Cinema e Argumento

Festival de Sundance 2022: “Resurrection”, de Andrew Semans

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Foi colocando as mulheres no centro de histórias provocadoras que o chamado cinema de gênero alcançou suas melhores notas nos últimos anos e nos proporcionou verdadeiros espetáculos vindos de atrizes para lá de talentosas. Temos como exemplo Toni Collette em Hereditário, Lupita Nyong’o em Nós, Florence Pugh em Midsommar, Elisabeth Moss em O Homem Invisível e, agora, Rebecca Hall em Resurrection,  filme que faz sua estreia no Festival de Sundance. Em que pese minha afinidade (ou falta dela) com cada um desses filmes, todos se utilizaram do suspense, do thriller ou do próprio terror para questionar uma série de costumes e cicatrizes da nossa sociedade, linha também adotada por Resurrection.

O segundo longa de Andrew Semans é mais modesto em termos de produção se comparado aos títulos citados anteriormente, mas jamais se se apequena na construção de seu estilo. Assim como no recente A Filha Perdida — outro projeto que tem a maternidade como matéria-prima para causar determinados incômodos —, Ressurection traz uma mãe em um processo gradativo de desestabilização emocional ao ser confrontada por traumas do passado. A mãe em questão é Margaret (Hall), uma mulher em pleno controle de sua vida que começa a afrouxar e a perder as rédeas quando recebe uma visita de uma figura traumática de tempos passados.

No roteiro também escrito por Semans, acontecimentos indeléveis da juventude de Margaret retornam para tirar do prumo uma mulher hoje estável, pragmática e de ideias firmes. É por vermos a protagonista tão no controle ao longo do primeiro terço que seu posterior descontrole surte tanto efeito. Ainda que as razões demorem a ser reveladas — e que elas carreguem até elementos com traços pouco realistas se analisados com o que foi nos apresentado ou sugerido até ali —, Resurrection se sai admiravelmente bem ao criar atmosfera e curiosidade em torno dos novos comportamentos de Margaret.

Os desafios de interpretar uma personagem como essa sem resvalar em caricaturas ou superficialidades são grandes, e também é preciso colocar na conta de complexidades o entrave entre o racional e o sentimental de uma mulher que, de repente, luta contra seus próprios turbilhões internos para não derrubar as bases sólidas construídas até ali. E Rebecca Hall é espetacular em todas as camadas. Sua presença aqui é forte e de personalidade, assim como cada uma das oscilações trabalhadas em busca de outras facetas da personagem. Em pouco tempo de projeção, fica evidente a garantia de seu lugar em um panteão recente já ocupado por Collette, Nyong’o, Pugh e Moss.

Como o bom filme-evento que tem potencial para ser quando estrear comercialmente, Resurrection é divisivo por apostas em resoluções que exigem do espectador certas afinidades com o estilo das decisões tomadas. Não é e nem quer ser necessariamente conclusivo, mas sim capaz de acentuar questões que, em diferentes níveis, assim como na vida, muitas vezes não se resolvem com as respostas que desejamos. Na busca pelo controle absoluto, a protagonista está em constante estado de alerta e em uma outra sintonia para seguir a vida, o que diz muito sobre fantasmas que o filme explora até o último segundo.

Resurrection review

It was by placing women at the center of provocative stories that the so-called genre cinema reached its highest marks in recent years and provided us with real spectacles coming from talented actresses. We have as an example Toni Collette in Hereditary, Lupita Nyong’o in Us, Florence Pugh in Midsommar, Elisabeth Moss in The Invisible Man and, now, Rebecca Hall in Resurrection, a film that makes its debut at the Sundance Film Festival. Despite my affinity (or lack thereof) with each of these films, they all used suspense, thrillers or terror itself to question a series of habits and scars of our society, a concept also present in Resurrecion.

Andrew Semans’ second feature film is more modest in terms of production compared to the titles mentioned above, but it never dwindles in the construction of its style. As in the recent The Lost Daughter — another project that uses motherhood as a raw material to cause certain discomfort — Ressurection brings a mother into a gradual process of emotional destabilization when confronted by old traumas. The mother in question is Margaret (Hall), a woman in full control of her life who begins to lose control when she receives a visit from a traumatic figure from times past.

