“Obsessão”: suspense insípido e antiquado desperdiça até mesmo a presença de Isabelle Huppert
I’m like chewing gum.

Direção: Neil Jordan
Roteiro: Neil Jordan e Ray Wright, baseado em história de Ray Wright
Elenco: Chloë Grace Moretz, Isabelle Huppert, Maika Monroe, Colm Feore, Stephen Rea, Zawe Ashton, Thaddeus Daniels, Jane Perry, Jeff Hiller, Parker Sawyers, Raven Dauda, Jessica Preddy
Sinopse: Frances (Chloë Grace Moretz) é uma jovem cuja mãe acabou de falecer. Acabando de se mudar para Manhattan e cheia de problemas com o pai, ela forma uma amizade improvável com Greta (Isabelle Huppert), uma viúva bem mais velha que ela. Porém, conforme as duas se tornam melhores amigas, as atenções da viúva se mostram muito mais sinistras do que ela imaginava. (Adoro Cinema)

Ícone do cinema francês, Isabelle Huppert é uma workaholic nata. Aos 66 anos, a protagonista de Elle e A Professora de Piano, citando os títulos que lhe renderam maior repercussão mundo afora, registra segundo o IMDb, mais de 130 títulos na carreira entre filmes, séries e minisséries até a data desse texto. É um feito e tanto, algo que Huppert aproveitou como ninguém: trabalhando com inúmeros mestres do cinema europeu e mundial, ela conjugou talento e oportunidade como poucas intérpretes, mesmo que, de vez em quando, o resultado de muitos dos filmes com sua presença como protagonista estejam longe de qualquer ideal de excelência. Raramente qualidade acompanha quantidade, principalmente com quem nunca desacelera, mas, em certos casos, é difícil crer como uma atriz do calibre de Huppert pode se envolver com pequenas bombas como esse Obsessão, um suspense que, antiquado e repetitivo, sequer alcança o status de guilty pleasure.
Na teoria, vale um desconto e um voto de confiança: Obsessão é dirigido por Neil Jordan, que realizou Traídos Pelo Desejo, Entrevista Com o Vampiro, Fim de Caso e Café da Manhã em Plutão. Na prática, entretanto, é difícil nutrir qualquer interesse por um roteiro escrito no piloto-automático a partir de um amontoado de clichês envolvendo a clássica história da mocinha ingênua e machucada pela vida que passa a se relacionar com uma secreta maluca. Não há clima em Obsessão, que, além da previsibilidade e da superficialidade com que constrói conflitos, tenta criar envolvimento com personagens que frequentemente tomam decisões inexplicáveis, como entrar em um beco escuro e vazio durante uma perseguição ou resolver situações com suas próprias mãos quando isso claramente era caso de polícia (e o filme se utiliza de desculpas pouco convincentes para descartar a ajuda de autoridades). Toda essa combinação é muito antiquada e, quando não há um quê de homenagem ou esperteza, chegamos a resultados aborrecidos como esse.
No papel da viúva carente e descontrolada que faz da vida da protagonista um verdadeiro inferno, Isabelle Huppert, claro, é o que existe de melhor em Obsessão. Toda sua seriedade como intérprete é mais uma vez perceptível aqui porque sua personagem é extremamente mal trabalhada. Ou seja, se o roteiro não traz o mínimo de curiosidade, sutileza ou complexidade para uma mulher que é obsessiva e perigosa simplesmente por ser (os traços do passado que tentam esclarecer seu comportamento são rasteiros), Huppert se empenha ao máximo para ao menos conferir um tom macabro à figura que interpreta. Em um mundo ideal, ela travaria um delicioso duelo físico e psicológico com uma atriz interessante, mas Chloë Grace Moretz, que, um dia despontou como uma boa promessa (Kick-Ass!), é insossa como em tantas outras oportunidades em seu currículo até agora. Sendo assim, o que temos é uma mocinha cansativa e uma vilã bem incorporada por uma grande veterana, mas mal aproveitada por um roteiro vazio.
Como diretor, Neil Jordan dá pouquíssima tração a um texto oco e que depende demais de uma boa condução para se tornar minimamente envolvente. Sem uma mão mais firme ou criativa, Obsessão se mostra frágil por todos os lados, com coadjuvantes unidimensionais e caminhos já esperados para uma obra dessa natureza, incluindo o clímax regado a perucas, sedativos, seringas e revólveres. Se não fosse para ser um suspense de primeira linha, Obsessão poderia ter sido ao menos um passatempo divertido ou uma refinada brincadeira com elementos que, nos anos 1980 e 1990, chegaram a proporcionaram momentos inesquecíveis para grandes atrizes (como esquecer a marcante Alex Forrest de Glenn Close em Atração Fatal ou a Annie Wilkes de Kathy Bates em Louca Obsessão, por exemplo?). Não sendo nem uma coisa nem outra, o filme de Neil Jordan, cai no limbo e potencializa o maior dos seus pecados: o de desperdiçar uma atriz como Isabelle Huppert, que assume qualquer trabalho com o mesmo nível de envolvimento e dedicação. Isso não é coisa que se faça, Neil Jordan!
