“Oito Mulheres e Um Segredo”: sem roteiro e direção à altura, elenco feminino é a razão do entretenimento

That was spectacular!

Direção: Gary Ross

Roteiro: Gary Ross e Olivia Milch, baseado na história de Gary Ross e nos personagens de George Clayton Johnson e Jack Golden Russell

Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling, Sarah Paulson, Rihanna, Awkwafina, James Corden, Richard Armitage, Midori Francis, Elliott Gould, Charlotte Kirk, Charles Prendergast

Ocean’s 8, EUA, 2018, Aventura, 110 minutos

Sinopse: Recém-saída da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) logo procura sua ex-parceira Lou (Cate Blanchett) para realizar um elaborado assalto: roubar um colar de diamantes no valor de US$ 150 milhões, que a Cartier mantém sempre em um cofre. O plano é convencer a empresa a emprestá-lo para que a estrela Daphne Kluger (Anne Hathaway) use a joia no badalado Met Gala, um dos eventos mais chiques e vistosos de Nova York. Para tanto, Debbie e Lou reúnem uma equipe composta apenas por mulheres: Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina), Rose (Helena Bonham Carter) e Tammy (Sarah Paulson). (Adoro Cinema)

Um pouco menos emblemática do que o público passou a considerar especialmente agora, a franquia iniciada com Onze Homens e Um Segredo e concluída como trilogia com Doze Homens e Outro SegredoTreze Homens e Um Novo Segredo era puro entretenimento, com o bônus de ser concebida em uma fase inspirada de Steven Soderbergh, diretor incansável e plural, mas também bastante irregular. Sua cartada mais certeira, entretanto, era o elenco de altíssimo nível, capaz de reunir, na mesma tela, atores como George Clooney, Brad Pitt, Al Pacino e Matt Damon (a lista completa poderia levar mais algumas linhas), todos eles arquitetando assaltos e outros trambiques em pleno clima de descontração. Lá, a presença feminina (Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones) era secundárias, mas agora o jogo virou: onze anos depois do último filme, é a vez das mulheres, como em boa parte do que tem sido produzido nos dias de hoje, assumirem a dianteira de uma franquia que segue o mesmo estilo, dessa vez intitulada Oito Mulheres e Um Segredo.

A única conexão entre esse novo filme comandado por Gary Ross (A Vida em Preto e Branco, Seabiscuit – Alma de Herói e o primeiro Jogos Vorazes) e a versão masculina é o fato de Debbie Ocean (Sandra Bullock) ser irmã de Danny (Clooney), referenciado uma vez ou outra ao longo filme. O problema é que, apesar desse fiapo de conexão, Oito Mulheres e Um Segredo depende mais do estilo e do formato dos longas anteriores do que poderia se esperar. É fato: Gary Ross, também autor do roteiro, faz um trabalho bastante acomodado ao apenas remontar uma fórmula bem sucedida. Não há aqui uma linguagem própria ou ao menos certa personalidade para distanciar Oito Mulheres e Um Segredo de uma mera inversão de elenco. Há algum mal em mexer em time que sempre vence? Não necessariamente, mas, assim como no recente Mulher-Maravilha, a sensação de prato requentado nos lembra que, sim, é alta a relevância de se ter um filme comercial estrelado por mulheres, e seria ainda maior caso determinadas produções nos apontassem novas possibilidades em um mercado historicamente definido por visões masculinas (ao contrário de Mulher-Maravilha, o caso de Oito Mulheres e Um Segredo é ainda mais delicado por ter um homem na cadeira de direção).

Munido de certas liberdades que são coerentes com a veia cool da franquia (como levar a sério a personagem vivida por Sandra Bullock começar o filme com a maquiagem em dia dentro de uma… prisão?!), Oito Mulheres e Um Segredo não é um filme que preza pela verossimilhança ou por sua engenhosidade de roteiro (dependendo do ponto de vista, é o que dá a tônica da diversão) e que não se esmera na construção das personagens, todas com personalidades que existem porque lhe foram superficialmente atribuídas e não porque foram desenvolvidas. A falha mais grave, porém, é uma mera questão de atmosfera. Sem qualquer ameça ou perigo iminente, um filme de assalto não desperta euforia, e é o que acontece com Oito Mulheres e Um Segredo: não há situação que não seja contornável ou qualquer sequência que desperte o mínimo de adrenalina. Durante todo o desenrolar, nós sabemos que os ventos sempre sopram a favor das personagens. E isso, na letra fria da história, é desestimulante, além do mais quando tanta facilidade para idealizar a esperteza das personagens abre uma série de furos no roteiro (é inadmissível, por exemplo, que, em determinado ponto, a polícia acredite que um objeto tenha sido inocentemente perdido quando ele só poderia ser retirado do corpo de quem o usava com uma ferramenta que estava justamente sob os cuidados das autoridades).

Como em tantos outros trabalhos onde atores ou atrizes são maiores do que os filmes em si, Oito Mulheres e Um Segredo não foge à regra e inclusive se potencializa: são nada menos do que oito intérpretes que formam um time simplesmente irresistível. Tanto o projeto tem consciência desse poder que faz o possível para enaltecer cada personagem com trocas constantes de figurinos, maquiagens dignas de um Tapete Vermelho ou tiradas que reforcem o quanto elas são descoladas (o que é ótimo!). Anterior a esse apelo, é mesmo um prazer ver Cate Blanchett contracenando com Sandra Bullock ou Helena Bonham Carter vivendo a insegura figurinista de uma radiante e inspirada Anne Hathaway. Há personagens mais secundárias e sem tanto destaque, seja pelo papel ou por quem a interprete (Sarah Paulson poderia ter rendido mais, ao mesmo tempo em que Rihanna não se justifica muito em cena), o que não quer dizer que elas não tenham sua parcela de contribuição para o carisma do elenco como um todo. É o suficiente para fazer de Oito Mulheres e Um Segredo uma experiência entusiasmante? Quase. O longa de Gary Ross pode ser um bom entretenimento, mas, poucas horas depois da sessão, já se percebe que não tem fôlego para ficar na memória como algo maior do que uma diversão de momento. E é claro que, no frigir dos ovos, como em tudo se tratando sobre  cinema, cada um tem seu próprio gosto e estilo para dar o devido valor a essa percepção.

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