Cinema e Argumento

Os indicados ao Emmy 2018

Ainda que Game of Thrones lidere mais uma vez a lista de indicados ao Emmy, The Handmaid’s Tale chega ao prêmio confirmando todo o prestígio conquistado após a celebração da primeira temporada.

Tenho incontáveis séries, minisséries e telefilmes acumulados para assistir antes de poder falar sobre o Emmy com mais propriedade (é simplesmente impossível dar conta de tudo hoje em dia!), mas, como já é tradição aqui no blog, faço questão de alguns pitacos sobre a lista de indicados deste ano. Vamos a eles:

– Game of Thrones mais uma vez lidera a lista de indicações, assim como Westworld mantém toda a badalação conquistada entre os votantes com a primeira temporada, mas é The Handmaid’s Tale, a grande vencedora do ano passado, que chega com tudo: desta vez, praticamente o elenco inteiro concorre com indicações individuais, onde destaco a merecida lembrança de Yvonne Strahovski como coadjuvante, dona de um dos arcos dramáticos mais interessantes da segunda temporada.

– Por falta de opção, o Emmy não escapou de celebrar The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story mesmo quando o programa não merecia: são injustificadas, por exemplo, as inclusões de Edgar Ramírez e Ricky Martin entre os coadjuvantes. Por outro lado, Darren Criss, que é um espetáculo na série, garantiu sua merecida indicação de protagonista, assim como Judith Light, maravilhosa em apenas dois episódios, ficou entre as finalistas de atriz coadjuvante.

– Uma das séries mais subestimadas da Netflix, Ozark recebeu uma esperada (e merecida) indicação de melhor para Jason Bateman, mas faltou Laura Linney também representando o seriado como melhor atriz. De qualquer forma, a surpresa de ver dois episódios selecionados para a categoria de melhor direção de certa forma compensa a ausência.

– Depois de perder todos os principais prêmios de cinema para Allison Janney (Eu, Tonya), Laurie Metcalf volta a ser indicada pelo revival já cancelado de Roseanne, série que lhe rendeu três estatuetas nos anos 1990. Metcalf já recebeu outras oito indicações sem vitória desde então, todas por diferentes seriados, incluindo uma indicação tripla em 2016 por drama e comédia. Este ano, também faturou seu segundo Tony consecutivo no teatro. Chegou a hora de um novo Emmy?

– No geral, foram poucas as surpresas para um ano sem Veep, Big Little Lies, House of Cards e a aguardada Sharp Objects, que só é elegível para o ano que vem. Especialmente nos dramas, as listas parecem as mesmas de sempre, com variações já esperadas e um tanto óbvias. Em termos de garimpar estreias, há de se reconhecer que, mesmo inconstante e aos trancos e barrancos, o Globo de Ouro é muito mais instigante.

Os vencedores do Emmy 2018 serão conhecidos no dia 17 de setembro. Até lá, prometo compartilhar com vocês tudo o que eu tirar dessa longa lista de atraso. Confiram abaixo a lista dos selecionados para melhor série e para interpretações protagonistas e coadjuvantes. Todas as outras categorias (são mais de 100!) podem ser encontradas no site do Emmy.

MELHOR SÉRIE DRAMA
The Handmaid’s Tale
Game of Thrones
This Is Us
The Crown
The Americans
Stranger Things
Westworld

MELHOR ATRIZ – SÉRIE DRAMA
Claire Foy (The Crown)
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale) 
Evan Rachel Wood (Westworld)
Keri Russell (The Americans) 
Sandra Oh (Killing Eve) 
Tatiana Maslany (Orphan Black) 

MELHOR ATOR – SÉRIE DRAMA
Ed Harris (Westworld)
Jason Bateman (Ozark) 
Jeffrey Wright (Westworld)
Matthew Rhys (The Americans) 
Milo Ventimiglia (This Is Us)
Sterling K. Brown (This Is Us)  

