais uma vez em específico o sempre subestimado Steve Carell: interiorizando a dor de um homem que perdeu o filho sem recorrer aos artifícios fáceis de interpretação para esse tipo de papel, o ator é minimalista como poucos no cinema norte-americano da atualidade, adicionando outro belo momento a uma carreira já marcada por excelentes trabalhos em filmes como Pequena Miss SunshineEu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Amor a Toda ProvaFoxcatcher A Guerra dos Sexos.

UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica, 2017, de Sebastián Lelio): Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica dá novo significado ao luto quando transfere o tema para a perspectiva de uma mulher transexual. Força e originalidade são extraídas do relato somente com essa mudança de cenário: afinal, é devastadora a situação em que se encontra Marina (Daniela Vega, ótima), proibida de viver quase todos os rituais do luto (o velório de seu parceiro, o abraço reconfortante da família) simplesmente por ser transexual. Mas o bacana de Uma Mulher Fantástica é não abordar a questão da sexualidade como panfletagem, preferindo negar sentimentos fáceis (ao contrário dos estereótipos, a protagonista é uma mulher independente, trabalhadora e talentosa) ou interferências sensoriais e estéticas — e, ainda assim, quando as evoca, o resultado é emblemático, como na sequência em que protagonista encara uma intensa ventania, uma clara metáfora da contracorrente diária que ela enfrenta na vida, ou como na cena em que ela, nua, coloca um espelho no meio das pernas, refletindo aquilo que a define: o rosto e não qualquer órgão genital que ela tenha ou deixe de ter. Uma Mulher Fantástica é de uma delicadeza tremenda — característica que o cinema de língua latina domina com maestria nos melhores exemplares que se encaixam em relatos como esse —, e a vitória no Oscar de filme estrangeiro é dupla: pela celebração da representatividade e pela excelência cinematográfica.

VINGADORES: GUERRA INFINITA (Avengers: Infinity War, 2018, de Anthony e Joe Russo): Sucesso estratosférico de bilheteria e inclusive de comoção por parte da crítica, Vingadores: Guerra Infinita é o perfeito exemplo de como filmes de super heróis são uma verdadeira paixão. Para quem a tem, o que se vê é um filme inovador, marcante e corajoso. Já quando você não se empolga de forma equivalente, como é o meu caso, a situação é um mistério: no máximo bacana, Guerra Infinita não passa de outra diversão de momento. Com o grande mérito de demonstrar plena segurança em um ponto que poderia ser sua ruína — o timing e relevância de incontáveis personagens e universos —, o longa tem a seu favor um vilão de forte presença e que finalmente desperta algum sentimento de ameaça. Entretanto, além da duração tão demasiada quanto inevitável, Guerra Infinita frustra mesmo é quando, ironicamente, tenta colocar em prática as consequências da ameaça tão anunciada pelo vilão: o projeto tanto não tem culhões para traçar um destino drástico para determinado personagem quando sugere a chance quanto encerra essa primeira parte (outra virá em 2019) propondo certo pesar por uma situação que sabemos ser perfeitamente reversível, uma vez que incontáveis franquias já estão encomendadas para os próximos anos. Não precisávamos de um plot twist raso e até mesmo oportunista como esse.