“Alguma Coisa Assim” | Entrevista com o protagonista André Antunes

“A gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?”

Ao contrário dos colegas de equipe, André Antunes não seguiu carreira no cinema após o sucesso de Alguma Coisa Assim, premiado curta dirigido por Esmir Filho que chegou a vencer o prêmio de melhor roteiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Mesmo voltando para a sequência intitulada Sete Anos Depois (também em versão curta-metragem) e, agora, para o longa que une e complementa os dois primeiros projetos, André voltou sua carreira profissional para a psicologia, área que, como vocês poderão descobrir na entrevista abaixo, trouxe inúmeros subsídios para que ele retornasse ao papel do jovem Caio com muito para compartilhar. Enquanto os dois primeiros curtas capturavam as (auto)descobertas de personagens que se encontravam no centro de suas juventudes, o longa prefere, com toda razão, jogá-los de uma vez por todas na vida adulta, onde os protagonistas percebem ter menos resposta do que poderiam esperar. Filmado de forma espaçada ao longo de 12 anos, Alguma Coisa Assim acompanha, dessa forma, não somente as transformações dos personagens, mas dos próprios atores que os interpretam. André conversou comigo sobre o processo de encarar, pela terceira vez, um personagem de sentimentos ambivalentes e que reflete a vontade dos diretores Esmir Filho e Mariana Bastos de falar sobre uma geração que prefere negar qualquer tipo de rótulo. Alguma Coisa Assim estreou dia 26 de julho e segue em cartaz nos cinemas brasileiros.

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Alguma Coisa Assim é um filme que registrou, ao longo dos anos, diferentes momentos de dois personagens. Por ter sido filmado em três épocas distantes, também coloca na tela atores em momentos distintos de suas vidas. Ao contrário da Caroline Abras, você não seguiu carreira como intérprete, mas suponho que, de alguma forma, tenha levado experiências pessoais desses anos para dar vida ao Caio. Existe muito do André Antunes no teu personagem?

O roteiro do curta foi escrito por Esmir, e nele já encontramos o contorno dos dois personagens. Quando decidimos filmar a continuação da história nos reunimos eu, Esmir, Mariana [Bastos, co-diretora] e Caroline para conversar sobre como a gente pensava que estariam esses personagens sete anos depois. Nesse momento, todos participaram expondo suas ideias, dividindo experiências, trazendo temáticas que nos eram interessavam, etc. O resultado é um condensado de ideias que foram lapidadas para poder contar uma história. Então, de algum modo, sim, nossas ideias compõem a história. Agora, do lado mais pessoal, o que acho que emprestei como caraterísticas minhas de modo mais evidente para o personagem foi a dúvida, a hesitação, a ausência de certeza, a ambivalência dos sentimentos, a dificuldade em decidir…

A cidade de São Paulo é, de certa forma, uma personagem na história. É nela que Mari e Caio descobrem sentimentos e vivem as dores e as delícias da juventude, mas o filme também transfere tudo isso para Berlim, que pode ser interpretada como um contraste: o exterior, normalmente visto como um lugar de sonhos e promessas, acaba sendo, tanto para a Mari quanto para o Caio, um lugar de fuga. Assim como São Paulo, é uma cidade que também surge como elemento narrativo no filme. Como você interpreta a relação dessas duas cidades com a trajetória emocional dos dois personagens?

Primeiramente, São Paulo e Berlim são cidades efervescentes que passaram e continuam passando por transformações, demolições e construções de maneira acelerada. A [rua] Augusta é realmente um personagem que se transformou junto com os personagens. Por serem cidades com uma juventude expressiva, acho que elas capturam mais rápido do que outros lugares as mudanças na maneira como nos relacionamos. Quem já ficou um tempo fora de São Paulo e retornou sabe como essa cidade muda. Ir para outro país, para outro lugar, para o estrangeiro, pode ser visto como um lugar de fuga, sair da sua realidade conhecida na esperança de se renovar e de que seus impasses desapreçam. A gente pode ir pro outro lado do mundo querendo fugir de algo, mas a gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?

Esse é o primeiro longa-metragem do Esmir Filho a estrear nos cinemas depois de Os Famosos e os Duendes da Morte, que, apesar de também registrar os questionamentos e as transformações de um personagem jovem, o faz com estilo e narrativa completamente diferentes. Esmir, além de tudo, é seu amigo, mas como você o definiria como diretor e contador de histórias? A mesma pergunta faço em relação à Mariana Bastos, que compartilha a direção dessa história. Como o olhar dela como realizadora complementa o de Esmir?

O Esmir tem o talento de conseguir fazer da reunião de algumas pessoas um verdadeiro encontro. Como diretor, admiro sua capacidade de resolver problemas sem criar um ambiente pesado no set. Admiro também o fato de que, apesar de saber o que quer e como quer contar a história, ele sempre está aberto a sugestão não só dos atores, mas de todos que fazem o filme. Ele não só sabe intelectualmente que o cinema é uma arte coletiva, mas age assim, dando espaço para todos que rapidamente estão se sentindo importantes por poder contribuir, por poder se expressar e serem ouvidos. Com relação à Mariana, já no primeiro curta ela estava no projeto assinando a co-direção. Não a vejo como se ela complementasse o olhar dele, como um plus. Mariana é mais do que isso: ela é parte fundamental deste projeto desde o início. Ela sabe criticar, dizer o que não está bom, pedir pra refazer, sem com que as pessoas levem isso para o pessoal.

