Cinema e Argumento

“Querido Menino”, “O Retorno de Ben” e “Boy Erased”: três garotos em conflito com a vida, com a família e com eles próprios

“QUERIDO MENINO”, de Felix Van Groeningen

Responsável por um dos filmes mais devastadores dos últimos anos (o belga Alabama Monroe), Felix Van Groeningen faz sua estreia como diretor nos Estados Unidos com Querido Menino, filme subavaliado pela crítica e que preserva a identidade de um cineasta estrangeiro desembarcando em Hollywood. Assim como em Alabama Monroe, Van Groeningen conta mais uma história centrada em uma dupla cujo drama tem a tragédia como matéria-prima. A narrativa é igualmente fragmentada e truncada, com idas e vindas no tempo. Ou seja, é fácil se perder em Querido Menino, algo que uma maioria esmagadora da crítica considerou um grande defeito, mas que, na verdade, é um acerto por imprimir à história sentimentos tão incômodos e desnorteadores quanto aqueles vividos pelos personagens.

Adaptando as memórias reais de David e Nic Sheff, pai e filho que, respectivamente, atravessaram anos turbulentos quando Nic se entregou às drogas, Querido Menino está menos interessado na discussão do vício em si e mais nas cicatrizes que uma condição como essa cria nas relações familiares. Ao conhecermos a triste situação de um jovem talentoso entregue às drogas, Querido Menino se torna mais doloroso quando retrocede para os tempos em que Nic era uma criança doce e afetuosa. Isso ajuda a construir tanto a verossimilhança da relação entre pai e filho quanto a própria dramaticidade do longa, que se apoia na exaustão física e emocional de seus personagens: assim como David se sente impotente como pai ao não conseguir ajudar o filho, Nic é sufocado pela angústia de reconhecer um vício que ele simplesmente não consegue vencer.

Entre os fragmentos de Querido Menino, existe ainda uma mãe bastante ausente por razões pouco explicadas (Amy Ryan), assim como uma madrasta que tenta ajudar o marido enquanto toma certa distância para proteger seus próprios filhos (Maura Tierney). Entretanto, o coração do filme está todo com a dupla protagonista, que se destaca pela humanidade com que representa os percalços enfrentados por pessoas comuns e sem a mínima noção de como lidar com um problema tão complicado. Timothée Chalamet, que chegou a ser indicado a importantes prêmios como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards, reafirma todo o talento que havia apresentado em Me Chame Pelo Seu Nome, mas é importante salientar como Steve Carell, em mais uma interpretação que encorpa a sua bela e eclética carreira no cinema norte-americano, é excelente ao conferir ao personagem todas as sutilezas que têm se tornado uma preciosa marca de sua vertente dramática como ator.

Estruturalmente, Querido Menino costura uma instigante narrativa quando decide, desde o princípio, pulverizar sua história e renegar uma narrativa linear. Porém, isso não deixa de acarretar repetições: são inúmeras as vezes em que ficamos com a sensação de que já vimos os mesmos arcos e os mesmos caminhos apresentados pelo longa. Talvez isso até seja uma decisão consciente do diretor para reforçar os cíclicos processos de convivência com um viciado irremediável, mas o efeito se esvazia diante de uma reprodução que não chega a expandir o íntimo dos personagens. Com isso, as duas horas de projeção são sentidas, amortecendo, na meia hora final, o impacto emocional de um filme mais sólido do que as mornas recepções acusavam e que, ao registrar a luz e a escuridão como dois lados de uma mesma moeda, mantém viva a identidade de um cineasta que chega a Hollywood sem domesticar as ideias que anos atrás fizeram com que ele chegasse estivesse entre os finalistas ao Oscar de filme estrangeiro com o já citado (e reverenciado) Alabama Monroe.

“O RETORNO DE BEN”, de Peter Hedges

Em uma dessas coincidências não tão benéficas do destino, O Retorno de Ben chega aos cinemas à sombra de Querido Menino, uma vez que ambos narram histórias de garotos envolvidos em problemas com drogas e que, com a ajuda dos pais, tentam atravessar períodos doídos e sombrios. Enquanto Querido Menino contempla a relação entre pai e filho, O Retorno de Ben captura os dias de um jovem enfrentando seus próprios fantasmas com a ajuda de uma mãe resiliente e destemida. O enfoque, ao menos, é outro: aqui, Ben acaba de voltar da clínica de reabilitação e tenta se reconectar com a família e com o mundo mesmo sabendo que, ao reencontrar o lugar onde a família vive, precisará revisitar lembranças desagradáveis e enfrentar uma importante jornada de resistência e (des)confiança pós-vício. Afinal, é possível uma família manter a tranquilidade perante alguém que já foi responsável por tanto transtorno? E teria o garoto realmente encontrado a paz com ele próprio?