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE DRAMA
Alexis Bledel (The Handmaid’s Tale) 
Ann Dowd (The Handmaid’s Tale) 
Lena Headey (Game of Thrones) 
Millie Bobby Brown (Stranger Things) 
Thandie Newton (Westworld) 
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE DRAMA
David Harbour (Stranger Things) 
Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale) 
Mandy Patinkin (Homeland) 
Matt Smith (The Crown)
Nikolaj Coster-Waldau (Game of Thrones)
Peter Dinklage (Game of Thrones) 

MELHOR SÉRIE COMÉDIA
Atlanta
Barry
Black-ish
Curb Your Enthusiasm
GLOW
The Marvelous Mrs. Maisel
Silicon Valley
The Unbreakable Kimmy Schmidt

MELHOR ATRIZ – SÉRIE COMÉDIA
Allison Janney (Mom) 
Issa Rae (Insecure)
Lily Tomlin (Grace and Frankie) 
Pamela Adlon (Better Things)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) 
Tracee Ellis Ross (Black-ish) 

MELHOR ATOR – SÉRIE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish) 
Bill Hader (Barry) 
Donald Glover (Atlanta) 
Larry David (Curb Your Enthusiasm) 
Ted Danson (The Good Place)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE COMÉDIA 
Aidy Bryant (Saturday Night Live) 
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Betty Gilpin (GLOW)
Kate McKinnon (Saturday Night Live) 
Laurie Metcalf (Roseanne) 
Leslie Jones (Saturday Night Live) 
Megan Mullally (Will & Grace)
Zazie Beetz (Atlanta) 

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE COMÉDIA
Alec Baldwin (Saturday Night Live) 
Henry Winkler (Barry)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Louie Anderson (Baskets) 
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt) 
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR MINISSÉRIE
The Alienist
The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
Genius: Picasso
Godless
Patrick Melrose

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME
Antonio Banderas (Genius: Picasso)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Benedict Cumberbatch (Patrick Melrose)
Jeff Daniels (Godless)
John Legend (Jesus Christ Superstar Live in Concert)
Jesse Plemons (Black Mirror: USS Callister)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME
Edie Falco (Law & Order: True Crime)
Jessica Biel (The Sinner)
Laura Dern (The Tale)
Michelle Dockery (Godless)
Regina King (Seven Seconds)
Sarah Paulson (American Horror Story: Cult)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – MINISSÉRIE/TELEFILME
Brandon Victor Dixon (Jesus Christ Superstar Live in Concert)
Edgar Ramirez (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Finn Wittrock (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Jeff Daniels (Godless)
John Leguizamo (Waco)
Michael Stuhlbarg (The Looming Tower)
Ricky Martin (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – MINISSÉRIE/TELEFILME
Adina Porter (American Horror Story: Cult)
Judith Light (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Letitia Wright (Black Mirror: Black Museum)
Merritt Wever (Godless)
Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Sara Bareilles  (Jesus Christ Superstar Live In Concert)

46º Festival de Cinema de Gramado #1: seleção de longas concorrentes busca a diversidade do cinema brasileiro e latino-americano

Após exibição no Festival de Sundance, Benzinho faz sua primeira exibição nacional no 46º Festival de Cinema de Gramado. Filme marca nova parceria entre o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Telles.

O Festival de Cinema de Gramado apresentou hoje, na coletiva de imprensa realizada na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, as novidades de sua 46ª edição, que acontece entre os dias 17 e 25 de agosto. Sem Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho, que estiveram ausentes por eventualidades pessoais, o curador Marcos Santuario falou em nome do trio: “Este ano temos a satisfação de dizer que não há um tema, há muitos. A marca das mostras competitivas em Gramado será a diversidade, como é no cinema brasileiro e latino-americano”. Julgando pela lista de filmes apresentados, essa deve mesmo ser a tônica do evento, que, na última edição, consagrou o drama Como Nossos Pais, dirigido por Laís Bodanzky.

