Cinema e Argumento

“A Esposa”: desempenho de Glenn Close carrega todas as qualidades que faltam ao filme como um todo

I am a kingmaker.

Direção: Björn Runge

Roteiro: Jane Anderson, baseado no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer

Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater, Max Irons, Christian Slater, Harry Lloyd, Annie Starke, Elizabeth McGovern, Johan Widerberg, Karin Franz Körlof, Richard Cordery, Jan Mybrand

The Wife, EUA/Reino Unido/Suécia, 2017, Drama, 100 minutos

Sinopse: Joan Castleman (Glenn Close) é casada com um homem controlador e que não sabe como cuidar de si mesmo ou de outra pessoa. Ele é um escritor e está prestes a receber um Prêmio Nobel de literatura. Joan, que passou 40 anos ignorando seus talentos literários para valorizar a carreira do marido, decide abandoná-lo. (Adoro Cinema)

A Glenn Close que provavelmente mora na sua memória é aquela que interpreta papeis de traços fortes e marcantes. Como não lembrar, afinal, de Alex Forrest em Atração Fatal? Ou então da memorável Marquesa Isabelle de Merteuil em Ligações Perigosas? Na infância de muitas gerações, ela também ficou marcada como Cruella DeVil, a inescrupulosa vilã da adaptação live-action de 101 Dálmatas. Por fim, até mesmo em uma de suas passagens mais célebres pela televisão, Glenn interpretou uma personagem implacável: a emblemática Patty Hewes, advogada que temíamos, admirávamos e questionávamos nas mesmas proporções. Pois, agora, em pleno 2019, o melhor que você pode fazer é esquecer toda essa intensa imagem da atriz para admirá-la de uma maneira bem diferente em A Esposa, onde a vemos introspectiva, discreta e delicada, algo não tão habitual em sua carreira (e que, segundo a própria atriz, é consequência dos tipos de papeis que lhe foram oferecidos ao longo dos anos). De forma isolada, a veterana intérprete já teria nosso voto de confiança ao dar vida a uma mulher que, eternamente à sombra do marido, de repente se vê obrigada a refletir sobre tudo aquilo que lhe fez viver uma vida inteira nos bastidores, mas, em comparação ao filme em si, sua presença é tão grande que nem o fato de A Esposa ser ruim abala tamanha classe. Pelo contrário: se há real complexidade, elegância e delicadeza no projeto do sueco Björn Ruge, é porque Glenn Close toma a missão para si.

Mais interessante na teoria do que na prática, A Esposa trilha o caminho fácil de vilanizar um personagem para que tenhamos compaixão por outro. É bem certo que, do ponto de vista histórico e cultural, a dita soberania masculina tem mesmo intoxicado vidas femininas e relações amorosas, mas o que falta ao roteiro escrito por Jane Anderson, com base no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer, é certa substância para acreditarmos que, de alguma forma, a protagonista é ou um dia foi apaixonada pelo marido que pouco carinho lhe dá e que, ao longo dia, trata-a como uma assistente que cuida de seus remédios e horários. Por que, afinal, Joan (Glenn) sempre se submeteu às traições, à vaidade inflada e ao egoísmo desse homem? Quais foram as reais razões que levaram uma escritora de talento na juventude a abdicar da carreira e de sua própria identidade para servi-lo? Anderson, que surpreendentemente parece ter deixado de lado toda a sofisticação dramática que um dia apresentou como roteirista da premiada minissérie Olive Kitteridge, esquece de se debruçar sobre as complexidades da relação entre os dois para, ao invés disso, fazer de Joe (Jonathan Pryce) um mero personagem insuportável que torna a vida de sua esposa uma penitência.  

