Cinema e Argumento

47º Festival de Cinema de Gramado #6: “Pacarrete”, de Allan Deberton

Pacarrete, de Allan Deberton, traz desempenho memorável de Marcélia Cartaxo.

Às vésperas de seus 200 anos, a cidade de Russas, no interior do Ceará, prepara uma grande celebração. E Pacarrete (Marcélia Cartaxo), uma peculiar bailarina já na casa dos 60, quer fazer parte dos festejos: como seu presente para o povo, ela prepara uma apresentação de ballet pensada como o número de uma mulher só. No entanto, Pacarrete, que de fato existiu na vida real, é tida como a louca da cidade, e a Secretaria Municipal de Cultura não a quer de jeito nenhum na festa, com a desculpa de que ballet é tedioso para o povo e que essa senhora supostamente desvairada seria vaiada em pleno palco caso chegasse a se apresentar. Mas a bailarina, outrora professora e artista atuante em Fortaleza, não desistirá de seu objetivo, mesmo que tudo seja tão difícil (para ela e para todos).

É importante grifar o supostamente desvairada porque Pacarrete, longa-metragem de estreia do cineasta Allan Deberton, jamais julga sua personagem, e sim convida o espectador a entrar em seu universo, mais lúcido que os demais, propondo a tese de que talvez, no final das contas, ela seja vítima de uma sociedade intolerante a tudo aquilo que lhe parece diferente. Sem optar pela panfletagem, o filme dá voz a uma senhora que, representando os tantos oprimidos que gritam e jamais são ouvidos, é marginalizada pela própria cidade onde vive. Ela resiste através da arte: não há nada mais desolador para Pacarrete do que ver uma fita VHS de ballet estragar ou então do que não ter como plateia nem mesmo a sua irmã ou a sua empregada em um momento improvisado de ensaio. Quando indagada sobre o que fez ao longo da vida, ela enche o peito para dizer que foi artista e professora. E isso é muito bonito.

Como estudo de personagem, Pacarrete descortina a vida da protagonista basicamente dentro de sua própria casa, utilizando-se de raros momentos na cidade ou na vizinhança apenas para dar novas e importantes pinceladas nesse retrato muito humano que preza pela objetividade, sem se dispersar com qualquer outra subtrama, ainda que existam personagens suficientemente interessantes para gerar mais material. Um deles é o amigo vivido por João Miguel, que representa o sopro de esperança e generosidade em uma comunidade hostil. Já dentro de casa, Pacarrete conta com a irmã Chiquinha (Zezita Matos) e a empregada Maria (Soia Lira), em um convívio que captura todo o afeto de um universo feminino ao mesmo tempo muito particular e universal.

Para registrar a rica gama de sentimentos da protagonista e de todos os personagens que estão em sua órbita, o diretor Allan Deberton mergulha em camadas inegavelmente teatrais, mas que nunca destoam do conjunto. Pelo contrário: lúdico, colorido, cômico e por vezes assumidamente exagerado, Pacarrete vai de um gênero a outro e de uma abordagem a outra com uma naturalidade impressionante e com uma delicadeza tremenda ao estender o tapete vermelho para a alma feminina, para a força da arte e, por que não, para o fascínio que é ver um ser humano em toda suas qualidades, fraquezas e incompletudes. Tão cômico quanto dramático, o longa faz essa inflexão entre gêneros com afetividade, o que é no mínimo surpreendente, considerando que temos quatro pessoas envolvidas na criação do roteiro (André Araújo, Natália Maia, Samuel Brasileiro e o próprio Deberton).