Com nove títulos brasileiros em competição, Gramado segue apostando no ineditismo de todos os títulos selecionados. Pelo menos dois dos longas brasileiros chegam com pompa internacional: Benzinho, de Gustavo Pizzi, e Ferrugem, de Aly Muritiba, foram os representantes da nossa mais recente safra no Festival de Sundance deste ano. Junto a eles, a pluralidade se faz presente com cinebiografias (10 Segundos Para Vencer, sobre o boxeador Éder Jofre, e Simonal, sobre a trajetória, claro, do cantor Wilson Simonal), animações (A Cidade dos Piratas, do gaúcho Otto Guerra, homenageado ano passado com o troféu Eduardo Abelin), comédias (Correndo Atrás, de Jeferson De) e dramas das mais variadas temáticas (O Banquete, Mormaço e A Voz do Silêncio). Ao todos, foram inscritos 665 filmes, entre longas e curtas-metragens.

Após ser palco das primeiras exibições públicas em território brasileiro de filmes como O Som ao Redor, Flores Raras, Que Horas Ela Volta? e Aquarius, para citar trabalhos mais célebres e de expressiva carreira internacional, Gramado, apesar da mostra estrangeira muito mais enxuta este ano (são apenas cinco longas em competição, o que tem se mostrado uma tendência no evento), segue administrando muito bem o alto status construído após a mudança de curadoria entre 2011 e 2012. Isso porque, além da competição, será apresentado, em primeira mão, O Grande Circo Místico, aguardado longa-metragem de Cacá Diegues com grande elenco e exibido fora de competição em Cannes. 

Na chamada programação paralela, a Itália é o país convidado de honra da 46ª edição, dando continuidade ao projeto iniciado ano passado com o Canadá, que chegou a trazer para a Serra Gaúcha a cineasta Amber Fares, produtora da quarta temporada de Transparent, da Amazon. Outra iniciativa do Festival que ganha nova edição é o Gramado Film Market, programação focada na discussão de pontos cruciais da atividade audiovisual e nas parcerias nacionais e internacionais. Para este ano, o Gramado Film Market se concentra em três frentes de discussão: plataformas de exibição, internacionalização de conteúdos ibero-americanos e no futuro das salas de exibição.

Completando as novidades apresentadas na coletiva, o Festival de Cinema de Gramado já adianta duas de suas quatro homenagens para 2018. A primeira é para o diretor carioca Carlos Saldanha, duas vezes indicado ao Oscar e autor de obras como Rio, A Era do Gelo e O Touro Ferdinando. Desembarcando diretamente de Los Angeles, onde vive nos Estados Unidos, ele receberá o Troféu Eduardo Abelin, distinção entregue a cineastas brasileiros. Já o Troféu Cidade de Gramado será do ator Ney Latorraca. Com mais de 50 anos de carreira, Latorraca contabiliza mais de 20 longas no currículo, entre eles O Beijo no Asfalto, For All – O Trampolim da Vitória e Carlota Joaquina. Outras duas homenagens ainda estão para ser anunciadas: o Troféu Oscarito, destinado a grandes atores do cinema brasileiro, e o Troféu Kikito de Cristal para expoentes do cinema latino-americano.

Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados para o 46º Festival de Cinema de Gramado. Mais informações no site http://www.festivaldegramado.net.

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

– 10 Segundos Para Vencer (RJ), de José Alvarenga Jr.
– O Banquete (SP), de Daniela Thomas
– Benzinho (RJ), de Gustavo Pizzi
– A Cidade dos Piratas (RS), de Otto Guerra
– Correndo Atrás (RJ), de Jeferson De
– Ferrugem (PR), de Aly Muritiba
– Mormaço (RJ), de Marina Meliande
– Simonal (RJ), de Leonardo Domingues
– A Voz do Silêncio (SP), de André Ristum