“Rocketman”: em seu melhor, cinebiografia faz jus ao legado de Elton John com imaginação e autenticidade
It’s going to be a wild ride.

Direção: Dexter Fletcher
Roteiro: Lee Hall
Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Tom Bennett, Matthew Illesley, Kit Connor, Charlie Rowe, Peter O’Hanlon, Ross Farrelly
Reino Unido/EUA, 2019, Musical, 121 minutos
Sinopse: A trajetória de como o tímido Reginald Dwight (Taron Egerton) se transformou em Elton John, ícone da música pop. Desde a infância complicada, fruto do descaso do pai pela família, sua história de vida é contada através da releitura das músicas do superstar, incluindo a relação do cantor com o compositor e parceiro profissional Bernie Taupin (Jamie Bell) e o empresário e o ex-amante John Reid (Richard Madden). (Adoro Cinema)

Como um disco arranhado, tenho a sensação de escrever sempre a mesma coisa quando assisto a alguma cinebiografia baseada na trajetória de cantores ou grupos musicais. Em grande parte, isso se dá pelo fato de projetos como Elis, Bohemian Rhapsody, Ray, Johnny & June e Tim Maia serem os mesmos em sua composição. Se você viu uma, já viu todas. Ao mesmo tempo, não deixa de ser um gosto adquirido: cada vez mais, cinebiografias musicais conquistam as plateias, e Bohemian Rhapsody, inspirado na trajetória do Queen e mais especificamente na vida de Freddie Mercury, tornou-se o maior marco recente nesse sentido, arrecadando mais de 900 milhões de dólares ao redor do mundo e vencendo nada menos do que quatro Oscars (ator para Rami Malek, montagem, edição de som e mixagem de som). Assim como as leituras live action da Disney para vários de seus clássicos, as cinebiografias musicais são um caminho sem volta no cinema popular.
Passada a euforia inicial dessa tendência, vem a questão: afinal, quantas serão de fato lembradas? Raramente, há títulos que quebram barreiras no circuito independente, como Não Estou Lá, por exemplo, que, dirigido por Todd Haynes, homenageou Bob Dylan de maneira bastante inusitada, mas, considerando obras com expressivo apelo popular produzidas por grandes estúdios, poucas são imaginativas e nenhuma deve se comparar a Rocketman, que, em cartaz nos cinemas brasileiros, opta por narrar a vida de Elton John com a lógica clássica de um musical e não simplesmente com uma colagem displicente dos melhores hits do cantor. Isso quer dizer que, quebrando a tradição de outros títulos do gênero, o filme assinado por Dexter Fletcher incorpora o repertório de Elton à história, onde o próprio elenco canta as músicas em diferentes sequências ou até em diálogos corriqueiros. Mesmo quando está no palco, o protagonista não interpreta clássicos como Crocodile Rock ou a própria Rocketman com banalidade: na primeira, Elton literalmente flutua com o público, enquanto, na segunda, ele sai direto de uma ambulância para entrar no palco e, logo em seguida, ser lançado ao espaço como um foguete.
Tanta imaginação e assertividade no poder da clássica narrativa de filmes musicais confere a Rocketman um tom criativo que o difere de outras cinebiografias, abrindo portas para que demais títulos do gênero se sintam validados a seguir caminhos diferentes do que aí estão. Fletcher, que finalizou Bohemian Rhapsody após Bryan Singer ter sido demitido da direção quase ao final das gravações, é claramente um realizador afeito a musicais, trazendo grandes contribuições para um projeto que em momento algum se envergonha de sua natureza e muito menos de seu extravagante personagem, aqui representado com total liberdade e naturalidade. Essa, inclusive, foi uma exigência do próprio Elton John: que sua vida não fosse maquiada ou amortecida e que suas fraquezas estivessem tão presentes no filme quanto as suas qualidades. A carta branca dada pelo cantor também na parte musical — ele fez questão que Taron Egerton cantasse as músicas para conferir autenticidade à encenação — engrandece o conceito de Rocketman, que, além de não ser um mero lipsync, conta toda uma vida sem amarras e com suas próprias ideias.
Com números musicais originais e encantadores, o filme esbanja dignidade por incorporar uma fantasia que sempre esteve presente tanto nos figurinos hiperbólicos da carreira de Elton John quanto na sua própria imaginação, algo que fez o cantor sobreviver a uma vida familiar de desamparo e a um vivência afetiva quase inexistente até meados da vida adulta. É tão bonito ver uma cinebiografia reverenciar seu biografado rompendo as formalidades que, por isso mesmo, é frustrante constatar a fragilidade do filme quando a história está com os pés firmados no chão. Ao tentar dimensionar seus personagens sem o uso da música ou da imaginação, Rocketman se limita, inclusive porque a trajetória de ascensão-queda-reerguimento do cantor é menos complexa do que o projeto supõe ou tenta engrandecer. Elton John chegou ao topo sem muitas dificuldades profissionais, e o ponto baixo de sua carreira foi uma longa temporada de problemas com álcool e drogas. Há drama nisso? Com certeza, mas o roteiro insiste em pesar a mão nessa crise existencial, tomando tempo demais da projeção e fazendo com que o espectador deseje logo a chegada do próximo número musical.