Escrito e dirigido por Peter Hedges (pai do protagonista Lucas na vida real), O Retorno de Ben reapresenta a vocação do cineasta para histórias cotidianas e familiares. Hedges é o autor de duas pequenas pérolas do cinema independente norte-americano — Do Jeito Que Ela ÉEu, Meu Irmão e Nossa Namorada — e, ainda que O Retorno de Ben, não seja tão lapidado em delicadezas quanto seus trabalhos anteriores, é acertada a escolha de narrar a história não sob o ponto de vista do garoto que volta para casa, mas sob o da mãe que, com outros três filhos e um novo marido, tenta dar um novo voto de confiança ao filho. As devidas dimensões são conferidas ao jovem Ben, mas é na mãe Holly que o longa ancora as suas principais facetas dramáticas. Por outro lado, surpreendentemente, o que parecia ser o pequeno relato de uma família de classe média tentando superar fantasmas do passado durante uma festiva semana de Natal tem a sua proposta subvertida lá pela metade, quando o filme vira quase um thriller envolvendo ecos do passado de Ben em uma noite angustiante onde o amor e a força de uma mãe serão colocados à prova.

A guinada de estilo causa certa estranheza porque traz a velha sensação de dois filmes distintos dentro de um e porque muda o tom de uma trama que, até então, parecia destinada a contar mais do mesmo, especialmente quando comparada a Querido Menino. Entretanto, Julia Roberts e Lucas Hedges conferem a consistência dramática que, muitas vezes, o filme tenta construir com desdobramentos que, perto de outros longas sobre protagonistas erráticos em uma espiral de carmas (o drama Bom Comportamento é uma excelente pedida), não chegam a ser surpreendentes. O Retorno de Ben causa maior empatia por causa dos dois, que criam uma ótima química em cena. Uma curiosidade é que o diretor não queria escalar o próprio filho para o papel, mas, por insistência de Julia Roberts, que havia se encantado com a performance de Hedges em Manchester à Beira-Mar, essa decisão foi repensada. Julia estava certa: ainda que ofuscado por Querido MeninoO Retorno de Ben é, sem dúvida, elevado por Hedges e ela.

“BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA”, de Joel Edgerton

Assim como O Retorno de BenBoy Erased: Uma Verdade Anulada tem seu impacto de certa forma amortecido quando comparado a outro título de temática equivalente. Por mais que dessa vez o espaço de tempo entre uma obra e outra seja muito maior, é impossível não traçar comparações entre o novo longa-metragem assinado pelo ator Joel Edgerton e o telefilme Orações Para Bobby, produzido pela emissora Lifetime e estrelado pela grande Sigourney Weaver em 2009. Quase dez anos separam Orações Para BobbyBoy Erased, mas a potência emocional do primeiro permanece tão intocada e referenciada que fica difícil uma obra se equiparar em potência com a mesmíssima temática. Para quem não não conhece um ou outro, ambos são títulos que encenam a história de garotos que, ao se descobrirem gays, são reprimidos por famílias conservadoras, fervorosamente religiosas e simpatizantes à ideia de que a homossexualidade pode ser curada através de tratamentos. 

Mais um filme estrelado pelo prolífero Lucas Hedges, Boy Erased é baseado nas memórias de Garrard Conley, um jovem que, na vida real, foi obrigado pelos pais a passar por uma terapia de conversão após revelar a sua homossexualidade. Com flashbacks que ilustram a fase em que o protagonista começava a perceber os sinais de sua natureza sexual, o filme explora amplamente as inacreditáveis sessões que tentam “curar” o jovem em meados de 2004: dos exercícios de postura para eliminar qualquer resquício de afetação até as lavagens cerebrais repletas de lições de moral e orações, é chocante constatar que, 15 anos depois dos acontecimentos que deram origem ao filme, tais ideias ainda sejam muito reais e potencializadas pelos tempos conservadores que vivemos.

Ao mesmo tempo, Boy Erased dilui sua consistência dramática ao preferir falar majoritariamente sobre esse sistema. Até sabemos bastante sobre o protagonista Jared Eamons (Hedges) e as relações que ele estabelece com a família, mas o roteiro, também escrito por Joel Edgerton, prefere dimensionar o personagem através do choque das terapias e não tanto pelas complexidades de sua jornada íntima, o que termina por criar uma experiência bastante cíclica, por vezes frustrante. Se as cenas de “cura gay” impactam nos primeiros registros, logo nos interessamos mais pelas vivências pessoais do protagonista com a família e com as pessoas em sua volta (uma cena no dormitório da faculdade é particularmente impactante).