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

– Averno (Bolívia/Uruguai), de Marcos Loayza
– Las Herederas (Paraguai/Brasil/Uruguai/França/Alemanha), de Marcelo Martinessi
– Mi Mundial (Uruguai/Argentina/Brasil), de Carlos Morelli
– Recreo (Argentina), de Hernán Guerschuny e Jazmín Stuart
– Violeta al Fin (Costa Rica/México), de Hilda Hidalgo

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

– À Tona (DF), de Daniella Cronemberger
– Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim (SC), de Maria Augusta V. Nunes
– Aquarela (MA), de Thiago Kistenmacker e Al Danuzio
– Catadora de Gente (RS), de Mirela Kruel
– Estamos Todos Aqui (SP), de Chico Santos e Rafael Mellim
– Um Filme de Baixo Orçamento (SP), de Paulo Leierer
– Guaxuma (PE), de Nara Normande
– Kairo (SP), de Fabio Rodrigo
– Majur (MT), de Rafael Irineu
– Minha Mãe, Minha Filha (SP), de Alexandre Estevanato
– Nova Iorque (PE), de Leo Tabosa
– Plantae (RJ), de Guilherme Gehr
– A Retirada Para Um Coração Bruto (MG), de Marco Antonio Pereira
– Torre (SP), de Nádia Mangolini

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS – PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

– À Sombra (Canoas), de Felipe Iesbick
– O Abismo (Sapucaia do Sul), de Lucas Reis
– Antes do Lembrar (Porto Alegre), de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes
– Coágulo (São Leopoldo), de Jéssica Gonzatto
– O Comedor de Sementes (São Leopoldo), de Victoria Farina
– Um Corpo Feminino (Porto Alegre), de Thais Fernandes
– Entre Sós (Porto Alegre), de Caetano Salerno
– Fè Mye Talè (Encantado), de Henrique Both Lahude
– A Formidável Fabriqueta de Sonhos Menina Betina (Pelotas), de Tiago Ribeiro
– Gasparotto (Porto Alegre), de Zeca Brito
– Grito (Santa Maria), de Luiz Alberto Cassol
– Maçãs em Fogo (Porto Alegre), de Bruno de Oliveira
– Movimento à Margem (Porto Alegre), de Lícia Arosteguy e Lucas Tergolina
– Mulher Ltda (Canoas), de Taísa Ennes
– Nós Montanha (Porto Alegre), de Gabriel Motta
– Pelos Velhos Tempos (Porto Alegre), de Ulisses da Motta
– Sem Abrigo (Porto Alegre), de Leonardo Remor
– Subtexto (Caxias do Sul), de Cristian Beltrán
– Vinil (Porto Alegre), de Catherine Silveira de Vargas e Valentina Peroni Freire Barata
– O Viúvo (Porto Alegre), de Luiz Carlos Wolf Chemale

Rapidamente: “Eu, Tonya”, “A Melhor Escolha”, “Uma Mulher Fantástica” e “Vingadores: Guerra Infinita”

Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica é um relato digno e delicado sobre o luto a partir da perspectiva de uma personagem trans.

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, de Craig Gillespie): É interessante ver um filme como Eu, Tonya durante a era das fake news: dispensando a imparcialidade e caminhando na linha tênue entre o que é a nossa opinião e o que é de fato verdade, o longa assinado por Craig Gillespie, do ótimo A Garota Ideal, assume o seu relato de defesa na história de Tonya Harding (Margot Robbie), ex-patinadora que, nos anos 1990, foi acusada de estar envolvida no planejamento de um ataque que seu então marido colocou em prática contra Nancy Kerrigan, também patinadora e concorrente de Tonya nas competições da modalidade. Com estilo ácido, ágil e desbocado, o filme cria uma mistura entre drama, comédia e documentário que questiona a veracidade (ou a intensidade) de fatos e perspectivas. O recado é claro: em circunstâncias extremas e suspeitas, tudo se resume ao que cada um vê. Margot Robbie é maravilhosa em todas as fases e facetas de Tonya Harding, naquele tipo de desempenho que define uma carreira em ascensão. Já Allison Janney, vencedora absoluta dos prêmios de atriz coadjuvante em 2018, é sempre uma ótima atriz, mas aqui está presa a uma caricatura unilateral e que se justifica de maneira simplista. Sua personagem, aliás, sintetiza aquele que é o maior problema de Eu, Tonya: o de ultrapassar a linha do politicamente incorreto para convidar o público a rir de temas que são problemas reais da nossa realidade, como o machismo, a violência doméstica e todo tipo de abuso emocional. É o único desajuste questionável (e, por que não, irresponsável) de um filme predominantemente repleto de frescor em clima, ideias e ritmo.