Ao contrário do que A Esposa sugere, é possível sim traçar as complexidades de um relacionamento tóxico sem pegar o atalho fácil de apenas construir figuras antagônicas e quase estereotipadas, como se uma leitura mais clínica de fatos e acontecimentos não fosse necessária. No recente Trama Fantasma, por exemplo, Daniel Day-Lewis vive um estilista misógino e cheio de si que se apaixona por uma mulher muito mais jovem. Inicialmente submissa e sem voz, a garota, ao mesmo tempo em que não consegue largar seu novo amor apesar de tantas agressões emocionais, acaba reivindicado seu espaço, nem que seja de maneira torta e macabra. Tal relação é riquíssima em complexidades no filme de Paul Thomas Anderson porque o roteiro entende a importância de cada mínima dinâmica, sugerindo, cena a cena, todas as razões que separam e aproximam esse casal. Em contraste, isso é apenas protocolar em A Esposa: ainda que utilizando flashbacks para explicar como se deu o início da relação entre Joan e Joe, o filme propriamente dito não convence, algo que frustra o embasamento dramático da obra e dá um trabalho muito ingrato para Jonathan Pryce, um ator que, na medida do possível, tenta dar dimensões a uma figura antipática.

Entrando um pouco mais no roteiro, é decepcionante perceber que versão final do texto tenha mantido tantos aspectos dispensáveis, como a relação de Joe com o filho, que, também escritor, busca desesperadamente a aprovação do pai. Além de Max Irons ser muito ruim no papel, sua participação é rasa, tendo como missão exclusiva conduzir o espectador a uma surpresa artificial e que, do ponto de vista dramático, dilui as discussões da obra ao tirar certos contextos e reflexões do plano da sugestão para a literal verbalização. Além disso, A Esposa tem dificuldade em lidar com tramas secundárias: se Christian Slater está limitadíssimo ao interpretar o estereótipo do jornalista sedento por um escândalo e que não tem outra função a não ser descortinar traumas relacionados ao passado da protagonista, Annie Stark (filha de Glenn Close na vida real) é inexpressiva ao protagonizar flashbacks que, em um roteiro mais esperto, nem existiriam, pois dão conta de acontecimentos que poderiam ser facilmente sintetizados em diálogos mais reveladores e contundentes.

Frente a tudo isso está Glenn Close, que é milimétrica na composição da sua personagem e que confere ao projeto tudo aquilo que lhe falta como um todo. Há momentos marcantes, como o misto de alegria e pesar ao receber a notícia de que seu companheiro será laureado com o prêmio Nobel ou a interiorização de um completo pavor quando testemunha o discurso do marido na cerimônia de homenagem (a título de comparação, não seria surpresa se Glenn revelasse que a cena final de 45 Anos serviu de inspiração para esse momento). Na discrição e na sutileza, a atriz desdobra os anseios e as dúvidas dessa mulher que tenta sempre manter as aparências — e a sequência em que ela precisa manter a pose e as expressões ao ser provocada em em diferentes níveis pelo jornalista de Christian Slater é outro exemplo dos belos contrastes que existem na interpretação da atriz, mas não no longa em si. Boatos dão conta de que A Esposa, exibido desde 2017 em festivais internacionais como o de Toronto, segurou sua data de estreia para poder concorrer ao Oscar e finalmente consagrar Glenn Close após seis indicações. Se conseguirá ou não é outra história, mas, independente disso e da decepção que é o longa, A Esposa marca o que vemos de melhor vindo da atriz em muitos, muitos anos.

“O Retorno de Mary Poppins”: Emily Blunt brilha ao resgatar o espírito e o encantamento do clássico estrelado por Julie Andrews

Everything is possible. Even the impossible!