Excetuando a recorrente insipidez do roteiro, Lucas Hedges se sai muito bem ao registrar a angústia e as transformações de um jovem que se encontra em um verdadeiro inferno pessoal. Seu Jared Eamons é um jovem resistente, o que traz momentos interessantes para o ator (a cena final com Russell Crowe é tocante pela maturidade com que o personagem evolui na nossa frente). Há outras facetas que Hedges pode explorar aqui ou ali, chance pouco oferecida nas mesmas proporções para Nicole Kidman, que não tem um texto à altura de sua caracterização para uma personagem cujas motivações e transformações soam verdadeiras mais pelo seu trabalho do que pela construção do roteiro propriamente dita. Hedges e Kidman mereciam uma obra mais pungente em emoção, bem ao estilo de Orações Para Bobby, longa que merece ser sempre revisto, inclusive depois de Boy Erased.

As Glorias de Sebatián Lelio: histórias praticamente iguais, mas em contextos um tanto diferentes

Despontando como um dos realizadores mais interessantes da atualidade, o chileno Sebastián Lelio recentemente dirigiu um longa-metragem vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro (Uma Mulher Fantástica) e também proporcionou momentos sublimes a atrizes como Rachel Weisz e Rachel McAdams (Desobediência). Ainda assim, a expressão mais cativante de sua identidade como realizador está no ano de 2013, com Gloria, filme que rendeu à protagonista Paulina García um incontestável Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim. Lelio diz ter imaginado o papel da protagonista-título especialmente para Paulina, intérprete que sempre o impressionou, mas que, segundo o cineasta, jamais havia recebido um papel à altura de seu talento. De certa forma, o contexto se repete agora, quando Lelio chega aos cinemas brasileiros com o remake do filme que ele próprio dirigiu em 2013.

Dessa vez, o realizador está em Hollywood e com Julianne Moore no papel principal. Não deixa de ser simbólico que ele novamente esteja valorizando uma atriz que, mesmo premiada recentemente com o Oscar (Para Sempre Alice), poderia receber mais papeis dignos de sua excelência. Paulina e Moore são, cada uma a sua maneira, atrizes fascinantes e entregam diferentes perspectivas para a mesma personagem, ainda que Gloria (2013) e Gloria Bell (2019) sejam longas-metragens praticamente idênticos. Se Sebastián Lelio resolveu dirigir o que podemos chamar de uma versão de seu próprio filme chileno para norte-americano ver sem legendas, ao menos a repetição da história vale pela chance de observar duas Glorias tão semelhantes quanto distintas.

Paulina García na última cena de Gloria: premiada por sua interpretação no Festival de Berlim, atriz tem um dos desempenhos femininos mais marcantes do cinema recente de língua latina.

Perto dos 60 anos, Gloria (Paulina García) percebe que os filhos não precisam mais de sua ajuda. Separada, ela vive sozinha, mas mantem uma vida muito ativa: trabalha, almoça com os amigos, frequenta as aulas de yoga da filha e, acima de tudo, não encara a independência ou a solidão como o fim do mundo. Pelo contrário: estar sozinha e frequentar salões de baile em busca de um novo amor ou de apenas uma noite de sexo lhe é tão natural como talvez tenha sido na juventude. É essa a preciosa maturidade de Gloria, o filme: entender possíveis entristecimentos da protagonista, mas não fazer de seus dilemas uma densa sessão de terapia na tela grande. Sebastián Lelio prefere buscar uma tônica mais agridoce para os dias da personagem, que atravessa as dores e as alegrias de estar viva como qualquer ser humano.

Ver a vida pelos olhos de uma mulher madura sem que ela esteja reduzida a qualquer sofrimento de sua própria idade faz de Gloria um longa delicadíssimo, inclusive por conhecermos a protagonista por meio de uma ótica cotidiana. Se uma dança em meio à multidão ganha contornos diferenciados é pela decisão de Sebastián Lelio de capturar o momento com um viés observacional, interferindo o mínimo possível com estilizações ou guinadas de roteiro. Com isso, Gloria se atira com imensa confiança no universo de sua personagem, e acerto maior não há: toda a beleza dessa leitura a respeito de uma mulher que vive, ama, dança e sofre como todos nós está na construção de uma figura feminina crível e de fácil identificação não apenas para quem tem traços ou histórias em comum com ela.

A imensidão de sutilezas não seria a mesma sem, claro, o desempenho espetacular de Paulina García, que está totalmente alinhada ao espírito do longa de renegar a vitimização. Ela é ao mesmo tempo discreta e profunda em cena, incorporando uma mulher que, sabotada aqui e ali por relações amorosas complicadas ou pelo próprio destino, é encantadora por ter pleno conhecimento de si e por aceitar que, na vida e no amor, é preciso fazer tentar tirar ao menos algum aprendizado das situações mais difíceis. Elegante e radiante, a presença da atriz reforça a percepção muito verdadeira de que são raros os homens que conseguem conviver com mulheres seguras e autossuficientes. Podem acreditar: é impossível não se apaixonar pela construção de Paulina literalmente até o último milésimo de projeção. 

