Festival de Sundance 2022: “Resurrection”, de Andrew Semans

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Foi colocando as mulheres no centro de histórias provocadoras que o chamado cinema de gênero alcançou suas melhores notas nos últimos anos e nos proporcionou verdadeiros espetáculos vindos de atrizes para lá de talentosas. Temos como exemplo Toni Collette em Hereditário, Lupita Nyong’o em Nós, Florence Pugh em Midsommar, Elisabeth Moss em O Homem Invisível e, agora, Rebecca Hall em Resurrection,  filme que faz sua estreia no Festival de Sundance. Em que pese minha afinidade (ou falta dela) com cada um desses filmes, todos se utilizaram do suspense, do thriller ou do próprio terror para questionar uma série de costumes e cicatrizes da nossa sociedade, linha também adotada por Resurrection.

O segundo longa de Andrew Semans é mais modesto em termos de produção se comparado aos títulos citados anteriormente, mas jamais se se apequena na construção de seu estilo. Assim como no recente A Filha Perdida — outro projeto que tem a maternidade como matéria-prima para causar determinados incômodos —, Ressurection traz uma mãe em um processo gradativo de desestabilização emocional ao ser confrontada por traumas do passado. A mãe em questão é Margaret (Hall), uma mulher em pleno controle de sua vida que começa a afrouxar e a perder as rédeas quando recebe uma visita de uma figura traumática de tempos passados.

No roteiro também escrito por Semans, acontecimentos indeléveis da juventude de Margaret retornam para tirar do prumo uma mulher hoje estável, pragmática e de ideias firmes. É por vermos a protagonista tão no controle ao longo do primeiro terço que seu posterior descontrole surte tanto efeito. Ainda que as razões demorem a ser reveladas — e que elas carreguem até elementos com traços pouco realistas se analisados com o que foi nos apresentado ou sugerido até ali —, Resurrection se sai admiravelmente bem ao criar atmosfera e curiosidade em torno dos novos comportamentos de Margaret.

Os desafios de interpretar uma personagem como essa sem resvalar em caricaturas ou superficialidades são grandes, e também é preciso colocar na conta de complexidades o entrave entre o racional e o sentimental de uma mulher que, de repente, luta contra seus próprios turbilhões internos para não derrubar as bases sólidas construídas até ali. E Rebecca Hall é espetacular em todas as camadas. Sua presença aqui é forte e de personalidade, assim como cada uma das oscilações trabalhadas em busca de outras facetas da personagem. Em pouco tempo de projeção, fica evidente a garantia de seu lugar em um panteão recente já ocupado por Collette, Nyong’o, Pugh e Moss.

Como o bom filme-evento que tem potencial para ser quando estrear comercialmente, Resurrection é divisivo por apostas em resoluções que exigem do espectador certas afinidades com o estilo das decisões tomadas. Não é e nem quer ser necessariamente conclusivo, mas sim capaz de acentuar questões que, em diferentes níveis, assim como na vida, muitas vezes não se resolvem com as respostas que desejamos. Na busca pelo controle absoluto, a protagonista está em constante estado de alerta e em uma outra sintonia par seguir a vida, o que diz muito sobre fantasmas que o filme explora até o último segundo.

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