Cinema e Argumento

46º Festival de Cinema de Gramado #5: a homenagem de Karine Teles para a resistência feminina

Com Benzinho, Karine Teles marca a sua terceira passagem pelo Festival de Cinema de Gramado. Foto: Fábio Winter/Pressphoto

Quando concorreu pela primeira vez em Gramado, a atriz Karine Teles enfrentou uma verdadeira maratona: para exibir Riscado, veio às pressas do Rio de Janeiro, onde recém havia dado luz aos seus dois filhos, e permaneceu apenas 24 horas na cidade, voltando rapidamente para cuidar dos pequenos. Sete anos após a consagrada exibição (Riscado faturou os Kikitos de melhor direção, atriz, roteiro, além do júri da crítica), ela retorna ao Festival com Benzinho, drama que narra as transformações internas de uma mãe batalhadora que se depara com a notícia de que o filho mais velho foi convidado a jogar handebol na Alemanha. Entre Riscado e Benzinho, Karine também exibiu no Palácio dos Festivais o celebrado Que Horas Ela Volta?, e todas as lembranças desse longo período despertam na atriz emoções ímpares: “Passa um filme enorme na minha cabeça, e exibir Benzinho pela primeira vez no Brasil aqui em Gramado foi emocionante. Acordei com o rosto inchado de tanto que chorei na sessão”.

A ideia de fazer o longa veio das próprias experiências de Karine e do diretor Gustavo Pizzi, seu marido à época da concepção do roteiro. Para eles, era fundamental falar sobre esse momento em que os filhos saem da casa, mas, segundo Karine, o roteiro se torna muito mais complexo na medida em que se propõe a prestar uma homenagem a todas mulheres que são mães, avós, tias ou amigas. “Eu trouxe tudo das figuras femininas da minha vida para esse filme. O nosso desejo era lançar uma luz poética e cinematográfica para as tantas mulheres que passam pela rua e não percebemos. Irene [a protagonista] é uma mulher comum como milhões de outras mundo afora. Nada de necessariamente extraordinário acontece com ela, mas o bonito do cinema é conseguir elevar histórias como essa, que acontecem nas casas de todas as famílias”, conta a atriz e roteirista.

Sobre o protagonismo feminino, Karine pensa que Benzinho estabelece um ponto de vista diferenciado, mesmo quando comparado a outros filmes naturalistas: “O próprio Boyhood, por exemplo, tem uma linda cena onde a cai a ficha da mãe que o filho está saindo de casa, mas é o único grande momento personagem ao longo do filme. Normalmente, vemos o ponto de vista do homem ou o do filho e não o da mãe ou o da mulher. Precisamos, claro, de novas histórias, mas também de novos olhares para as que já conhecemos”, avalia. Com estreia prevista para o dia 23 de agosto, Benzinho também é encarado pela atriz e roteirista como um filme sobre resistência: “Não sei exatamente de onde vem a força da personagem para superar todas as adversidades. Acredito que ela é movida por esse sentimento chamado amor, a única potência transformadora capaz de nos salvar do mundo maluco em que vivemos. Precisamos muito falar sobre isso”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado

46º Festival de Cinema de Gramado #3: em “A Voz do Silêncio”, Marieta Severo mergulha nas realidades alternativas de São Paulo

De volta à Serra Gaúcha, Marieta Severo está na disputa pelo Kikito com o drama A Voz do Silêncio, de André Ristum. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Primeira atriz a vencer o troféu Oscarito em 2002, Marieta Severo volta pela primeira vez a Gramado depois da honraria histórica. E volta na disputa pelo Kikito: em A Voz do Silêncio, longa-metragem dirigido por André Ristum que abriu a competição da 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Marieta interpreta uma mulher que, submersa em culpa depois de ter rejeitado filho por razões que o filme descortina ao longo da projeção, enfrenta problemas psíquicos que a colocam em um estado emocional e mental muito particular.

A personagem integra um mosaico de histórias cotidianas onde o diretor André Ristum, premiado pelo júri popular em Gramado no ano de 2015 com O Outro Lado do Paraíso, radiografa a imensa cidade de São Paulo a partir de um viés que Marieta considera muito corajoso: “Como carioca, conheço apenas a São Paulo versão grande metrópole, com uma vida cultural intensa e repleta de programações, mas o filme apresenta a capital com uma poesia dura, buscando as pequenas batalhas dos lados B, C, D e E dessa população. É um trabalho que se distancia de qualquer experiência de impacto fácil e imediato. Você precisa assistir e digerir”.

Quando entrou em contato pela primeira vez com o roteiro, também escrito por Ristum, a atriz diz ter se encantado com a dramaturgia sólida de uma obra que tem uma estrutura pulverizada, já que a história é contada a partir de diferentes núcleos praticamente isolados. “Claro que estava no roteiro, mas o André nos deu a perspectiva que amarraria todas essas histórias. Os núcleos são trabalhados separadamente, mas tivemos temporada produtivas e objetivas de preparação. Por minha conta, mergulhei muito no arcabouço psíquico da personagem que interpreto, movida pelo desejo de ajudar a contar uma história. No final das contas, é isso o que me aproxima de um roteiro”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado

46º Festival de Cinema de Gramado #2: “Um desafio que eu queria e lutei para conquistar”, diz Jesuíta Barbosa sobre “O Grande Circo Místico”

Jesuíta Barbosa é o protagonista de O Grande Circo Místico, 18º longa-metragem do diretor Cacá Diegues. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Cinco anos atrás, Jesuíta Barbosa chegava assustado na Serra Gaúcha. Não por menos: em início de carreira, o ator exibia em Gramado o premiado Tatuagem (Kikitos de melhor filme, ator para Irandhir Santos e trilha musical, além do prêmio de melhor filme pelo júri da crítica), um de seus primeiros trabalhos no cinema. “Fiquei impactado com esse Festival tão grande, que as pessoas tanto desejam, onde todo mundo quer tirar foto com os artistas e diretores”, lembra o jovem ator, que, ao longo desses cinco anos, se firmou como um dos intérpretes mais aclamados e disputados de sua geração. “Muita coisa mudou desde aquela exibição de Tatuagem aqui em Gramado – eu fui morar no Rio de Janeiro, fiz televisão -, mas percebo que, apesar das transformações da cidade, o Festival preservou sua tradição, mantendo-se muito forte no cinema brasileiro”, conta.

Agora, em O Grande Circo Místico, Jesuíta é dirigido pelo mestre Cacá Diegues, que também marcou presença em Gramado para a primeira exibição do filme, abrindo a programação oficial desta edição. Habituado a trabalhar com célebres diretores brasileiros – entre eles, Karim Aïnouz (Praia do Futuro), Heitor Dhalia (Serra Pelada) -, o ator diz ter vivido uma experiência nova com Cacá, um cineasta que, segundo ele, “tem plena segurança no que faz e sabe defender muito bem cada ideia com uma condução muito tranquila”. Mais do que isso, esse é um projeto que Jesuíta decidiu abraçar, tanto por afinidade quanto por necessidade: “Eu estava muito pesado, e precisava de um personagem mais leve, com uma energia de espírito muito mais zen para enxergar a vida, os anos, as transformações. Celavi [o personagem] me trouxe uma outra nuance de atuação”.