Direção: Rob Marshall

Roteiro: David Magee, baseado em história de autoria própria com John DeLuca e Rob Marshall, e na série de livros “Mary Poppins”, de P.L. Travers

Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Meryl Streep, Pixie Davies, Nathanael Saleh, Joel Dawson, Jeremy Swift, Kobna Holdbrook-Smith, Dick Van Dyke, Angela Lansbury

Mary Poppins Returns, EUA, 2018, Musical, 130 minutos

Sinopse: Numa Londres abalada pela Grande Depressão, Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus novamente com seu fiel amigo Jack (Lin-Manuel Miranda) para ajudar Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos trabalhadores, que sofreram uma perda pessoal. As crianças Annabel (Pixie Davies), Georgie (Joel Dawson) e John (Nathanael Saleh) vivem com os pais na mesma casa de 24 anos atrás e precisam da babá enigmática e o acendedor de lampiões otimista para trazer alegria e magia de volta para suas vidas. (Adoro Cinema)

Sempre desperta desconfiança qualquer iniciativa de estúdios e diretores em mexer com clássicos. Ora, qual a razão de repaginar um projeto consagrado pelo tempo e eternizado pelo público? Tal receio não poderia ter sido diferente quando recebemos a notícia de que Mary Poppins, emblemático título da Disney estrelado por Julie Andrews na década de 1960, receberia agora, 54 anos depois, uma continuação, marcando o maior intervalo de tempo já registrado no Cinema entre um filme original e a sua sequência. Também não era muito animadora a escolha de Rob Marshall para o comando do projeto, uma vez que ele só vinha realizando títulos do mediano para baixo após a consagração com Chicago, inclusive nas vezes em que retornara ao gênero musical (ainda hoje é inacreditável que Nine tenha sido uma decepção e que Caminhos da Floresta seja uma tremenda baderna). No entanto, contornando todos os indícios, O Retorno de Mary Poppins surpreende por ser uma homenagem respeitosa e irresistivelmente nostálgica à história da babá-título que, ainda hoje, ostenta o maior número de Oscars já conquistados pela Disney por um mesmo longa (foram cinco ao total, incluindo o de melhor atriz para Julie Andrews).

O espectador, por outro lado, precisa saber no que está embarcando: assim como o primeiro longa, O Retorno de Mary Poppins é um longuíssimo musical endereçado às crianças e aos fãs do gênero. Não gosta do título original? Então a minha sugestão é que você passe longe da sequência. Entre a admiração e o desgosto, fico no meio do caminho. Primeiro porque não compartilho grande entusiasmo pelo filme de 1964 e segundo porque, mesmo sendo um fã incondicional de musicais e de histórias que flutuam em otimismo e nostalgia, considero tanto a versão clássica quanto a sequência que chega agora aos cinemas longas demais, inclusive por não haver uma história propriamente dita e sim todo tipo de brincadeira, música e maluquice (sim, muita maluquice!). Só que as barrigas se revelam mais evidentes em O Retorno de Mary Poppins porque, no geral, as músicas são pouco memoráveis (não espere aqui nada equivalente à emblemática Supercalifragilisticexpialidocious) e, em muitos casos, perfeitamente dispensáveis. Cortando três ou quatro canções, teríamos, sem prejuízo algum, uma obra menos cansativa e com um desenrolar não tão esvaziado.

Em contra partida, a talentosíssima Emily Blunt,  que recebeu a bênção de Julie Andrews para assumir o papel e que já esteve ótima este ano em Um Lugar Silencioso, compensa os excessos com uma performance encantadora. Ao mesmo tempo em que presta uma homenagem à personagem eternizada por Andrews, Blunt permite que Mary Poppins também tenha traços seus. Com graça e elegância, ela ainda canta muitíssimo bem e, generosa que só, abre alas para que seus colegas de elenco também brilhem, desde aqueles que aparecem em momentos pontuais, como a maluca prima Topsy vivida por Meryl Streep, até outros que, convenhamos, não precisavam de tanto protagonismo assim (mesmo que e seja um nome de referência na Broadway, Lin-Manuel Miranda surge sem muito carisma). A personificação de Blunt é tamanha que ela, acompanhada de um elenco de apoio super sofisticado (Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury), eleva o encantamento e a inocência de O Retorno de Mary Poppins a um patamar que, apesar das cores, da nostalgia, da pureza e de todo o aparato técnico, muito provavelmente não seria alcançado sem ela.

