Cinema e Argumento

Rapidamente: “Apresentando os Ricardos”, “Cruella”, “Druk” e “Duna”

BEING THE RICARDOS

Como a inesquecível Lucille Ball, Nicole Kidman tem, em Apresentando os Ricardos, a sua melhor interpretação no cinema em pelo menos dez anos.

APRESENTANDO OS RICARDOS (Being the Ricardos, 2021, de Aaron Sorkin): Ao que tudo indica, Aaron Sorkin tem a intenção de se tornar uma espécie de referência em filmes históricos/cinebiográficos — o que, neste caso, não é uma notícia das mais entusiasmantes. Tanto em Os 7 de Chicago quanto agora em Apresentando os Ricardos fica claro que ele pode até ser bom roteirista, mas também o quão longe ele está de ser um diretor inspirado. Se outrora seus roteiros rendiam forma criativa nas mãos de diretores como David Fincher (A Rede Social) e Danny Boyle (Steve Jobs), agora eles se apequenam por justamente não terem um cineasta de visão atrás das câmeras. Apresentando os Ricardos é uma produção que parece ter sido feita a toque de caixa, inclusive do ponto de vista técnico, onde aspectos como design de produção, figurino e trilha sonora soam até familiares, como se já tivessem sido usados em outros filmes de ideias semelhantes. Sorkin aposta na alternância da vida de Lucille Ball (Nicole Kidman) à frente e atrás das câmeras, do seu sucesso estrondoso com I Love Lucy ao seu romance com Desi Arnaz. Acusações envolvendo uma suposta participação de Lucille no partido comunista vêm à tona, e o roteiro busca equilibrar esse recorte com idas e vindas no tempo para ilustrar outros pontos da carreira da estrela. Só que nada ganha a devida tração, restando para Nicole Kidman a tarefa tão recorrente em filmes desse gênero de trazer algum brilho para o filme. E ela consegue, mas não na mímica da Lucille conhecida do público: é nos bastidores da vida da protagonista que Nicole entrega a sua interpretação mais completa e envolvente em pelo menos dez anos. Ela merecia um longa à altura deste momento.

CRUELLA (idem, 2021, de Craig Gillespie): Tenho resistência às desconstruções que a Disney vem fazendo de suas vilãs porque a saída é sempre a mesma: encontrar um outro vilão como explicação. Foi assim com Malévola, que inaugurou, em 2014, essas desconstruções, e é agora, mais uma vez, com Cruella, longa dedicado às origens da icônica Cruella de Vil da animação 101 Dálmatas. Na pele da personagem, Emma Stone se diverte com sua desenvoltura habitual e com os incontáveis e criativos figurinos assinados por Jenny Beavan, vencedora do Oscar por Mad Max: Estrada da Fúria. Outra Emma, entretanto, diverte-se ainda mais: a Thompson, vivendo a nova vilã que vem para justificar as razões que levaram Cruella e se tornar Cruella. Ela é deslumbrante e divertida em exageros performados sempre no ponto e coerentes com o tom adotado pelo filme. Tirando esses acertos da conta, resta muito pouco em Cruella, pois o filme segue a receita habitual da nova coleção de trabalhos da Disney sobre suas vilãs, estendendo-se além da conta com uma trama em que já sabemos onde tudo vai dar. Em comparação com a animação de 1961, falta à Cruella uma personalidade que vá além dos looks inegavelmente criativos. A Disney já confirmou uma continuação, e fico na expectativa para que, na sequência, possamos mergulhar de verdade nas sombras que fazem de Cruella de Vil uma grande vilã.