Filmado em um circo montado especialmente para o projeto no interior de Portugal, O Grande Circo Místico desembarcou em Gramado após a sua primeira exibição no prestigiado Festival de Cannes em maio. E a primeira sessão nacional do longa trouxe para Jesuíta uma perspectiva diferente do período de gravações, que aconteceram, segundo o ator, cerca de 80% dentro do circo que dá título à história. “Aqui em Gramado saí da zona de narciso e parei de me observar. Talvez pela primeira vez tenha visto o trabalho como um todo, pela ótica de uma pessoa que está contando uma história. O Grande Circo Místico era um desafio que eu queria e lutei para conquistar”. A previsão de estreia do longa no circuito comercial brasileiro é para o dia 15 de novembro.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado

“Alguma Coisa Assim” | Entrevista com o protagonista André Antunes

“A gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?”

Ao contrário dos colegas de equipe, André Antunes não seguiu carreira no cinema após o sucesso de Alguma Coisa Assim, premiado curta dirigido por Esmir Filho que chegou a vencer o prêmio de melhor roteiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Mesmo voltando para a sequência intitulada Sete Anos Depois (também em versão curta-metragem) e, agora, para o longa que une e complementa os dois primeiros projetos, André voltou sua carreira profissional para a psicologia, área que, como vocês poderão descobrir na entrevista abaixo, trouxe inúmeros subsídios para que ele retornasse ao papel do jovem Caio com muito para compartilhar. Enquanto os dois primeiros curtas capturavam as (auto)descobertas de personagens que se encontravam no centro de suas juventudes, o longa prefere, com toda razão, jogá-los de uma vez por todas na vida adulta, onde os protagonistas percebem ter menos resposta do que poderiam esperar. Filmado de forma espaçada ao longo de 12 anos, Alguma Coisa Assim acompanha, dessa forma, não somente as transformações dos personagens, mas dos próprios atores que os interpretam. André conversou comigo sobre o processo de encarar, pela terceira vez, um personagem de sentimentos ambivalentes e que reflete a vontade dos diretores Esmir Filho e Mariana Bastos de falar sobre uma geração que prefere negar qualquer tipo de rótulo. Alguma Coisa Assim estreou dia 26 de julho e segue em cartaz nos cinemas brasileiros.

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Alguma Coisa Assim é um filme que registrou, ao longo dos anos, diferentes momentos de dois personagens. Por ter sido filmado em três épocas distantes, também coloca na tela atores em momentos distintos de suas vidas. Ao contrário da Caroline Abras, você não seguiu carreira como intérprete, mas suponho que, de alguma forma, tenha levado experiências pessoais desses anos para dar vida ao Caio. Existe muito do André Antunes no teu personagem?

O roteiro do curta foi escrito por Esmir, e nele já encontramos o contorno dos dois personagens. Quando decidimos filmar a continuação da história nos reunimos eu, Esmir, Mariana [Bastos, co-diretora] e Caroline para conversar sobre como a gente pensava que estariam esses personagens sete anos depois. Nesse momento, todos participaram expondo suas ideias, dividindo experiências, trazendo temáticas que nos eram interessavam, etc. O resultado é um condensado de ideias que foram lapidadas para poder contar uma história. Então, de algum modo, sim, nossas ideias compõem a história. Agora, do lado mais pessoal, o que acho que emprestei como caraterísticas minhas de modo mais evidente para o personagem foi a dúvida, a hesitação, a ausência de certeza, a ambivalência dos sentimentos, a dificuldade em decidir…

A cidade de São Paulo é, de certa forma, uma personagem na história. É nela que Mari e Caio descobrem sentimentos e vivem as dores e as delícias da juventude, mas o filme também transfere tudo isso para Berlim, que pode ser interpretada como um contraste: o exterior, normalmente visto como um lugar de sonhos e promessas, acaba sendo, tanto para a Mari quanto para o Caio, um lugar de fuga. Assim como São Paulo, é uma cidade que também surge como elemento narrativo no filme. Como você interpreta a relação dessas duas cidades com a trajetória emocional dos dois personagens?

Primeiramente, São Paulo e Berlim são cidades efervescentes que passaram e continuam passando por transformações, demolições e construções de maneira acelerada. A [rua] Augusta é realmente um personagem que se transformou junto com os personagens. Por serem cidades com uma juventude expressiva, acho que elas capturam mais rápido do que outros lugares as mudanças na maneira como nos relacionamos. Quem já ficou um tempo fora de São Paulo e retornou sabe como essa cidade muda. Ir para outro país, para outro lugar, para o estrangeiro, pode ser visto como um lugar de fuga, sair da sua realidade conhecida na esperança de se renovar e de que seus impasses desapreçam. A gente pode ir pro outro lado do mundo querendo fugir de algo, mas a gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?

Esse é o primeiro longa-metragem do Esmir Filho a estrear nos cinemas depois de Os Famosos e os Duendes da Morte, que, apesar de também registrar os questionamentos e as transformações de um personagem jovem, o faz com estilo e narrativa completamente diferentes. Esmir, além de tudo, é seu amigo, mas como você o definiria como diretor e contador de histórias? A mesma pergunta faço em relação à Mariana Bastos, que compartilha a direção dessa história. Como o olhar dela como realizadora complementa o de Esmir?

O Esmir tem o talento de conseguir fazer da reunião de algumas pessoas um verdadeiro encontro. Como diretor, admiro sua capacidade de resolver problemas sem criar um ambiente pesado no set. Admiro também o fato de que, apesar de saber o que quer e como quer contar a história, ele sempre está aberto a sugestão não só dos atores, mas de todos que fazem o filme. Ele não só sabe intelectualmente que o cinema é uma arte coletiva, mas age assim, dando espaço para todos que rapidamente estão se sentindo importantes por poder contribuir, por poder se expressar e serem ouvidos. Com relação à Mariana, já no primeiro curta ela estava no projeto assinando a co-direção. Não a vejo como se ela complementasse o olhar dele, como um plus. Mariana é mais do que isso: ela é parte fundamental deste projeto desde o início. Ela sabe criticar, dizer o que não está bom, pedir pra refazer, sem com que as pessoas levem isso para o pessoal.

A partir do retrato específico e íntimo de dois personagens, o longa acaba contemplando toda uma geração que pode muito bem se ver representada na tela. É isso o que você também percebe? Podemos dizer que, cada vez mais, os jovens procuram relações fluidas, sem rótulos? No caso do Caio e da Mari, é um modelo de relação tomado de forma consciente por ambos ou é aí que também nascem alguns dos conflitos do filme?

Sim, acho que quem tem a idade dos personagens, uns 30 anos, foi testemunha de uma mudança radical que continua ecoado nas novas configurações dos laços amorosos. Os pais das pessoas que tem essa idade diziam “na minha época não existia isso de ficar”. Então fomos ampliando as possibilidades de experiência e dissolvendo maneiras únicas, universais de entender o que é um casal, o que é estar junto. Acho que os jovens hoje tem relações mais fluidas sim, mas também tem um número muito expressivo de pessoas casando de maneira tradicional. Acho que a tradição não é mais o único guia para vida conjugal, e que a existência das relações fluidas não nega outros modos de se relacionar, mas aparece como uma maneira a mais que inventamos para nomear esse estar junto. Não acho que seja algo consciente vivido pelos personagens. Perto da Mari, Caio é um conservador. Os dois são diferentes ideologicamente, mas têm acesso mútuo, se entendem, tem uma cumplicidade. No entanto, essa cumplicidade pode recobrir em ambos uma zona ambígua de indeterminação e desejo que, quando expostas, podem causar um turbilhão de emoção e desorganizar tudo o que parecia estar no seu devido lugar.

