Karine Teles e Adriana Esteves em Benzinho: nova pérola do cinema brasileiro registra as complexidades femininas e maternais a partir de cotidianas transformações do ambiente familiar.
Assim como Aquarius, o drama Benzinho é um filme sobre resistência, mesmo que de outro tipo, e talvez ainda mais acachapante. Enquanto no celebrado longa de Kleber Mendonça Filho acompanhávamos os dias em que Clara (Sonia Braga), uma jornalista de sucesso, negava-se a vender o seu querido apartamento localizado à beira do mar recifense, o novo projeto assinado por Gustavo Pizzi (Riscado) traz a protagonista Irene (Karine Teles) enfrentando as pequenas batalhas do dia a dia: o marido vive de sonho em sonho sem realizar muita coisa, os filhos pequenos exigem constante atenção, a irmã sofre com um marido agressivo, as contas não param de chegar e, de repente, o filho mais velho é convidado a jogar handebol na Alemanha. Ajudando todos à volta, Irene não recebe de volta o mesmo cuidado, mas se vira nos trinta nesse registro que, cercado de delicadeza, é uma verdadeira homenagem a todas as mulheres que fazem o mundo girar com mais amor e compreensão.
Exibido em janeiro deste ano no Festival de Sundance, Benzinho foi um projeto realizado praticamente em família. À época, o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Teles eram casados e não só escreveram o filme juntos como também escalaram os próprios filhos e um sobrinho para interpretar as crianças. Nesse time, entraram ainda outros dois atores igualmente fundamentais: Adriana Esteves e Otávio Müller. E o resultado se vê com muita naturalidade na tela, com um elenco que faz sentir o entrosamento do grupo em prol de um projeto afetivo e colaborativo. No entanto, inevitavelmente, Benzinho é centrado na Irene de Karine Teles, vista aqui como uma mulher em suas múltiplas facetas, e não como coadjuvante ou mero objeto. A personagem é uma imensidão de emoções e complexidades, todas elas provocadas pela anunciada despedida do filho que está prestes a partir para o exterior. O curioso contraste é que, por ser sempre tão confiante ao resolver os percalços do cotidiano, todos (inclusive ela) pensam que tudo está bem, quando, na verdade, não está.
Benzinho sugere ser um filme sobre a chamada síndrome do ninho vazio, mas gosto de vê-lo como um retrato muito mais completo: ao perceber que a partida do filho é inevitável, Irene resolve mexer com a sua própria vida, o que envolve desde a conclusão dos estudos até a busca por um novo emprego. E a delicadeza com que o roteiro de Pizzi e Teles captura o infinito universo de uma mulher a partir das mínimas coisas da vida é refinadíssima, pois Benzinho não deixa de registrar a alegria em meio a um material que poderia facilmente render um grande dramalhão. Dessa forma, o longa é fiel à vida como ela é, seja ao mostrar a dinâmica de uma família que passa por muitas dificuldades à própria escolha das palavras do roteiro, já que não há qualquer artificialidade nos diálogos. Por mostrar pessoas que continuam sorrindo e sonhando apesar dos obstáculos, Benzinho comove, e o faz com a maior simplicidade do mundo, tarefa muito mais difícil de cumprir do que o público está acostumado a considerar.
Com um elenco irrepreensível, Benzinho tem seu coração na grande performance de Karine Teles. Uma das intérpretes brasileiras mais talentosas em atividade (claro que a dona Bárbara de Que Horas Ela Volta? é inesquecível, mas não deixem de garimpar Riscado, que ela realizou também em parceria com Gustavo Pizzi), Karine é maravilhosa ao traduzir todas as transformações internas de uma mulher que tenta não transparecer as emoções que ela mesma não consegue diagnosticar com tanta certeza. Muito do que Karine traz para Benzinho vem de sua experiência como mãe e, claro, das mulheres que ela assume homenagear nesse projeto, mas sequências como a final, capazes de, silenciosamente, somente em gestos e olhares, fazer a perfeita síntese de um universo particular, podem ser materializadas apenas por quem tem vasto talento ou repertório como ela. Karine e o filme como um todo proporcionam aquela sensação tão fascinante de um cinema que consegue dar uma rasteira emocional no espectador ao mesmo tempo em que o reergue de forma esperançosa. E não é exatamente assim que a vida costuma funcionar?