In the screenplay also written by Semans, indelible events from Margaret’s youth return to destabilize a woman who is now stable, pragmatic and with firm ideas. It’s because we see the protagonist so in control throughout the first act that her later confusion has such an effect. Although the reasons are slow to be revealed — and they even carry elements with unrealistic traits compared to what has been presented or suggested to us so far — Resurrection does admirably well in creating atmosphere and curiosity around Margaret’s new behaviors.

The challenges of playing a character like this without slipping into caricatures or superficialities are great, and it is also necessary to take into account the complexities of the barrier between the rational and the sentimental of a woman who, suddenly, fights her own internal turmoil in order not to tear down the solid foundations built up to that point. And Rebecca Hall is spectacular on every level. Her presence here is strong, as are each of the oscillations she develops in search of other facets of the character. The guarantee of his place in a recent pantheon already occupied by Collette, Nyong’o, Pugh and Moss is evident.

Like the good event-film that it has the potential to be when it debuts commercially, Resurrection is divisive by betting on resolutions that demand certain affinities from the viewer. It is not and does not want to be necessarily conclusive, but rather capable of highlighting issues that, at different levels, as in life, are often not resolved with the answers we want. In the search for absolute control, the protagonist is in a constant state of alert and in another tune to move on with life, which says a lot about ghosts that the film explores until the last second.

Festival de Sundance 2022: “A Love Song”, de Max Walker-Silverman

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As cores e os tons escolhidos pelo diretor de fotografia Alfonso Herrera Salcedo para A Love Song dizem muito sobre este primeiro longa de Max Walker-Silverman. É como se estivéssemos diante de um envelhecido cartão-postal, carregado de histórias, lembranças e saudades. E também temos frases breves, todas suficientes para entendermos que nem sempre é preciso nome às coisas e que determinados sentimentos podem ser autoexplicativos.

Não precisamos saber a história de Faye (Dale Dickey) tintim por tintim, e talvez o que a defina seja essa ideia de que a solidão não se restringe sofrimento: ela também pode ser sobre autoconhecimento, introspecção e consciência. Estacionada nas montanhas do Colorado, nos Estados Unidos, Faye espera. Não sabemos quem nem quando essa pessoa chegará, e tal espera é o suficiente para conhecermos uma personagem envolta em melancolia.

A comparação com Nomadland é inevitável — Faye está sozinha na estrada, morando em um trailer e com uma vida deixada para trás —, mas A Love Song tem suas próprias ideias. Aqui, temos a protagonista parada em um único lugar, vivendo uma espera que a define em muitos sentidos. Faye carrega muito pouco: um livro sobre estrelas, outro sobre pássaros, e um pequeno rádio que sintetiza sua única conexão com o mundo mesmo estando em 2020. Os detalhes a explicam, e tudo muda quando sua espera finalmente termina.

Um filme como A Love Song poderia cair no completo marasmo se construísse tal atmosfera sem uma atriz que pudesse capturar a imensidão não verbalizada. E Max Walker-Silverman acertou em cheio ao chamar uma atriz como Dale Dickey para o papel. Eterna coadjuvante de filmes como Inverno da Alma e A Qualquer Custo, Dale tem aquele tipo de rosto que carrega o mapa de uma vida e que, somente em uma primeira aparição, já nos faz compreender a mulher solitária e de poucas palavras que estamos prestes a acompanhar.

Dale tem mais de 130 trabalhos no currículo e poucas vezes recebeu um papel rico como esse. Ela é espetacular em cada inflexão de voz e em cada olhar que marca sua espera. A dinâmica que ela estabelece com o também sensível Wes Studi é preciosa porque enternece uma importante quebra de expectativa: o encontro vivido por ambos não é sobre revelações ou acertos de contas, mas sim sobre duas pessoas que se (re)conhecem em sentimentos compartilhados de perda, saudade e reconstrução.

Eventualmente, é possível nomear as reflexões propostas roteiro — viuvez, amores perdidos, envelhecimento, memória —, mas as preciosidades de A Love Song estão no plano do abstrato. Em seu primeiro trabalho como diretor de longas-metragens, Max Walker-Silverman demonstra grande sensibilidade, um delicado apreço por interpretações e o raro talento de condensar uma gama de sentimentos em um pequeno recorte de tempo e espaço.