Em determinado ponto, Alguma Coisa Assim assume por completo a ideia de ser um filme sobre o encontro com a vida adulta, já que os personagens estão longe da família e dos amores, tentando se sustentar, achar um lar, criar uma carreira e aceitar a ideia de que não existe equação precisa para fazer uma relação dar certo. Esse não deixa de ser um salto imenso se olharmos para os dois curtas anteriores, centrados mais na dinâmica afetiva entre Caio e Mari e menos em suas trajetórias individuais. Como foi o processo de levar o Caio lá do primeiro curta em 2006 para esse novo patamar, onde agora ele precisa desconstruir inclusive muitas de suas idealizações afetivas?

Foi um processo natural, já que dez anos se passaram na vida do Caio, na minha e na de todos que estávamos no processo do filme. Muitas ideias e ideais que temos aos 20 anos são modificados quando crescemos, quando nos frustramos e reavaliamos e reinventamos quem queremos ser. Ao mesmo tempo, mostrar essas desconstruções na parte final nos motivava bastante por poder humanizar os personagens e não categorizá-los, explorando camadas menos visíveis ou inexistentes nas cenas de 2006.

Em termos práticos, gravar um longa envolve uma dose muito maior de tempo, dedicação e envolvimento. E é esse formato que, no final das contas, também permite uma cena carregada emocionalmente como aquela do terço final, onde Caio e Mari tem uma conversa super franca não apenas sobre um conflito em comum, mas também sobre coisas há muito tempo guardadas. No sentido de enfrentar uma sequência como essa, ajuda a intimidade criada especialmente com a Caroline Abras durante dez anos? Mais do que a amiga, como é trabalhar e contracenar com a Caroline atriz?

Com certeza ajuda. Essa cena especificamente fica no limite da ficção. Seria muito difícil saber até onde podemos ir um com o outro na cena se não nos conhecêssemos, se não entendêssemos o nosso jogo ali. Primeiramente, eu acho que a Caroline é amiga da câmera, e a câmera gosta dela naturalmente, mas soma-se o fato de ela ser uma atriz inteligente cenicamente, rápida no improviso e que sabe dar o tom certo pra cada cena sem economizar ou desperdiçar energia. Sem falar do fato de ela saber escolher as personagens que vai interpretar e da dedicação e cuidado que tem com a carreira. Então, como amigo e como parceiro de cena, realmente só tenho elogios.

Imagino que, desde o lançamento do curta em 2006 até o longa agora em 2018, o encontro com o público tenha sido muito bacana, já que boa parte dele praticamente cresceu junto com os personagens. A troca com os espectadores teve alguma contribuição na forma de enxergar a história, o personagem e o projeto? O que você espera desse novo encontro com o público?

Sem dúvida. As pessoas supõem que o fato de você ter participado do filme lhe dê um saber sobre ele e sobre as questões que ele levanta. O filme não fica pronto quando é feito o último corte. Ele necessita ser visto e interpretado pelos outros para que  de fato exista. Pra mim, é um experiência muito prazerosa quando leio ou escuto reflexões sobre o filme de uma perspectiva que não tinha pensado. Espero ter a oportunidade de conversar sobre o filme com as pessoas que se interessam pela história. Conversar com as pessoas que se interessaram pelo filme é realmente uma parte importante e prazerosa do processo.

Para finalizar, quais seriam as três obras (filmes, séries, livros) que você indicaria para quem gostou de “Alguma Coisa Assim”?

–  Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, de Zygmunt Bauman (livro)
O Curso do Amor, de Alain de Botton (livro)
Antes do Amanhecer, de Richard Linklater (filme)

“O Animal Cordial” | Entrevista com a diretora Gabriela Amaral Almeida

“Os personagens que nascem dentro de mim carregam muitas das contradições humanas que eu mesma não sei resolver (nem nunca saberei)”.

Não foram poucas as vezes que comentei aqui no blog sobre a minha relação tortuosa com os filmes de terror/horror. O que mais me fascina no gênero é, justamente, o que o grande público não busca ou pelo menos não é tão explorado quanto deveria: histórias que utilizam a morte, o medo e a insanidade (entre tantas outras matérias-primas) para falar sobre questões emocionais inerentes aos seres humanos, mesmo que de forma extremada ou sanguinolenta. Gabriela Amaral Almeida, a diretora de O Animal Cordial, trabalha a partir dessa perspectiva: nos curtas que já dirigiu e, agora, em seu primeiro longa-metragem, Gabriela define seus personagens como um reflexo de atritos que ela própria enxerga no mundo, especialmente aqueles que incomodam e que, por uma série de razões, tornam-se tabus na sociedade. E O Animal Cordial está cheio de alegorias sobre atritos e tabus, abordagem que me levou de imediato ao centro desse filme que enxerga sangue, sexo e violência sem pudor algum (não à toa, a classificação indicativa nas salas brasileiras será 18 anos). O cenário? Um restaurante de São Paulo que, prestes a encerrar o expediente, é assaltado por dois homens. No entanto, Inácio (Murilo Benício), o dono do estabelecimento, decide que a situação não pode fugir do seu controle. Muito sobre o que achei do filme está na crítica publicada aqui no blog, mas o resto eu deixo a Gabriela, que gentilmente conversou comigo sobre o filme, contar para vocês na entrevista que reproduzo abaixo. Lembrando que O Animal Cordial chega aos cinemas brasileiros no dia 9 de agosto.

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Tomando como referência determinadas obras da tua carreira, é possível perceber uma certa preferência por temas e abordagens que “incomodam”, digamos assim. Em A Mão Que Afaga, por exemplo, temos a questão de uma mãe solteira e solitária que tenta fazer uma festa de aniversário para a filha. Já Vaca Profana, que conta com o teu roteiro, propõe uma importante discussão acerca do que é “feminino” e do chamado “instinto materno”. E agora temos O Animal Cordial, que segue essa mesma linha com temas muito mais amplos. O teu cinema é assim mesmo? Inclinado a tocar em assuntos necessários, muitas vezes renegados pela sociedade, e levantar reflexões sobre eles? Isso é proposital ou coincidência?

Os personagens que nascem dentro de mim carregam muitas das contradições humanas que eu mesma não sei resolver (nem nunca saberei). Todo personagem é uma espécie de tótem das questões caras a cada escritor, uma entidade que torna de alguma maneira palpável a matéria de que todos nós somos feitos. Nesse sentido, o que compõe meus tótens-personagens está intimamente relacionado com os atritos que eu vejo e/ou sinto no mundo. Muitos desses atritos incomodam porque, ao não serem discutidos no correr dos dias úteis da vida útil, tornam-se tabu; tabu é tudo aquilo que varremos para debaixo do tapete. A sujeira pode estar escondida, mas os calombos são visíveis sob esta tapeçaria a que chamamos de “vida funcional”. O que eu tento fazer na criação dos meus personagens é entrar em contato com esses calombos. Não é uma questão de escolha deliberada de tema – “vou escolher temas incômodos para conseguir este ou aquele efeito” –, mas de uma atração inconsciente por tudo que está à margem. Estamos sempre na margem em relação a algum centro – qualquer centro. Da minha margem, eu me pergunto: para onde vão as mães sem instinto materno? E o feminino que não se encaixa nos padrões ditados pela sociedade? Os pais que não gostam dos filhos, os filhos que não gostam dos pais, os homens que matam, as mulheres que matam: “all the lonely people, where do they all belong?”. As minhas criaturas (e histórias) vêm todas dos calombos do tapete.