Quando opta por caminhos desprovidos de música e sonhos, o roteiro de Rocketman segue a cartilha das cinebiografias que vemos de tempos em tempos: manchetes de jornais jogadas na tela para contextualizar a repercussão pública do protagonista, momentos registrados de maneira tão displicente que parecem fazer parte de uma checklist de fatos sobre a vida do biografado (o casamento de Elton com Renate Blauel dura, no máximo, duas cenas) e há, claro, todo um ciclo de descida ao inferno e reconciliação com diálogos e mensagens expositivas. Entre a imaginação e a convencionalidade, o longa de Dexter Fletcher oscila bastante, o que é sentindo também em função de escalações equivocadíssimas, como a de Bryce Dallas Howard (caricata como de costume, ela vive a mãe do protagonista e perde a chance de trazer qualquer sutileza a uma personagem nada empática), e de tratamentos unidimensionais a figuras importantes, como o namorado de Elton vivido por Richard Madden.
Ainda assim, o roteiro escrito por Lee Hall (Cavalo de Guerra, Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha) acerta na construção específica de uma relação que, no final das contas, é o comovente centro emocional de Rocketman: a amizade entre Elton John e Bernie Taupin, que compôs praticamente todos os clássicos emoldurados pelo cantor com inesquecíveis melodias. A relação entre os dois é tocante porque celebra algo inerente a todos nós (a amizade) e é muito bem personificada pela química entre Taron Egeron e Jamie Bell. Egerton, que merece aplausos pela entrega emocional e pelo absoluto empenho em cantar e dançar todas as sequências musicais, é o dono do show, mas é quando ele contracena com Bell que o filme encontra os seus sentimentos mais genuínos. O coração de Rocketman está nessa história, e ela é importante para compreendermos o quanto essa versão cinematográfica da vida de Elton não deixa de ser uma forma do próprio cantor expurgar seus próprios demônios. Dexter Fletcher pode até ter dirigido um filme com abordagens infinitamente mais interessantes do que outras, mas, no geral, foi fidelíssimo a seu biografado em todas as facetas. Em seu melhor, Rocketman é puro Elton John.
Com “Escape at Dannemora” e “The Act”, Patricia Arquette vive a era de ouro da sua carreira
Patricia Arquette nunca foi uma atriz particularmente impressionante, mas começou a ser vista de outra maneira após vencer o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Boyhood com uma fala que viria a impulsionar os movimentos em busca de igualdade e justiça para as mulheres na indústria hollywoodiana. À época, em uma entrevista concedida ao The Guardian, ela falou justamente sobre como, em termos culturais, o “cinema” deixou de ser “cinema” para ser referenciado como “indústria”, levantando uma interessante provocação: a de que hoje, por exemplo, Vivien Leigh, uma atriz quase desconhecida antes de realizar …E o Vento Levou, jamais seria escalada para uma produção dessa ambição e magnitude. Para Arquette, quando o “cinema” deixa de ser “cinema” (arte) para ser chamado de “indústria” (negócio), ganha quem é a maior estrela ou a figura mais pop para determinado papel, e não a melhor atriz.
Curiosamente, a carreira de Patricia Arquette não deixa de estar associada a essa afirmação. Se pouco ela impressionou ao longo de uma carreira resumida a papeis pequenos e pouco memoráveis, muito se deve à falta de oportunidades para quem não é uma estrela. Ela, que atua desde os anos 1980, demorou a dar uma guinada na carreira mesmo após o Oscar por Boyhood. Aliás, foi somente cinco anos após a consagração pelo filme de Linklater que Patricia se viu envolvida em dois projetos consecutivos que, lançados entre novembro de 2018 e março 2019, vieram para marcar a era de ouro da sua carreira: Escape at Dannemora e The Act, onde ela finalmente tem os papeis fascinantes que toda atriz deveria receber com a devida dose de frequência para reforçar a tese de que uma escalação certeira é muito mais importante do que qualquer estrelato.

