The Post: A Guerra Secreta

He says we can’t, I say we can.

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Josh Singer e Liz Hannah

Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Carrie Coon, Tracy Letts, Bradley Whitford, Jesse Plemons, Matthew Rhys, Alison Brie, Bruce Greenwood, Sarah Paulson, Michael Stuhlbarg

The Post, EUA, 2017, Drama, 116 minutos

Sinopse: Ben Bradlee (Tom Hanks) e Kay Graham (Meryl Streep), editores do The Washington Post, recebem um enorme estudo detalhado sobre o controverso papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e enfrentam de tudo para publicar os bombásticos documentos. (Adoro Cinema)

Dá para entender a pressa do diretor Steven Spielberg em realizar o drama The Post: A Guerra Secreta, que chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 25. Remontando todas as razões que levaram o jornal The Washington Post a publicar estudos que revelavam o papel controverso dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e colocavam em xeque a reputação do governo Richard Nixon em meados dos anos 1970, o longa tem tudo a ver com o nosso momento, onde, novamente, um presidente dos Estados Unidos tenta calar a imprensa em prol de seus interesses políticos e pessoais. The Post ganha uma dimensão ainda maior porque centra boa parte de sua recriação em Kay Graham, a editora-chefe do jornal que tomou a corajosa decisão de enfrentar interesses e grandes poderes para enfim publicar os famosos The Pentagon Papers, que viriam a causar uma revolução em termos políticos e jornalísticos.

Após ler o roteiro da dupla Josh Singer e Liz Hannah em outubro de 2016, Spielberg logo tratou de acelerar a produção do filme, anunciando em março do ano seguinte que ele estaria à frente do projeto trazendo Meryl Streep e Tom Hanks como protagonistas. Oportunismo para surfar nas polêmicas do momento? Longe disso. Como se vê em The Post, o cineasta é pura inteligência ao se apropriar do assunto para discutir temas urgentes e pertinentes  aos dias de hoje. Sim, estamos falando de um filme de época que mais uma vez apresenta Spielberg com a sua narrativa clássica e edificante, mas com um pique muito acima da média para nos lembrar que o bom cinema pode e deve deixar de acontecer no vácuo para ser o estudo de um momento, contribuindo para importantes reflexões.

Na teoria e na prática, não é lá muito saudável comparar The Post ao célebre Spotlight só porque ambos são filmes que retratam o universo do Jornalismo. Isso porque há uma diferença fundamental que joga cada filme para um lado. Ao passo que Spotlight centrava a sua trama nos processos diários da profissão, The Post trata de algo anterior: as tomadas de decisões que vêm de cima e definem tanto a existência quanto a reputação de um veículo de comunicação. Com isso, o filme causa certa euforia ao trazer para a mesa a homenagem a um Jornalismo que não se acovarda, que decide ir em frente mesmo contra os poderosos, que é fiel aos seus princípios e que, principalmente, sabe que precisa servir aos propósitos dos governados e não dos governantes. É uma boa lembrança para a imagem de uma profissão que, como atuante do ramo, sinto dizer que parece cada vez mais utópica.

O total engajamento de Spielberg na tomada de lado de The Post se reflete em seu trabalho de direção, que, facilmente, é o mais fluído e empático em anos. Seu estilo tradicional de narrativa dramática segue sendo utilizado aqui, mas esse timing com a realidade atual dá frescor à direção de Spielberg, cujo trabalho cênico confere agilidade e dinâmica a um filme de quase duas horas falado do início ao fim. Exigindo a atenção do espectador ao mesmo tempo em que os recompensa com um elenco de primeiro escalão e até com bom humor, The Post é um filme sobre política e Jornalismo que não inventa a roda. Por outro lado, ele administra muito bem um estilo que, dependendo do espectador, pode ser tachado de cafona e antiquado, especialmente depois de tantos trabalhos sem inspiração e no piloto-automático do diretor, como Cavalo de Guerra e Ponte dos Espiões.

Acompanhado de amigos e colegas de longa data — entre outros, o fotógrafo Janusz Kaminski, o designer de produção Rick Carter, o montador Michael Kahn e, claro, os amigos John Williams na trilha e Tom Hanks no elenco —, Spielberg, contudo, pela primeira vez trabalha com Meryl Streep, fato que não chega a surpreender se você recuperar a carreira do cineasta e perceber que basicamente todos os seus filmes são protagonizados por homens. E ela encontra a fervura certa nas sutilezas de Kay Graham, uma mulher que tenta firmar sua voz em uma época machista, onde ela própria, que sempre esteve à sombra do pai e do marido, começa a desconstruir a sua própria crença na tola “superioridade” masculina ao herdar um jornal até então comandado por homens. Kay centraliza todas as importantes decisões que precisam ser tomadas na trama, trazendo uma perspectiva que, em boa parte, torna The Post irregular do ponto de vista estrutural (são dois filmes dentro de um: o dos jornalistas na redação e o de Kay trilhando seu caminho), mas que aprimora o tino temático e analítico de um projeto sobre valores que precisam ser lembrados ano após ano e que, ainda hoje, não são seguidos à risca como deveriam. Não à toa e isso não é mero pessimismo —, o mundo está do jeito que está.

4 comentários em “The Post: A Guerra Secreta

  1. Achei curioso, Matheus, que a sequencia intensa de eventos e informações iniciais do filme me fizeram esquecer tratar-se de um filme do Spielberg. Até que Kay Graham toma sua decisão e uma euforia súbita me invadiu, me lembrando imediatamente de que quem era o diretor do filme!

  2. Estou ansiosa para assistir “The Post: A Guerra Secreta”, principalmente por se tratar sobre a minha (nossa) área de atuação. Sempre gosto de ver como o cinema enxerga a atividade jornalística e acho que a dinâmica dessa atividade imprime sempre um ritmo ágil aos filmes que se dedicam a explorá-la.

    • Kamila, sei que você também gostou do filme! Acho que é uma obra que retrata muito bem os princípios hoje tão deixados de lado na nossa profissão, né?

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