Poucas vezes, pelo menos se tratando do cinema brasileiro recente que chega a festivais e grandes plateias, vi um filme tão forte e cru como O Animal Cordial, mesmo se tratando de obras de terror. Como é a relação do público brasileiro com esse gênero? Claro que há iniciativas importantes para a valorização dele, como é o caso do Fantaspoa, aqui em Porto Alegre, onde o teu filme foi premiado em duas categorias (direção e atriz), mas como é de fato essa relação com as plateias? Ainda existem tabus que precisam ser quebrados junto a elas? Ou o público está mais aberto?

O cinema de terror e/ou horror sempre terá vocação para ser marginal. Nestes filmes, se discute sobretudo a morte e/ou a possibilidade da morte – e a depender de como essa abordagem é feita dentro dos limites do(s) gênero(s), o resultado final pode ser um filme não exatamente agradável. Narciso acha feio o que não é espelho: é muito, muito difícil nos reconhecermos nas sombras de uma história própria. O público brasileiro ainda não se reconhece na mitologia do filme de horror/terror nacional porque, acho: (1) ela está em formação constante e sempre submissa à mitologia do horror/terror americana ou européia, e (2) nós não somos um povo que costuma revisar seus monstros e medos extremos (vide escravidão, vide Ditadura Militar – como sociedade, agimos como se esses momentos não tivessem existido). Os mitos são mais palatáveis e agradáveis do que os monstros, né?

A pergunta anterior me leva a outra: O Animal Cordial tem um elenco fantástico, todos em uma entrega absoluta, mas como foi o processo de vender a ideia de um filme como esse para cada um deles? O elenco abraçou o projeto desde o início, destemidos e livres exatamente como os vemos na tela?

O elenco desse filme é um verdadeiro presente. Todos embarcaram no projeto desde a primeira conversa, com uma entrega rara de se ver. Foi um mês de ensaios, leituras, trocas de correspondências, laboratórios, conversas – cada personagem é um planeta neste filme, e eu agradeço a cada ator que me ajudou na construção de suas atmosferas (além de agradecer especialmente ao meu amigo e diretor René Guerra, por ter dividido a preparação comigo). Cito um exemplo de colaboração com Irandhir Santos. Ao ler o roteiro, Irandhir me presenteou com uma memória de infância poderosa. Em Limoeiro, cidade no interior de Pernambuco onde ele havia nascido, havia um cozinheiro de buffets de festa (casamento, 15 anos, etc.) que se chamava Djair. Djair era gay, discriminado na cidadezinha, mas dono de uma personalidade forte que fez dele um cozinheiro reconhecido “na capital”. Devolvi essa memória para Iran em forma de cenas. Criei a partir do chão dele. Não há nada mais bonito que isso.

Uma favorita minha no elenco é a Luciana Paes, que já trabalhou contigo anteriormente e que também estará no teu próximo longa. Além da questão do talento, o que faz da Luciana uma atriz que te motiva a repetir essa parceria?

Luciana é meu doppelganger na vida. Já estamos muito perto de nos comunicarmos por telepatia (risos). É tão especial que eu desisti de teorizar. Ela está na minha cabeça e eu na dela. Uma atriz que amo, que me inspira e que vai comigo até a beira do abismo, sempre.

Chegando às discussões do filme propriamente ditas, dois assuntos me parecem centrais: a falência da masculinidade como a sociedade conhece/perpetua e o perigo de se apaixonar. Como foi o processo de trabalho desses dois temas no roteiro? A ideia de fazer O Animal Cordial veio da vontade de falar sobre eles?

Processos criativos são muito difíceis de explicar porque muitas coisas acontecem simultaneamente, sem ordem lógica. A fagulha da história foi um evento real: um restaurante que frequentávamos eu e Luana Demange (co-autora do argumento) havia sido assaltado. Começamos a nos questionar sobre os espaços de segurança na sociedade brasileira. De repente, estávamos emboladas na vontade de amor de Sara, uma garçonete servil e totalmente inconsciente de seus verdadeiros desejos. Inácio surge, acho, do modelo masculino de sucesso que é vendido a muitos, muitos homens brasileiros – dono de seu próprio negócio, casado, branco, heterossexual. A partir daí, foi uma questão de puxar os fios que sustentavam esses desejos todos que nos mantêm ora unidos, ora em guerra, na vida.

O terror que embrulha o estômago no filme não é o das violências físicas propriamente ditas, mas sim as emocionais: o corte de cabelo do personagem de Irandhir Santos, a maneira esnobe e elitista com que a personagem da Camila Morgado trata a garçonete do restaurante… Podemos dizer que O Animal Cordial é um filme subversivo também nesse sentido: em transferir para outros planos a verdadeira agressão?

Os personagens estão sós. É uma frase que repito para mim mesma, sempre, ao escrever uma história. Eles estão sós – e o narrador da história não tem o direito de impor nenhuma verdade que não saia deles mesmos. A verdadeira violência não é a violência anunciada pelo filme, mas aquela enfrentada no embate entre os personagens.

Tratando-se da parte técnica, O Animal Cordial é um filme muito sensorial: a trilha do Rafael Cavalcanti, por exemplo, já é impactante desde os créditos de abertura. A fotografia da Barbara Alvarez cria uma unidade ao mesmo tempo que oscila conforme o ambiente, o universo próprio de cada personagem… E por aí vai. Vindo de uma fã dos filmes de terror, o quanto a parte técnica influencia o que cada espectador sente em obras dessa natureza? Como foi trabalhar a concepção visual com toda a equipe?

O visual e o sonoro são as brechas onde o narrador-de-cinema e seus colaboradores se escondem para fazer a mágica acontecer. Para mim, quão mais escondida essa mágica estiver, melhor ela funciona. A fotografia, a direção de arte, a música, o desenho sonoro: tudo está subordinado às questões dramáticas dos personagens. Na hierarquia das camadas de um filme de gênero, sobretudo, o racional deve vir por último. Meu trabalho com Rafael Cavalcanti vem desde o roteiro, que ele acompanha desde as primeiras versões (ajuda muito sermos casados). A pesquisa de sonoridades e músicas começa nesse estágio e envereda pela montagem, da qual ele participa ativamente. O desenho de som, feito pelo Daniel Turini, foi fundamental para trazer o filme à vida (ele constrói cada ambiente sonoro dramaturgicamente, seguindo as curvas dos personagens e ações; é um colaborador preciosíssimo). Com Bárbara Álvarez, o que funciona para nós é explorar ao máximo os significados secretos de cada cena – e ir traduzindo isso em imagens.

Para encerrar, quais são três filmes bacanas para quem gostou de O Animal Cordial? E por quê?