“ESCAPE AT DANNEMORA” (Showtime)
Na temporada de premiações em que todos esperavam que Amy Adams se consagrasse com a minissérie Sharp Objects, da HBO, Patricia Arquette chegou de mansinho e terminou faturando o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice Awards por essa minissérie dirigida pelo ator Ben Stiller para a Showtime. Baseada em uma história real, Escape at Dannemora dramatiza a fuga de dois dois detentos da Clinton Correctional Facility, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 2015. A dupla de presidiários interpretada por Benicio Del Toro e Paul Dano escapa da instituição com a ajuda de Joyce “Tilly” Mitchell, uma das funcionárias que, logo se descobre, cultivava uma relação instável e sexual com os dois detentos. A verdadeira Joyce Mitchell não falava publicamente desde 2015, quando foi presa por ajudar a orquestrar a fuga de David Sweat e Richard Matt, mas quebrou o silêncio em 2018 para comentar a minissérie, alegando que jamais teve qualquer relação sexual com a dupla e que Ben Stiller não passa de um oportunista querendo faturar dinheiro com a sua dramática história.
Julgando pelo que vemos em Escape at Dannemora, Tilly Mitchell é uma mulher mentalmente instável que toma decisões motivada por surtos de carência e impulsos sexuais. Ao mergulhar na mente dessa figura feminina conturbadíssima, Arquette trabalha uma série de complexidades para, ao longo de sete episódios com duração de praticamente uma hora cada, criar uma personagem fascinante em sua instabilidade, sem permitir que ela vire uma caricatura. Sob um trabalho impressionante de maquiagem, ela se transforma em cena como nunca antes em sua carreira, e o faz com uma busca minuciosa pelas razões que, para além da questão psíquica, levaram essa mulher a infringir tanto a lei quanto a confiança de seus próprios colegas e familiares para libertar dois presidiários. A transformação da atriz foi tamanha que, antes do início das filmagens, ela encontrou Benicio Del Toro já devidamente maquiada e não foi reconhecida pelo colega, que pensou ter esbarrado em uma senhora maluca no set. Sua caracterização, contudo, jamais serve como muleta, e sim como uma ferramenta para potencializar os tantos conflitos internos que também se manifestam corporalmente na personagem.
Por outro lado, Escape at Dannemora é menos fascinante do que se poderia esperar, e a causa disso está no fato da minissérie criada pela dupla Brett Johnson e Michael Tolkin não ser majoritariamente sobre Tilly Mitchell, que, a certa altura, passa a ser uma coadjuvante na história centrada em David Sweat e Richard Matt, dois personagens de personalidades opostas e bem defendidas por Benicio Del Toro e Paul Dano. A trama dos dois não é tão interessante quanto a de Tilly, ainda que a minissérie acerte ao demorar a revelar as razões que fizeram com que David e Richard fossem parar atrás das grades (é uma decisão importante porque nos aproxima dos personagens e não os tacha logo de cara como bandidos indignos de empatia). Fora isso, toda a preparação para a fuga dos detentos é longa demais e o desenrolar é menos surpreendente do que a minissérie nos prepara a crer. Tanto essa sensação é verdadeira que os últimos episódios, centrados ora no passado dos personagens, ora no detalhado desfecho de cada um, só nos chamam de volta para a Tilly Mitchell de Patricia Arquette, que, cada vez que está em cena, resgata Escape at Dannemora de toda e qualquer redundância.

“THE ACT” (Hulu)
Interpretando outra figura da vida real, Patricia Arquette chega aos serviços de streaming com The Act, nova antologia criada pela Hulu, a mesma plataforma que lançou a multipremiada The Handmaid’s Tale. A cada temporada, um novo (e bizarro) crime verídico será encenado, e o primeiro ano não poderia ter dado o pontapé inicial com uma história mais macabra: durante quase duas décadas, Dee Dee Blanchard (Arquette) fez com que sua filha Gypsy acreditasse ser uma menina extremamente doente, dependendo da mãe para qualquer mínima tarefa do dia a dia. Gypsy, que tomava incontáveis remédios, andava com a ajuda de uma carreira de rodas e não sabia nem ao certo a sua data de nascimento, eventualmente descobriu toda a verdade e arquitetou o assassinato da própria mãe. Dee Dee, na verdade, sofria de um distúrbio chamado Síndrome de Münchausen por Procuração, que nada mais é do que uma forma de abuso infantil onde cuidadores provocam/imaginam de forma deliberada a existência de doenças em crianças como forma de chamarem atenção para si. Ou seja, The Act é duplamente perturbadora: primeiro pelo transtorno de uma mãe que faz sua filha passar desnecessariamente por pesadelos inimagináveis e segundo pelo fato da garota, uma jovem criada basicamente em cativeiro, ter orquestrado a morte de sua própria progenitora.