A MELHOR ESCOLHA (Last Flag Flying, 2017, de Richard Linklater): Fiel ao seu estilo de olhar para momentos e situações que, isoladamente, parecem corriqueiros, mas que, quando vistos em perspectiva, explicam muita coisa sobre quem nos tornamos, o diretor Richard Linklater realiza A Melhor Escolha com as qualidades e delicadezas que lhe são habituais, mas dessa vez em menor escala, mesmo com um elenco de primeiríssima qualidade (Bryan Cranston, Steve Carell, Laurence Fishburne). E, quando digo menor escala, faço referência ao próprio roteiro, que fala sobre a camaradagem masculina, os anos que nos separam e as situações que nos reúnem com inspiração moderadíssima, muitas vezes até optando por situações e arcos dramáticos previsíveis. Pela linearidade de estrutura e ideias (é fácil deduzir qual será a transformação de cada um dos personagens), A Melhor Escolha se alonga mais do que tem a dizer, o que entrega aos três atores principais a tarefa de ser a base do carisma e do principal interesse da obra. Cranston e Fishburne, como os bons atores que são, tornam a viagem prazerosa, mas cito mais uma vez em específico o sempre subestimado Steve Carell: interiorizando a dor de um homem que perdeu o filho sem recorrer aos artifícios fáceis de interpretação para esse tipo de papel, o ator é minimalista como poucos no cinema norte-americano da atualidade, adicionando outro belo momento a uma carreira já marcada por excelentes trabalhos em filmes como Pequena Miss Sunshine, Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Amor a Toda Prova, Foxcatcher e A Guerra dos Sexos.

UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica, 2017, de Sebastián Lelio): Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica dá novo significado ao luto quando transfere o tema para a perspectiva de uma mulher transexual. Força e originalidade são extraídas do relato somente com essa mudança de cenário: afinal, é devastadora a situação em que se encontra Marina (Daniela Vega, ótima), proibida de viver quase todos os rituais do luto (o velório de seu parceiro, o abraço reconfortante da família) simplesmente por ser transexual. Mas o bacana de Uma Mulher Fantástica é não abordar a questão da sexualidade como panfletagem, preferindo negar sentimentos fáceis (ao contrário dos estereótipos, a protagonista é uma mulher independente, trabalhadora e talentosa) ou interferências sensoriais e estéticas — e, ainda assim, quando as evoca, o resultado é emblemático, como na sequência em que protagonista encara uma intensa ventania, uma clara metáfora da contracorrente diária que ela enfrenta na vida, ou como na cena em que ela, nua, coloca um espelho no meio das pernas, refletindo aquilo que a define: o rosto e não qualquer órgão genital que ela tenha ou deixe de ter. Uma Mulher Fantástica é de uma delicadeza tremenda — característica que o cinema de língua latina domina com maestria nos melhores exemplares que se encaixam em relatos como esse —, e a vitória no Oscar de filme estrangeiro é dupla: pela celebração da representatividade e pela excelência cinematográfica.