– “Singapore Sling”, do grego Niko Nikolaids (1990) – um ensaio poético noir pornográfico sobre a relação de duas mulheres e um homem, ambientado numa mansão neo-gótica. É um filme único na forma como aborda os gêneros narrativos, que se alternam alucinadamente – e nunca, nunca de forma previsível.

– “Der Fan” (1982), do alemão Eckhart Schmidt – um filme de horror feito na Berlim ocidental de 1982, que narra a obssessão de uma adolescente por seu ídolo pop. É um filme gore sem uma gota de sangue. É alucinante ver a transformação desse feminino devoto num monstro, quando ela descobre que seu ídolo não é o que ela imaginava.

– “Uma Mulher Diferente”, do americano Robert Altman (1969) – no IMDB, aparece como drama. Mas é um filme de terror. Uma mulher rica e solitária se torna obcecada por um homem que ela abriga em sua casa, num dia chuvoso e frio. A interpretação de Sandy Dennis é das coisas mais frágeis e ameaçadoras que eu já vi.


+ SOBRE GABRIELA AMARAL ALMEIDA
É mestre em literatura e cinema de horror pela UFBA (Brasil), com especialização em roteiro pela Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV) de Cuba. Escreveu (e escreve) para outros diretores, como Walter Salles, Cao Hamburger e Sérgio Machado. Como diretora, realizou os curtas Náufragos (2010, co-dirigido com Matheus Rocha), Uma Primavera (2011), A Mão que Afaga (2012), Terno (2013, co-dirigido com Luana Demange) e Estátua (2014). O conjunto de seus curtas foi selecionado para mais de cem festivais nacionais e internacionais, tais como o Festival de Cinema de Brasília, o Festival Internacional de Cinema de Roterdã, o Festival de Curtas de Nova York, dentre outros. São destaque os prêmios recebidos por algumas destas obras, como os prêmios de melhor roteiro, melhor atriz (para Luciana Paes) e prêmio da crítica no 45º Festival de Cinema de Brasília para A Mão que Afaga, e os prêmios de melhor atriz (para Maeve Jinkings) e melhor roteiro para Estátua!, no mesmo festival, dois anos depois. Com o seu projeto de longa-metragem A Sombra do Pai, foi selecionada para os laboratórios de Roteiro, Direção e Música e Desenho de Som do Sundance Institute. O projeto contou com a assessoria de Quentin Tarantino (Pulp Fiction), Marjane Satrapi (Persépolis), Robert Redford (Butch Cassidy and the Sundance Kid), dentre outros. Atualmente, trabalha no desenvolvimento de seu próximo longa-metragem, uma fábula de exorcismo (ainda sem título), a ser produzida também pela RT Features. Nos Estados Unidos, é agenciada pela WME.

45º Festival de Cinema de Gramado #11: Eliane Giardini celebra o agora em “A Fera na Selva”

À frente e atrás das câmeras: Eliane Giardini atua, dirige e coproduz A Fera na Selva, drama baseado na novela homônima do inglês Henry James. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Não é exagero dizer que A Fera na Selva, novela escrita pelo inglês Henry James em 1903, mudou a vida da atriz Eliane Giardini. “Fiquei muito impactada quando li pela primeira vez há cerca de 25 anos. Foi um choque de realidade”, lembra. O “choque de realidade”, segundo ela, veio pela identificação com o protagonista da história, um homem que, à espera de um grande acontecimento que o possa distinguir de todas as outras pessoas, esquece de viver o agora e as coisas simples da vida. Para Eliane, esse é um exercício que agora ela precisa fazer diariamente: “Isso é muito do ser humano: pensar no passado e projetar o futuro, mas esquecer o presente. Depois de entrar em contato com essa obra, passei a exercitar muito mais a consciência do aqui e do agora. É quase uma meditação, e isso é muito difícil”.

É justamente essa discussão que norteia A Fera na Selva, o filme que Eliane agora dirige em parceria com Paulo Betti e Lauro Escorel e que compete na mostra de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado. Também replicando em cena o papel que dividira com Paulo na versão teatral do texto, Eliane não deixa de observar que A Fera na Selva é uma obra que também pode ser questionada através dos anos, em especial Maria, a personagem que interpreta. “Ela é essa mulher do século passado que é a parceira, que fica do lado do homem e se submete, servindo de confirmação para a história do homem, como se essa fosse a única maneira de se sentir incluída em alguma coisa. Graças a Deus isso está mudando hoje em dia, mais do que nunca”, comemora.

Por falar em adaptação, A Fera na Selva nasceu como um projeto colaborativo, onde Paulo Betti discutia o texto de Henry James com o público, em uma espécie de clube de reflexão que servia de laboratório para a construção da versão cinematográfica. O mesmo espírito de compartilhamento se estendeu à direção, onde Eliane, Paulo e Lauro formaram um trio de pura sintonia. O resultado, segundo a atriz, é um filme que pouco se assemelha ao que o público está acostumado a ver. “Sabíamos que esse era um texto ‘palavroso’, trabalhado em cima de uma questão filosófica e que daria vida a um filme fora da curva, com ritmo totalmente diferente do que se vê”, avalia. No entanto, a recepção da primeira exibição mundial do filme em Gramado agrada a atriz-diretora: “É uma experiência que afirmou o que eu pensava sobre o nosso trabalho. Imaginei que, por ser um filme de ritmo mais próprio e meio ‘emburacado’, pudesse haver uma debandada, mas as pessoas foram extremamente respeitosas com o que realizamos”. 

Já trabalhando no roteiro de um novo longa-metragem, Eliane Giardini volta a participar do Festival de Cinema de Gramado depois de 14 anos. A última vez foi em 2003, quando apresentou o evento ao lado do ator gaúcho Werner Schünemann, durante o enorme sucesso da minissérie A Casa das Sete Mulheres. “Fazia realmente muito tempo que eu não vinha, e o que percebo é que a cidade está muito diferente, incrivelmente melhor, e o Festival ajuda nesse sentido”. Assim como sua colega de profissão Camila Morgado, que recentemente esteve na Serra Gaúcha representando o longa Vergel, Eliane endossa o discurso: “Vir aqui em tempos onde a cultura está sendo literalmente desmontada também é um ato de resistência. Precisamos celebrar”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #8: Camila Morgado encara o luto e o renascimento no drama “Vergel”

Camila Morgado é a protagonista de Vergel, drama que será exibido sexta-feira (25) no Palácio dos Festivais. Foto: Diego Vara/Pressphoto

Não há gênero que a atriz Camila Morgado rejeite ou olhe com preconceito. Aliás, esse seu desprendimento é consequência natural de uma curiosidade que Camila sempre teve, antes mesmo de migrar do teatro para a telona: a de mergulhar em tudo o que existe de fascinante em qualquer ser humano. “Foi o que sempre interessou: o nosso comportamento, a forma como nos vestimos, falamos, reagimos à vida. É esse meu objetivo como atriz e é isso o que me leva a passear por tantos gêneros”, conta a atriz, que, recentemente se divertiu na comédia Divórcio, encarou a tensão no thriller O Animal Cordial e mergulhou nos processos de luto com o drama Vergel – este último fazendo sua estreia nacional na mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado.

