Festival de Sundance 2022: “A Love Song”, de Max Walker-Silverman

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As cores e os tons escolhidos pelo diretor de fotografia Alfonso Herrera Salcedo para A Love Song dizem muito sobre este primeiro longa de Max Walker-Silverman. É como se estivéssemos diante de um envelhecido cartão-postal, carregado de histórias, lembranças e saudades. E também temos frases breves, todas suficientes para entendermos que nem sempre é preciso nome às coisas e que determinados sentimentos podem ser autoexplicativos.

Não precisamos saber a história de Faye (Dale Dickey) tintim por tintim, e talvez o que a defina seja essa ideia de que a solidão não se restringe sofrimento: ela também pode ser sobre autoconhecimento, introspecção e consciência. Estacionada nas montanhas do Colorado, nos Estados Unidos, Faye espera. Não sabemos quem nem quando essa pessoa chegará, e tal espera é o suficiente para conhecermos uma personagem envolta em melancolia.

A comparação com Nomadland é inevitável — Faye está sozinha na estrada, morando em um trailer e com uma vida deixada para trás —, mas A Love Song tem suas próprias ideias. Aqui, temos a protagonista parada em um único lugar, vivendo uma espera que a define em muitos sentidos. Faye carrega muito pouco: um livro sobre estrelas, outro sobre pássaros, e um pequeno rádio que sintetiza sua única conexão com o mundo mesmo estando em 2020. Os detalhes a explicam, e tudo muda quando sua espera finalmente termina.

Um filme como A Love Song poderia cair no completo marasmo se construísse tal atmosfera sem uma atriz que pudesse capturar a imensidão não verbalizada. E Max Walker-Silverman acertou em cheio ao chamar uma atriz como Dale Dickey para o papel. Eterna coadjuvante de filmes como Inverno da Alma e A Qualquer Custo, Dale tem aquele tipo de rosto que carrega o mapa de uma vida e que, somente em uma primeira aparição, já nos faz compreender a mulher solitária e de poucas palavras que estamos prestes a acompanhar.

Dale tem mais de 130 trabalhos no currículo e poucas vezes recebeu um papel rico como esse. Ela é espetacular em cada inflexão de voz e em cada olhar que marca sua espera. A dinâmica que ela estabelece com o também sensível Wes Studi é preciosa porque enternece uma importante quebra de expectativa: o encontro vivido por ambos não é sobre revelações ou acertos de contas, mas sim sobre duas pessoas que se (re)conhecem em sentimentos compartilhados de perda, saudade e reconstrução.

Eventualmente, é possível nomear as reflexões propostas roteiro — viuvez, amores perdidos, envelhecimento, memória —, mas as preciosidades de A Love Song estão no plano do abstrato. Em seu primeiro trabalho como diretor de longas-metragens, Max Walker-Silverman demonstra grande sensibilidade, um delicado apreço por interpretações e o raro talento de condensar uma gama de sentimentos em um pequeno recorte de tempo e espaço.

A Love Song review

The color palette chosen by cinematographer Alfonso Herrera Salcedo for A Love Song says a lot about this first feature by Max Walker-Silverman. It is as if we were in front of an aged postcard, full of stories, memories and homesickness. And we also have brief sentences throughout the film, all of which are enough for us to understand that things don’t always need to be named and that certain feelings can be self-explanatory.

We don’t need to know Faye’s (Dale Dickey) story in detail, and perhaps what defines it is this idea that loneliness isn’t just about suffering: it can also be about self-knowledge, introspection and awareness. Parked in the mountains of Colorado, United States, Faye waits. We don’t know who or when that person will arrive, and such a wait is enough for us to meet a character shrouded in melancholy.

The comparison to Nomadland is unavoidable — Faye is alone on the road, living in a trailer and with a life left behind — but A Love Song has her own ideas. Here, we have the protagonist standing in one place, living a wait that defines her in many ways. Faye carries very little: a book about stars, another about birds, and a tiny radio that epitomizes her only connection to the world even though it’s 2020. The details explain her, and everything changes when her wait is finally over.

A film like A Love Song could fall into complete stagnation if it built such an atmosphere without an actress who could capture an unspoken immensity. And Max Walker-Silverman nailed it when casting an actress like Dale Dickey in the role. Supporting actress in films like Winter’s Bone and Hell or High Water, Dale has that kind of face that carries the map of a life and that, in just a first appearance, makes us understand this lonely woman of few words.

Dale has over 130 projects in her filmography and has rarely been given a complex role like this. She is spectacular in every inflection of voice and in every look. The dynamic she establishes with the also sensitive Wes Studi is precious because it softens an important break in expectation: the encounter experienced by both is not about revelations or resolutions, but about two people who recognize each other in shared feelings of loss, longing and reconstruction.

Eventually, it is possible to name the reflections proposed in the script — widowhood, lost loves, aging, memory — but the gems of A Love Song are in the abstract plane. In his first work as a feature film director, Max Walker-Silverman demonstrates great sensitivity, a delicate appreciation for acting and the rare talent for condensing a range of feelings into a small circle of time and space.

Um comentário em “Festival de Sundance 2022: “A Love Song”, de Max Walker-Silverman

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