A veterana Marcélia Cartaxo, responsável por dar vida à Pacarrete de maneira assombrosa, teve aulas de ballet e francês para interpretar uma protagonista que, assim como a rainha Anne de Olivia Colman no recente A Favorita, poderia cair na histeria por justamente ter uma certa insanidade como matéria-prima para desdobramentos cômicos e dramáticos. Entretanto, em um tour de force que abarca ainda questões inerentes ao envelhecimento e ao eterno saudosismo pela juventude e pelos aplausos, Cartaxo cria uma personagem que ficará para a posteridade não só na sua carreira, mas também no cinema brasileiro. Durante o 47º Festival de Cinema de Gramado, onde o filme fez a sua estreia nacional, a atriz foi ovacionada desde a primeira cena projetada no Palácio dos Festivais, sendo comparada, em nível internacional, à grandiosidade de outras atrizes como Giulietta Masina, Gloria Swanson e Meryl Streep. Marcélia merece. E graças a um filme que é tão memorável quanto ela.

47º Festival de Cinema de Gramado #5: “Vou Nadar Até Você”, de Klaus Mitteldorf

Bruna Marquezine em Vou Nadar Até Você: atriz encara a sua primeira protagonista no cinema.

Por falta de outra definição, Vou Nadar Até Você é um road movie, mas com um conceito mais peculiar: ao invés da jovem Ophelia (Bruna Marquezine) pegar a estrada para ir em busca do homem que acredita ser seu pai, ela opta por cruzar a nado o trecho de Santos a Ubatuba, em São Paulo. Sabemos pouco sobre a protagonista, uma menina introspectiva e de poucas palavras que, entre um trecho e outro, passa a se revelar para o espectador assim como talvez para ela própria. No mar, sua vida parece fazer sentido. Atrás das câmeras também, já que ela registra cada momento da curiosa viagem. Mas é com os pés firmados no chão e em contato direto com as pessoas que ela precisa encontrar seu propósito e sua verdadeira identidade.

Vou Nadar Até Você, que estreia nacionalmente na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado, tem a proposta de fazer uma leitura muito particular desse momento decisivo na vida de Ophelia — e o faria com bastante excelência, caso o diretor Klaus Mitteldorf, a partir do roteiro escrito por Nina Crintzs, não optasse por tantos desvios na trama, cometendo o pecado de tirar o protagonismo absoluto de Ophelia. O tropeço começa na própria concepção: narrando paralelamente a história do pai que recebe a notícia de que sua filha até então desconhecida está a caminho, Vou Nadar Até Você tira tempo demais do desabrochar emocional de Ophelia para dar todas as explicações sobre quem é esse homem que gerou a garota.

O filme embola ainda mais o meio de campo ao criar uma subtrama envolvendo o pai e um assistente vivido por Fernando Alves Pinto que passa a seguir Ophelia antes que ela chegue a seu destino. Mitteldorf, que fez carreira como premiado fotógrafo e publicitário, deixa transparecer alguns vícios de suas experiências pregressas em Vou Nadar Até Você, como a de carregar a trama com uma bela, mas excessiva trilha sonora, e a de registrar cada momento aquático da protagonista em slow motion. Ao final, os desvios da trama e o embelezamento dos takes imediatamente nos jogam para a ideia de que o filme é mais longo do que deveria e que tudo acontece para preencher um pouco mais essa história que, na verdade, só teria a ganhar com mais concisão.

Bruna Marquezine, que assume aqui o seu primeiro trabalho no cinema como protagonista, é delicada como Ophelia, e todas as cenas bem exploradas de sua personagem garantem os melhores momentos de Vou Nadar Até Você. Suas eventuais transformações e descobertas são sutis, escapando de armadilhas comuns em road movies. Mesmo as frequentes tomadas aéreas são mais simbólicas quando a protagonista está em cena, pois representam a pequenez de uma garota perdida em meio à imensidão (a sua e a do mar). É por isso que as ramificações de Vou Nadar Até Você tiram o refinamento dessa obra que, aqui e ali, distante de sua protagonista, cai em um certo vazio emocional e cinematográfico.

47º Festival de Cinema de Gramado #3: “O Homem Cordial”, de Iberê Carvalho

Paulo Mikos em O Homem Cordial: ex-Titã tem no filme de Iberê Carvalho a melhor interpretação de sua carreira.