Apaixonada pelo longa chileno de 2013, Julianne Moore revive, com seu inegável talento, a Gloria de Paulina García, mas com uma perspectiva mais estilizada e rejuvenescida.

Seis anos depois de Gloria, Sebastián Lelio mais uma vez nos leva para o universo da personagem, que, agora em terras hollywoodianas, ganha vida pelas mãos da espetacular Julianne Moore. Em termos de história, vemos praticamente o mesmo filme, com pouquíssimos ajustes (há, no máximo, a inclusão de novos personagens bastante passageiros e falas que são transferidas de uma sequência para outra), decisão tomada deliberadamente pelo diretor, que nunca quis falar sobre outros momentos de Gloria que não fossem aqueles mostrados no filme estrelado por Paulina García. Entretanto, em entrevistas sobre o remake, Lelio revela que, ao revisitar a protagonista, Gloria Bell não deixa de atualizar sua personagem, que agora tem trajetória encenada em um outro país e com uma certa estilização já ensaiada pelo diretor em Uma Mulher Fantástica.

Por contar a mesmíssima história em um curto espaço de tempo, há a sensação de que Gloria Bell é somente um produto encomendado para que os norte-americanos entrem em contato com essa belíssima personagem sem ter que recorrer a um filme chileno com legendas. À parte a questão mercadológica, sejamos justos: a história é maravilhosa, o diretor é o mesmo e, sendo assim, a matemática soa infalível. Gloria Bell bebe da fonte de uma história quase intocada em sua transposição para os norte-americanos, e quem só tem a ganhar com esse texto é Julianne Moore, que, apaixonada pela versão de 2013, ligou para Lelio, lançou a ideia de uma refilmagem e logo tornou o projeto possível, inclusive assumindo o cargo de produtora executiva. Tratando-se de Moore, não há o que duvidar: como Gloria, agora batizada com o sobrenome Bell, ela aproveita o melhor de um papel nivelado ao seu inquestionável talento.

Curiosamente, o que me impede de admirar Gloria Bell tanto quanto admiro Gloria é a escalação da atriz. Nada a ver especificamente com Moore ou com o seu desempenho: na verdade, ela é perfeita para as atualizações propostas para a personagem na refilmagem. O que acontece é que a versão chilena tinha peso maior em sensibilidade e delicadeza porque falava sobre uma mulher se aproximando da terceira idade. Mesmo que Moore tenha 58 anos e seja mais velha ao interpretar o papel do que Paulina era na época do primeiro filme (52), sua Gloria é demasiadamente bem fotografada, beirando a glamourização inclusive em luxuosas locações de Las Vegas. A decisão de escalar um ator muito mais jovem como filho de Gloria (Michael Cera) e de colocar em cena a mãe da protagonista que não existia no filme anterior (Holland Taylor) também deixa a impressão de que Gloria, em sua versão Bell, está, no máximo, chegando aos 50, o que rejuvenesce bastante o contexto de importantes complexidades que ganham outras camadas na vida de quem está perto dos 60.

“Todos Já Sabem”: trio de atores notáveis é desperdiçado por trama que não assume a sua própria natureza melodramática

Direção: Asghar Farhadi

Roteiro: Asghar Farhadi

Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Ricardo Darín, Eduard Fernández, Bárbara Lennie, Inma Cuesta, Elvira Mínguez, Ramón Barea, Sara Sálamo, Roger Casamajor, José Ángel Egido, Sergio Castellanos, Iván Chavero, Tomás del Estal

Todos lo Saben, Espanha/França/Itália, 2018, Drama, 132 minutos

Sinopse: Quando sua irmã se casa, Laura (Penélope Cruz) retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Ricardo Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Javier Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa de casamento, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um. (Adoro Cinema)

É um feito e tanto: reunir, em um mesmo filme, Javier Bardem, Penélope Cruz e Ricardo Darín, nada menos do que três grandes ícones do cinema contemporâneo de língua latina. A expectativa também se multiplica porque Todos Já Sabem é dirigido pelo premiado cineasta iraniano Asghar Farhadi, que assinou dois títulos premiados com o Oscar de melhor filme estrangeiro: A Separação (2012) e O Apartamento (2016). Ainda assim, com todas as variáveis trabalhando a favor do resultado, a recepção morna no Festival de Cannes em 2018 já sugeria que tal mistura não havia resultado em grande coisa, e é preciso realmente ver para crer: não só Todos Já Sabem desperta a desoladora frustração de não ser uma obra à altura dos profissionais envolvidos em sua realização como deixa a certeza de que, mesmo se fosse um projeto menos suscetível a expectativas, seria impossível não sair desapontado com a limitação de ideias de um roteiro inacreditavelmente escrito no piloto-automático.