A partir do retrato específico e íntimo de dois personagens, o longa acaba contemplando toda uma geração que pode muito bem se ver representada na tela. É isso o que você também percebe? Podemos dizer que, cada vez mais, os jovens procuram relações fluidas, sem rótulos? No caso do Caio e da Mari, é um modelo de relação tomado de forma consciente por ambos ou é aí que também nascem alguns dos conflitos do filme?

Sim, acho que quem tem a idade dos personagens, uns 30 anos, foi testemunha de uma mudança radical que continua ecoado nas novas configurações dos laços amorosos. Os pais das pessoas que tem essa idade diziam “na minha época não existia isso de ficar”. Então fomos ampliando as possibilidades de experiência e dissolvendo maneiras únicas, universais de entender o que é um casal, o que é estar junto. Acho que os jovens hoje tem relações mais fluidas sim, mas também tem um número muito expressivo de pessoas casando de maneira tradicional. Acho que a tradição não é mais o único guia para vida conjugal, e que a existência das relações fluidas não nega outros modos de se relacionar, mas aparece como uma maneira a mais que inventamos para nomear esse estar junto. Não acho que seja algo consciente vivido pelos personagens. Perto da Mari, Caio é um conservador. Os dois são diferentes ideologicamente, mas têm acesso mútuo, se entendem, tem uma cumplicidade. No entanto, essa cumplicidade pode recobrir em ambos uma zona ambígua de indeterminação e desejo que, quando expostas, podem causar um turbilhão de emoção e desorganizar tudo o que parecia estar no seu devido lugar.

Em determinado ponto, Alguma Coisa Assim assume por completo a ideia de ser um filme sobre o encontro com a vida adulta, já que os personagens estão longe da família e dos amores, tentando se sustentar, achar um lar, criar uma carreira e aceitar a ideia de que não existe equação precisa para fazer uma relação dar certo. Esse não deixa de ser um salto imenso se olharmos para os dois curtas anteriores, centrados mais na dinâmica afetiva entre Caio e Mari e menos em suas trajetórias individuais. Como foi o processo de levar o Caio lá do primeiro curta em 2006 para esse novo patamar, onde agora ele precisa desconstruir inclusive muitas de suas idealizações afetivas?

Foi um processo natural, já que dez anos se passaram na vida do Caio, na minha e na de todos que estávamos no processo do filme. Muitas ideias e ideais que temos aos 20 anos são modificados quando crescemos, quando nos frustramos e reavaliamos e reinventamos quem queremos ser. Ao mesmo tempo, mostrar essas desconstruções na parte final nos motivava bastante por poder humanizar os personagens e não categorizá-los, explorando camadas menos visíveis ou inexistentes nas cenas de 2006.

Em termos práticos, gravar um longa envolve uma dose muito maior de tempo, dedicação e envolvimento. E é esse formato que, no final das contas, também permite uma cena carregada emocionalmente como aquela do terço final, onde Caio e Mari tem uma conversa super franca não apenas sobre um conflito em comum, mas também sobre coisas há muito tempo guardadas. No sentido de enfrentar uma sequência como essa, ajuda a intimidade criada especialmente com a Caroline Abras durante dez anos? Mais do que a amiga, como é trabalhar e contracenar com a Caroline atriz?

Com certeza ajuda. Essa cena especificamente fica no limite da ficção. Seria muito difícil saber até onde podemos ir um com o outro na cena se não nos conhecêssemos, se não entendêssemos o nosso jogo ali. Primeiramente, eu acho que a Caroline é amiga da câmera, e a câmera gosta dela naturalmente, mas soma-se o fato de ela ser uma atriz inteligente cenicamente, rápida no improviso e que sabe dar o tom certo pra cada cena sem economizar ou desperdiçar energia. Sem falar do fato de ela saber escolher as personagens que vai interpretar e da dedicação e cuidado que tem com a carreira. Então, como amigo e como parceiro de cena, realmente só tenho elogios.

Imagino que, desde o lançamento do curta em 2006 até o longa agora em 2018, o encontro com o público tenha sido muito bacana, já que boa parte dele praticamente cresceu junto com os personagens. A troca com os espectadores teve alguma contribuição na forma de enxergar a história, o personagem e o projeto? O que você espera desse novo encontro com o público?

Sem dúvida. As pessoas supõem que o fato de você ter participado do filme lhe dê um saber sobre ele e sobre as questões que ele levanta. O filme não fica pronto quando é feito o último corte. Ele necessita ser visto e interpretado pelos outros para que  de fato exista. Pra mim, é um experiência muito prazerosa quando leio ou escuto reflexões sobre o filme de uma perspectiva que não tinha pensado. Espero ter a oportunidade de conversar sobre o filme com as pessoas que se interessam pela história. Conversar com as pessoas que se interessaram pelo filme é realmente uma parte importante e prazerosa do processo.

Para finalizar, quais seriam as três obras (filmes, séries, livros) que você indicaria para quem gostou de “Alguma Coisa Assim”?

–  Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, de Zygmunt Bauman (livro)
O Curso do Amor, de Alain de Botton (livro)
Antes do Amanhecer, de Richard Linklater (filme)

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