Se tomássemos como parâmetro somente o afetuoso O Último Cine Drive-In, seria um tanto difícil prever que o diretor Iberê Carvalho tivesse um repertório tão vertiginoso quanto o apresentado agora em O Homem Cordial, filme que faz sua estreia nacional na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado. À parte o problema do título, que causa imediata confusão com o recente O Animal Cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida, o novo longa-metragem de Iberê arrasta o espectador noite adentro em uma odisseia que descortina nossas cicatrizes político-sociais e cria um verdadeiro redemoinho a partir de todas nossas intolerâncias, preconceitos e negligências. Como uma investigação sensorial desse cenário, O Homem Cordial é uma experiência angustiante que usa a trajetória pontual de um personagem para trazer uma perspectiva inevitavelmente pessimista do que temos nos tornado de uns anos para cá.

Seguindo os modelos de todo filme ambientado à noite, quase em tempo real e com um personagem enfrentando uma conturbada jornada pelas ruas de uma cidade, O Homem Cordial será eternamente associado a Depois de Horas, de Martin Scorsese. Entretanto, o filme de Iberê Carvalho é mesmo sobre o Brasil, e essa sua especificidade lhe confere personalidade diante dos títulos que apenas tentam emular uma fórmula. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com o uruguaio Pablo Stoll, acompanha a noite de retorno aos palcos de uma famosa banda de rock do anos 80, quando viraliza na internet um vídeo que envolve Aurélio Sá (Paulo Miklos), vocalista e líder da banda, na morte de um policial militar. Miklos, que de fato foi vocalista de uma icônica banda de rock brasileira (os Titãs), tem trilhado carreira no cinema, e seu trabalho aqui talvez possa ser considerado o ponto alto dessa trajetória: com vitalidade e naturalidade, ele segura muito bem um protagonista que tem a câmera grudada em seu rosto praticamente a projeção inteira, o que é um desafio e tanto até para o melhor dos atores.

Inclusive, a técnica de O Homem Cordial tem grande contribuição nos sentimentos claustrofóbicos e eletrizantes trazidos pelo filme. Dessa mistura, é possível tirar dois destaques: a fotografia de Pablo Baião e a montagem de Nina Galanternick, fundamentais para a construção da atmosfera de um filme praticamente todo ambientado à noite. A vertigem de violência, seja ela física, verbal ou emocional, combina com o tom soturno da obra, que, a partir da superexposição nas redes sociais e da compulsão de uma sociedade que precisa registrar e denunciar tudo pela câmera de um celular, fala sobre como muitas vezes ela acaba distorcendo situações e desviando as discussões que realmente importam. O mosaico é completo: racismo, política, abuso de poder, direitos humanos, violência policial, diferença de classes… Não há o que escape de O Homem Cordial em uma radiografia muitas vezes incômoda de se acompanhar e que é desenvolvida a cada esquina dobrada pelo protagonista.

A firmeza de Iberê em não deixar que O Homem Cordial se torne um filme disperso em tantas leituras é grande, ainda que isso não livre o resultado de certos prejuízos, especialmente estruturais: na medida em que abre demais o leque da jornada de seu protagonista, o longa de certa forma o perde de vista para se dedicar a cenas que pesam a mão mais no discurso do que propriamente na construção da história. Exemplo disso é a longa sequência envolvendo Aurélio e um grupo de policiais, onde o comandante da operação representa, com certa caricatura, toda a violência de um sistema preconceituoso, intolerante e racista que já estava sendo contemplado pontualmente por várias passagens do filme. O Homem Cordial retoma as rédeas perto de seu encerramento, quando retrocede para encenar um fato crucial da história, e aí sim volta a abraçar sua força maior de ver o mundo através de um recorte específico. Quando busca sua voz por esse meio, Iberê Carvalho sempre faz o seu filme subir um degrau, mexendo com o espectador sem recorrer à mera explanação.

47º Festival de Cinema de Gramado #2: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Prremiado em Cannes, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tem protagonismo coletivo.

Laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, Bacurau marca a volta do cinema brasileiro ao hall de vencedores do prestigiado evento francês, quebrando um jejum de 12 anos desde que Linha de Passe rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz na Croisette. Com estreia programada no circuito comercial para o dia 29 de agosto, o longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fez sua estreia nacional na noite de abertura do 47º Festival de Cinema de Gramado, fora de competição, e a reação do público, que aplaudiu o filme em cena aberta, reforça a tese de que toda a catarse trazida por momentos cruciais e impactantes da obra diz muito sobre um país que tem sofrido um tremendo desmonte cultural e que, cada vez mais, precisa ter a sua resiliência retratada e impulsionada nas telas.

Não à toa, Bacurau faz questão de registrar em seus créditos finais que é uma produção responsável por mais de 800 empregos diretos e indiretos e também o registro de um país e de sua identidade. Tematicamente, podemos associar o filme a Aquarius, longa anterior de Kleber, no sentido de que ambos são sobre o poder da resistência e sobre como de fato agimos ao invés de apenas levantar uma bandeira com discursos fáceis. Contudo, se Aquarius seguia a escala de O Som ao Redor ao fazer o Brasil se olhar no espelho por meio de um forte realismo social, Bacurau parte para o plano da mistura de gêneros, o que pode tanto deliciar quem gosta de mergulhar em suspense, sangue e mistério como metáfora da nossa realidade quanto incomodar aqueles que preferem um quadro muito mais claro e descritivo.

Já colocando uma pitada de suspense em sua abertura com o letreiro “daqui a alguns anos…”, sem identificar exatamente quando a história acontece, Bacurau é, em uma leitura mais simplista, um filme sobre o futuro, quando, na verdade, está intimamente ligado às mazelas políticas e sociais que já foram e ainda são vividas pelo povo brasileiro. Kleber e Juliano, também autores do roteiro, constroem toda atmosfera de Bacurau a partir de uma incômoda sensação de instabilidade social que, ao longo e ao final da obra, será responsável por um crescente quadro de selvageria. Há sangue, morte, tiros e outras barbáries no filme, o que, curiosamente, é capaz de misturar náusea e um macabro conforto no espectador: se a primeira reação é de baque com tamanha violência, logo ela é amortecida pela ideia de que, de alguma forma, ela evoca a força de um povo esquecido pelo mundo e maltratado pela vida, mas que decide assumir seu protagonismo em uma importante linha de batalha.

Ambientado em um futuro não exatamente especificado, Bacurau é, na verdade, sobre o nosso presente.

Garimpando referências, Kleber diz que é possível encontrar em Bacurau ecos de Sam Peckinpah e até de Alfred Hitchcock, mas que esse filme, na realidade, reflete sua paixão por um cinema brasileiro eternizado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros mestres, assim como a grande admiração que ele e Juliano nutrem pelo chamado cinema de gênero. Em sua passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, o diretor, por outro lado, salientou que refuta a ideia de usar referências como estandarte de um filme e que, apesar das críticas iniciais em Cannes terem gerado uma série de leituras em cima disso, ele dispensa a necessidade de ter que explicá-las ou iluminá-las. Nada mais justo, principalmente se tratando de um filme de difícil classificação e que precisa ser consumido pelo espectador com o mínimo possível de informações, de forma que cada um o preencha a partir de seu próprio repertório cinéfilo.

Como o próprio título já sugere, Bacurau é um longa sobre esse lugar específico e, por isso mesmo, é natural que Kleber e Juliano tenham tomado a decisão de não definir um protagonista específico para a trama. O coletivo é a força-motriz do longa, e a construção dos personagens é um mérito à parte: o roteiro consegue nos apresentar cada um dos moradores do local sem pressa ou atropelo, além de atribuir a eles características e personalidades pontuais de maneira orgânica. “Quem nasce em Bacurau é o quê”, pergunta um forasteiro a certo ponto, recebendo uma resposta curta e simbólica: “É gente!”. Tal momento retoma o posicionamento do filme de colocar diversos rostos do Brasil na tela, compondo um mosaico de personagens interessantíssimos e de bons atores, onde até mesmo uma musa como Sonia Braga abraça com ferocidade um papel tão “pequeno” quanto o dos seus demais colegas.