DRUK: MAIS UMA RODADA (Druk, 2021, de Thomas Vinterberg): Vencedor do Oscar 2021 de melhor filme internacional, Druk: Mais Uma Rodada talvez seja um dos filmes mais “acessíveis” da carreira do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, e isso não é mau sinal, ao contrário do que costuma acontecer com muitos diretores. Muito mais do que uma brincadeira envolvendo quatro amigos que, tendo descoberto um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida, Druk é uma análise muito bem articulada sobre os estímulos bons ou ruins que procuramos para encontrar algum sentido e atravessar os nossos dias tão exaustivamente mundanos. Passada a euforia vivida pelos personagens a partir da premissa apresentada, Vinterberg convida o espectador a adentrar nas razões que levaram os quatro amigos a procurar um caminho alternativo. É possível voltarmos a ser quem um dia já fomos? Em que momento as coisas se perdem pelo caminho? Como acontecimentos tão cotidianos podem descaracterizar uma vida? Essa virada de chave para o que orbita o experimento etílico não limita Druk à instigante curiosidade de seu ponto de partida, colocando a experiência em um patamar mais reflexivo, sempre potencializado pela ótima interpretação de Mads Mikkelsen, e com direito a passagens catárticas, como a cena final, embalada pela ótima canção “What a Life”, do Scarlet Pleasure, e facilmente um dos momentos mais marcantes entre as produções lançadas no Brasil em 2021.

DUNA (Dune: Part One, 2021, de Denis Villeneuve): O canadense Denis Villeneuve tem redefinido o cenário de blockbusters “conceituais”, movimento ensaiado em A Chegada, evoluído em Blade Runner 2049 e agora consolidado de vez em Duna. Meu envolvimento com os filmes do diretor, no entanto, tem sido inversamente proporcional às dimensões cada vez mais ambiciosas trabalhadas por ele. Sinto falta do Villeuve de filmes como Incêndios, O Homem Duplicado, Sicario e Os Suspeitos ao me deparar com trabalhos como este recente Duna, uma odisseia tão grandiosa quanto insípida e que já recebeu carta branca para um segundo capítulo. Além de replicar o problemático e elitista discurso de ser um filme para ser visto na sala de cinema, Villeneuve não sustenta o filme em uma tela menor, onde Duna se torna maçante e até mesmo tecnicamente frustrante. Se o diretor, assim como em Blade Runner 2049, tenta engrandecer, a todo custo, uma história mínima e circular, atributos como a fotografia de Greig Fraser perdem o impacto, rendendo uma sessão nada sensorial e deveras escura, a ponto de não se enxergar direito boa parte da história. O grande elenco, do protagonista Timothée Chalamet a participações especiais como as de Charlotte Rampling e Zendaya, vaga por areias infinitas em uma trama sem senso de urgência e pasteurizada em um mesmo tom. Na tela grande, Duna pode ser um espetáculo. Em casa, é basicamente um sonífero para quem não abraça o conceito.

“Turma da Mônica: Lições” confirma êxito da franquia com sequência madura em conflitos e ideias

Não é preciso ser diferente pra ser único.

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Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori e Mariana Zatz, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Lições”, de Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi

Elenco: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Monica Iozzi, Paulo Vilhena, Isabelle Drummond, Malu Mader, Vinícius Higo, Gustavo Merighi, Camila Brandão, Lucas Infante, Emily Nayara, Ana Carolina Godoy, Beto Schultz, Angélica Paula, Adriano Paixão, Gabriel Blotto, Pedro Souza

Sinopse: Mônica (Giulia Benitte), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) fogem da escola. Agora, terão que encarar as suas consequências, e elas não serão poucas. Nesta nova jornada, a turma descobrirá o real valor e sentido da palavra amizade.

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Até onde se tem notícia, a versão cinematográfica da Turma da Mônica será composta por uma trilogia inteiramente comandada pelo cineasta Daniel Rezende. Há fôlego de sobra para que a franquia se desdobre em mais capítulos, mas, se for mantida a ideia de somente três filmes, é bem provável que seja entregue uma trinca invejável. Isso porque o segundo capítulo intitulado Lições chega aos cinemas brasileiros preservando e ampliando o que deu certo em Laços ao mesmo tempo em que compreende sua missão como um filme de transição, preparando o terreno para um terceiro capítulo onde, possivelmente, Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali se confrontarão até mesmo com dilemas de gente grande.

Para falar a verdade, Lições já coloca os pequenos em situações muito próximas da vida adulta. Ao afastarem Mônica do resto da turma, os roteiristas Thiago Dottori e Mariana Zatz, mais uma vez tomando como base a graphic novel de Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi, conduzem os personagens a reflexões sobre crescer e as coisas que perdemos ou devemos lutar para reconquistar pelo caminho. E vão além: é no mínimo surpreendente como Dottori e Zatz introduzem temas bastante contemporâneos através de características marcantes das figuras criadas por Mauricio de Sousa. Ver Lições interpretando a fome infinita de Magali como uma questão de ansiedade passível de ser tratada mostra que a franquia veio mesmo para dizer coisas novas e importantes.