Com Vergel, Camila Morgado novamente se entrega ao drama, gênero que pontuou momentos cruciais de sua relação com o grande público, primeiramente com a minissérie A Casa das Sete Mulheres, em 2003, e depois com Olga, em 2004, filme de abertura do 32º Festival de Cinema de Gramado, em exibição hors-concours. Apesar do sucesso, ela não esconde, por outro lado, que foram tempos de reflexão do ponto de vista profissional. “Ali a situação me preocupou um pouco porque o público pensava que eu só sabia chorar ou fazer trabalhos densos. Não queria ficar com esse estereótipo, então a busca por uma certa desmistificação da minha carreira foi plenamente consciente”, lembra. E ela conseguiu, novamente sem preconceitos: “Quando fiz Até Que a Sorte nos Separe, questionei muita coisa. Por que não posso fazer um filme para me divertir? Ou que leve toda a família para o cinema só para dar risada e comer pipoca? Não há mal nenhum nisso”.

Já em Vergel, a situação, claro, é bem diferente. Interpretando uma mulher sem nome que é levada à beira da loucura por um luto repentino, ela se entrega a um tipo de história que sempre teve o desejo de contar. “O luto nos leva a um estado de suspensão, onde você precisa encontrar o seu próprio tempo para renascer, se recriar, se reconstruir. É um estado muito primitivo, peculiar. Nunca havia entrado em contato com isso na minha carreira, e era algo que eu queria fazer”, afirma a atriz. Junto ao tema, o roteiro escrito pela diretora Kris Niklison também foi o que chamou Camila para o projeto: “Nós só falamos de luto com o terapeuta e talvez com amigos muito próximos. É um tema difícil, que causa muita dor e nos deixa em um estado perdido, mas a Kris escreveu tudo de forma tão delicada que eu simplesmente me apaixonei, assim como todos os envolvidos no projeto”.

Uma coprodução Brasil/Argentina, o longa-metragem foi rodado em torno de 45 dias, com baixíssimo orçamento e com a equipe emprestando apartamento e bicicletas para que a equipe de produção passasse uma temporada na Argentina. O que parecia um obstáculo se tornou, na realidade, um ganho. “Foi uma delícia. Os hermanos foram muito gentis, e nós sempre nos apoiamos muito. Éramos uma equipe que ficava junta para fazer de um sonho uma realidade. No final das contas, o meu maior medo era que roubassem a bicicleta que me emprestaram”, brinca. Sobre a relação com a diretora Kris Niklison, Camila diz que o olhar feminino fez toda a diferença para a história contada em Vergel, “já nos ensaios eu via que ela tinha um olhar muito rebuscado em relação ao feminino. E quando vi o filme pronto, fiquei impressionada com o quanto ela filma bem essa figura feminina, o corpo dessa mulher que passa por tantas compulsões sexuais para de alguma forma perceber que ainda está viva”.

Retornando ao Festival de Cinema de Gramado após mais de 10 anos, a atriz sente que a celebração dos 45 anos do evento representa mais do que o tradicional encontro entre amigos e profissionais do cinema brasileiro e latino. “É importante o Festival acontecer nesse momento porque a cultura está cada vez mais marginalizada. A cultura faz parte da vida de todo mundo, e por isso deve ser sempre um estímulo. Em tempos de movimentos tão feios da política de direita, o Festival é também um ato de resistência”, defende Camila.

“Vergel” será exibido no Palácio dos Festivais dia 25 de agosto, sexta-feira, a partir das 21h30.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #7: A busca de Laís Bodanzky pelo mais simples do ser humano

A cineasta Laís Bodanzky concorre ao Kikito no 45º Festival de Cinema de Gramado com o drama Como Nossos Pais. Foto: Diego Vara/Pressphoto

A diretora Laís Bodanzky conhece a vida de seu público. Isso, no entanto, não se restringe ao fato de ela produzir filmes como As Melhores Coisas do Mundo, Chega de Saudade e o célebre Bicho de Sete Cabeças, que falam justamente sobre pessoas comuns, “gente como a gente”. Na verdade, é o que a própria Bodanzky diz ouvir da plateia quando sai, por exemplo, de uma sessão de Como Nossos Pais, seu mais novo longa-metragem que fez estreia em território nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado. “O encontro com o público validou e completou tudo o que eu pensava sobre esse trabalho. A maneira como as pessoas levantam questões vem no mesmo tom que o filme. Elas dizem ‘como você conhece a minha vida!’, quase como se estivessem em uma terapia”, conta a diretora.

Narrando o dia a dia de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher que busca ser perfeita em todas suas obrigações como profissional, mãe, filha, esposa e amante, Bodanzky lança novamente um olhar humano e contemporâneo para o tipo de história que marcou a sua trajetória até aqui. Mais do que isso, Como Nossos Pais vem da necessidade da diretora de falar sobre uma questão efervescente: a representação feminina, o que ela garante ter sido o “tema de redação” de seu longa já há muitos anos. Evocando a clássica música de Belchior eternizada na voz de Elis Regina, o universo feminino é visto pela cineasta sob a luz das relações familiares, especialmente das trocas promovidas entre diferentes gerações: “Eu queria falar sobre o que a gente pega e transforma de uma geração e entrega para a próxima, o que a gente ensina para nossos pais e sobre quando começa essa inversão de papeis”.

A mistura, claro, leva tons autobiográficos – e Bondazky diz que não poderia ser de outra maneira se tratando de cinema -, mas a provocação também deu uma importante tônica ao roteiro. “A mãe vivida pela Clarisse Abujamra é uma mulher da geração intelectual dos anos 1960, que viveu a contracultura com certa entrega e liberdade. Já Rosa, a filha, é careta. E isso acho bonito: ao mesmo tempo em que critica os pais, Rosa ganha de presente uma mãe que a ensina a ser muito mais libertária, muito mais livre, a correr riscos, transgredir. É no conflito que vem o aprendizado.”, reflete a diretora.

Antes de exibir Como Nossos Pais, seu primeiro longa-metragem em competição no Festival de Cinema de Gramado, Bondanzky só havia visitado o evento na década de 1990, quando exibiu o média-metragem Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil no Palácio dos Festivais em 1999. O retorno ao Festival traz muitas alegrias para a diretora, entre elas perceber como o evento se transformou ao longo dos anos. “Agora é outra coisa, até porque o próprio cinema brasileiro é outro. De qualquer forma, a curadoria é fina e me chamou muito a atenção porque reflete o cinema que vivemos hoje e porque está atenta a essa necessidade de fazer um contraste entre novos cineastas e nomes já consolidados”, avalia. O charme do evento também não passa despercebido por ela, que reforça a ideia de que o glamour característico do Festival aliado ao requinte cinematográfico trazido pela curadoria promove “um encontro atômico para o cinema brasileiro”.

Pela frente, Bodanzky tem como objetivo seguir na mesma linha de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano, mas, segundo ela, novamente com certa provocação: “Pedro” contará a história de Dom Pedro I, sob o viés de… Pedro, a pessoa. Não o Dom. É mais um capítulo a ser escrito em uma carreira que a diretora assume ser propositalmente sobre nós mesmos.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

43º Festival de Cinema de Gramado #1: a lei do talento

Marília Pêra é a 25ª homenageada do troféu Oscarito, a mais tradicional distinção entregue pelo Festival de Cinema de Gramado. Foto: Priscila Prade

“Eu adoro Gramado!”. Esse foi o primeiro pensamento que Marília Pêra teve quando recebeu o convite da organização do Festival de Cinema de Gramado para ser a 25ª homenageada do troféu Oscarito. A distinção é destinada a grandes atores do cinema brasileiro e, nas suas bodas de prata, traz novamente à cidade gaúcha a consagrada atriz, que já levou para casa dois Kikitos: um em 1983, por Bar Esperança – O Último Que Fecha, e outro em 1987, por Anjos da Noite. “Volto ao Festival com muita alegria, e a minha expectativa é que tudo seja muito lindo”, comenta Marília.