Saindo das fronteiras que passamos a conhecer desse lugar chamado Bacurau, temos também um outro núcleo, encabeçado pelo ator alemão Udo Kier. Nele, o desenvolvimento dos personagens e das atuações soa mais artificial. Pode ser que essa seja uma escolha consciente de Bacurau: a de fazer dos estrangeiros figuras mais caricatas e de pouca identificação, algo que, entretanto, não diminui a ligeira frustração com o distanciamento que temos com as motivações (ou ao menos o mistério) daqueles personagens. Também são um tanto diluídos os discursos reiterativos que Bacurau toma em seu terço final, sublinhando muitos pontos sobre a vilania ou sobre o desdobramento de certas figuras que, de um modo ou de outro, já estavam claros até ali. 

Em comparação aos outros dois longas assinados por Kleber, Bacurau é mais específico do que O Som ao Redor e Aquarius, mas isso não é motivo para alarde ou depreciação: ao longo de muitos anos o cineasta vem gestando esse projeto assumidamente de gênero com Juliano Dornelles e não aceitá-lo como tal é perder boa parte de sua essência e de tudo aquilo que a dupla diz com tanta propriedade. Em uma cidade fictícia onde a figura mais querida do local “gerou michê e puta, mas nenhum ladrão” e onde as pessoas buscam refúgio em escolas e museus para enfrentar ameaças mortais, Kleber e Juliano caminham por essa linha hoje tão tênue entre a ficção e a realidade para entregar o tipo de catarse que pode muito bem nos dar algum tipo de fôlego em meio à loucura e ao ódio que logo voltam a cair sobre as nossas cabeças quando voltamos à vida real após a sessão. 

Rapidamente: “Dumbo”, “Se a Rua Beale Falasse”, “Vice” e “WiFi Ralph”

Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James): uma paixão interrompida pelo destino e pela intolerância, contada com grande apuro sensorial pelo diretor Barry Jenkins em Se a Rua Beale Falasse.

DUMBO (idem, 2019, de Tim Burton): Há muitos anos já falta calibragem na filmografia de Tim Burton, cineasta que, muito provavelmente, não realiza um trabalho live action interessante desde o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, lançado em 2008. E Dumbo, por melhor que seja em comparação a filmes desastrosos como Sombras da Noite e Alice no País das Maravilhas, também padece da falta de inspiração de um diretor outrora icônico e hoje incapaz de assinalar qualquer retorno a uma era de ouro marcada por títulos como Edward Mãos-de-Tesoura, A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçasPeixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas. Bastante amarrado no formato imposto pela Disney para produções live action baseadas em animações clássicas com o selo do estúdio, Burton cria um elefantinho incrivelmente real e empático (é fácil se comover com o pequeno animal e torcer por ele), mas os personagens humanos são monótonos, especialmente o vilão vivido por Michael Keaton, que segue todo o previsível arco do homem rico e ganancioso que corromperá os negócios de humildades profissionais em um circo decadente. Podemos prever cada passo do filme, que, sem frescor, peca, inclusive, por dar pouca atenção a uma perspectiva que poderia trazer fascínio e afeto ao longa: a do animal indefeso e desarmado que colide com um mundo cruel tão precocemente. Mais uma vez, ainda estamos por ver um novo trabalho de Tim Burton à altura da grife que seu nome um dia foi.