A visão amadurecida dos personagens é bem-vinda a Lições porque filmes intermediários de trilogias costumam patinar para encontrar alguma identidade e não simplesmente replicar os acertos de um primeiro capítulo. Pois o longa de Daniel Rezende tem excelente noção do tempo e o quanto ele, na infância, parece se arrastar na mesma medida em que voa sem percebermos. O quarteto de protagonistas pode ter certa resistência, mas a convocação para o crescimento já está aí, e o desafio é conseguir manter o espírito de criança mesmo com a vida adulta acenando no horizonte. Tal norte tomado por Lições cria bases muito sólidas para um filme de transição ainda melhor que seu antecessor e com bastante a contribuir para a franquia.

Outro aspecto que gosto muito no longa de Rezende é como ele não cai em duas armadilhas plantadas desde os primeiros minutos de projeção. A primeira é em relação à narrativa episódica. Por ter um foco muito maior na vida escolar dos protagonistas, Lições parecia fadado a ser um conjunto de esquetes e aventuras, como um entretenimento caça-níqueis. Longe disso: com habilidade, Lições apenas se utiliza do contexto escolar para tratar de questões mais íntimas de seus personagens. A segunda se refere à introdução de outros personagens dos quadrinhos, como Franjinha, Tina e Do Contra. Ainda que haja certo excesso na quantidade de aparição deles, todos trazem alguma contribuição para o desenrolar da trama.

Para quem, assim como eu, já era fã de carteirinha do filme anterior, só há boas notícias em Lições, com a consolidação de tudo o que funcionava em Laços, do design de produção super caprichado ao tom nostálgico em homenagem à infância eternizada nos quadrinhos de Mauricio de Sousa. E são indispensáveis novos elogios para Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira, que fazem um trabalho maravilhoso como Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, respectivamente. Em tempo de tela, o destaque para os dois primeiros continua evidente, o que, no entanto, é de certa maneira equilibrado pelo fato de todos terem conflitos que desafiam suas personalidades isoladas e tão únicas. No próximo filme, eles estarão bem acompanhados de outro querido personagem que ainda não deu as caras, e vale acompanhar os créditos finais para descobrir quem está prestes a se juntar ao time. 

Em “Casa Gucci”, as manchetes e o marketing importam mais do que o filme em si (e isso nunca é uma boa notícia)

Father, son and House of Gucci.

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Direção: Ridley Scott

Roteiro: Becky Johnston e Roberto Bentivegna, baseado no livro “Casa Gucci: Uma história de glamour, ganância, loucura e morte”, de Sara Gay Forden

Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Jeremy Irons, Salma Hayek, Jack Huston, Alexia Murray, Vincent Riotta, Gaetano Bruno, Camille Cottin, Youssef Kerkour

House of Gucci, EUA/Canadá, Drama, 158 minutos

Sinopse: O casamento e o divórcio turbulento entre Patrizia Reggiani (Lady Gaga) e Maurizio Gucci (Adam Driver) leva a um assassinato.

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Com frequência, Hollywood se apropria de histórias da vida real (e com vocações cinematográficas) para realizar filmes que acreditam no apelo isolado dos fatos retratados como fórmula de sucesso, o que faz com que algo muito importante se perca nas discussões: a obra em si. Casa Gucci padece desse mal: tem Lady Gaga, que já deu incontáveis entrevistas sobre o seu método de atuação; há também a força da marca Gucci para despertar expectativas em torno de como o mundo da moda será retratado; e, por fim, soma-se a curiosidade voyeurística do público pelos bastidores da vida de ricos e poderosos envolvidos em crimes ou escândalos. Salvas raras exceções, não vejo como boa notícia quando curiosidades orbitantes ganham mais holofotes do que o próprio filme. Inclusive, vejo quase como quase uma sentença de que receberemos muito pouco em troca, e o novo trabalho de Ridley Scott não foge à regra.