Ao longo de oito episódios, The Act não é o que podemos chamar de dramaturgia sofisticada e complexa. Há muita dramatização e ajuste dos fatos para que o programa consiga assumidamente chocar o espectador. Não há firulas quanto a essa opção, uma vez que todo capítulo termina com letreiros que reforçam o quanto a série manipula determinados fatos para alcançar efeitos dramáticos. Em paz com isso, o espectador tem tudo para se abismar com os absurdos que Dee Dee impunha à filha, que chegava a comer uma pizza batida em liquidificador por sonda e era privada de ingerir qualquer tipo de açúcar em função de uma diabetes que só existia na cabeça da mãe. The Act tem grandes méritos ao construir a percepção conflituosa que Gypsy nutria por quem lhe deu a vida: na medida em que a garota começa a perceber que, como o próprio título da série indica, sua vida não passava de uma encenação, a revolta não é suficientemente grande para que Gypsy despreze por completo a sua mãe, inclusive porque a única vida que ela conhece é aquela entre quatro paredes com essa mulher. Gradativamente, claro, a situação começa a mudar de cenário, e a desconstrução de um mundo antes visto como inocente e infantil pelos olhos de uma criança começa a ganhar contornos sombrios e urgentes.
Como a garotinha Gypsy, Joey King oscila entre sentimentos de ingenuidade e corrompimento, despertando reações mistas na plateia: afinal, como dimensionar os pensamentos e as atitudes de uma criança que nunca viu o mundo como ele realmente é e que foi criada em um ambiente incrivelmente doentio? Ao passo que The Act desperdiça a chance de versar com mais atenção sobre questões éticas e morais da sociedade (todas elas muitas vezes reduzidas à dinâmica das protagonistas com as vizinhas não muito interessantes vividas por Chloë Sevigny e AnnaSophia Robb), King e, claro, Patricia Arquette dão conta de tornar todo o contexto tão incômodo quanto assombroso. Há outras participações no elenco como as de Calum Worthy e Margo Martindale que impulsionam a estranheza desse conjunto de relações tortuosas e problemáticas, mas King e Arquette dominam a cena. A segunda, por sinal, impressiona um degrau acima visto a dobradinha com Escape at Dannemora: em ambas as séries, Arquette interpreta mulheres desequilibradas e envolvidas em situações extremas. Porém, Tilly Mitchell e Dee Dee Blanchard são, nas mãos da atriz, pessoas indiscutivelmente distintas em qualquer tipo de comparação, o que é o atestado definitivo da era de ouro de uma atriz antes subaproveitada e que agora, graças às chances certas oferecidas, coloca nas telas uma versatilidade digna de Meryl Streep.
“Querido Menino”, “O Retorno de Ben” e “Boy Erased”: três garotos em conflito com a vida, com a família e com eles próprios

“QUERIDO MENINO”, de Felix Van Groeningen
Responsável por um dos filmes mais devastadores dos últimos anos (o belga Alabama Monroe), Felix Van Groeningen faz sua estreia como diretor nos Estados Unidos com Querido Menino, filme subavaliado pela crítica e que preserva a identidade de um cineasta estrangeiro desembarcando em Hollywood. Assim como em Alabama Monroe, Van Groeningen conta mais uma história centrada em uma dupla cujo drama tem a tragédia como matéria-prima. A narrativa é igualmente fragmentada e truncada, com idas e vindas no tempo. Ou seja, é fácil se perder em Querido Menino, algo que uma maioria esmagadora da crítica considerou um grande defeito, mas que, na verdade, é um acerto por imprimir à história sentimentos tão incômodos e desnorteadores quanto aqueles vividos pelos personagens.
Adaptando as memórias reais de David e Nic Sheff, pai e filho que, respectivamente, atravessaram anos turbulentos quando Nic se entregou às drogas, Querido Menino está menos interessado na discussão do vício em si e mais nas cicatrizes que uma condição como essa cria nas relações familiares. Ao conhecermos a triste situação de um jovem talentoso entregue às drogas, Querido Menino se torna mais doloroso quando retrocede para os tempos em que Nic era uma criança doce e afetuosa. Isso ajuda a construir tanto a verossimilhança da relação entre pai e filho quanto a própria dramaticidade do longa, que se apoia na exaustão física e emocional de seus personagens: assim como David se sente impotente como pai ao não conseguir ajudar o filho, Nic é sufocado pela angústia de reconhecer um vício que ele simplesmente não consegue vencer.
Entre os fragmentos de Querido Menino, existe ainda uma mãe bastante ausente por razões pouco explicadas (Amy Ryan), assim como uma madrasta que tenta ajudar o marido enquanto toma certa distância para proteger seus próprios filhos (Maura Tierney). Entretanto, o coração do filme está todo com a dupla protagonista, que se destaca pela humanidade com que representa os percalços enfrentados por pessoas comuns e sem a mínima noção de como lidar com um problema tão complicado. Timothée Chalamet, que chegou a ser indicado a importantes prêmios como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards, reafirma todo o talento que havia apresentado em Me Chame Pelo Seu Nome, mas é importante salientar como Steve Carell, em mais uma interpretação que encorpa a sua bela e eclética carreira no cinema norte-americano, é excelente ao conferir ao personagem todas as sutilezas que têm se tornado uma preciosa marca de sua vertente dramática como ator.