A relação com as artes vem do berço – seus pais Dinorah Marzullo Pêra e Manoel Pêra também eram atores -, e o convívio com as artes desde a infância foi fundamental para o caminho que a pequena Marília viria a percorrer ao longo de sua vida. Já aos quatro anos, ela pisou pela primeira vez nos palcos com a tragédia grega Medeia e, a partir daí, só se aperfeiçoou: de espetáculos marcantes como a clássica montagem de My Fair Lady, com Bibi Ferreira e Paulo Autran, ao protagonismo de peças sobre figuras emblemáticas como Dalva de Oliveira e Maria Callas, o indiscutível talento de Marília Pêra ultrapassou as fronteiras brasileiras, chegando a diversos países do mundo. Na França, por exemplo, foi ovacionada pela crítica parisiense por sua personificação da lendária estilista Coco Chanel no espetáculo Mademoiselle Chanel.

Dos palcos foi para a TV, onde, em 1965, teve a sua primeira aparição em Rosinha do Sobrado, na rede Globo. Rosinha também é curiosamente o nome de seu primeiro papel no cinema, que veio logo dois anos depois da estreia na telinha. Em O Homem Que Comprou o Mundo, Marília Pêra começou sua trajetória cinematográfica com o pé direito: dirigida pelo saudoso mestre Eduardo Coutinho, dividiu a cena desta sátira do regime militar no Brasil com Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Hugo Carvana, Cláudio Marzo e Raul Cortez. Desde então, foram nada menos do que 23 filmes sob a tutela de nomes como Cacá Diegues, Domingos Oliveira, Hector Babenco e Walter Salles.

Na memória da atriz estão os dois filmes que lhe consagraram em Gramado. Com Bar Esperança, as lembranças são para lá de carinhosas: “Esse é um filme que o querido Hugo Carvana dirigiu com muita soltura e improviso. Nós podíamos brincar como quiséssemos e ele ajustava depois. Tudo era uma brincadeira em Bar Esperança, mas uma brincadeira organizada, claro”, brinca Marília. Já em relação a Anjos da Noite a palavra de ordem durante as gravações foi dedicação. “Tive um papel relativamente pequeno, mas a experiência foi dificílima, já que filmávamos apenas a noite e era sempre frio. A produção também envolvia maquiagem, coreografias, vestidos costurados diretamente no corpo… Foi um desafio!”, relembra.

É impossível, no entanto, falar da carreira da Marília Pêra no cinema sem mencionar Pixote – A Lei do Mais Fraco. Dirigido por Hector Babenco em 1981, o longa garantiu o prêmio de melhor atriz na Boston Society of Film Critics Awards. Contando a triste realidade dos meninos de rua, Pixote viajou o mundo e conquistou ainda uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. “Pixote foi fundamental para a minha carreira de atriz, pois me deu um aprendizado muito grande sobre cinema. Foi um filme que confirmou o que eu já sabia sobre essa realidade específica do Brasil. Quando vi pela primeira vez, me enchi de medo e orgulho. Medo pela crueza dos detalhes com que mostramos a realidade do abandono e orgulho de estar em um filme dirigido com tanta precisão”, comenta.

O reconhecimento nacional e internacional de público e crítica orgulha Marília Pêra, mas, quando pensa sobre tudo o que conquistou até aqui como atriz, diretora e bailarina, o que mais toca seu coração é a lembrança familiar: “Venho de uma família de atores que viveram uma época onde não existia divulgação ou incentivo ao teatro no Brasil. Meus pais, por exemplo, foram profissionais que se dedicaram a vida inteira a esta arte e morreram sem reconhecimento e com dificuldades financeiras. Eu já vivo uma outra realidade, e me deixa muito contente esse privilégio de viver uma época completamente diferente e de ter conquistado tantas coisas como atriz”.

A ampla trajetória de Marília Pêra no cinema será rememorada pelo Festival de Cinema de Gramado com o troféu Oscarito. “Eu adoro Gramado! E isso vem antes do próprio Festival existir. Quando ia a Porto Alegre, sempre viajava a Gramado de carro, por prazer mesmo, só por estar lá. Fiquei muito contente com a homenagem, já que, além de conhecer bem a importância do Festival de Cinema de Gramado, tenho uma grande família aí no sul. Quando vou a Pelotas, sempre aparece um primo, um tio ou um novo Pêra. Estar entre os gaúchos é uma grande alegria. É o meu ninho!”, conta. Marília Pêra recebe o troféu Oscarito na noite do dia 11 de agosto no Palácio dos Festivais.

* matéria originalmente produzida para a assesoria de imprensa do 43ª Festival de Cinema de Gramado

O filme de abertura e os homenageados do 42º Festival de Cinema de Gramado

O suspense Isolados é o filme de abertura do 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Dan Behr

O suspense Isolados é o filme de abertura do 42º Festival de Cinema de Gramado.

Em dia que os paulistas começam a celebrar o retorno do Festival de Paulínia, a serra gaúcha também manda lembranças ao circuito de festivais com novidades para a 42ª edição de seu Festival de Cinema de Gramado, que acontece de 8 a 16 de agosto. Se os eventos tem dois filmes em comum em suas mostras competitivas (Infância, de Domingos Oliveira, e Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas), as propostas de cada um se mostram bem distintas.

Gramado anunciou hoje (22) que abre sua programação com o suspense Isolados. Protagonizado por Bruno Gagliasso e Regiane Alves, o filme marca o último trabalho no cinema do agora saudoso José Wilker, que desde 2012 era curador do Festival e anos antes tinha sido apresentador do evento em diversas edições. É um agradecimento do Festival a Wilker – e, certamente, um carinho que falará mais do que qualquer resultado do filme. O quarteto de homenagens desta edição também foi divulgado. A força das distinções entregues por Gramado é um diferencial (mesmo com a sentida falta de uma dama entre os homenageados deste ano), e em 2014 a multiplicidade de perfis é uma marca.

Recebendo o Troféu Oscarito (destinando a grandes atores) está o paulista Flávio Migliaccio, que em muito se assemelha a vários nomes do cinema estadunidense como Margo Martindale e Richard Jenkins. Ou seja, é aquele ator que tem uma extensa filmografia, mas cujo nome não está na ponta da língua do público – seja por nunca ter tido um grande papel ou um sucesso estrondoso de público. Isso é ruim? Longe disso. É até raro encontrar uma homenagem como essa, que celebra um ator talentoso, trabalhador e que já atuou com as mais variadas gerações de profissionais e que sempre se manteve em cena.