Somente o segundo longa-metragem espanhol a abrir uma edição do Festival de Cannes (o primeiro foi Má Educação, de Pedro Almodóvar, em 2004), Todos Já Sabem parte da vontade de contar uma história bastante cotidiana e familiar, onde Laura (Penélope Cruz), uma mulher espanhola vivendo na Argentina, volta a sua terra-natal para o casamento da irmã. Lá, reencontra um amor mal resolvido do passado e, de repente, enfrenta uma situação angustiante que colocará os nervos, as memórias e as emoções da família à flor da pele. Farhadi, que também assina o roteiro, leva um tempo considerável da projeção apenas acompanhando os personagens em tarefas mundanas, claramente convidando o espectador a fazer parte daquele universo. A proposta não deixa de causar estranheza em um primeiro momento, pois toma tempo demais da projeção sem sugerir basicamente nada do que será a matéria-prima dos dramas posteriores.

Finalmente, quando os personagens de Todos Já Sabem passam a enfrentar o tal acontecimento que desafia a consistência dos laços familiares, a preparação de terreno é percebida na tela, muito porque Javier Bardem e Penélope Cruz (dois excelentes atores que ficam ainda melhores quando atuam em espanhol) conferem por si só um inegável sentimento de intimidade para a dupla de personagens que interpretam. O que derruba Todos Já Sabem, entretanto, é a escolha de contar a história em tom de melodrama familiar, construindo uma novela limitadíssima do ponto de vista emocional que, por outro lado, tenta se apresentar como comedida e introspectiva. Não há problema algum no melodrama (ele, inclusive, quando bem trabalhado, é capaz de alcançar notas interessantíssimas, como no Álbum de Família estrelado por Meryl Streep e Julia Roberts), mas, quando inexiste qualquer resquício de frescor ou simplesmente a vontade de assumi-lo, é difícil nutrir qualquer tipo de entusiasmo.

Todos Já Sabem é um imperdoável desperdício de talentos porque tenta disfarçar o tom novelesco de uma série de dilemas no mínimo batidos para quem tem o mínimo de vivência cinematográfica. Há tudo o que você pode imaginar: homens com histórico de alcoolismo, rancores envolvendo negócios familiares mal resolvidos, segredos de gravidez guardados durante anos, adolescentes em ebulição sexual e o filho da empregada que até hoje é julgado em função de sua origem. Do micro ao macro, Todos Já Sabem acumula melodramas, mas parece envergonhado de abraçá-los como parte de sua personalidade, o que é grave para uma trama que se desenvolve justamente a partir de desdobramentos tão novelescos. Dessa maneira, Farhadi cria uma obra contraditória: como uma odisseia familiar, não possui sequer uma verve hiperbólica para que os atores tirem algum proveito; como um suposto filme de arte, não tem a sofisticação dramática que lhe impulsione a esse título. 2019 mal começou e já temos uma das grandes frustrações do ano.

“A Favorita”: Yorgos Lanthimos desafia as formalidades dos filmes de época e mostra do que realmente é feita uma comédia esperta e refinada

Some wounds do not close. I have many such.

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Deborah Davis e Tony McNamara

Elenco: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Mark Gatiss, James Smith, Carolyn Saint-Pé, Faye Daveney, Emma Delves, Paul Swaine, Jennifer White, LillyRose Stevens, Denise Mack

The Favourite, Irlanda/Reino Unido/Estados Unidos, 2018, Comédia, 119 minutos

Sinopse: Na Inglaterra do século XVIII, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana (Olivia Colman). Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes à oportunidade única. (Adoro Cinema)

Por se tratar de um filme de época com um tom assumidamente cômico, A Favorita corre o grande risco de ser subavaliado, como se não passasse de uma brincadeira passageira entre três atrizes em estado de graça. Isso porque, historicamente, comédias sempre foram, em sua maioria, relacionadas à leveza, à descontração ou, então, ao mero pastelão. Não se engane, contudo, ao achar que o novo longa do cineasta grego Yorgos Lanthimos está limitado a esse jogo de maldades e armadilhas arquitetado por duas mulheres sedentas pela atenção de uma rainha inconstante. Há mais inteligência por trás de A Favorita do que avaliações preliminares julgam supôr, e o que esse título recordista de indicações ao Oscar 2019 faz é subverter, através da comédia, a caretice tão tradicional dos filmes de época, criticando a mediocridade monárquica, a imaturidade masculina e o modo autodestrutivo com que conduzimos relações de diversas naturezas a partir das nossas próprias vaidades.