De volta à Serra Gaúcha, Marieta Severo está na disputa pelo Kikito com o drama A Voz do Silêncio, de André Ristum. Foto: Edison Vara/Pressphoto
Primeira atriz a vencer o troféu Oscarito em 2002, Marieta Severo volta pela primeira vez a Gramado depois da honraria histórica. E volta na disputa pelo Kikito: em A Voz do Silêncio, longa-metragem dirigido por André Ristum que abriu a competição da 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Marieta interpreta uma mulher que, submersa em culpa depois de ter rejeitado filho por razões que o filme descortina ao longo da projeção, enfrenta problemas psíquicos que a colocam em um estado emocional e mental muito particular.
A personagem integra um mosaico de histórias cotidianas onde o diretor André Ristum, premiado pelo júri popular em Gramado no ano de 2015 com O Outro Lado do Paraíso, radiografa a imensa cidade de São Paulo a partir de um viés que Marieta considera muito corajoso: “Como carioca, conheço apenas a São Paulo versão grande metrópole, com uma vida cultural intensa e repleta de programações, mas o filme apresenta a capital com uma poesia dura, buscando as pequenas batalhas dos lados B, C, D e E dessa população. É um trabalho que se distancia de qualquer experiência de impacto fácil e imediato. Você precisa assistir e digerir”.
Quando entrou em contato pela primeira vez com o roteiro, também escrito por Ristum, a atriz diz ter se encantado com a dramaturgia sólida de uma obra que tem uma estrutura pulverizada, já que a história é contada a partir de diferentes núcleos praticamente isolados. “Claro que estava no roteiro, mas o André nos deu a perspectiva que amarraria todas essas histórias. Os núcleos são trabalhados separadamente, mas tivemos temporada produtivas e objetivas de preparação. Por minha conta, mergulhei muito no arcabouço psíquico da personagem que interpreto, movida pelo desejo de ajudar a contar uma história. No final das contas, é isso o que me aproxima de um roteiro”.
* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado
Jesuíta Barbosa é o protagonista de O Grande Circo Místico, 18º longa-metragem do diretor Cacá Diegues. Foto: Edison Vara/Pressphoto
Cinco anos atrás, Jesuíta Barbosa chegava assustado na Serra Gaúcha. Não por menos: em início de carreira, o ator exibia em Gramado o premiado Tatuagem (Kikitos de melhor filme, ator para Irandhir Santos e trilha musical, além do prêmio de melhor filme pelo júri da crítica), um de seus primeiros trabalhos no cinema. “Fiquei impactado com esse Festival tão grande, que as pessoas tanto desejam, onde todo mundo quer tirar foto com os artistas e diretores”, lembra o jovem ator, que, ao longo desses cinco anos, se firmou como um dos intérpretes mais aclamados e disputados de sua geração. “Muita coisa mudou desde aquela exibição de Tatuagem aqui em Gramado – eu fui morar no Rio de Janeiro, fiz televisão -, mas percebo que, apesar das transformações da cidade, o Festival preservou sua tradição, mantendo-se muito forte no cinema brasileiro”, conta.
Agora, em O Grande Circo Místico, Jesuíta é dirigido pelo mestre Cacá Diegues, que também marcou presença em Gramado para a primeira exibição do filme, abrindo a programação oficial desta edição. Habituado a trabalhar com célebres diretores brasileiros – entre eles, Karim Aïnouz (Praia do Futuro), Heitor Dhalia (Serra Pelada) -, o ator diz ter vivido uma experiência nova com Cacá, um cineasta que, segundo ele, “tem plena segurança no que faz e sabe defender muito bem cada ideia com uma condução muito tranquila”. Mais do que isso, esse é um projeto que Jesuíta decidiu abraçar, tanto por afinidade quanto por necessidade: “Eu estava muito pesado, e precisava de um personagem mais leve, com uma energia de espírito muito mais zen para enxergar a vida, os anos, as transformações. Celavi [o personagem] me trouxe uma outra nuance de atuação”.
Filmado em um circo montado especialmente para o projeto no interior de Portugal, O Grande Circo Místico desembarcou em Gramado após a sua primeira exibição no prestigiado Festival de Cannes em maio. E a primeira sessão nacional do longa trouxe para Jesuíta uma perspectiva diferente do período de gravações, que aconteceram, segundo o ator, cerca de 80% dentro do circo que dá título à história. “Aqui em Gramado saí da zona de narciso e parei de me observar. Talvez pela primeira vez tenha visto o trabalho como um todo, pela ótica de uma pessoa que está contando uma história. O Grande Circo Místico era um desafio que eu queria e lutei para conquistar”. A previsão de estreia do longa no circuito comercial brasileiro é para o dia 15 de novembro.
* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado
“A gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?”
Ao contrário dos colegas de equipe, André Antunes não seguiu carreira no cinema após o sucesso de Alguma Coisa Assim, premiado curta dirigido por Esmir Filho que chegou a vencer o prêmio de melhor roteiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Mesmo voltando para a sequência intitulada Sete Anos Depois (também em versão curta-metragem) e, agora, para o longa que une e complementa os dois primeiros projetos, André seguiu carreira profissional na psicologia, área que, como vocês poderão descobrir na entrevista abaixo, trouxe inúmeros subsídios para que ele retornasse ao papel do jovem Caio com muito a compartilhar. Enquanto os dois primeiros curtas capturavam as (auto)descobertas de personagens que se encontravam no centro de suas juventudes, o longa prefere, com toda razão, jogá-los de uma vez por todas na vida adulta, onde os protagonistas percebem ter menos resposta do que poderiam esperar. Filmado de forma espaçada ao longo de 12 anos, Alguma Coisa Assim acompanha, dessa forma, não somente as transformações dos personagens, mas dos próprios atores que os interpretam. André conversou comigo sobre o processo de encarar, pela terceira vez, um personagem de sentimentos ambivalentes e que reflete a vontade dos diretores Esmir Filho e Mariana Bastos de falar sobre uma geração que prefere negar qualquer tipo de rótulo. Alguma Coisa Assim estreou dia 26 de julho e segue em cartaz nos cinemas brasileiros.
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Alguma Coisa Assim é um filme que registrou, ao longo dos anos, diferentes momentos de dois personagens. Por ter sido filmado em três épocas distantes, também coloca na tela atores em momentos distintos de suas vidas. Ao contrário da Caroline Abras, você não seguiu carreira como intérprete, mas suponho que, de alguma forma, tenha levado experiências pessoais desses anos para dar vida ao Caio. Existe muito do André Antunes no teu personagem?
O roteiro do curta foi escrito por Esmir, e nele já encontramos o contorno dos dois personagens. Quando decidimos filmar a continuação da história nos reunimos eu, Esmir, Mariana [Bastos, co-diretora] e Caroline para conversar sobre como a gente pensava que estariam esses personagens sete anos depois. Nesse momento, todos participaram expondo suas ideias, dividindo experiências, trazendo temáticas que nos eram interessavam, etc. O resultado é um condensado de ideias que foram lapidadas para poder contar uma história. Então, de algum modo, sim, nossas ideias compõem a história. Agora, do lado mais pessoal, o que acho que emprestei como caraterísticas minhas de modo mais evidente para o personagem foi a dúvida, a hesitação, a ausência de certeza, a ambivalência dos sentimentos, a dificuldade em decidir…
A cidade de São Paulo é, de certa forma, uma personagem na história. É nela que Mari e Caio descobrem sentimentos e vivem as dores e as delícias da juventude, mas o filme também transfere tudo isso para Berlim, que pode ser interpretada como um contraste: o exterior, normalmente visto como um lugar de sonhos e promessas, acaba sendo, tanto para a Mari quanto para o Caio, um lugar de fuga. Assim como São Paulo, é uma cidade que também surge como elemento narrativo no filme. Como você interpreta a relação dessas duas cidades com a trajetória emocional dos dois personagens?
Primeiramente, São Paulo e Berlim são cidades efervescentes que passaram e continuam passando por transformações, demolições e construções de maneira acelerada. A [rua] Augusta é realmente um personagem que se transformou junto com os personagens. Por serem cidades com uma juventude expressiva, acho que elas capturam mais rápido do que outros lugares as mudanças na maneira como nos relacionamos. Quem já ficou um tempo fora de São Paulo e retornou sabe como essa cidade muda. Ir para outro país, para outro lugar, para o estrangeiro, pode ser visto como um lugar de fuga, sair da sua realidade conhecida na esperança de se renovar e de que seus impasses desapreçam. A gente pode ir pro outro lado do mundo querendo fugir de algo, mas a gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?
Esse é o primeiro longa-metragem do Esmir Filho a estrear nos cinemas depois de Os Famosos e os Duendes da Morte, que, apesar de também registrar os questionamentos e as transformações de um personagem jovem, o faz com estilo e narrativa completamente diferentes. Esmir, além de tudo, é seu amigo, mas como você o definiria como diretor e contador de histórias? A mesma pergunta faço em relação à Mariana Bastos, que compartilha a direção dessa história. Como o olhar dela como realizadora complementa o de Esmir?