“Tinta Bruta”: com prestigiada carreira internacional, longa gaúcho explora a busca por cores e pertencimento entre o mundo real e virtual

Tu consegue ver o teu futuro?

Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Elenco: Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto, Sandra Dani, Frederico Vasques, Denis Gosh, Camila Falcão, Áurea Baptista, Zé Adão Barbosa, Larissa Sanguiné

Brasil, 2018, Drama, 118 minutos

Sinopse: O jovem Pedro (Shico Menegat) vive um momento complicado, ele responde a um processo criminal ao mesmo tempo em que precisa lidar com a mudança da irmã, sua única amiga. Como forma de catarse, ele assume o codinome GarotoNeon e passa a se apresentar anonimamente na internet dançando nu na escuridão do seu quarto, coberto apenas por uma tinta fluorescente. (Adoro Cinema)

Assim como tantas outras capitais do Brasil, a cidade de Porto Alegre, por questões majoritariamente políticas, vem definhando ano após ano. Como porto-alegrense, transito por ruas cada vez mais perigosas, pontos turísticos abandonados e espaços de convivência urbana desprezados pelo poder público, sempre tomado por um sentimento quase inexistente de acolhimento e hospitalidade. É nessa cidade desoladora que se desenvolve Tinta Bruta, novo projeto dos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon que chegou a vencer o prêmio Teddy no Festival de Berlim e quatro troféus no Festival do Rio (melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante). Porto Alegre, que pode (e deve) ser interpretada aqui como a representação de qualquer outra grande metrópole do Brasil, ainda se torna um tanto mais aterrorizante porque Tinta Bruta tem como protagonista um introvertido menino gay cuja existência por si só é negligenciada por olhares distantes nas janelas da cidade ou agredida, de uma forma ou de outra, por colegas e desconhecidos. Tudo isso traz uma incômoda dicotomia no que se vê durante longa: ao mesmo tempo em que ele é esperançoso ao convocar o espectador para a resistência e para a reação contra o conservadorismo, não deixa de ser profundamente triste que também seja um retrato muito fiel da desassistência e da solidão que vêm assombrando as minorias em diferentes pontos do mundo.

Afeitos à geografia como fator preponderante para a construção emocional de seus personagens, Matzembacher e Reolon saem da intimidade proposta por um isolamento litorâneo em Beira-Mar para falar, dessa vez, sobre as condições de um protagonista LGBTQI+ na cidade grande e no convívio em sociedade. A dupla de diretores também migra da adolescência para a vida adulta com Pedro (Shico Menegat), que realiza performances eróticas na internet para ganhar alguns trocados enquanto lida com um processo criminal e, principalmente, com a transição de inúmeros afetos em sua vida. O isolamento e o desamparo vividos por esse garoto em uma cidade pouco convidativa são desoladores, evocando, de certa forma, o que o cineasta gaúcho José Pedro Goulart fez anos atrás em Ponto Zero, outro relato sobre um jovem solitário, de cabelos compridos e cheio de desejos que enfrenta uma Porto Alegre decisiva em sua condição e em seu comportamento. Se tenho profundas restrições ao drama Beira-Mar, o inverso acontece com Tinta Bruta, que é a melhor representação do tipo de cinema que Matzembacher e Reolon vêm realizando desde os seus tempos de curta-metragistas, quando produziram títulos como Quarto Vazio, que, segundo eles, serviu de inspiração para esse novo longa. Mais do que a profundidade e a complexidade com que esmiúça as camadas de um introvertido protagonista, Tinta Bruta se potencializa através de seu timing com os nossos tempos, e não há maior prova disso do que a forma com que os personagens são desnudados em cenas eróticas e sexuais sem qualquer pudor ou acanhamento, reforçando a tese de que não há qualquer liderança política, homofóbica e conservadora que impeça as pessoas de elas expressarem quem realmente são.