Malicioso, irônico e vibrante, A Favorita reúne, somente nessas breves adjetivações, qualidades que os filmes de época não costumam ostentar. Aliás, é de se tirar o chapéu para o fato da obra já partir de uma sábia decisão: a de se inspirar em informações históricas, e não necessariamente reproduzir fielmente fatos e acontecimentos. Sem sequer dizer para o espectador o ano em que sua trama acontece, A Favorita não apresenta letreiros contextualizando o período histórico ou explicando qualquer curiosidade sobre a veracidade das três personagens principais. É, portanto, um projeto que abraça o prazer das liberdades dramáticas em detrimento da caretice de seguir à risca os fatos verídicos, o que é fundamental para que o roteiro faça adaptações afiadas e divertidas, inclusive com um vocabulário que dispensa diálogos formais e rebuscados, substituindo-os por xingamentos como bitchcunt.

A partir disso, A Favorita se permite fazer críticas sobre a tolice do regime monárquico, interpretando a política palaciana como uma espécie de estorvo na vida de três personagens cujo maior interesse é protagonizar o controle das relações de poder entre elas próprias. Não à toa, as decisões da rainha, como o aumento impostos para as terras de grandes propriedades, são tomadas com a mesma rapidez com que são desfeitas, já que Anne (Olivia Colman) governa sem ter muita noção do que está fazendo em seu cargo. Para ela, qualquer decisão política é tediosa e tem mais valor como uma forma de controlar o afeto de sua fiel escudeira Sarah Churchill (Rachel Weisz) do que de fato dar algum sentido para o reinado em si.

Enquanto as mulheres de A Favorita são representadas como figuras afiadas e maliciosas, os homens surgem como figuras toscas e imaturas: eles chutam mesas quando contrariados, jogam frutas uns nos outros, buscam fofocas entre os corredores para conquistar alguma informação secreta e — eis o mais divertido — correm, em termos políticos e afetivos, atrás de mulheres que estão anos-luz à frente em termos de esperteza e estratégia. É uma ideia que atualiza ainda mais a obra e que está tão enraizada na trama que a figurinista Sandy Powell também reproduz com plena elegância no guarda-roupa desenhado para o filme. De um lado, as personagens femininas vestem variações de roupas em preto-e-branco, como se fossem figuras de um tabuleiro de xadrez. De outro, os homens desfilam com perucas imensas, abarrotados de maquiagem e carregando diversos apetrechos, como verdadeiros bobos da corte.

Tal interpretação hiper contemporânea acerca dos papeis masculinos e femininos na sociedade elimina qualquer poeira que poderia existir em A Favorita, uma comédia que utiliza o humor como ferramenta para dar nova leitura a uma trama que, no fundo, é bastante triste. Apesar das risadas, o roteiro escrito pela dupla Deborah Davis e Tony McNamara é afiadíssimo ao analisar as consequências de atos que tomamos por puro ego e interesse — e elas pouco se referem à conquista ou não de poderes políticos, mas sim à autodestruição afetiva e emocional que as personagens passam a estimular inconscientemente. Dito isso, o desfecho é menos catártico do que se poderia esperar, considerando o jogo de disputas estabelecido ao longo do filme. Ao invés de dar as respostas fáceis de quem ganhou ou quem perdeu, A Favorita explora o desconforto e a tristeza por trás de um humor, que, como nas melhores comédias, fala, na realidade, sobre as nossas próprias tragédias e fragilidades.

Impecáveis em papeis ricos e sagazes, Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone são um espetáculo como as três mulheres em polvorosa entre os corredores de um palácio imponente. Como o centro de toda a história, Colman, em especial, é brilhante: poucas atrizes conseguiriam traduzir com tanto controle e complexidade as oscilações de uma mulher desequilibrada, carente e insegura sem torná-la uma demente histérica — e, considerando que boa parte do seu trabalho é baseado mais em expressões do que em diálogos, esse feito só se engrandece. Orbitando a rainha, Rachel Weisz e Emma Stone estão inspiradíssimas: a primeira tem a difícil tarefa de pincelar nas entrelinhas os afetos sinceros mas pouco verbalizados de uma mulher aparentemente inabalável e segura de sua influência no reinado de uma rainha ausente, enquanto a segunda se diverte ao representar a maquiavélica esperteza por trás do sorriso simpático de uma jovem que usa uma falsa inocência para alcançar seus objetivos.