Entendo, claro, o quanto tudo isso faz parte de um jogo muito natural de Hollywood. Por isso mesmo, também deixo de lado a problemática da apropriação cultural, visto que isso obviamente está posto desde os primeiros minutos de Casa Gucci, quando constatamos o quanto o filme está mais interessado nas caricaturas, nas perucas, nos sotaques e nos confetes do que em contar uma boa história. Tendo feito essas observações, parto para o filme em si, que, como esperado, já deu conta do esperado circo midiático em torno de sua realização (membros da família Gucci ficaram desgostosos com o resultado, enquanto o consagrado estilista Tom Ford diz ter dado risadas ao assistir ao longa, mas pelas razões erradas).

Assinado por Becky Johnston e Roberto Bentivegna, a partir do livro Casa Gucci: Uma história de glamour, ganância, loucura e morte, de Sara Gay Forden, o roteiro é um dos problemas centrais do filme de Ridley Scott, outrora um diretor de títulos inesquecíveis como Thelma & Louise, Blade Runner: O Caçador de Androides e Alien: O 8º Passageiro. Até dá para classificar como interessante a decisão dos roteiristas em se debruçar no encadeamento de fatos que levou ao assassinato em questão e não em todo o burburinho crime em si, mas a aposta só seria vitoriosa se Casa Gucci não fosse previsível, disperso, risível na construção de conflitos e sem ritmo até chegar ao tão aguardado “clímax” (entre aspas por razões a serem comentadas daqui a pouco).

O roteiro, de certa forma, está configurado mais como uma checklist de tudo o que não poderia faltar no episódio em questão, não abrindo espaço para respiros: a cada cena, Casa Gucci introduz um personagem, promove uma mudança de ares, apresenta um conflito que desaparece tão rápido quanto surge, faz variar motivações conforme cada acontecimento e revela uma coisa aqui e outra ali para criar intrigas e desafetos. Inexiste o espaço para nuances e camadas. Tudo está verbalizado e pontuado em marcos específicos, o que demonstra a dificuldade de Casa Gucci em explorar as verdadeiras essências e leituras dramáticas de fatos que, aqui, nada mais são do que meros… Fatos.

Fatos por fatos, esperava, ao menos, que o filme guardasse o melhor para o final, quando Maurizio Gucci (Adam Driver) é morto a mando de Patrizia Reggiani (Lady Gaga). Contudo, Casa Gucci termina abruptamente logo após duas ou três cenas subsequentes ao assassinato de Mauricio. É um anticlímax completo porque tanto não temos a recompensa de uma história bem contada até ali como também a parte que poderia dar alguma tração de última hora para a narrativa fica somente para os letreiros dos créditos finais. Erro duplo: a ideia de preferir a jornada do que o ponto de chegada é desarranjada e sequer  ganhamos algo em troca ao final para atenuar o cansaço até ali.

Toda a longa e exaustiva caminhada rumo ao desfecho é o que Casa Gucci tem de pior. Falta boa inflexão a cada virada de chave, a exemplo da súbita mudança de dinâmica no casamento de Mauricio e Patrizia, bem como a decisão de Patrizia em assassinar o marido, algo repentino demais para um roteiro tão dedicado a mostrar como a personagem operava para manipular Mauricio e se tornar uma figura fundamental dentro dos negócios da Gucci.

Aliás, qual seria a dimensão desse império e a razão da Gucci ser Gucci? Considerando o que é mostrando neste longa, sabemos muito pouco. Mais uma vez simplista — e aí também se repete o problema da falta de nuances —, o roteiro não dimensiona os processos criativos da marca, a engenhosidade das operações de negócios e o requinte dos bastidores. Passagens com potencial para serem triunfantes ganham espaço como acontecimentos quaisquer, a exemplo do período em que a Gucci estava em derrocada e se reergue a partir da ascensão de Tom Ford nas passarelas. Em certo ponto, chega a nosso conhecimento que Clark Gable usou sapatos da marca e que os icônicos lenços de Rodolfo Gucci (Jeremy Irons) estiveram no pescoço de Grace Kelly. Entretanto, fica para uma pesquisa pós-filme entender como tudo isso se deu.