Curiosamente, ainda que embalado por uma trilha sonora vibrante e coberto em cores neon, o sexo de Tinta Bruta ultrapassa o plano meramente erótico para se tornar uma das engrenagens emocionais do filme: é apenas por meio dele que o jovem Pedro consegue se expressar e ter algum tipo de intimidade com outra pessoas, mesmo que de maneira virtual. Isolado em seu apartamento, ele pouco interage com o mundo, o que é agravado pelos afetos que saem pouco a pouco da sua vida. Da irmã que está de mudança para Bahia até os seguidores online que começam a desaparecer após a chegada de um outro garoto em cores neon no site erótico, Pedro se vê cada vez mais isolado, e é por isso mesmo que toda e qualquer demonstração de carinho ou atenção recebida por ele ganha contornos tão comoventes, como o simples abraço da avó que vem lhe fazer uma breve visita. A precisão desse contraste é fundamental porque certas relações que o jovem estabelece são decisivas para a consistência emocional de Tinta Bruta, em especial a de Pedro com Leo, o garoto que passa a copiar o seu trabalho virtualmente. Ao invés de apenas tornar Leo uma nova figura que entra na vida do protagonista para depois arrancar um pouquinho mais da esperança do seu coração com algum tipo de despedida, Matzembacher e Reolon traduzem essa nova relação como uma experiência de extremo aprendizado para Pedro, que se permite desabrochar para a vida ao lado de quem até então considerava uma mera concorrência. A convivência entre os dois é um dos pontos altos da história e ilumina uma gama de (in)definições envolvendo os relacionamentos contemporâneos.

Pedro e Leo se tornam tão críveis e envolventes porque Shico Menegat e Bruno Fernandes, seus respectivos intérpretes, são duas revelações em termos de interpretação. Estreante no ofício, Shico particularmente impressiona: dar vida um personagem de carga dramática tão intensa e interiorizada logo em um primeiro filme não é tarefa fácil, mas o ator surpreende na construção minuciosa do personagem, inclusive na tradução de vislumbres de felicidade, quando, por exemplo, Pedro observa, em um misto de curiosidade e fascínio, a dinâmica livre e espontânea de Leo com seus amigos, algo que até então parecia impossível nas ruas e no íntimo de uma cidade que nunca lhe proporcionou algo semelhante. Dito isso, Tinta Bruta mistura sexualidade (e consequentemente a quebra do tabu da nudez e do corpo masculino) com os dilemas de uma juventude que não sabe muito bem o que sentir ou para onde ir (todos os personagens dizem viver em uma espécia um purgatório e que não sentem que aquele é o lugar onde deveriam estar), propondo mais do que uma mensagem de resistência, mas sim de reação — e, na época nefasta que atravessamos, isso pode significar desde a coragem de não receber qualquer tipo de violência com passividade até simplesmente dançar como se ninguém estivesse olhando em uma noite qualquer.

“As Viúvas”: certeiro ao renegar definições e ao criar atmosfera própria, filme de Steve McQueen fraciona potência dramática em excessos

No one thinks we have the balls to pull this off.

Direção: Steve McQueen

Roteiro: Gillian Flynn e Steve McQueen, baseado no romance homônimo de Lynda La Plante

Elenco: Viola Davis, Elizabeth Debicki, Michelle Rodriguez, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, Robert Duvall, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Carrie Coon, Jackie Weaver, Jon Bernthal, Brian Tyree Henry, Manuel Garcia-Rulfo

Widows, EUA/Reino Unido, 2018, Drama/Policial, 129 minutos

Sinopse: Um assalto frustrado faz com que Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue sejam mortos pela polícia e o dinheiro que roubaram seja destruído pelas chamas. Isto faz com que a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), seja cobrada para que a quantia roubada seja devolvida. Pressionada, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado. (Adoro Cinema)