A Favorita é, digamos, o trabalho mais “palatável” do diretor Yorgos Lanthimos, ainda que sua identidade como realizador esteja claramente impressa aqui, como nas lentes angulares que distorcem diversas sequências (outra ótima sacada para tirar o longa das convencionalidades estéticas do gênero). Em comparação a títulos como O Lagosta e o recente O Sacrifício do Cervo Sagrado, há mesmo um conceito mais brando em forma e estilo, o que, por outro lado, não parece assinalar uma domesticação do diretor. Seria heresia afirmar isso, pois A Favorita é um filme de época que derruba as formalidades de incontáveis títulos dessa natureza, entregando uma comédia refinada e afeita ao humor como uma ferramenta de expressão para sentimentos muito mais complexos do que a risada fácil que a indústria tanto acostumou o grande público a consumir.

“Assunto de Família” e “Cafarnaum”: do Japão ao Líbano, não há nada mais bonito ou aterrador do que a própria vida

Premiados no Festival de Cannes do ano passado e agora indicados ao Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro, Assunto de Família e Cafarnaum apresentam diferentes perspectivas para histórias centradas na miséria e nas relações familiares. Enquanto o primeiro esbanja a sábia delicadeza dos dramas japoneses, o segundo constrói uma trágica odisseia em um Líbano divido entre o desamparo e o caos. São dois relatos de abordagens amplamente opostas, mas que, conferidos em uma sessão dupla, têm muito a dizer um sobre o outro, seja como obras audiovisuais ou como preciosos registros humanos.

“ASSUNTO DE FAMÍLIA”, de Hirokazu Koreeda

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2018, o drama Assunto de Família mostra um lado completamente diferente e até mesmo desconhecido do Japão grandioso que costumamos guardar na memória. No filme de Hirokazu Koreeda, acompanhamos, uma família pobre que, formada por sete ou oito integrantes, encontra-se amontoada em uma casa de espaço limitadíssimo e se vê embolada em roubos de mercados para ter o que comer. Cada um vive aos trancos e barrancos tentando sobreviver, o que não impede o acolhimento uma nova criança que vivia desassistida em um lar hostil. O bondoso gesto com a adorável pequena é a perfeita síntese do que faz de Assunto de Família uma obra encantadora: mesmo em meio às dificuldades, os personagens nos mostram que a generosidade e o amor ao próximo podem (e devem) sempre prevalecer.

Tamanha delicadeza para ver o melhor do ser humano inclusive em seus momentos mais difíceis só poderia vir do Japão, país cuja filmografia é marcada por obras tão singelas quanto sábias (vale lembrar, por exemplo, do drama A Partida, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009). É buscando o minimalismo que Assunto de Família se torna tão tocante: ao invés de concentrar sua atenção nas adversidades enfrentadas por cada personagem, o longa lança um olhar carinhoso para as relações humanas. Sem julgar qualquer atitude de seus personagens, Koreeda, que também escreve o roteiro, busca tocantes complexidades inclusive em atos que poderiam ser condenados. Afinal, como ficar indiferente à sequência em que o pai da família diz, com uma tristeza de cortar o coração, que ensina seus filhos a roubarem porque isso é a única coisa que ele saberia ensinar a eles?

Ao desenhar a beleza dos personagens através de suas atitudes erráticas, Assunto de Família dispensa extremos ou estereótipos para entregar uma narrativa tanto mundana quanto refinada. É bem provável que, ao longo do filme, você pense que pouco está acontecendo para, ao final, assim como na própria vida, perceber que grandes histórias não são necessariamente feitas de grandes acontecimentos. Ainda que ambientado em uma cultura deveras diferente da nossa, é fácil se sentir parte da família em questão, como se de fato convivêssemos com aquele pequeno grupo, compartilhando suas dores e alegrias. O terço final, aliás, ao redimensionar o afeto e a familiaridade dos personagens a partir de importantes desdobramentos dramáticos, é a comprovação máxima de como o espectador pode se pegar envolvido com toda a situação tanto quanto as figuras em cena, algo que Koreeda, com muita habilidade, alcançou de maneira quase despercebida durante o filme.

Mais do que uma obra repleta de sabedoria, Assunto de Família é um primor em toda a sua discretíssima concepção técnica, começando pelo design de produção, que, em uma casa apertadíssima, apresenta as limitações daquela família a partir de cada detalhe da decoração, com roupas empilhadas, estantes assoberbadas de objetos e camas improvisadas em ambientes que não dão conta de tantas pessoas convivendo juntas. O calor, contextualizado pelo som das cigarras e pelo sol e suor que invadem esse espaço cercado por árvores e plantações, também traz uma nova perspectiva das dificuldades dos personagens, que tomam banho de jarra por não existir sequer um chuveiro dentro do imóvel e que encontram, em uma rápida viagem à praia, um alento físico e emocional. Nessa passagem litorânea, há uma linda, natural e despretensiosa comunhão entre os personagens, que, por uma breve tarde, conseguem andar livres e, na medida do possível, sem preocupações. Precioso na essência e na estruturação de seus valores humanos, Assunto de Família é, indubitavelmente, uma pérola.