Responsável pela fotografia de clássicos do cinema nacional como Central do Brasil e Lavoura Arcaica, Walter Carvalho é um dos homenageados

Responsável pela fotografia de clássicos do cinema nacional como Central do Brasil e Lavoura Arcaica, Walter Carvalho é um dos homenageados desta edição

Quem recebe o Troféu Eduardo Abelin (homenagem para cineastas) é Walter Carvalho. A filmografia fala por si só: são mais de 100 trabalhos como fotógrafo no cinema brasileiro, incluindo clássicos como Central do Brasil Lavoura Arcaica. E ainda vale lembrar que Carvalho é diretor: fez Cazuza – O Tempo Não Para ao lado de Sandra Werneck, adaptou o livro Budapeste, de Chico Buarque, e fez um documentário sobre Raul Seixas, entre outros. Homenagem mais do que merecida.

Já o Troféu Cidade de Gramado, que tem se revelado muito mais um agradecimento da cidade a importantes nomes do cinema do que propriamente um prêmio para artistas ligados à cidade e ao evento, fica com Rodrigo Santoro. É certo que sua carreira lá fora não deu muito certo (ficou no limbo: não estourou como galã e também não deu certo nas produções alternativas), mas o que ele fez aqui no Brasil merece muitos aplausos, da sua contundente atuação no impressionante Bicho de Sete Cabeças ao seu mais recente retrato do jogador de futebol Heleno de Freitas em Heleno, ele é, sem dúvida, um dos nomes mais importantes de sua geração.

Fechando o quarteto de homenagens vem o ator franco-argentino Jean Pierre Noher, muito famoso nas telenovelas argentinas, mas também com uma boa filmografia lá fora. Tanto que despontou no Brasil (atualmente está no remake de O Rebu) e chegou a ser recomendado por ninguém menos que Fernanda Montenegro (atuaram juntos em Redentor) a Walter Salles para o elenco de Diários de Motocicleta. Em Gramado, Noher já ganhou um Kikito especial do júri em 2001 por sua atuação em Um Amor de Borges. Todos têm presença confirmada em Gramado.

Ludmila Rosa e Vladmir Brichta apresentam “A Coleção Invisível” em Gramado

Foto: Edison Vara/PressPhoto

Foto: Edison Vara/PressPhoto

A Coleção Invisível marca o último papel de Walmor Chagas no cinema. Porém, seria um tanto injusto limitar o longa-metragem de Bernar Attal a esse título. O filme, que será exibido hoje à noite no 41º Festival de Cinema de Gramado é também uma história sobre mudanças que tem um elenco apaixonado pelo resultado final da obra.

Um deles é Vladimir Brichta, que, chegando hoje a Gramado, conta que participar desse longa foi um verdadeiro presente. O ator, normalmente conhecido por papeis cômicos no cinema, tem trajetória em dramas no teatro, mas só agora pode explorar tal vertente na sétima arte: “Fico feliz por estender esse diálogo com o público. Queria retomar e exercitar essa parte da minha carreira. Principalmente com esse roteiro, que me encantou desde a primeira leitura. É uma grande história de amadurecimento e sobre como a vida pode ser boa mas também muito difícil”.

A atriz Ludmila Rosa também se envolveu por completo com o projeto, ressaltando a força de sua personagem. “Ela é uma mulher de muito vigor. Vem de uma época e de uma região muito patriarcal, mas que nunca se vitimiza. É forte, independente, ligada à cultura”, conta a atriz, que, com esse papel, fez algo inédito em sua carreira: interpretar uma personagem baiana. Ludmila nasceu na Bahia, mas nunca tinha interpretado alguém de lá. “São muitas memórias escondidas: a infância no interior, as fazendas, as dores e delícias de morar em um lugar como esse”, completa.

Road movie sobre transformações – ou, mais especificamente, sobre o início delas -, A Coleção Invisível, baseado no conto homônimo de Stefan Zweig, foi uma aula para os dois intérpretes. Não apenas em função da “direção delicada” e da “adaptação fluida”, conforme definem Brichta e Ludmila, mas pela própria convivência com Walmor. “Ele disse que eu tinha um desafio em mãos. Mas parecia que ele também tinha. Sempre inteiro, inquieto, querendo acertar tanto quanto eu”, conta Vladimir. Era, segundo Ludmila, um intéprete disponível e encantador: “Ele fazia eu esquecer que estava contracenando com o grande Walmor Chagas. Tinha um sentimento de igualdade”.

Previsto para estrear no circuito comercial brasileiro no dia 6 de setembro, A Coleção Invisível desembarca em Gramado com um novo ânimo. “Nós festejamos muito a vinda para cá. É uma injeção de ânimo estar no festival de cinema mais tradicional do Brasil. Com essa participação, vamos cheios de força para enfrentar os Wolverines da vida quando entrarmos em cartaz”, brincou Vladimir Brichta.

Texto realizado como cobertura oficial do 41º Festival de Cinema de Gramado para o site do evento

Othon Bastos, o representante de uma classe

Foto: Edison Vara/PressPhoto

Foto: Edison Vara/PressPhoto

Othon Bastos não veio a Gramado para falar sobre ele mesmo. O ator, que recebe o Kikito de Cristal nesta sexta-feira (16), quer dar um outro significado a essa importante distinção entregue a expoentes do cinema latino-americano. “Esse é um prêmio para o ator. Sou apenas o representante de uma classe. É lindo receber o Kikito de Cristal, mas não é para mim. É para todos os atores excepcionais do cinema brasileiro”, indica.

Entre curtas, longas e narrações, Othon Bastos já atuou em 75 produções e, em entrevista ao 41º Festival de Cinema de Gramado, revela que, quando pensa em festivais, imediatamente lembra de Gramado. “É o evento cinematográfico de maior charme do Brasil. Existe um colegiado, uma energia bonita, algo forte. Que ele nunca perca essa força e carinho”, diz o ator, que também comemora o acalanto do público: “A temperatura é fria, mas aí é que fica bonito: o calor humano desse festival quebra qualquer gelo”.

Sobre seus trabalhos favoritos, Othon cita São Bernardo, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Os Deuses e os Mortos e Sermões, mas, quando perguntado sobre suas maiores referências entre atores e diretores, prefere não listar para não cometer injustiças. Isso se deve ao fato de que, para ele, o cinema brasileiro está em constante mudança, sempre com novos nomes promissores que merecem reconhecimento.

Ainda sobre o cinema realizado em nosso país, o homenageado do Kikito de Cristal se mostra entusiasmado com a produção contemporânea. Relembrando os difíceis tempos do audiovisual na era Collor, Othon agora não esconde o entusiasmo com as produções brasileiras: “Estamos voltando a ter a mesma força. Antes estávamos engatinhando, agora já alcançamos a adolescência. E o melhor de tudo: o cinema no Brasil está descentralizado. Filmes são feitos em todos os estados. Isso é lindo!”.

Finalizando, o ator já adianta o que poderemos ver em seu discurso amanhã. “Não vou me vangloriar, ficar dizendo ‘obrigado, meu Deus, que maravilha’, para depois deixar o prêmio na estante. Não. Vou ser sucinto. Estou recebendo uma alma, um coração. E certamente não seria possível sem todos os outros atores com quem trabalhei. Esse prêmio é meu e deles”, reforça o homenageado. A entrega do Kikito de Cristal acontece na sexta-feira, às 21h30, no Palácio dos Festivais.

Texto realizado como cobertura oficial do 41º Festival de Cinema de Gramado para o site do evento

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