Ao não ser um trabalho de encher os olhos em termos de figurino ou de caracterização, Casa Gucci tinha outra chance de ouro: se justificar na diversão e no aproveitamento de um elenco estelar. Só que a pompa raramente corresponde ao que se vê na tela. Jeremy Irons e Al Pacino, como os grandes atores que são, tentam tirar algum proveito, mas o roteiro e todo o contexto os aprisionam. Eles são bons acertos se lembrarmos da desastrosa interpretação de Jared Leto como o fracassado Paolo Gucci. Leto mira em uma leitura tragicômica e acerta no constrangimento, para dizer o mínimo.

A cota de entretenimento de Casa Gucci está na performance de Lady Gaga, visivelmente se divertindo do início ao fim. A cantriz, como sempre, tem grande presença, ainda mais se tratando de uma personagem com muitas particularidades. Se, na superestimada performance de Nasce Uma Estrela, eram claras as suas limitações dramáticas quando o filme lhe exigia maior repertório, aqui ela é mais funcional porque a história demanda presença e estrelato, atributos que Gaga, como um ícone pop e não necessariamente atriz, tem de sobra. A única ressalva é a de que, a partir determinado momento, sua personificação de Patrizia estaciona em uma nota só.

Costumo dizer que tão frustrante quanto ter uma experiência ruim ou mediana na sala de cinema é ter uma morna e que nem mesmo nos erros consegue criar um guilty pleasure involuntário. Para muitos, como já pude constatar, Casa Gucci diverte e sobrevive bem aos seus eventuais problemas. Não foi assim comigo. Desejava que tivesse sido, mas ver um filme que busca graça em frases como a de que não devemos confundir chocolate com cocô porque ambos se parecem mas tem gostos diferentes, não está nadinha próximo das minhas afinidades cinematográficas.

“Amor, Sublime Amor”: estreia de Steven Spielberg no gênero musical traz novos (e bons) ares para o diretor

Life matters even more than love.

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Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Tony Kushner, baseado no libreto e no musical “West Side Story”, de Arthur Laurents, com música de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim

Elenco: Rachel Zegler, Ansel Elgort, Ariana DeBose, Rita Moreno, David Alvarez, Mike Faist, Josh Andrés Rivera, Brian d’Arcy James, Corey Stoll, David Aviles Morales, Ricardo Zayas, Carlos E. Gonzalez, Ricky Ubeda, Andrei Chagas, Adriel Flete

West Side Story, EUA, 2021, Musical, 156 minutos

Sinopse: Nova Iorque, 1957. As gangues Jets, estadunidenses brancos, e os Sharks, descendentes e/ou porto-riquenhos, são rivais que tentam controlar o bairro de Upper West Side. Maria (Rachel Zegler) acaba de chegar à cidade para seu casamento arranjado com Chino (Josh Andrés Rivera), algo pelo qual ela não está muito animada. Quando, em uma festa, a jovem acaba se apaixonando por Tony (Ansel Elgort), ela precisará enfrentar um grande problema, pois ambos fazem parte de gangues rivais: Maria dos Sharks e Tony dos Jets.

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Lenda da Broadway, Stephen Sondheim nos deixou no último mês de novembro, aos 91 anos. Seu legado como compositor e letrista é imenso, e várias das obras que ele assinou para os palcos também ganharam versões cinematográficas, como o Sweeney Todd, de Tim Burton, e o Caminhos da Floresta, de Rob Marshall. Entretanto, poucos trabalhos de Sondheim são tão célebres quanto Amor, Sublime Amor, musical com libreto de Arthur Laurents e música de Leonard Bernstein. A primeira montagem, realizada em 1957 na Broadway, contabilizou mais de 700 apresentações antes de sair em turnê e fez sucesso estrondoso, com várias adaptações mundo afora e, principalmente, um filme homônimo que se tornou clássico pelas mãos de Robert Wise.