As Viúvas não é exatamente o que você espera, e talvez tenha sido essa a intenção do cineasta Steve McQueen. Em seu primeiro trabalho após a consagração de 12 Anos de Escravidão no Oscar, ele promove uma assumida mistura de gêneros e estilos: não somente As Viúvas está muito longe de ser um mero relato sobre mulheres que orquestram um grande assalto como também renega qualquer traço do dramalhão que poderia nascer de uma história sobre esposas que perdem os maridos mafiosos em um confronto fatídico com a polícia. Aliás, McQueen, que escreveu o roteiro ao lado de Gillian Flynn (Garota Exemplar), prefere encarar o luto com certa distância e frieza, uma vez que Veronica, a protagonista interpretada por Viola Davis, sequer tem tempo para sofrer: no mesmo dia do velório, ela já recebe a visita de um homem perigoso que exige receber os dois milhões de dólares perdidos no ataque da polícia aos falecidos mafiosos. A partir disso, As Viúvas mistura dramas pessoais, ironia, política, crítica social e adrenalina, compondo um relato cuja maior força é, justamente, não ter estilo algum, o que é no mínimo uma provocação para plateias que costumam se incomodar com qualquer dose de indefinição ou imprevisibilidade.

Subversivo no sentido de criar uma história onde mulheres estão na linha de frente de um serviço essencialmente masculino (e retratado pelo Cinema da mesma maneira), As Viúvas é um primor em termos de representatividade, começando pela protagonista, uma mulher negra que, mesmo sabendo, nunca se envolveu com os atos ilícitos de seu marido branco, construindo uma carreira própria e bem sucedida (isso é o que acusa cada look elegantíssimo que Viola Davis, nunca tão bem fotografada, ostenta entre uma cena e outra). Mais uma viúva da trama, a latina vivida por Michelle Rodriguez se preocupa, mas não entra em colapso ao ver ruir o negócio que administrava e até então dava como certo. Pelo contrário: por ser mãe em uma nova condição não tão favorável, ela vai à luta e é a primeira a seguir toda ordem disparada pela personagem de Viola Davis. Já a esguia Alice interpretada por Elizabeth Debicki carrega um perceptível histórico de abuso familiar e matrimonial, mas, aos poucos, começa a juntar forças que ela própria não imaginava ter para, de sua própria maneira, conseguir se desvencilhar dos vícios e malefícios trazidos por esses traumas. Por incrível que pareça, ainda em 2018, é importante festejar decisões como essas quando elas deveriam ser perfeitamente  corriqueiras na maioria esmagadora das produções que vemos ao longo dos anos.

Ao renegar escolhas convencionais quando retrata o processo de luto, As Viúvas ganha em sobriedade, inclusive criando uma atmosfera gélida que casa com a ameaça e a instabilidade da sociedade corrompida e calejada que procura retratar. Tanto essa contextualização dá certo que o longa parece no mínimo artificial, para não dizer novelesco, quando tenta criar alguma passagem mais calorosa, como aquela em que a personagem de Viola Davis coloca Wild is the Wind, da icônica Nina Simone, para tocar e imagina um abraço do falecido marido ao ver seu reflexo da janela da sala. É buscando a sobriedade que McQueen cria os melhores momentos de As Viúvas, quase como se quisesse criar um certo distanciamento de 12 Anos de Escravidão, longa onde não poupou sofrimento, sangue e violência ao falar sobre racismo e escravidão. Para quem desejava algo na linha do premiado filme estrelado por Chiwetel Ejiofor ou até mesmo algo mais comercial como o recente Oito Mulheres e Um Segredo por se tratar de uma história de roubo, o resultado pode ser deveras anti-climático, o que, ao meu ver, nada mais é do que uma grata surpresa.

