“Hannah”: com desempenho monumental, Charlotte Rampling empodera espécie de reality show sobre ausência e solidão

Direção: Andrea Pallaoro

Roteiro: Andrea Pallaoro e Orlando Tirado

Elenco:  Charlotte Rampling, André Wilms, Stéphanie Van Vyve, Simon Bisschop, Jessica Fanhan, Fatou Traoré,  Jean-Michel Balthazar, Gaspard Savini, Julien Vargas, Luca Avallone,  Miriam Fauci, Ambra Mattioli, Mathilde Rault

Itália/França/Bélgica, 2017, Drama, 95 minutos

Sinopse: Hannah (Charlotte Rampling) é uma mulher de terceira idade que divide-se entre as aulas de teatro, a natação e o trabalho como empregada doméstica. Quando o marido vai preso, ela não tem alternativa a não ser a solidão e tenta refazer laços perdidos com descendentes, mas há um segredo na família que dificulta seu relacionamento com terceiros. (Adoro Cinema)

Hannah é um filme que exige imensa preparação por parte do espectador. E isso é o que reconhece o próprio diretor Andrea Pallaoro, que, quando exibiu o longa pela primeira vez no Festival de Veneza deste ano, não escondeu seu nervosismo quanto à recepção do público. Pallaoro sabia que havia realizado um projeto difícil e desafiadora em muitos aspectos, mas que contava com um elemento decisivo na relação da obra com a plateia: o desempenho de Charlotte Rampling, para quem o cineasta italiano escreveu especialmente o papel principal. Nas tantas entrevistas que deu sobre Hannah, ele diz que Rampling é um fator crucial no processo de preencher as várias lacunas propositais deixada pelo roteiro e que, sem ela o filme talvez nem tivesse saído do papel. E, de fato, é nessa relação indissociável com a atriz que a trama se engrandece e se empodera, ainda que seu desempenho contribua para que Hannah se consolide como uma experiência pesada e exaustiva, mas também como um registro bastante assombroso.

O cerne dessa imensa densidade é de fácil diagnóstico: quase um reality show sobre ausência e solidão, Hannah apenas observa os dias de uma mulher que, após a prisão do marido, precisa readaptar toda sua vida, agora aos pedaços e sem a presença da família, que, por alguma razão, também a condena pelo desconhecido ato que levou o marido à prisão. Não há conflitos na forma clássica que o público costuma exigir: praticamente sem diálogos, o filme acompanha a personagem em afazeres banais, seja nas aulas de teatro e natação ou no simples preparo de um bolo. Também não há respostas para qualquer pergunta: desconhecemos o crime que o marido teria cometido (e é possível deduzir que o filho do casal parece ter algum tipo de culpa nessa situação), tampouco entendemos por completo a real dinâmica estabelecida pela protagonista com outros personagens coadjuvantes, como as crianças do andar de cima que causam uma infiltração no seu apartamento ou a rica patroa para quem Hannah (Rampling) presta serviços domésticos. Do início ao fim, o longa joga perguntas, mas não sente necessidade de respondê-las, como se construísse um thriller existencial, termo muito associado ao resultado final desde as primeiras exibições em festivais mundiais.

A dimensão, na realidade, está na perspectiva: à margem, Hannah (Rampling) é sufocada por uma existência que, para ela, está decididamente morta. Sua inadequação social no grupo de teatro é uma clara prova disso, pois, nas aulas, ela finalmente fala, pula, caminha, conversa, mas incorporta tudo aquilo como uma terapia interna, e não necessariamente como uma ferramenta de socialização. A maneira com que o diretor mostra Hannah observando, com extrema distância, o pulo de um grupo de crianças na piscina ou a discussão de um casal no metrô também reforça a posição isolada que tomou conta do seu emocional e do seu comportamento. Fora isso, só o fato de Hannah ser uma mulher na terceira idade, carregando a amargura trazida pela ausência da família, especialmente a do neto de quem sente tanta falta, e as expressões de alguém que já passou por muito na vida já conferem ao longa uma melancolia traduzida ainda na falta de cores de uma fotografia pensada para ser tão morta quanto a personagem principal.

Tais leituras são impulsionadas pelo desempenho monumental de Charlotte Rampling, que chegou a ser premiado em Veneza — e vejam que raridade: com essa honraria, Rampling fica a um passo de conquistar a tríplice coroa dos principais festivais de cinema do mundo (ganhou Berlim por 45 Anos e agora resta “apenas” Cannes para ela chegar lá), um cenário no mínimo sem precedentes para uma atriz acima dos 70 anos. A veterana britânica normalmente já exala mistério com sua forte persona, mas aqui ela é fundamental, pois vem dela uma gigantesca parte do que interpretamos em Hannah. Afinal, uma vez quase sem texto e sem conflitos factuais, cabe ao olhar sempre marcante de Rampling a missão de capturar a profundidade emocional de uma mulher que sente não pertencer mais a lugar algum. Nem imagino o desgaste de tamanha entrega a esse exercício de cinema lento, observador e repleto de lacunas, mas, como espectador, a recompensa é poderosa tanto pelo desempenho da atriz quanto por ela nos ajudar a atravessar uma obra de digestão complicada, desgastante e que, sem dúvida, perderá espectadores pelo caminho. 

Um comentário em ““Hannah”: com desempenho monumental, Charlotte Rampling empodera espécie de reality show sobre ausência e solidão

  1. Matheus, gostei muito da sua resenha crítica e “Hannah” me parece ser uma experiência cinematográfica bem interessante. Espero ter a oportunidade de conferir.

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