Com dez Oscars na bagagem, incluindo o de melhor filme, Amor, Sublime Amor completa 60 anos de lançamento em 2021, data ilustrada por um marco de imenso pedigree: o aguardado remake de Steven Spielberg, aprovado com entusiasmo por Stephen Sondheim. Mesmo sendo um fã de musicais, não chego a me conectar com o longa de Robert Wise e até acreditei que a validação de Sondheim para esta nova versão pudesse ser uma reação de alguém suspeito demais para falar sobre o projeto, inclusive porque a carreira recente de Spielberg não é das mais estimulantes – com exceção de Jogador Nº 1 e The Post, são no mínimo mornos e protocolares títulos como Cavalo de Guerra, Lincoln e Ponte dos Espiões. Mas a verdade é que Sondheim estava mesmo certo.

O impacto imediato de Amor, Sublime Amor está na mudança de ares que ele traz para a filmografia de Spielberg, diretor que nunca havia se aventurado no gênero, apesar de já ter trabalhado no desenvolvimento de um musical semiautobiográfico nos anos 1980 chamado Reel to Reel que nunca saiu do papel. Em cada frame de Amor, Sublime Amor está evidente o carinho de Spielberg por este projeto que traz para a superfície uma nova faceta de sua versatilidade. E talvez mais importante: aqui, ele mistura sua reverência a um estilo clássico de musical que já não se produz mais hoje em dia com um olhar cinematográfico mais vivo, colorido, ritmado e contemporâneo.

Para realizar o remake, Spielberg convocou Tony Kushner, roteirista com quem já havia trabalhado em filmes como Munique e Lincoln. Ambos se guiaram mais pelo libreto de Arthur Laurents do que pelo filme de 1961, o que não tira de Amor, Sublime Amor elementos nostálgicos como as coreografias milimetricamente pensadas e executadas à perfeição. Há um balanço bem calibrado entre o que se preserva da obra anterior e o que Spielberg e Kushner trazem com suas próprias perspectivas, da estilização ao pulso confiante tomado nesta ideia de mexer com um material clássico, algo que não costuma ser boa ideia.

Aos navegantes de primeira viagem, vale frisar que Amor, Sublime Amor nada mais é do que uma variação de Romeu e Julieta, onde os Montéquios e Capuletos são substituídos pelos Jets e Sharks, gangues rivais — uma norte-americana, outra porto-riquenha — que disputam o controle do bairro de Upper West Side na Nova Iorque de 1957. Um amor proibido, claro, nasce entre os dois guetos, colocando à prova a lealdade, os valores e os limites dos envolvidos. Acontece que, se, por um lado, Amor, Sublime Amor é gracioso ao preservar um arco dramático clássico, por outro, pouco atualiza ou inova no discurso de questões sempre tão urgentes — e, hoje, ainda mais — como miscigenação e preconceito.

O romance proibido da trama nos leva a outro ponto que não chega a brilhar em Amor, Sublime Amor: o casal María e Tony, interpretados, respectivamente, por Rachel Zegler e Ansel Elgort. Ela é uma revelação em seu primeiro grande papel no cinema e já tem colhido importantes reconhecimentos, a exemplo do prêmio de melhor atriz no National Board of Review. Já Ansel Elgort, que conquistou incontáveis corações com o sucesso de A Culpa é das Estrelas e foi acusado de abuso sexual no ano passado, puxa a energia do filme para baixo devido a uma apatia que, além de estar em descompasso com Zegler, não é amortecida nem nos números musicais onde ele, um garoto alto, jovem e bem preparado fisicamente para o gênero, poderia brilhar.

Em contraste, os coadjuvantes compensam e não deixam que Amor, Sublime Amor se torne um relato romântico enfadonho em função da falta de faíscas entre o casal principal. Destaco a presença de Ariana DeBose, recentemente sabotada pela ruindade de A Festa de Formatura e aqui devidamente valorizada na pele da porto-riquenha Anita. DeBose, assumindo o papel que rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante a Rita Moreno no longa original, tem grande presença e carisma ao longo de todo o filme, também dando conta da parte mais dramática no terço final da trama. Por falar em Moreno, ela tem um papel bastante pequeno (e reimaginado para ela) que acaba com brilho próprio devido a todo o afeto envolvendo o retorno da atriz a um dos projetos mais importantes da sua carreira.