A Love Song review

The color palette chosen by cinematographer Alfonso Herrera Salcedo for A Love Song says a lot about this first feature by Max Walker-Silverman. It is as if we were in front of an aged postcard, full of stories, memories and homesickness. And we also have brief sentences throughout the film, all of which are enough for us to understand that things don’t always need to be named and that certain feelings can be self-explanatory.

We don’t need to know Faye’s (Dale Dickey) story in detail, and perhaps what defines it is this idea that loneliness isn’t just about suffering: it can also be about self-knowledge, introspection and awareness. Parked in the mountains of Colorado, United States, Faye waits. We don’t know who or when that person will arrive, and such a wait is enough for us to meet a character shrouded in melancholy.

The comparison to Nomadland is unavoidable — Faye is alone on the road, living in a trailer and with a life left behind — but A Love Song has her own ideas. Here, we have the protagonist standing in one place, living a wait that defines her in many ways. Faye carries very little: a book about stars, another about birds, and a tiny radio that epitomizes her only connection to the world even though it’s 2020. The details explain her, and everything changes when her wait is finally over.

A film like A Love Song could fall into complete stagnation if it built such an atmosphere without an actress who could capture an unspoken immensity. And Max Walker-Silverman nailed it when casting an actress like Dale Dickey in the role. Supporting actress in films like Winter’s Bone and Hell or High Water, Dale has that kind of face that carries the map of a life and that, in just a first appearance, makes us understand this lonely woman of few words.

Dale has over 130 projects in her filmography and has rarely been given a complex role like this. She is spectacular in every inflection of voice and in every look. The dynamic she establishes with the also sensitive Wes Studi is precious because it softens an important break in expectation: the encounter experienced by both is not about revelations or resolutions, but about two people who recognize each other in shared feelings of loss, longing and reconstruction.

Eventually, it is possible to name the reflections proposed in the script — widowhood, lost loves, aging, memory — but the gems of A Love Song are in the abstract plane. In his first work as a feature film director, Max Walker-Silverman demonstrates great sensitivity, a delicate appreciation for acting and the rare talent for condensing a range of feelings into a small circle of time and space.

Festival de Sundance 2022: “The Princess”, de Ed Perkins

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De tempos em tempos, figuras da vida real se tornam objeto de paixões repentinas entre filmes e seriados. O escritor Truman Capote, por exemplo, foi retratado por dois filmes consecutivos em 2005 e 2006 com Capote e Confidencial, enquanto o pintor Vincent Van Gogh apareceu recentemente na animação Com Amor, Van Gogh e no drama No Portal da Eternidade, também apresentados em dois anos consecutivos. Já a cantora Aretha Franklin agora tem sua história celebrada pela minissérie Genius: Aretha e pelo filme Respect. Mas ainda está por vir um fenômeno tão simultâneo quanto o da princesa Diana. Depois de ter sido encarnada por Kristen Stewart em Spencer e por Emma Corrin no seriado The Crown, Diana ainda ganhará vida com Elizabeth Debicki em uma nova temporada dessa produção original Netflix.

É por isso que suspeitei quando descobri The Princess, documentário de Ed Perkins que faz sua estreia no Festival de Sundance deste ano. Minha suspeita é muito simples: afinal, depois de tudo o que vimos sobre Diana nos últimos anos, ainda há algo de novo a ser dito sobre sua história? Em teoria, o longa aposta que sim. Na prática, entretanto, a promessa não se cumpre e as boas ideias são desperdiçadas. Perkins, que recebeu uma indicação ao Oscar em 2019 pelo documentário de curta-metragem Ovelhas Negras, disse, na apresentação do filme no festival, que sabe o quanto a história de Diana já foi amplamente abordada, mas que, com The Princess, esperava dar um enfoque diferenciado a essa história que, segundo ele, é uma das que mais definem a nossa era. 

O ponto de partida adotado por Perkins é interessante: o de apresentar uma das figuras mais influentes e icônicas do século XX utilizando apenas imagens de acervo, formando um mosaico de como o trabalho da imprensa e a superexposição a qual Diana foi submetida contribuiu para o seu trágico e conhecido desfecho em agosto de 1997. Na arrancada, o conceito funciona: com tantas imagens de jornalistas registrando cada aparição de Diana em qualquer lugar do mundo, somos tomados por um crescente sentimento de angústia porque, mesmo depois de mais duas décadas e com as redes sociais já sendo parte indissociável da nossa realidade, ainda parece absurdo que uma vida seja exposta de maneira tão cruel e sem escrúpulos.