VINGADORES: GUERRA INFINITA (Avengers: Infinity War, 2018, de Anthony e Joe Russo): Sucesso estratosférico de bilheteria e inclusive de comoção por parte da crítica, Vingadores: Guerra Infinita é o perfeito exemplo de como filmes de super heróis são uma verdadeira paixão. Para quem a tem, o que se vê é um filme inovador, marcante e corajoso. Já quando você não se empolga de forma equivalente, como é o meu caso, a situação é um mistério: no máximo bacana, Guerra Infinita não passa de outra diversão de momento. Com o grande mérito de demonstrar plena segurança em um ponto que poderia ser sua ruína — o timing e relevância de incontáveis personagens e universos —, o longa tem a seu favor um vilão de forte presença e que finalmente desperta algum sentimento de ameaça. Entretanto, além da duração tão demasiada quanto inevitável, Guerra Infinita frustra mesmo é quando, ironicamente, tenta colocar em prática as consequências da ameaça tão anunciada pelo vilão: o projeto tanto não tem culhões para traçar um destino drástico para determinado personagem quando sugere a chance quanto encerra essa primeira parte (outra virá em 2019) propondo certo pesar por uma situação que sabemos ser perfeitamente reversível, uma vez que incontáveis franquias já estão encomendadas para os próximos anos. Não precisávamos de um plot twist raso e até mesmo oportunista como esse.

“Hereditário”: luto familiar é a instigante matéria-prima para o medo e a paranoia (até chegar o terço final)

You don’t think I’m gonna take care of you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Ann Dowd, Milly Shapiro, Brock McKinney, Jake Brown, Mallory Bechtel, Morgan Lund, Bus Riley, Heidi Méndez

Hereditary, EUA, 2018, Terror, 127 minutos

Sinopse: Após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta adolescente, Charlie, por quem ela sempre manteve uma fascinação não usual. Com um crescente terror tomando conta da casa, a família explora lugares mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram. (Adoro Cinema)

Sucessor de Mãe! no sentido de ser o filme mais polarizador do cinema norte-americano em 2018, Hereditário, contudo, representa a consolidação do terror mais sofisticado e menos simplista junto às grandes plateias. Se já vivemos épocas em que sucessos de bilheteria eram trabalhos pautados por um estilo mais grotesco e escrachado como A Casa de Cera, Horror em Amityville, O Albergue e uma infinidade de Jogos Mortais, hoje a criatividade e a autoria parecem ter lugar cativo: Invocação do Mal, A Bruxa, Corra! e Um Lugar Silencioso, citando apenas obras mais recentes, exploram as possibilidades estilísticas do gênero de forma exemplar, além de, em casos pontuais, proporem a discussões contemporâneas a partir do medo, da tensão ou do assombro. Com Hereditário, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, ganhamos mais um título para reforçar essa tese, e um título dos mais interessantes do ponto de vista de repercussão: independente de pré-conceitos e do quanto o resultado como um todo é envolvente, você precisa assisti-lo e, principalmente, debatê-lo, sensação despertada apenas por uma mínima porcentagem dos filmes que costumamos conferir ao longo do ano.

Conduzindo situações e personagens por terrenos incertos, onde muito se deduz e pouco se diagnostica em termos daquilo que devemos temer ou suspeitar (uma qualidade tremenda, diga-se de passagem), Hereditário mostra todo o talento do diretor Ari Aster em seu primeiro longa-metragem: há uma atmosfera latente no filme, auxiliada tanto pelas ferramentas técnicas (a trilha de Colin Stetson cria o clima ideal até mesmo nas notas mais altas e previsíveis) quanto por essa matéria-prima da incerteza que define os melhores relatos de terror. A força maior, contudo, está no conceito pensado para a trama, que é impulsionada pela discussão sobre como a dor e o luto são capazes de nos levar a lugares inimagináveis. Tudo começa quando Annie (Toni Collette) perde a mãe e, dias depois, sofre outro baque emocional que atingirá também e principalmente o filho Peter (Alex Wolff). Entre eles, há ainda o pai vivido por Gabriel Byrne e a estranha irmã mais nova (Milly Shapiro), mas é do intenso calvário emocional de Annie e Peter que Hereditário extrai tensão e angústia. Ao mostrar o quanto o luto mexe com as nossas ideias e sentidos, o roteiro desafia o espectador a concluir se o estado de transe dos personagens está apoiado na loucura, na realidade ou, quem sabe, até mesmo no sobrenatural. E os resultados desse processo de questionamentos são ricos no drama e no terror, inclusive porque Toni Collette e Alex Wolff são ótimos atores.

