Festival de Sundance 2022: “The Princess”, de Ed Perkins

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De tempos em tempos, figuras da vida real se tornam objeto de paixões repentinas entre filmes e seriados. O escritor Truman Capote, por exemplo, foi retratado por dois filmes consecutivos em 2005 e 2006 com Capote e Confidencial, enquanto o pintor Vincent Van Gogh apareceu recentemente na animação Com Amor, Van Gogh e no drama No Portal da Eternidade, também apresentados em dois anos consecutivos. Já a cantora Aretha Franklin agora tem sua história celebrada pela minissérie Genius: Aretha e pelo filme Respect. Mas ainda está por vir um fenômeno tão simultâneo quanto o da princesa Diana. Depois de ter sido encarnada por Kristen Stewart em Spencer e por Emma Corrin no seriado The Crown, Diana ainda ganhará vida com Elizabeth Debicki em uma nova temporada dessa produção original Netflix.

É por isso que suspeitei quando descobri The Princess, documentário de Ed Perkins que faz sua estreia no Festival de Sundance deste ano. Minha suspeita é muito simples: afinal, depois de tudo o que vimos sobre Diana nos últimos anos, ainda há algo de novo a ser dito sobre sua história? Em teoria, o longa aposta que sim. Na prática, entretanto, a promessa não se cumpre e as boas ideias são desperdiçadas. Perkins, que recebeu uma indicação ao Oscar em 2019 pelo documentário de curta-metragem Ovelhas Negras, disse, na apresentação do filme no festival, que sabe o quanto a história de Diana já foi amplamente abordada, mas que, com The Princess, esperava dar um enfoque diferenciado a essa história que, segundo ele, é uma das que mais definem a nossa era. 

O ponto de partida adotado por Perkins é interessante: o de apresentar uma das figuras mais influentes e icônicas do século XX utilizando apenas imagens de acervo, formando um mosaico de como o trabalho da imprensa e a superexposição a qual Diana foi submetida contribuiu para o seu trágico e conhecido desfecho em agosto de 1997. Na arrancada, o conceito funciona: com tantas imagens de jornalistas registrando cada aparição de Diana em qualquer lugar do mundo, somos tomados por um crescente sentimento de angústia porque, mesmo depois de mais duas décadas e com as redes sociais já sendo parte indissociável da nossa realidade, ainda parece absurdo que uma vida seja exposta de maneira tão cruel e sem escrúpulos.

A montagem de Daniel Lapira e Jinx Godfrey é habilidosa no entrelaçamento das imagens e, principalmente, na transição de fatos importantes da vida de Diana. Acontece que logo The Princess vai perdendo tração devido a um problema fácil de antever e que o documentário não contorna: o de que já vimos uma imensa parte daquelas imagens ao longo dos anos. Diana foi uma figura tão explorada e discutida que é difícil encontrar imagens públicas que não sejam familiares ao público, sensação agravada quando não há qualquer outro artifício para enriquecê-las, como é o caso aqui. Daí vem a frustração de constatar que The Princess pode até ser um excelente trabalho de pesquisa, mas que, como cinema, especialmente agora, tem pouco a acrescentar sobre uma figura tão icônica dos nossos tempos.

The Princess review

From time to time, real-life figures become the object of sudden passions in movies and TV shows. Writer Truman Capote, for example, was portrayed in two consecutive films in 2005 and 2006 with Capote and Confidential, while painter Vincent Van Gogh recently appeared in the animation With Love, Van Gogh and in the drama At Eternity’s Gate, also presented in two consecutive years. Singer Aretha Franklin now has her story celebrated by the miniseries Genius: Aretha and the movie Respect. But a phenomenon as simultaneous as that of Princess Diana is yet to come. After being played by Kristen Stewart in Spencer and by Emma Corrin in the series The Crown, Diana will still come to life with Elizabeth Debicki in a new season of the original Netflix production.

That’s why I got suspicious when I heard about The Princess, Ed Perkins’ documentary making its debut at this year’s Sundance Film Festival. My suspicion is very simple: after all, after everything we’ve seen about Diana in recent years, is there still anything new to be said about her story? In theory, The Princess bets so. Practically speaking, however, the promise is not kept and good ideas are wasted. Perkins, who received an Oscar nomination in 2019 for the short-film documentary Black Sheep, said, at the film’s presentation at the festival, that he knows how widely Diana’s story has already been covered, but that he hoped to give a different focus to a life that, according to him, is one of the most defining of our era.

The starting point is quite interesting: to present one of the most influential and iconic figures of the 20th century using only collection images, forming a mosaic of how the work of the press and the overexposure to which Diana was subjected contributed to her tragic and well-known outcome in August 1997. The concept works in the first moments: with so many images of journalists recording each appearance of Diana, we are taken by a growing feeling of anguish because, even after more than two decades and with social networks already being an inseparable part from our reality, it still seems absurd that a life is exposed in such a cruel and unscrupulous way.

The editing by Daniel Lapira and Jinx Godfrey is skillful in the intertwining of images and, above all, in the transition of important facts in Diana’s life. It turns out that soon The Princess loses traction due to the problem that we’ve already seen a huge part of those images over the years. Diana was such a explored and discussed figure that it is difficult to find public images that are not familiar to the audience, a feeling that is exacerbated when there is no other tool to enrich them, as is the case here. Hence the frustration of realizing that The Princess may even be an excellent work of research, but that, as a cinema, especially now, it has little to add about such an iconic figure of our times.

Um comentário em “Festival de Sundance 2022: “The Princess”, de Ed Perkins

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