A montagem de Daniel Lapira e Jinx Godfrey é habilidosa no entrelaçamento das imagens e, principalmente, na transição de fatos importantes da vida de Diana. Acontece que logo The Princess vai perdendo tração devido a um problema fácil de antever e que o documentário não contorna: o de que já vimos uma imensa parte daquelas imagens ao longo dos anos. Diana foi uma figura tão explorada e discutida que é difícil encontrar imagens públicas que não sejam familiares ao público, sensação agravada quando não há qualquer outro artifício para enriquecê-las, como é o caso aqui. Daí vem a frustração de constatar que The Princess pode até ser um excelente trabalho de pesquisa, mas que, como cinema, especialmente agora, tem pouco a acrescentar sobre uma figura tão icônica dos nossos tempos.

The Princess review

From time to time, real-life figures become the object of sudden passions in movies and TV shows. Writer Truman Capote, for example, was portrayed in two consecutive films in 2005 and 2006 with Capote and Confidential, while painter Vincent Van Gogh recently appeared in the animation With Love, Van Gogh and in the drama At Eternity’s Gate, also presented in two consecutive years. Singer Aretha Franklin now has her story celebrated by the miniseries Genius: Aretha and the movie Respect. But a phenomenon as simultaneous as that of Princess Diana is yet to come. After being played by Kristen Stewart in Spencer and by Emma Corrin in the series The Crown, Diana will still come to life with Elizabeth Debicki in a new season of the original Netflix production.

That’s why I got suspicious when I heard about The Princess, Ed Perkins’ documentary making its debut at this year’s Sundance Film Festival. My suspicion is very simple: after all, after everything we’ve seen about Diana in recent years, is there still anything new to be said about her story? In theory, The Princess bets so. Practically speaking, however, the promise is not kept and good ideas are wasted. Perkins, who received an Oscar nomination in 2019 for the short-film documentary Black Sheep, said, at the film’s presentation at the festival, that he knows how widely Diana’s story has already been covered, but that he hoped to give a different focus to a life that, according to him, is one of the most defining of our era.

The starting point is quite interesting: to present one of the most influential and iconic figures of the 20th century using only collection images, forming a mosaic of how the work of the press and the overexposure to which Diana was subjected contributed to her tragic and well-known outcome in August 1997. The concept works in the first moments: with so many images of journalists recording each appearance of Diana, we are taken by a growing feeling of anguish because, even after more than two decades and with social networks already being an inseparable part from our reality, it still seems absurd that a life is exposed in such a cruel and unscrupulous way.

The editing by Daniel Lapira and Jinx Godfrey is skillful in the intertwining of images and, above all, in the transition of important facts in Diana’s life. It turns out that soon The Princess loses traction due to the problem that we’ve already seen a huge part of those images over the years. Diana was such a explored and discussed figure that it is difficult to find public images that are not familiar to the audience, a feeling that is exacerbated when there is no other tool to enrich them, as is the case here. Hence the frustration of realizing that The Princess may even be an excellent work of research, but that, as a cinema, especially now, it has little to add about such an iconic figure of our times.

Festival de Sundance 2022: “Good Luck to You, Leo Grande”, de Sophie Hyde

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Passei a pensar muito mais sobre envelhecer desde que conheci a obra da pesquisadora e antropóloga Mirian Goldenberg em um trabalho que realizamos juntos no ano passado. Mirian é a maior ativista pela ideia de uma bela velhice que temos, e a missão diária abraçada por ela para quebrar todos os tabus e preconceitos envolvendo o envelhecimento deveria ser uma bandeira de todos. Trago-a como contextualização porque Good Luck to You, Leo Grande é, de certo jeito, a adaptação cinematográfica de tudo o que Mirian vem questionando ao longo dos anos, inclusive a mesma naturalidade, transparência e delicadeza.