O filme que percorre caminhos tão instigantes vai por água abaixo no terço final, e por uma razão que julgo ser bastante decisiva, para não dizer um pouco desonesta: a de virar completamente do avesso o seu estilo de terror. Poderíamos dizer que, antes disso, Hereditário ainda comete o pecado de explicar ponto a ponto o seu mistério, o que soa amador para uma obra que vinha carregando força e tensão exatamente na falta de respostas, mas o problema maior está mesmo nessa troca de estilo, que é gravíssima para um gênero tão específico como o terror. Ora, ninguém engoliria Os Outros, por exemplo, caso, de repente, todo o seu mistério fosse somente um plano do boneco Chucky. Hereditário me chateia por causa disso: além das explicações desnecessárias, a conclusão, cuja cena final é uma clara evocação do que já vimos em A Bruxa, transforma um filme em outro (um que eu provavelmente não veria), e ainda o faz a passos apressados, com guinadas e conclusões tumultuadas. Já se a mudança drástica é parte de um plano maior para causar o efeito da provocação e do incômodo, ao menos há de se reconhecer que Ari Aster acertou em cheio, pois Hereditário é, indiscutivelmente, quer se goste ou não, o filme-evento da temporada.

“Oito Mulheres e Um Segredo”: sem roteiro e direção à altura, elenco feminino é a razão do entretenimento

That was spectacular!

Direção: Gary Ross

Roteiro: Gary Ross e Olivia Milch, baseado na história de Gary Ross e nos personagens de George Clayton Johnson e Jack Golden Russell

Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling, Sarah Paulson, Rihanna, Awkwafina, James Corden, Richard Armitage, Midori Francis, Elliott Gould, Charlotte Kirk, Charles Prendergast

Ocean’s 8, EUA, 2018, Aventura, 110 minutos

Sinopse: Recém-saída da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) logo procura sua ex-parceira Lou (Cate Blanchett) para realizar um elaborado assalto: roubar um colar de diamantes no valor de US$ 150 milhões, que a Cartier mantém sempre em um cofre. O plano é convencer a empresa a emprestá-lo para que a estrela Daphne Kluger (Anne Hathaway) use a joia no badalado Met Gala, um dos eventos mais chiques e vistosos de Nova York. Para tanto, Debbie e Lou reúnem uma equipe composta apenas por mulheres: Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina), Rose (Helena Bonham Carter) e Tammy (Sarah Paulson). (Adoro Cinema)

Um pouco menos emblemática do que o público passou a considerar especialmente agora, a franquia iniciada com Onze Homens e Um Segredo e concluída como trilogia com Doze Homens e Outro Segredo e Treze Homens e Um Novo Segredo era puro entretenimento, com o bônus de ser concebida em uma fase inspirada de Steven Soderbergh, diretor incansável e plural, mas também bastante irregular. Sua cartada mais certeira, entretanto, era o elenco de altíssimo nível, capaz de reunir, na mesma tela, atores como George Clooney, Brad Pitt, Al Pacino e Matt Damon (a lista completa poderia levar mais algumas linhas), todos eles arquitetando assaltos e outros trambiques em pleno clima de descontração. Lá, a presença feminina (Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones) era secundárias, mas agora o jogo virou: onze anos depois do último filme, é a vez das mulheres, como em boa parte do que tem sido produzido nos dias de hoje, assumirem a dianteira de uma franquia que segue o mesmo estilo, dessa vez intitulada Oito Mulheres e Um Segredo.