Estruturalmente, Querido Menino costura uma instigante narrativa quando decide, desde o princípio, pulverizar sua história e renegar uma narrativa linear. Porém, isso não deixa de acarretar repetições: são inúmeras as vezes em que ficamos com a sensação de que já vimos os mesmos arcos e os mesmos caminhos apresentados pelo longa. Talvez isso até seja uma decisão consciente do diretor para reforçar os cíclicos processos de convivência com um viciado irremediável, mas o efeito se esvazia diante de uma reprodução que não chega a expandir o íntimo dos personagens. Com isso, as duas horas de projeção são sentidas, amortecendo, na meia hora final, o impacto emocional de um filme mais sólido do que as mornas recepções acusavam e que, ao registrar a luz e a escuridão como dois lados de uma mesma moeda, mantém viva a identidade de um cineasta que chega a Hollywood sem domesticar as ideias que anos atrás fizeram com que ele chegasse estivesse entre os finalistas ao Oscar de filme estrangeiro com o já citado (e reverenciado) Alabama Monroe.

“O RETORNO DE BEN”, de Peter Hedges
Em uma dessas coincidências não tão benéficas do destino, O Retorno de Ben chega aos cinemas à sombra de Querido Menino, uma vez que ambos narram histórias de garotos envolvidos em problemas com drogas e que, com a ajuda dos pais, tentam atravessar períodos doídos e sombrios. Enquanto Querido Menino contempla a relação entre pai e filho, O Retorno de Ben captura os dias de um jovem enfrentando seus próprios fantasmas com a ajuda de uma mãe resiliente e destemida. O enfoque, ao menos, é outro: aqui, Ben acaba de voltar da clínica de reabilitação e tenta se reconectar com a família e com o mundo mesmo sabendo que, ao reencontrar o lugar onde a família vive, precisará revisitar lembranças desagradáveis e enfrentar uma importante jornada de resistência e (des)confiança pós-vício. Afinal, é possível uma família manter a tranquilidade perante alguém que já foi responsável por tanto transtorno? E teria o garoto realmente encontrado a paz com ele próprio?
Escrito e dirigido por Peter Hedges (pai do protagonista Lucas na vida real), O Retorno de Ben reapresenta a vocação do cineasta para histórias cotidianas e familiares. Hedges é o autor de duas pequenas pérolas do cinema independente norte-americano — Do Jeito Que Ela É e Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada — e, ainda que O Retorno de Ben, não seja tão lapidado em delicadezas quanto seus trabalhos anteriores, é acertada a escolha de narrar a história não sob o ponto de vista do garoto que volta para casa, mas sob o da mãe que, com outros três filhos e um novo marido, tenta dar um novo voto de confiança ao filho. As devidas dimensões são conferidas ao jovem Ben, mas é na mãe Holly que o longa ancora as suas principais facetas dramáticas. Por outro lado, surpreendentemente, o que parecia ser o pequeno relato de uma família de classe média tentando superar fantasmas do passado durante uma festiva semana de Natal tem a sua proposta subvertida lá pela metade, quando o filme vira quase um thriller envolvendo ecos do passado de Ben em uma noite angustiante onde o amor e a força de uma mãe serão colocados à prova.
A guinada de estilo causa certa estranheza porque traz a velha sensação de dois filmes distintos dentro de um e porque muda o tom de uma trama que, até então, parecia destinada a contar mais do mesmo, especialmente quando comparada a Querido Menino. Entretanto, Julia Roberts e Lucas Hedges conferem a consistência dramática que, muitas vezes, o filme tenta construir com desdobramentos que, perto de outros longas sobre protagonistas erráticos em uma espiral de carmas (o drama Bom Comportamento é uma excelente pedida), não chegam a ser surpreendentes. O Retorno de Ben causa maior empatia por causa dos dois, que criam uma ótima química em cena. Uma curiosidade é que o diretor não queria escalar o próprio filho para o papel, mas, por insistência de Julia Roberts, que havia se encantado com a performance de Hedges em Manchester à Beira-Mar, essa decisão foi repensada. Julia estava certa: ainda que ofuscado por Querido Menino, O Retorno de Ben é, sem dúvida, elevado por Hedges e ela.

“BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA”, de Joel Edgerton
Assim como O Retorno de Ben, Boy Erased: Uma Verdade Anulada tem seu impacto de certa forma amortecido quando comparado a outro título de temática equivalente. Por mais que dessa vez o espaço de tempo entre uma obra e outra seja muito maior, é impossível não traçar comparações entre o novo longa-metragem assinado pelo ator Joel Edgerton e o telefilme Orações Para Bobby, produzido pela emissora Lifetime e estrelado pela grande Sigourney Weaver em 2009. Quase dez anos separam Orações Para Bobby e Boy Erased, mas a potência emocional do primeiro permanece tão intocada e referenciada que fica difícil uma obra se equiparar em potência com a mesmíssima temática. Para quem não não conhece um ou outro, ambos são títulos que encenam a história de garotos que, ao se descobrirem gays, são reprimidos por famílias conservadoras, fervorosamente religiosas e simpatizantes à ideia de que a homossexualidade pode ser curada através de tratamentos.