O Esmir tem o talento de conseguir fazer da reunião de algumas pessoas um verdadeiro encontro. Como diretor, admiro sua capacidade de resolver problemas sem criar um ambiente pesado no set. Admiro também o fato de que, apesar de saber o que quer e como quer contar a história, ele sempre está aberto a sugestão não só dos atores, mas de todos que fazem o filme. Ele não só sabe intelectualmente que o cinema é uma arte coletiva, mas age assim, dando espaço para todos que rapidamente estão se sentindo importantes por poder contribuir, por poder se expressar e serem ouvidos. Com relação à Mariana, já no primeiro curta ela estava no projeto assinando a co-direção. Não a vejo como se ela complementasse o olhar dele, como um plus. Mariana é mais do que isso: ela é parte fundamental deste projeto desde o início. Ela sabe criticar, dizer o que não está bom, pedir pra refazer, sem com que as pessoas levem isso para o pessoal.
A partir do retrato específico e íntimo de dois personagens, o longa acaba contemplando toda uma geração que pode muito bem se ver representada na tela. É isso o que você também percebe? Podemos dizer que, cada vez mais, os jovens procuram relações fluidas, sem rótulos? No caso do Caio e da Mari, é um modelo de relação tomado de forma consciente por ambos ou é aí que também nascem alguns dos conflitos do filme?
Sim, acho que quem tem a idade dos personagens, uns 30 anos, foi testemunha de uma mudança radical que continua ecoado nas novas configurações dos laços amorosos. Os pais das pessoas que tem essa idade diziam “na minha época não existia isso de ficar”. Então fomos ampliando as possibilidades de experiência e dissolvendo maneiras únicas, universais de entender o que é um casal, o que é estar junto. Acho que os jovens hoje tem relações mais fluidas sim, mas também tem um número muito expressivo de pessoas casando de maneira tradicional. Acho que a tradição não é mais o único guia para vida conjugal, e que a existência das relações fluidas não nega outros modos de se relacionar, mas aparece como uma maneira a mais que inventamos para nomear esse estar junto. Não acho que seja algo consciente vivido pelos personagens. Perto da Mari, Caio é um conservador. Os dois são diferentes ideologicamente, mas têm acesso mútuo, se entendem, tem uma cumplicidade. No entanto, essa cumplicidade pode recobrir em ambos uma zona ambígua de indeterminação e desejo que, quando expostas, podem causar um turbilhão de emoção e desorganizar tudo o que parecia estar no seu devido lugar.
Em determinado ponto, Alguma Coisa Assim assume por completo a ideia de ser um filme sobre o encontro com a vida adulta, já que os personagens estão longe da família e dos amores, tentando se sustentar, achar um lar, criar uma carreira e aceitar a ideia de que não existe equação precisa para fazer uma relação dar certo. Esse não deixa de ser um salto imenso se olharmos para os dois curtas anteriores, centrados mais na dinâmica afetiva entre Caio e Mari e menos em suas trajetórias individuais. Como foi o processo de levar o Caio lá do primeiro curta em 2006 para esse novo patamar, onde agora ele precisa desconstruir inclusive muitas de suas idealizações afetivas?
Foi um processo natural, já que dez anos se passaram na vida do Caio, na minha e na de todos que estávamos no processo do filme. Muitas ideias e ideais que temos aos 20 anos são modificados quando crescemos, quando nos frustramos e reavaliamos e reinventamos quem queremos ser. Ao mesmo tempo, mostrar essas desconstruções na parte final nos motivava bastante por poder humanizar os personagens e não categorizá-los, explorando camadas menos visíveis ou inexistentes nas cenas de 2006.
Em termos práticos, gravar um longa envolve uma dose muito maior de tempo, dedicação e envolvimento. E é esse formato que, no final das contas, também permite uma cena carregada emocionalmente como aquela do terço final, onde Caio e Mari tem uma conversa super franca não apenas sobre um conflito em comum, mas também sobre coisas há muito tempo guardadas. No sentido de enfrentar uma sequência como essa, ajuda a intimidade criada especialmente com a Caroline Abras durante dez anos? Mais do que a amiga, como é trabalhar e contracenar com a Caroline atriz?