SE A RUA BEALE FALASSE (If Beale Street Could Talk, 2018, de Barry Jenkins): O Oscar de melhor atriz coadjuvante recebido pela grande Regina King não foi o suficiente para impulsionar a distribuição de Se a Rua Bela Falasse no Brasil. Aliás, é curioso como nem mesmo a assinatura de Barry Jenkins, que recebeu o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em 2017 com Moonlight: Sob a Luz do Luar, garantiu, inclusive nos Estados Unidos, a devida valorização desse filme tão belo, sutil e humano. Baseado no romance homônimo de James Baldwin, Se a Rua Beale Falasse seria um enjoativo melodrama caso fosse comandado por um diretor menos sensível e virtuoso do que Barry Jenkins, que novamente apresenta um esmero técnico fascinante, um raro apuro sensorial e um admirável cuidado com abordagens que escapam de estereótipos. O amor é puro e verdadeiro no longa, mas jamais tolo ou ingênuo; o preconceito é capaz de causar traumas e separações, mas se torna, na medida do possível, um tantinho menos doloroso com as pessoas certas ao nosso lado; e a vida pode nos testar das mais diversas maneiras, mas é possível enfrentá-la com certa garra quando existe um propósito, por menor que ele possa aparecer. Jenkins conduz a história com total propriedade técnica e temática, discutindo uma série de questões íntimas e sociais que, embaladas por uma trilha inebriante de Nicholas Britell e uma lindíssima fotografia de James Laxton, só poderiam ser contadas dessa maneira por ele.

VICE (idem, 2018, de Adam McKay): Quando passou a ser levado a sério com A Grande Aposta, longa de 2015 que chegou a lhe render um Oscar de melhor roteiro original, o diretor Adam McKay deve ter se atentado para uma fórmula que volta a ser reproduzida em Vice. Em ambos os títulos, temos assuntos difíceis, por vezes desinteressantes, que ganham nova roupagem com um humor ágil e crítico. Talvez a leitura cômica não seja o suficiente para prospectar os espectadores pouco inclinados a criar alguma conexão com o filme, mas é uma ferramenta interessante para não contemplar temas tão específicos de maneira óbvia. Mais uma vez autor do roteiro, McKay aborda, em Vice, a história de Dick Chaney (Christian Bale), ex-vice-presidente da administração George W. Bush que acumulou imenso poder nos bastidores da política estadunidense. Para os afeitos ao tema, é um prato cheio: detalhista, brinca com o cenário político norte-americano sob a perspectiva de um personagem curioso e que dificilmente ganharia as telas como protagonista absoluta. É importante você saber se faz parte desse grupo porque Vice funciona melhor quando conferido de peito aberto, sendo apreciado por aspectos que se sobressaem na experiência, como o ótimo trabalho de elenco, que traz Christian Bale em mais uma transformação impressionante, Amy Adams equilibrando com esperteza um papel menos óbvio do que o esperado e Sam Rockwell imitando George W. Bush à perfeição. Como uma variação do que já foi visto em A Grande ApostaVice se repete, mas, ao mesmo tempo, preserva vários elementos que deram certo no filme anterior.

WIFI RALPH: QUEBRANDO A INTERNET (Ralph Breaks the Internet, 2018, de Phil Johnston e Rich Moore): Transferindo as referências do universo dos games para a era da internet, WiFi Ralph é a continuação do adorável Detona Ralph, de 2012. Como entusiasta do primeiro filme, conferi a sequência com certo receio, e fui surpreendido positivamente, inclusive pelo ponto de vista emocional: em meio a tantas brincadeiras envolvendo ferramentas, plataformas e memes da internet, o filme de Phil Johnston e Rich Moore decide falar sobre como amizades podem se tornar tão tóxicas quanto romances abusivos, onde uma das partes passa a depositar na outra toda a responsabilidade de suprir desejos, vontades e vaidades sem perceber que interações humanas são feitas de trocas e não de monólogos. Dessa maneira, WiFi Ralph é mais adulto do que seu humor internetês sugere, eliminando qualquer possibilidade de ser uma mera versão gourmet de Emoji: O Filme. Pelo contrário, é até corajoso como o longa abre margem para interpretarmos seu protagonista até mesmo como um vilão dentro do contexto emotivo da história. WiFi Ralph é o tipo de continuação que se justifica, mesmo que boa parte da fórmula cômica se apoie na mesma estruturação do filme anterior e corra o risco de soar datada daqui alguns anos visto as referências do mundo online que, sabemos, muda da água para o vinho com uma velocidade assustadoramente rápida nos dias de hoje. Apesar disso, o coração dessa animação bate expressivamente, e suas mensagens funcionam tanto para as crianças quanto para os adultos.