Neste filme estrelado por Emma Thompson, conhecemos Nancy Stokes, uma mulher que está prestes a receber a visita de um garoto de programa depois de dias, meses e até anos pensando na ideia de chamá-lo. O filme se desenrola não apenas a partir desse encontro, mas de quatro que Nancy terá com o jovem Leo (Daryl McCormack). Nem tudo, entretanto, é simples. Muito pelo contrário. Professora aposentada de educação religiosa, Nancy perdeu o marido com quem estava casada há 31 anos e tem plena consciência de que, ao longo da vida, nunca soube o que era sexo de verdade. Sexo bom, muito menos.

Nem preciso entrar em detalhes sobre a importância de um filme como esse ser escrito e dirigido por mulheres como de fato o é, mas vale reforçar que somente com essa composição ele teria tamanha sensibilidade. Como roteirista, Katy Brand usa a história de Nancy para falar sobre a história de muitas como ela. Mulheres que se casaram cedo demais e só tiveram um homem na vida. Esposas que viveram uma vida de sexo protocolar e sem orgasmos. Figuras femininas que não aprenderam a admirar seu próprio corpo — e pior: sempre estiveram inclinadas a depreciá-lo. No mundo delas, vaidade nunca foi uma qualidade, mas sim um julgamento.

Desde o início, é possível deduzir todo o desenrolar de Good Luck to You, Leo Grande, algo que o roteiro não faz questão de esconder. E isso não diminui o bonito arco dramático de Nancy, uma mulher insegura, impaciente e nervosa que, a cada novo encontro com Leo, passa a compreender coisas que ela nunca imaginou poder compreender. Vê-la confessando que nunca bebeu demais, viveu uma aventura, deixou de atender um telefonema de quem quer que fosse e ou deixou de considerar os filhos um fardo depois de adultos confirma que o filme é um retrato fiel do que a sociedade injustamente impõe às mulheres, ainda mais na terceira idade, quando a liberdade ainda segue sendo um elemento desconhecido.

É fácil dar um desconto para eventuais previsibilidades de Good Luck to You, Leo Grande porque a diretora Sophie Hyde não tenta fazer do longa mais do que ele realmente é. O exercício de Sophie é dar graça e verossimilhança a um filme passado em um único cenário e com apenas dois atores. E ela se sai bem especialmente em função da presença de uma grande atriz como Emma Thomspon, totalmente entregue ao papel. Seu talento de sempre está ali, em uma performance também sem qualquer tabu. Há um momento em que Emma, aos 62 anos de idade, literalmente se despe para observar em detalhes seu corpo nu frente a um espelho, aceitando-o como ele é. Não vejo melhor momento para imaginar o quanto esse projeto faz sentido para Emma e o quanto ele também fará para tantas outras mulheres mundo afora.

Good Luck to You, Leo Grande review

I started to think a lot more about aging since I got to know the work of brazilian researcher and anthropologist Mirian Goldenberg. Mirian is the biggest activist for the idea of ​​a beautiful aging that we have, and the daily mission embraced by her to break all the taboos and prejudices surrounding aging should be a flag for everyone. I bring it as contextualization because Good Luck to You, Leo Grande is, in a way, the film adaptation of everything Mirian has been questioning over the years, even with the same naturalness, transparency and delicacy.

In this film starring Emma Thompson, we meet Nancy Stokes, a woman who is about to receive a visit from a male escort after days, months and even years of thinking about the idea of ​​calling him. The film unfolds not just from that encounter, but from four encounters that Nancy will have with young Leo (Daryl McCormack). Not everything, however, is simple. Quite the opposite. A retired teacher of religious education, Nancy lost her husband to whom she had been married for 31 years and is fully aware that throughout her life she never knew what real sex was, let alone good sex.

I don’t even need to go into details about the importance of a film like this being written and directed by women as it actually is, but it’s worth emphasizing that only with this composition the result would have such sensitivity. As a screenwriter, Katy Brand uses Nancy’s story to talk about the story of many women like her. Women who got married too soon and only had one man in their lives. Wives who lived a life of protocol sex and no orgasms. Female figures who haven’t learned to admire their own body — and worse, have always been inclined to despise it. A world where vanity was never a quality, but a judgment.

It is possible to deduce from the beginning the entire unfolding of Good Luck to You, Leo Grande, something that the script does not insist on hiding and does not impact the beautiful dramatic arc of Nancy, an insecure, impatient and nervous woman who, with each new encounter with Leo, begins to understand things she never thought she could understand. Seeing her confessing that she never drank too much, had an adventure or didn’t answer a phone call from their children confirms that the film is an accurate portrayal of what society unfairly imposes on women, specially in the third age, when freedom still remains an unknown element.