Sob a perspectiva artística de um musical, Spielberg não titubeia ao explorar diversos elementos clássicos do gênero. Naturalmente, as coreografias de Justin Peck são um show à parte, adotando um tom mais expansivo e livre do que o original. Amor, Sublime Amor é pura corporalidade, e o dinamismo dos números musicais é potencializado pela trilha de Leonard Berstein, aqui conduzida por Gustavo Dudamel, com arranjos de David Newman performados pela Orquestra Filarmônica de Nova Iorque. O uso da trilha é um dos pontos altos da refilmagem, com grande poder narrativo e responsável por ritmar uma imensa parcela das cenas. Assusta, portanto, que as legendas brasileiras optem tanto por usar as letras da versão traduzida para o português do libreto original e não nas letras do próprio filme, o que é bastante problemático para quem consegue fazer as comparações.

Em última análise, conjugando todos os acertos, percebe-se que a vitória é mesmo de Spielberg. Talvez as baixíssimas expectativas que eu nutria por este remake e a falta de identificação com o filme original tenham colaborado em peso para a minha surpresa com a versão 2021 de Amor, Sublime Amor, mas não deixo de pensar sobre o quanto o cineasta está mais arejado e flutuante aqui, sem ter zelo excessivo pelo trabalho de Robert Wise (não se trata de uma refilmagem quadro a quadro ou de uma obra recheada de easter eggs) e valorizando as possibilidades clássicas de um gênero suscetível a muitas gamas de sentimentos e imaginação. Como musical, funcionou muito bem para mim. Para a carreira atual de Spielberg, ainda mais.

Rapidamente: “Cherry”, “Quo Vadis, Aida?”, “Sem Tempo Para Morrer” e “Shiva Baby”

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Rachel Senott é extraordinária em Shiva Baby, um dos filmes mais originais e aflitivos do ano.

CHERRY: INOCÊNCIA PERDIDA (Cherry, 2021, de Anthony e Joe Russo): Aparentemente preocupado em não se deixar definir apenas pelo papel de Homem-Aranha, Tom Holland tem, aos 25 anos de idade, equilibrado a carreira de herói da Marvel com filmes mais densos e dramáticos, que, afinal de contas, são parte de sua origem (ainda hoje lembro da minha grande comoção com O Impossível, onde ele era uma revelação). Foi assim no recente O Diabo de Cada Dia e agora em Cherry: Inocência Perdida, dirigido por Anthony e Joe Russo, responsáveis por dois longas do Capitão América e dos Vingadores. E é mesmo Holland que dá alguma liga a esse projeto deveras previsível. Do início ao fim, temos a eterna história do soldado traumatizado pela guerra. O ator é muito convincente como, primeiro, um jovem deslocado e sem propósito e, depois, como o soldado que se atira nas drogas em uma espiral de autodestruição e infortúnios. Falta ao longa como um todo o pulso firme de Holland, principalmente na direção dos irmãos Russo. Eles tentam a todo custo imprimir algum estilo ao resultado, mas tudo é aleatório, a ponto de, em certo momento, eles adotarem o ânus do protagonista como ponto de vista sem motivo plausível. Se a história em si já carece de ritmo e originalidade, os Russos ainda parecem tocar o barco no piloto-automático, acreditando que, ao colocarem uma pitada cool aqui e outra ali, Cherry se tornaria uma obra com personalidade. Não é o que acontece. Na verdade, a única certeza possível é a de que, sem Tom Holland, seria bastante difícil chegar ao final do filme.