Mais um filme estrelado pelo prolífero Lucas Hedges, Boy Erased é baseado nas memórias de Garrard Conley, um jovem que, na vida real, foi obrigado pelos pais a passar por uma terapia de conversão após revelar a sua homossexualidade. Com flashbacks que ilustram a fase em que o protagonista começava a perceber os sinais de sua natureza sexual, o filme explora amplamente as inacreditáveis sessões que tentam “curar” o jovem em meados de 2004: dos exercícios de postura para eliminar qualquer resquício de afetação até as lavagens cerebrais repletas de lições de moral e orações, é chocante constatar que, 15 anos depois dos acontecimentos que deram origem ao filme, tais ideias ainda sejam muito reais e potencializadas pelos tempos conservadores que vivemos.
Ao mesmo tempo, Boy Erased dilui sua consistência dramática ao preferir falar majoritariamente sobre esse sistema. Até sabemos bastante sobre o protagonista Jared Eamons (Hedges) e as relações que ele estabelece com a família, mas o roteiro, também escrito por Joel Edgerton, prefere dimensionar o personagem através do choque das terapias e não tanto pelas complexidades de sua jornada íntima, o que termina por criar uma experiência bastante cíclica, por vezes frustrante. Se as cenas de “cura gay” impactam nos primeiros registros, logo nos interessamos mais pelas vivências pessoais do protagonista com a família e com as pessoas em sua volta (uma cena no dormitório da faculdade é particularmente impactante).
Excetuando a recorrente insipidez do roteiro, Lucas Hedges se sai muito bem ao registrar a angústia e as transformações de um jovem que se encontra em um verdadeiro inferno pessoal. Seu Jared Eamons é um jovem resistente, o que traz momentos interessantes para o ator (a cena final com Russell Crowe é tocante pela maturidade com que o personagem evolui na nossa frente). Há outras facetas que Hedges pode explorar aqui ou ali, chance pouco oferecida nas mesmas proporções para Nicole Kidman, que não tem um texto à altura de sua caracterização para uma personagem cujas motivações e transformações soam verdadeiras mais pelo seu trabalho do que pela construção do roteiro propriamente dita. Hedges e Kidman mereciam uma obra mais pungente em emoção, bem ao estilo de Orações Para Bobby, longa que merece ser sempre revisto, inclusive depois de Boy Erased.
As Glorias de Sebatián Lelio: histórias praticamente iguais, mas em contextos um tanto diferentes
Despontando como um dos realizadores mais interessantes da atualidade, o chileno Sebastián Lelio recentemente dirigiu um longa-metragem vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro (Uma Mulher Fantástica) e também proporcionou momentos sublimes a atrizes como Rachel Weisz e Rachel McAdams (Desobediência). Ainda assim, a expressão mais cativante de sua identidade como realizador está no ano de 2013, com Gloria, filme que rendeu à protagonista Paulina García um incontestável Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim. Lelio diz ter imaginado o papel da protagonista-título especialmente para Paulina, intérprete que sempre o impressionou, mas que, segundo o cineasta, jamais havia recebido um papel à altura de seu talento. De certa forma, o contexto se repete agora, quando Lelio chega aos cinemas brasileiros com o remake do filme que ele próprio dirigiu em 2013.
Dessa vez, o realizador está em Hollywood e com Julianne Moore no papel principal. Não deixa de ser simbólico que ele novamente esteja valorizando uma atriz que, mesmo premiada recentemente com o Oscar (Para Sempre Alice), poderia receber mais papeis dignos de sua excelência. Paulina e Moore são, cada uma a sua maneira, atrizes fascinantes e entregam diferentes perspectivas para a mesma personagem, ainda que Gloria (2013) e Gloria Bell (2019) sejam longas-metragens praticamente idênticos. Se Sebastián Lelio resolveu dirigir o que podemos chamar de uma versão de seu próprio filme chileno para norte-americano ver sem legendas, ao menos a repetição da história vale pela chance de observar duas Glorias tão semelhantes quanto distintas.

Paulina García na última cena de Gloria: premiada por sua interpretação no Festival de Berlim, atriz tem um dos desempenhos femininos mais marcantes do cinema recente de língua latina.
Perto dos 60 anos, Gloria (Paulina García) percebe que os filhos não precisam mais de sua ajuda. Separada, ela vive sozinha, mas mantem uma vida muito ativa: trabalha, almoça com os amigos, frequenta as aulas de yoga da filha e, acima de tudo, não encara a independência ou a solidão como o fim do mundo. Pelo contrário: estar sozinha e frequentar salões de baile em busca de um novo amor ou de apenas uma noite de sexo lhe é tão natural como talvez tenha sido na juventude. É essa a preciosa maturidade de Gloria, o filme: entender possíveis entristecimentos da protagonista, mas não fazer de seus dilemas uma densa sessão de terapia na tela grande. Sebastián Lelio prefere buscar uma tônica mais agridoce para os dias da personagem, que atravessa as dores e as alegrias de estar viva como qualquer ser humano.