The eventual predictability of Good Luck to You, Leo Grande is not a problem because director Sophie Hyde doesn’t try to make the film more than it really is. Sophie’s exercise is to give grace and verisimilitude to a film set in a single room and with only two actors. And she does well mainly due to the presence of a great actress like Emma Thomspon, totally dedicated to the role. His usual talent is there, in a performance also without any taboo. There is a moment when 62-year-old Emma literally undresses to look at her naked body in front of a mirror, accepting it for what it is. I can’t think of a better time to imagine how much sense this project makes for Emma and how much it will do for so many other women around the world.

Adeus, 2021! (com uma maravilhosa dose dupla de Olivia Colman)

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Quem pensava que 2021 seria um ano inteiramente novo se comparado a 2020 estava redondamente enganado. Embora a situação envolvendo a pandemia tenha melhorado minimamente, o mundo continuou (e continua) sofrendo com um vírus que ainda deve ficar um bom tempo entre nós. Ao meu ver, isso significa que nossas vidas continuarão sendo transformadas constantemente (e, às vezes, colocadas à prova, quando não de pernas para o ar). Por isso, sigo acreditando na resiliência como a virtude mais necessária para estes nossos tempos. É difícil fazer um balanço claro do ano quando tudo continua tão atípico e quando o mundo (e, mais especificamente, o Brasil) ainda nos atordoa com suas maluquices, mas, do meu lado, dentro do possível, 2021 valeu bastante a pena.

Como espectador, não poderia ter encerrado o ano de maneira mais interessante do que com uma dobradinha de Olivia Colman. Sou do time que considera seu Oscar por A Favorita uma preciosidade e a carreira trilhada por ela desde então uma das mais magníficas. Na TV, Olivia fez FleabagThe Crown, enquanto, no cinema, já garantiu uma segunda indicação ao Oscar pelo impressionante Meu Pai. Em 2021, agorinha aos 45 do segundo tempo, adiciona outra duas pérolas ao currículo: a minissérie Landscapersexibida no início de dezembro, e o longa-metragem A Filha Perdida, disponibilizado hoje, véspera de ano novo, na Netflix. São presentes incríveis de final de ano vindos de uma atriz que coleciona personagens singulares. Não deixem de conferir. Até 2022, queridos leitores!

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“Landscapers”, de Will Sharpe (minissérie, Sky/HBO)

This is a true story. E, logo após, apenas This is a story. Pode parecer a deixa mais simples do mundo, mas o letreiro que abre o primeiro dos quatro episódios da minissérie Landscapers diz muito sobre esse true crime que não se assemelha a qualquer outro visto nesta onda recente do “gênero” formada por produções inegavelmente espetaculares, como a minissérie brasileira O Caso Evandro (disponível na Globoplay), e outras tão inacreditáveis quanto incômodas, como The Act, antologia da Hulu que rendeu um Emmy de melhor atriz coadjuvante para a ótima Patricia Arquette.

A abertura é sugestiva não porque, assim como outros trabalhos ficcionais, Landscapers ajuste fatos para fins dramáticos, e sim porque de fato sabemos muito pouco sobre o que realmente aconteceu com Susan e Christopher Edwards, casal sentenciado a 25 anos de prisão por ter arquitetado o assassinato dos pais de Susan e depois enterrado os corpos no jardim da casa onde as vítimas viviam. Susan e Christopher esconderam este segredo por 15 anos, além de falsificarem cartas e outros documentos para indicar que os pais de Susan ainda estavam vivos, viajando pelo mundo. O casal clama inocência até os dias de hoje e sustenta uma versão onde apenas Susan teria alguma culpa, limitada à morte da mãe.

Como se não bastasse o fato das autoridades nunca terem conseguido arrancar qualquer confissão de Susan e Edwards que corroborasse a versão pela qual foram condenados, ambos são extremamente polidos, educados, afetuosos e fieis um ao outro. Vendo de fora e sem prova alguma, é difícil acreditar no que eles possam ter feito. E é por isso que estamos falando de uma true story: sem depoimentos e confissões para tomar como base, resta somente o exercício da imaginação ao roteirista Ed Sinclair, que opta pelo caminho interessante de dimensionar muito mais a relação dos protagonistas do que o crime em si. 