Com certeza ajuda. Essa cena especificamente fica no limite da ficção. Seria muito difícil saber até onde podemos ir um com o outro na cena se não nos conhecêssemos, se não entendêssemos o nosso jogo ali. Primeiramente, eu acho que a Caroline é amiga da câmera, e a câmera gosta dela naturalmente, mas soma-se o fato de ela ser uma atriz inteligente cenicamente, rápida no improviso e que sabe dar o tom certo pra cada cena sem economizar ou desperdiçar energia. Sem falar do fato de ela saber escolher as personagens que vai interpretar e da dedicação e cuidado que tem com a carreira. Então, como amigo e como parceiro de cena, realmente só tenho elogios.
Imagino que, desde o lançamento do curta em 2006 até o longa agora em 2018, o encontro com o público tenha sido muito bacana, já que boa parte dele praticamente cresceu junto com os personagens. A troca com os espectadores teve alguma contribuição na forma de enxergar a história, o personagem e o projeto? O que você espera desse novo encontro com o público?
Sem dúvida. As pessoas supõem que o fato de você ter participado do filme lhe dê um saber sobre ele e sobre as questões que ele levanta. O filme não fica pronto quando é feito o último corte. Ele necessita ser visto e interpretado pelos outros para que de fato exista. Pra mim, é um experiência muito prazerosa quando leio ou escuto reflexões sobre o filme de uma perspectiva que não tinha pensado. Espero ter a oportunidade de conversar sobre o filme com as pessoas que se interessam pela história. Conversar com as pessoas que se interessaram pelo filme é realmente uma parte importante e prazerosa do processo.
Para finalizar, quais seriam as três obras (filmes, séries, livros) que você indicaria para quem gostou de “Alguma Coisa Assim”?
– Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, de Zygmunt Bauman (livro) – O Curso do Amor, de Alain de Botton (livro) – Antes do Amanhecer, de Richard Linklater (filme)
Foi anunciado há pouco pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a partir de 2019, o Oscar terá a categoria de “Melhor Filme Popular”. Ao contrário do que a Academia pensa, estamos falando de um enorme desserviço, já que segmentar não é necessariamente um mérito. Os documentários e as animações estão aí para provar, pois praticamente nunca são lembrados nas ditas categorias principais. E por que não são? Ora, não há razão para indicá-los em “Melhor Filme” já que eles têm categorias próprias para concorrer. É por isso que a mudança se revela uma baita bola fora: ao criar a categoria de “Melhor Filme Popular”, o Oscar diz, nas entrelinhas, que blockbusters como Pantera Negra, por exemplo, não devem ser levados tão a sério quanto A Forma da Água ou Moonlight, citando os vencedores recentes da honraria máxima.
A mudança reflete, claro, o próprio diagnóstico que a Academia deve ter feito de seu histórico recente. E vamos muito além do fato de Batman: O Cavaleiro das Trevas ter sido ignorado na categoria principal em 2009. Mesmo ampliando o número de indicados em melhor filme, tal escolha mais diluiu a reputação do prêmio do que necessariamente aprimorou a disputa. Afinal, dois casos que corroboram essa afirmação ainda estão muito vivos na memória: Gravidade e Mad Max: Estrada da Fúria. Ambos faturaram sete e seis estatuetas respectivamente, mas não levaram para casa o título de “Melhor Filme”. No caso de Gravidade, o prêmio foi para 12 Anos de Escravidão, vencedor apenas nas categorias de roteiro adaptado e atriz coadjuvante. Já com Mad Max, a situação piora: Spotlight, vencedor daquele ano, conquistou somente o prêmio de melhor roteiro original. Como não encarar tal cenário, afeito aos “projetos sérios”, como puro preconceito com o cinema de alta repercussão popular?
O diagnóstico certamente foi feito, mas a solução é um equívoco. Não à toa, você já deve ter ouvido que animação não é cinema. Agora, futuramente, também correrá o risco de ouvir que filmes populares também não são. Com a maturidade de um MTV Movie Awards, a Academia não observa o próprio Globo de Ouro, que há décadas coloca as comédias em um cantinho à parte, decisão que inferioriza o gênero e rende indicações preguiçosas ou de gosto duvidoso, provando que o prêmio realmente não dá mesmo muita bola para esse segmento. Com tantas novas categorias para serem criadas (alô, melhor elenco!), o Oscar opta não pela inovação, mas por um caminho fácil, antiquado e que há muito tempo já se provou tão ineficiente quanto problemático em ideias. Para completar, a Academia ainda anunciou a decisão de apresentar os vencedores de determinadas categorias (a serem definidas) durante os comerciais, exibindo a entrega dessas estatuetas mais tarde na cerimônia, com os momentos já gravados e editados. Talvez ainda seja cedo para avaliar o real efeito, mas tudo isso não parece nada favorável. E, vocês, o que acham?