Há, contudo, um certo estranhamento, dessa vez bem menos interessante, que é o de uma trama fracionada em uma grande quantidade de situações e personagens. Temos uma protagonista conduzindo a história, mas, em muitos casos, ela divide praticamente o mesmo tempo de tela entre com os outros personagens. Alguns deles são interessantíssimos, enquanto outros desapontam por estarem quase em um relato a parte, a exemplo do político interpretado sem muita energia ou criatividade por Colin Farell. Com isso, As Viúvas não constrói necessariamente uma unidade e acaba se embolando, como se prometesse um clímax engenhoso pra amarrar tantas jornadas paralelas. E mais: com o meio de campo tão lotado, há pouco aproveitamento de excelentes intérpretes, tanto masculinos quanto femininos, a exemplo da grande Carrie Coon, cujo potencial testemunhamos durante três anos do seriado The Leftovers. Nesse balanço irregular, os acertos são preciosos: Viola Davis traz sua intensidade de sempre para uma mulher que se vê obrigada a colocar a razão antes de qualquer emoção, Daniel Kaluuya surge com uma energia macabra como um criminoso que exala perigo e Elizabeth Debicki se destaca pela delicadeza com que tateia o reerguimento de uma mulher bastante fragilizada do ponto de vista emocional.

Como um exemplar mais sofisticado de tantos filmes de suspense que se eternizaram nas madrugadas da TV aberta, As Viúvas traz a sua boa dose de reviravoltas e revelações. Prepare-se para ver personagens virando a casaca, surpresas de última hora em situações decisivas, coadjuvantes se revelando mais fundamentais para o encaixe das pessoas do que se poderia supor e até mesmo o clássico disparo de revólver que, na verdade, não foi feito por quem o longa nos sugeriu. Quando se encaminha para o desfecho, As Viúvas traz plot twists e explicações de maneira equivalente ao seu número de personagens, o que fragiliza um tanto mais o roteiro, pois não há tempo hábil para encorpar certas reviravoltas que mereciam mais digestão e construção de atmosfera. Como exercício de direção, o longa se engrandece muito mais, e por isso mesmo o descompasso é sentido. Na dificuldade em ser conciso (até chegar a sua versão final, o primeiro corte teria registrado, segundo o próprio McQueen, um filme de três horas de duração), As Viúvas fragiliza uma potência madura e envolvente que, sejamos francos, é sempre muito difícil de ser encontrada por aí. 

“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: de escritora à roteirista, J.K. Rowling limita potência criativa do mundo bruxo com excessivo controle artístico

Their arrogance is a key to our victory.

Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Elenco: Eddie Redmayne, Johnny Depp, Jude Law, Ezra Miller, Katherine Waterston, Zoë Kravitz, Dan Fogler, Callum Turner, Alison Sudol, Claudia Kim, Kevin Guthrie, Brontis Jodorowsky

Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, EUA, 2018, Aventura, 134 minutos

Sinopse: Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos. (Adoro Cinema)

Criatividade é uma das qualidades que a escritora J.K. Rowling tem de sobra, e é impossível dizer o contrário quando qualquer espectador entra em contato, especialmente pela primeira vez, com a saga Harry Potter, um dos maiores ícones cinematográficos dos anos 2000. Por isso mesmo, é natural que a autora queira cuidar da sua galinha de ovos de ouro (a Forbes já chegou a estimar que a fortuna de Rowling tenha ultrapassado um bilhão de dólares, tornando-a mais rica do que a Rainha Elizabeth II, sua conterrânea britânica). Contudo, há uma linha muito tênue entre o zelo saudável com esse material de prestígio estratosférico e o prejudicial controle criativo por um projeto que precisa de outros olhares e interpretações para ganhar novas qualidades. Pois com Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, Rowling está no limite de romper essa linha: se no primeiro filme dessa nova saga estrelada por Eddie Redmayne as suas limitações ao assumir o posto de roteirista absoluta da franquia já eram perceptíveis, a situação se complica por definitivo neste segundo capítulo, onde o excessivo controle criativo da autora coloca em risco todo o potencial criativo de uma história que parece se prolongar de maneira tão desnecessária e desestimulante quanto os três intermináveis capítulos de O Hobbit dirigidos por Peter Jackson.