A gênese do relacionamento entre Susan e Christopher está no não pertencimento. Landscapers lança olhar sobre duas pessoas muito calejadas em diferentes níveis e que, quando se encontram, desobrem uma razão para viver, mesmo que em um mundo alheio à vida real, construído por eles próprios, um em que eles possam sobreviver sendo quem são. A minissérie compreende o poder da ilusão deste mundo particular ao explorar as múltiplas alternativas que ele pode apresentar para os fatos. Na cabeça de Susan e Christopher, nada é tão objetivo assim, muito menos na versão trabalhada incansavelmente pela polícia.

De certa forma, Landscapers pode ser um estudo sobre até onde um amor pode ir quanto testado. É convincente e comovente como Christopher (David Thewlis) repete o quanto ele não pode decepcionar Susan por ela ser uma pessoa muito frágil, esperando que as autoridades peguem mais leve ou sejam mais compreensíveis somente por terem essa informação. Não se trata de teatro: em tudo que Landscapers captura do cotidiano do casal, ambos se tratam com imenso carinho e respeito. O que tais sentimentos significam é outra história.

Engana-se, entretanto, quem supõe que a minissérie romantize criminosos ou procure justificativas para seus atos. É, na verdade, um outro olhar — mais complexo e provocador — para defender a ideia de que nada é tão reducionista quanto as pessoas estão acostumadas a acreditar quando se deparam com a figura de um assassino. E tudo se potencializa na dupla de atores que dá vida aos personagens. Olivia Colman e David Thewlis dão uma verdadeira aula de interpretação, com momentos impressionantes juntos ou separados em cena. Eles mergulham em todo tipo de sentimento de uma jornada que não soa condizente ou justa para o mundo paralelo dos personagens. Temos aqui nada menos do que uma construção brilhante de dois grandes atores.

O roteiro de Landscapers é o primeiro da carreira de Ed Sinclair, marido de Olivia Colman, algo bastante surpreendente tendo em vista as tantas camadas e especificidades do texto. Contudo, ele não está sozinho atrás das câmeras: a direção de Will Sharpe, realizador de carreira curta até aqui, joga com imaginação, realidade, estilo e boas ideias aproveitando elementos da paixão de Susan pelo cinema e, eventualmente, adotando uma linguagem bastante teatral para trabalhar as reconstituições do crime. Mesmo no que evoca como conclusão, há incertezas e improbabilidades em Landscapers, o que pode ser a principal razão para se encantar ou se frustrar com o resultado.

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“A Filha Perdida”, de Maggie Gyllenhaal (Netflix)

Quando confrontada sobre uma de suas tantas atitudes tomadas a partir de razões aparentemente indecifráveis, Leda (Olivia Colman) diz que ela própria não sabe explicar por que fez o que fez. Este momento é a melhor síntese possível — se é que ela pode existir — de A Filha Perdida, estreia da atriz Maggie Gyllenhaal como diretora. Durante cerca de duas horas, Leda se revela uma personagem complexa, nuançada, compulsiva e imprevisível. Sem tentar necessariamente explicá-la, a adaptação do livro de Elena Ferrante propõe uma meditação sobre as múltiplas e incômodas camadas de uma protagonista em um grande entrave com seus próprios traumas — todos ainda muito vivos na personagem, traduzidos em impulsos muita vezes incompreensíveis.

Atriz talentosíssima, Maggie Gyllenhal foi ousada ao escolher A Filha Perdida como seu trabalho de estreia atrás das câmeras. Há, primeiro, toda a expectativa em cima de uma adaptação da célebre e enigmática Elena Ferrante, autora italiana cuja identidade é desconhecida do público e que colocou como condição a escolha de uma mulher para dirigir o filme na negociação da cessão dos direitos de adaptação. E, segundo, A Filha Perdida é, por si só, em sua versão cinematográfica, uma experiência enredada sentimentalmente, complexa em termos de prosa e com uma narrativa complicada de ser transposta para o cinema. É admirável a coragem de Maggie ao abraçar o projeto e, mais ainda, o seu talento para também escrever ela própria o roteiro, entrelaçando as tantas discussões propostas por Ferrante em uma estrutura de idas e vindas no tempo.