Ver a vida pelos olhos de uma mulher madura sem que ela esteja reduzida a qualquer sofrimento de sua própria idade faz de Gloria um longa delicadíssimo, inclusive por conhecermos a protagonista por meio de uma ótica cotidiana. Se uma dança em meio à multidão ganha contornos diferenciados é pela decisão de Sebastián Lelio de capturar o momento com um viés observacional, interferindo o mínimo possível com estilizações ou guinadas de roteiro. Com isso, Gloria se atira com imensa confiança no universo de sua personagem, e acerto maior não há: toda a beleza dessa leitura a respeito de uma mulher que vive, ama, dança e sofre como todos nós está na construção de uma figura feminina crível e de fácil identificação não apenas para quem tem traços ou histórias em comum com ela.
A imensidão de sutilezas não seria a mesma sem, claro, o desempenho espetacular de Paulina García, que está totalmente alinhada ao espírito do longa de renegar a vitimização. Ela é ao mesmo tempo discreta e profunda em cena, incorporando uma mulher que, sabotada aqui e ali por relações amorosas complicadas ou pelo próprio destino, é encantadora por ter pleno conhecimento de si e por aceitar que, na vida e no amor, é preciso fazer tentar tirar ao menos algum aprendizado das situações mais difíceis. Elegante e radiante, a presença da atriz reforça a percepção muito verdadeira de que são raros os homens que conseguem conviver com mulheres seguras e autossuficientes. Podem acreditar: é impossível não se apaixonar pela construção de Paulina literalmente até o último milésimo de projeção.

Apaixonada pelo longa chileno de 2013, Julianne Moore revive, com seu inegável talento, a Gloria de Paulina García, mas com uma perspectiva mais estilizada e rejuvenescida.
Seis anos depois de Gloria, Sebastián Lelio mais uma vez nos leva para o universo da personagem, que, agora em terras hollywoodianas, ganha vida pelas mãos da espetacular Julianne Moore. Em termos de história, vemos praticamente o mesmo filme, com pouquíssimos ajustes (há, no máximo, a inclusão de novos personagens bastante passageiros e falas que são transferidas de uma sequência para outra), decisão tomada deliberadamente pelo diretor, que nunca quis falar sobre outros momentos de Gloria que não fossem aqueles mostrados no filme estrelado por Paulina García. Entretanto, em entrevistas sobre o remake, Lelio revela que, ao revisitar a protagonista, Gloria Bell não deixa de atualizar sua personagem, que agora tem trajetória encenada em um outro país e com uma certa estilização já ensaiada pelo diretor em Uma Mulher Fantástica.
Por contar a mesmíssima história em um curto espaço de tempo, há a sensação de que Gloria Bell é somente um produto encomendado para que os norte-americanos entrem em contato com essa belíssima personagem sem ter que recorrer a um filme chileno com legendas. À parte a questão mercadológica, sejamos justos: a história é maravilhosa, o diretor é o mesmo e, sendo assim, a matemática soa infalível. Gloria Bell bebe da fonte de uma história quase intocada em sua transposição para os norte-americanos, e quem só tem a ganhar com esse texto é Julianne Moore, que, apaixonada pela versão de 2013, ligou para Lelio, lançou a ideia de uma refilmagem e logo tornou o projeto possível, inclusive assumindo o cargo de produtora executiva. Tratando-se de Moore, não há o que duvidar: como Gloria, agora batizada com o sobrenome Bell, ela aproveita o melhor de um papel nivelado ao seu inquestionável talento.
Curiosamente, o que me impede de admirar Gloria Bell tanto quanto admiro Gloria é a escalação da atriz. Nada a ver especificamente com Moore ou com o seu desempenho: na verdade, ela é perfeita para as atualizações propostas para a personagem na refilmagem. O que acontece é que a versão chilena tinha peso maior em sensibilidade e delicadeza porque falava sobre uma mulher se aproximando da terceira idade. Mesmo que Moore tenha 58 anos e seja mais velha ao interpretar o papel do que Paulina era na época do primeiro filme (52), sua Gloria é demasiadamente bem fotografada, beirando a glamourização inclusive em luxuosas locações de Las Vegas. A decisão de escalar um ator muito mais jovem como filho de Gloria (Michael Cera) e de colocar em cena a mãe da protagonista que não existia no filme anterior (Holland Taylor) também deixa a impressão de que Gloria, em sua versão Bell, está, no máximo, chegando aos 50, o que rejuvenesce bastante o contexto de importantes complexidades que ganham outras camadas na vida de quem está perto dos 60.