Encarando a saga Animais Fantásticos mais como um parque de diversões destinado aos fãs incondicionais do que como um produto cinematográfico a ser entregue para o mundo, J.K. Rowling escreve a trama de Os Crimes de Grindelwald sem uma peneira cinematográfica. Isso é um grande problema porque parte do sucesso da saga Harry Potter (e de grande parte das grandes adaptações feitas para o Cinema) se deu pelo olhar compartilhado com roteiristas e diretores. Não que exista algum problema em escritores tornando-se roteiristas (autora de Garota Exemplar, Gillian Flynn foi talentosíssima ao fazer a transposição cinematográfica de seu próprio livro, por exemplo), mas, se o dinheiro não falar mais alto e Rowling tiver bons amigos, alguém certamente precisa avisá-la de que Animais Fantásticos tem tudo para se tornar uma dessas desestimulantes franquias que servem apenas para agradar aos fãs. Além de ser claramente conduzido com estrutura e ritmo de uma obra literária, Os Crimes de Gindelwald pouco avança com uma trama que cai no vício de plantar todo tipo de curiosidade do mundo de Harry Potter para que os fãs se divirtam isso. Em incontáveis sequências, Rowling resgata cenários, feitiços e personagens de Harry Potter para pegar os espectadores pelo afeto, o que, na prática, não acrescenta muito pouco ao que o filme tem a dizer.

Com o mérito de não ter pressa alguma ao desenvolver conflitos, Os Crimes de Grindelwald ao mesmo tempo se embola ao contar diversas histórias paralelas para, ao fim, não contar muita coisa. Com isso, Newt Scamander, o suposto protagonista da franquia, termina por se tornar tão coadjuvante quanto os outros personagens, desperdiçando assim toda a doçura que Eddie Redmayne imprime a um adorável e atípico herói e a despedaçada jornada pessoal de Credence (Ezra Miller). Menos sofisticado dramaticamente do que poderia se esperar, o roteiro ainda opta por caminhos simplistas, como na sequência em que faz determinados personagens se voltarem para o lado do mal porque, sem isso, eles não teriam mais razão para existir nos próximos capítulos da saga. Até mesmo para um livro Os Crimes de Grindelwald seria uma obra menor e pouco interessante.

Frente a tudo isso, a maior surpresa de Os Crimes de Grindelwald é a aparente volta por cima de Johnny Depp, que, pelo menos na última década, interpretava todo e qualquer personagens com indiscutível descaso ou desinteresse. Aqui, ele parece ter acordado para a questionável oportunidade de ouro que lhe foi entregue: enigmático, reticente e intimidante como Grindelwald, o ator tem presença suficiente para criar um personagem que, tratando-se da composição de um intérprete, facilmente se distancia do vilão outrora vivido por Ralph Fiennes no mundo bruxo. Enquanto isso, Jude Law, que vem do melhor desempenho de sua carreira na minissérie The Young Pope, também é uma boa adesão ao elenco, mesmo que seja um tanto difícil acreditar que seu Alvo Dumbledore possa ter tido qualquer tipo de ligação próxima (inclusive afetiva!) com o agora temido antagonista. Em nome da interessante composição dessa dupla, é justo esperar que Animais Fantásticos consiga se oxigenar daqui para frente, ainda que isso não pareça tão provável, uma vez que não só J.K. Rowling segue no comando do roteiro. Como um grande fã de Harry Potter fico sempre na torcida, mas, antes de tudo, como um cinéfilo incondicional, já não me sinto estimulado esperar maiores comoções com Animais Fantásticos depois de Os Crimes de Grindelwald.