A única conexão entre esse novo filme comandado por Gary Ross (A Vida em Preto e Branco, Seabiscuit – Alma de Herói e o primeiro Jogos Vorazes) e a versão masculina é o fato de Debbie Ocean (Sandra Bullock) ser irmã de Danny (Clooney), referenciado uma vez ou outra ao longo filme. O problema é que, apesar desse fiapo de conexão, Oito Mulheres e Um Segredo depende mais do estilo e do formato dos longas anteriores do que poderia se esperar. É fato: Gary Ross, também autor do roteiro, faz um trabalho bastante acomodado ao apenas remontar uma fórmula bem sucedida. Não há aqui uma linguagem própria ou ao menos certa personalidade para distanciar Oito Mulheres e Um Segredo de uma mera inversão de elenco. Há algum mal em mexer em time que sempre vence? Não necessariamente, mas, assim como no recente Mulher-Maravilha, a sensação de prato requentado nos lembra que, sim, é alta a relevância de se ter um filme comercial estrelado por mulheres, e seria ainda maior caso determinadas produções nos apontassem novas possibilidades em um mercado historicamente definido por visões masculinas (ao contrário de Mulher-Maravilha, o caso de Oito Mulheres e Um Segredo é ainda mais delicado por ter um homem na cadeira de direção).

Munido de certas liberdades que são coerentes com a veia cool da franquia (como levar a sério a personagem vivida por Sandra Bullock começar o filme com a maquiagem em dia dentro de uma… prisão?!), Oito Mulheres e Um Segredo não é um filme que preza pela verossimilhança ou por sua engenhosidade de roteiro (dependendo do ponto de vista, é o que dá a tônica da diversão) e que não se esmera na construção das personagens, todas com personalidades que existem porque lhe foram superficialmente atribuídas e não porque foram desenvolvidas. A falha mais grave, porém, é uma mera questão de atmosfera. Sem qualquer ameça ou perigo iminente, um filme de assalto não desperta euforia, e é o que acontece com Oito Mulheres e Um Segredo: não há situação que não seja contornável ou qualquer sequência que desperte o mínimo de adrenalina. Durante todo o desenrolar, nós sabemos que os ventos sempre sopram a favor das personagens. E isso, na letra fria da história, é desestimulante, além do mais quando tanta facilidade para idealizar a esperteza das personagens abre uma série de furos no roteiro (é inadmissível, por exemplo, que, em determinado ponto, a polícia acredite que um objeto tenha sido inocentemente perdido quando ele só poderia ser retirado do corpo de quem o usava com uma ferramenta que estava justamente sob os cuidados das autoridades).

Como em tantos outros trabalhos onde atores ou atrizes são maiores do que os filmes em si, Oito Mulheres e Um Segredo não foge à regra e inclusive se potencializa: são nada menos do que oito intérpretes que formam um time simplesmente irresistível. Tanto o projeto tem consciência desse poder que faz o possível para enaltecer cada personagem com trocas constantes de figurinos, maquiagens dignas de um Tapete Vermelho ou tiradas que reforcem o quanto elas são descoladas (o que é ótimo!). Anterior a esse apelo, é mesmo um prazer ver Cate Blanchett contracenando com Sandra Bullock ou Helena Bonham Carter vivendo a insegura figurinista de uma radiante e inspirada Anne Hathaway. Há personagens mais secundárias e sem tanto destaque, seja pelo papel ou por quem a interprete (Sarah Paulson poderia ter rendido mais, ao mesmo tempo em que Rihanna não se justifica muito em cena), o que não quer dizer que elas não tenham sua parcela de contribuição para o carisma do elenco como um todo. É o suficiente para fazer de Oito Mulheres e Um Segredo uma experiência entusiasmante? Quase. O longa de Gary Ross pode ser um bom entretenimento, mas, poucas horas depois da sessão, já se percebe que não tem fôlego para ficar na memória como algo maior do que uma diversão de momento. E é claro que, no frigir dos ovos, como em tudo se tratando sobre  cinema, cada um tem seu próprio gosto e estilo para dar o devido valor a essa percepção.