“CAFARNAUM”, de Nadine Labaki

Vem do Líbano um dos filmes mais aterradores de que se tem notícia nas últimas décadas: Cafarnaum, o terceiro longa-metragem da cineasta Nadine Labaki, que arrancou lágrimas e aplausos das plateias do último Festival de Cannes, de onde saiu com o Prêmio do Júri, uma espécie de terceiro lugar na competição. Tal comoção é plenamente justificada do início ao fim da obra, mas tentar antecipar ou se preparar para qualquer tipo de efeito que ela possa causar é inútil, pois tudo é infinitamente mais poderoso do que se poderia supor. Ao contrário de Assunto de Família, com quem disputa o Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro, Cafarnaum é uma trágica odisseia que assume e abraça a dor, sem se preocupar em amenizá-la ou maquiá-la de alguma forma.

O cinema-verdade proposto por Labaki parte de uma história inacreditável por si só: aos 12 anos, um menino libanês decide processar os pais por eles terem lhe dado a vida, pedindo aos tribunais para que seus progenitores indiferentes e alheios aos incontáveis filhos sejam proibidos de procriar dali em diante. É impossível discordar do pequeno Zain (Zain Al Rafeea), que, assim como tantas outras crianças do país, vive uma realidade inacreditavelmente miserável, abandonada e desumana. Cafarnaum, contudo, é sobre a jornada anterior a esse encontro nos tribunais e sobre todas as situações que levaram o menino a se tornar um assumido adversário dos próprios pais (menino em termos, uma vez que Zain se viu obrigado crescer muito antes do esperado, sendo muito mais adulto e responsável do que aqueles que lhe deram a vida).

Enquanto vende sucos, transita por ruas imundas, apanha em casa e até ajuda a irmã a esconder a primeira menstruação para que ela não seja vendida a um quitandeiro qualquer em troca de galinhas, o protagonista tenta sobreviver em um mundo impiedoso e sem a mínima perspectiva de esperança. Para registrar esse sentimento, Nadine Labaki confere, claro, grandeza cinematográfica ao projeto, mas prefere registrar a dramaticidade de seu personagem como um fidelíssimo documentário, inclusive porque todas as 200 horas de imagens capturadas (e condensadas em um longa de duas) foram encenadas por não-atores que, na maior parte dos casos, revivem histórias muito parecidas com as das suas próprias vidas. Em Cafarnaum, a existência miserável de populações esquecidas pelo mundo está posta na tela como ela realmente é, com a propriedade de uma diretora que conhece a realidade que encena, o que torna tudo ainda mais devastador.

Somente as deploráveis condições de vida colocadas na tela sem filtros já bastariam para eliminar qualquer suspeita de que tantas doses cavalares de desgraça são golpe baixo ou apelação da diretora. Não. O que se vê em Cafarnaum é realmente adaptado de tudo aquilo que Labaki viu ou ouviu durante sua pesquisa local para o filme, sem tirar nem pôr. Não à toa, é no mínimo simbólico que, em cena, ela faça o papel da advogada que se voluntaria a trabalhar com Zain no processo contra os pais. Com total respeito, Labaki entra nesse universo com a mesma proposta que fez de Central do Brasil um colosso: através da jornada trágica e particular do protagonista pelas ruas do Líbano, observamos um país em convulsão equivalente, sendo impossível desassociá-los em toda a sua tristeza e desesperança.

A dor está tão enraizada em Cafarnaum que qualquer vislumbre de esperança soa tão poético quando devastador. É impossível segurar as lágrimas quando vemos uma mãe roubando os restos de um bolo para o aniversário de seu bebê ou quando Zain posiciona um espelho na janela para, através do reflexo, conseguir assistir ao desenho animado exibido na TV do vizinho. Momentos como esses talvez doam porque são capazes de colocar nós, espectadores privilegiadíssimos e afortunados, no nosso devido lugar: perto da miséria que existe nesse mundo, não temos problemas algum, e qualquer reclamação que possamos fazer parece desprezível quando comparada aos obstáculos do protagonista de Cafarnaum, interpretado de maneira indescritivelmente milagrosa e poderosa pelo refugiado sírio Zain Al Rafeea. Se há algo que Nadine Labaki não quer fazer é segurar a mão do espectador ou dizer que tudo ficará bem. Muitas vezes, para a nossa própria evolução como seres humanos, a franqueza é o maior presente que podemos receber, inclusive na sala de cinema.