QUO VADIS, AIDA? (idem, 2020, de Jasmila Žbanić): A guerra de Quo Vadis, Aida? não é necessariamente a da Bósnia quando o exército da República Sérvia assume o controle da cidade de Srebrenica, que serve como pano de fundo para este angustiante trabalho da diretora Jasmila Žbanić, e sim aquela que Aida (Jasna Đuričić) trava com ela mesma e com todos a sua volta para ter alguma chance de salvar a sua família. Ao transferir os possíveis conflitos centrados em fatos históricos para o turbilhão emocional e mental de uma protagonista desesperada, Žbanić confere a Quo Vadis, Aida? o fator imediato da empatia, fazendo com que sejamos solidários à condição da personagem e entendamos, de um ponto de vista muito íntimo e pessoal, as profundas marcas deixadas por uma grande guerra em suas principais vítimas. A tensão é crescente porque todos os conflitos são extremamente concentrados, resultado de uma duração muito enxuta (101 minutos) e de uma direção que, com segurança e insights de sobra, faz uma amarração para lá de consistente. O toque final na construção de todo o sentimento de urgência é Jasna Đuričić, naquele tipo de interpretação em que só podemos imaginar o quão exaustiva foi sua jornada emocional ao dar vida à protagonista. Indicado ao Oscar 2021 de melhor filme internacional, Quo Vadis, Aida? perdeu a estatueta para o favoritíssimo Druk: Mais Uma Rodada, mas, caso tivesse levado a estatueta de última hora, a surpresa não teria nada de desagradável. Muito pelo contrário.

SEM TEMPO PARA MORRER (No Time to Die, 2021, de Cary Joji Fukunaga): A era Daniel Craig na franquia James Bond termina muito tímida com Sem Tempo Para Morrer, que se assemelha mais aos resultados irregulares de Quantum of Solace e 007 Contra Spectre do que às excelentes surpresas de Cassino Royale e Operação Skyfall. É muito sintomático o capítulo derradeiro de Craig na franquia despertar mais emoção pela despedida do ator ao papel do que ao desfecho de seu James Bond porque, além de ser um claro sinal de desgaste da franquia na atual composição, Sem Tempo Para Morrer também não tem maiores acertos como um filme isolado. Na medida em que Craig confere a presença que o icônico personagem merece, há fragilidades como a escolha do vilão, que, no filme anterior, já era fraquíssimo nas mãos de Christoph Waltz e aqui mais uma vez tem pouca expressividade com Rami Malek, tanto pelo tom repetitivo de interpretação adotado pelo ator quanto pelo pouco espaço dado a ele. Menos ambicioso do que sugere, Sem Tempo Para Morrer tem ação basicamente protocolar e um enredo dependente demais do volume anterior e de histórias pregressas dos personagens, sem a inventividade ou a surpresa de um capítulo que poderia dar liga a todo o ciclo do personagem. O frescor acaba sob responsabilidade do elenco feminino: Léa Seydoux, reprisando o papel de Bond girl; Ana de Armas, em uma pequena, mas carismática e divertida participação; e Lashana Lynch, com um novo tipo de papel que pode se tornar recorrente na franquia garantem os vislumbres de acertos e renovações necessárias a uma transição como essa.

SHIVA BABY (idem, 2021, de Emma Seligman): Pode não parecer, mas Shiva Baby, primeiro longa-metragem de estreia de Emma Seligman, tendo como base um curta-metragem de mesmo nome e de autoria própria, é um dos filmes mais claustrofóbicos e aflitivos de 2021. E o que a diretora faz para causar essa sensação no espectador é de extrema (e inteligente) simplicidade: colocar, em uma mesma reunião familiar, o maior número de pessoas e navegar nos sentimentos e nas histórias por trás de todas as aparências que os personagens tentam manter. Tudo em um mesmo cenário e em uma mesma tarde, protagonizado por uma personagem sobrecarregada de expectativas. A personagem em questão é a jovem Danielle (Rachel Senott), interrogada de minuto em minuto, seja por familiares ou por estranhos quaisquer, sobre suas perspectivas profissionais e os rumos que está dando para a sua vida. Como se não bastasse um segredo carregado por ela e que vale não ser revelado para não estragar a surpresa, Danielle não se encaixa naquele mundo tão caótico, familiar e judaico, e o sufoco de tamanha cobrança move a tensão da trama. Rachel Sennott é extraordinária na pele da personagem porque tem a árdua tarefa de se comunicar com o espectador pelo silêncio, uma vez que somente nós estamos a par de seus tormentos. Shiva Baby é uma verdadeira crônica sobre os pré-conceitos envolvendo amadurecimento e o tempo de cada um na juventude, formando um mosaico repleto de coadjuvantes interessantes (a excelente mãe vivida por Polly Draper, a cômica participação de Jackie Hoffman) e que revela uma diretora com perfeito domínio cênico e de timing para as mais diferentes oscilações de gênero.