Muito resumidamente, A Filha Perdida abrange o período de férias de uma professora universitária cuja tranquilidade é abalada por memórias que vêm à tona a partir de um encontro à beira-mar. Passado e presente colidem em um drama psicológico imerso em tensão, ainda que não saibamos exatamente qual. O que, para alguns, pode ser uma mera problemática da vida cotidiana, para Ferrante, é trauma. E por que as escolhas difíceis e exaustivas do nosso dia a dia não haveriam de ser? Gota a gota, o filme desembrulha uma protagonista em suas incontáveis camadas, ao ponto de toda a situação ser muito mais atribulada do que imaginávamos quando o filme começou.

Como um homem, nunca terei qualquer noção sobre como é viver as turbulências maternas, mas fui provocado pelas discussões evocadas por A Filha Perdida sobre tudo o que não é dito ou mostrado em relação ao papel de uma mãe, especialmente no que tange as habilidades e os comportamentos cobrados pela sociedade. Trata-se de um raro (e necessário) caso de filme que dá voz inclusive a pensamentos ruins envolvendo esse momento da vida de uma mulher, algo que Lynne Ramsay já havia discutido, com semelhante teor, no poderoso Precisamos Falar Sobre o Kevin. Vale, aliás, perceber como ambos os longas abordam o incômodo materno através de simbologias bastante interessantes. Ao passo que Ramsay inunda a tela com o vermelho pulsante de tintas, cores e tomates, Gyllenhaal esmiúça, por exemplo, tudo o que pode ser interpretado a partir da função de uma boneca na criação de meninas. Não por acaso, os dois longas são dirigidos por mulheres.

Assim como no livro, acompanhamos cenas pontuais da vida de Leda quando mais jovem, artifício que nem sempre funciona, seja no material original ou na adaptação. Em ambos os formatos, os flashbacks interrompem um pouco o fluxo da trama, mesmo que essenciais ao que estamos acompanhando. Talvez esse pudesse ser um ponto passível de inovação por parte de Maggie como roteirista, que, bastante reverente ao texto de Ferrante, faz ajustes pontuais na adaptações, mas nenhum fora da curva. Embora ainda não demonstre ser uma cineasta necessariamente criativa ou estética, Maggie é exímia ao construir atmosfera, munida de uma tensão constante, intrigante e que, em boa parte dos casos, não consegue nem ser ensaiada por outros filmes que necessitam dela, como os suspenses assumidos. Se esse não é um belo atestado de que encontramos uma diretora promissora, difícil saber qual é.

Por ser atriz, é muito natural que Maggie dê atenção especial ao elenco, começando por mais um trabalho extraordinário de Olivia Colman. Com uma capacidade muito natural de elevar seus próprios padrões a cada trabalho, Olivia dá um show ao assumir um papel centrado não em diálogos ou exposições, mas sim em expressões e silêncios. Leda é uma esfinge muito em função da atriz, que navega pela imprevisibilidade da personagem através de uma interpretação enigmática. Ao passo que Dakota Johnson lhe faz uma boa dupla na narrativa presente, Jessie Buckley é maravilhosa ao dar vida à versão mais jovem da protagonista. Atriz em ascensão, Buckley alcança o devido grau de profundidade aos flashbacks que, como já mencionado, podem soar, vez ou outra, como interrupções não tão bem sucedidas.

Pragmaticamente falando, é fácil listar os temas abordados em A Filha Perdida: maternidade, abandono, infidelidade, diferenças e semelhanças entre gerações, o efeito do tempo, traumas, remorsos… E ainda é pouco para traduzir em palavras. Tão truncado quanto carregado de nuances, o longa dificilmente se define em explicações fáceis, e é o caso de experiência que, em diferentes níveis, ainda será pauta de muitas conversas. Não creio que seja papel de cineastas, autores ou artistas de qualquer natureza explicarem suas obras ou dar pitacos sobre como outras pessoas devem encarar suas obras, mas, no caso específico de A Filha Perdida, lamento muito que Elena Ferrante seja uma autora reclusa e de identidade desconhecida, pois daria tudo para saber o que ela tem a dizer sobre essa excelente adaptação.