Cinema e Argumento

“Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”: apático e sem ritmo, novo terror de Ari Aster não cumpre as expectativas em torno do diretor

Do you feel held by him? Does he feel like home to you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson

Midsommar, EUA/Suécia, 2019, Terror/Drama, 137 minutos

Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.  (Adoro Cinema)

Se há uma vertente do terror que reagrupou força e relevância nos últimos anos, essa foi a que investiga o ser humano em seus sentimentos mais nebulosos, sofridos e atordoantes. De natureza antropológica e nada comercial, A Bruxa, por exemplo, mostrou as fraquezas morais, religiosas e sociais de uma família que, entre outras coisas, não sabe sequer lidar com o crescimento de uma filha que já começa a amadurecer e a entrar na vida adulta. Já aqui no Brasil, produções maravilhosas como O Animal Cordial, As Boas Maneiras e Mormaço lançaram um olhar muito crítico para as profundas feridas de um país ainda assolado pelo preconceito, pela intolerância e pela desigualdade. E também existe Ari Aster que, nos Estados Unidos, exorcizou os dramas de uma família em profundo luto com o cultuado Hereditário e que agora é mais uma vez aclamado com Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, onde encena a deterioração de um relacionamento amoroso marcado pelo individualismo, pela incomunicabilidade e pela falta de empatia.

Individualismo, incomunicabilidade e falta de empatia são definições até generosas para o que Christian (Jack Reynor) faz com Dani (Florence Pugh). Forçando-se a cuidar da namorada que não ama mais apenas por pena ou por não conseguir terminar com ela, Christian ilude emocionalmente uma garota marcada por uma recente tragédia familiar. Sem saber dispensar a namorada, Christian convida Dani para uma viagem que ele faria com seus amigos homens para a Suécia, o que desperta uma imediata frustração no grupo que já esquematizava a frequência com que fariam sexo em terras estrangeiras. Chegando na Suécia, eles ficam hospedados em uma pequena comunidade que vive um festival de verão muito particular, onde todos são convidados a testemunhar e até mesmo participar de determinados rituais. E isso é tudo o que você precisa saber sobre a tônica de Midsommar, que passa a colocar as suas cartas na mesa a partir daí. Antes disso, Ari Aster claramente bebia da fonte do que Hereditário tinha de melhor: o luto como matéria-prima para o desatino mental e  para sentimentos desencontrados que despertam a imprevisibilidade nas ações humanas.

Vale lembrar que Aster despontou como uma verdadeira promessa ao lançar Hereditário. Ainda que irregular (e até um tanto desonesto) ao jogar fora a promessa de um terror psicológico para sucumbir a várias explicações e vícios tão comuns do gênero, o diretor mostrava grande personalidade atrás das câmeras. Tecendo comparações entre um filme e outro, Midsommar tem mais unidade do que Hereditário, sem grandes incompatibilidades narrativas ou estéticas. Por outro lado, Hereditário tinha potência quando acertava, algo que não podemos afirmar sobre Midsommar. Longa demais, a trama carece de atmosfera. Pessoas e rituais estranhos existem aos montes (e a decisão de tentar criar tensão em um ambiente idílico, ensolarado e florido é interessante), mas fazer personagens sumirem aqui ou ali por motivos misteriosos não é necessariamente sinônimo de tensão. Tampouco instiga os desdobramentos que Aster, também autor do roteiro, faz das peculiaridades daquela comunidade: no máximo, ele desperta estranhamento quando registra um ritual que coloca em xeque os valores pré-concebidos que temos sobre suicídio e o fim da vida (e também sobre como somos intolerantes a culturas diferentes das nossas).

Entre a apatia do terror e a fragilidade das discussões dramáticas diante disso, Midsommar não é superlativo em nenhuma abordagem. Há um ponto digno de nota: o clímax, que mistura orgasmo, destruição e violência como uma recompensa direta da tomada de consciência de uma personagem que, diante do estranho, passa a se (re)conhecer. É nesse momento que o filme encorpa a vitalidade que lhe faltava até ali e que existia de sobra na primeira metade de Hereditário. Contudo, a frustração maior é mesmo a oportunidade perdida de fazer terror com as nossas angústias e com as nossas fraquezas mais íntimas. Outro ponto fraco que contribui para tal percepção é a irregularidade do elenco, que varia entre momentos bons (a maior parte deles entregues a Florence Pugh) e inexpressivos, para não dizer perfeitamente dispensáveis (Will Poulter, como o homem mais desprezível do grupo de amigos, é a perfeita representação do personagem que deveria ter sido eliminado no primeiro tratamento de roteiro). Portanto, quando é impossível se importar com os personagens, não há mesmo escapatória: sem atmosfera, empatia, ritmo ou até mesmo Toni Collette, Midsommar fica à deriva, sem jamais cumprir as expectativas criadas tanto pela ascensão recente Ari Aster quanto por tudo aquilo que o filme, em vão, tenta sinalizar.

“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.

Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.

A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo, dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.

Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece irrelevante para suas companheiras.

Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado capaz de ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco para se falar de Jane (Shailene Woodley), agora reduzida a um romance que parece cilada e mal aprofundada em relação ao que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que ela traz estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.

Deixo para citar por último a personagem Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela compartilha com Celeste em relação a Perry e sobre como isso é tanto o que une quanto o que separa essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.

Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito com displicência. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é, vejam só, a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que definitivamente não precisava existir.

47º Festival de Cinema de Gramado #9: “Pacarrete” lidera a lista de vencedores com oito Kikitos

Pacarrete leva para casa oito Kikitos, incluindo melhor filme, direção, roteiro e atriz para Marcélia Cartaxo. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Com forte tom político, a cerimônia de premiação do 47º Festival de Cinema de Gramado consagrou Pacarrete como o melhor longa-metragem brasileiro em competição. Dirigido por Allan Deberton, o filme que conta a história de uma bailarina decidida a realizar uma apresentação de ballet no interior do Ceará arrebatou os júris. Foram nada menos do que oito estatuetas para essa história protagonizada pela veterana Marcélia Cartaxo, também vencedora do Kikito de melhor atriz por seu desempenho memorável.

Nada passa pelo exagero: filme mais ovacionado por público e crítica presentes no Festival em muitos anos, Pacarrete ainda deveria ter levado para casa o prêmio de melhor filme pelo júri da crítica, que inexplicavelmente decidiu premiar o gaúcho Raia 4, título distante de se equivaler ao fascínio despertado pelo longa de Allan Deberton. É um mistério o que levou a crítica a fechar os olhos para o furacão Pacarrete, o que acaba sendo o único ponto duvidoso de uma cerimônia justa e coerente com o que foi visto ao longo da 47ª edição do tradicional evento serrano.

Entre os longas estrangeiros, o costarriquenho El Despertar de Las Hormigas levou a melhor, assim como a animação Apneia entre os curtas, cuja lista de vencedores parece ter sido pensada milimetricamente para abranger o maior número possível de concorrentes. Por fim, a recém inaugurada categoria de melhor longa-metragem gaúcho seguiu o caminho previsto desde a divulgação da lista de concorrentes, premiando Raia 4. Tal vitória concedeu ao longa de Emiliano Cunha o segundo lugar no ranking dos filmes mais premiados da noite.

Em 2020, o Festival de Cinema de Gramado acontecerá entre os dias 14 a 22 de agosto, com curadoria reformulada: após a morte de Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho, o jornalista Marcos Santuario agora estará acompanhado do jornalista Pedro Bial e da “cantriz” argentina Soledad Villamil na prospecção e seleção dos longas-metragens concorrentes.

Assista abaixo à cerimônia de entrega dos Kikitos na íntegra e confira também a lista completa de vencedores da edição deste ano:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Pacarrete
MELHOR DIREÇÃO: Allan Deberton (Pacarrete)
MELHOR ATRIZ: Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
MELHOR ATOR: Paulo Miklos (O Homem Cordial)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Carol Castro (Veneza) e Soia Lira (Pacarrete)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: João Miguel (Pacarrete)

MELHOR ROTEIRO: Allan Deberton, André Araújo, Natália Maia e Samuel Brasileiro (Pacarrete)
MELHOR FOTOGRAFIA: Edu Rabin (Raia 4)
MELHOR MONTAGEM: Joana Collier e Fernanda Krumel (Hebe – A Estrela do Brasil)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Sascha Kratzer (O Homem Cordial)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Tulé Peake (Veneza)
MELHOR DESENHO DE SOM: Rodrigo Ferrante e Cauê Custódio (Pacarrete)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: 30 Anos Blues
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Raia 4
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Pacarrete
MELHOR FILME (LONGA GAÚCHO): Raia 4

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
MELHOR FILME: El Despertar de Las Hormigas
MELHOR DIREÇÃO: Juan Cáceres (Perro Bomba)
MELHOR ATRIZ: Julieta Díaz (La Forma de Las Horas)

MELHOR ATOR: Fernando Arze (Muralla)
MELHOR ROTEIRO: Bernardo e Rafael Antonaccio (En el Pozo)
MELHOR FOTOGRAFIA: Rafael Antonaccio (En el Pozo)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: para as atrizes Isabella Moscoso e Avril Alpizar (El despertar de Las Hormigas), por suas excelentes atuações
MENÇÃO HONROSA: para a direção de arte de Dos Fridas
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): El Despertar de Las Hormigas
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Perro Bomba

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Apneia
MELHOR DIREÇÃO: Diogo Leite (Menino Pássaro)
MELHOR ATRIZ: Cássia Damasceno (A Mulher que Sou)

MELHOR ATOR: Rômulo Braga (Marie)
MELHOR ROTEIRO: Renata Diniz (O Véu de Armani)
MELHOR FOTOGRAFIA: Sebastian Cantillo (A Ética das Hienas)
MELHOR MONTAGEM: Daniel Sena e Thiago Foresti (Invasão Espacial)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Carlos Gomes (Teoria Sobre Um Planeta Estranho)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Guto BR (Sangro)
MELHOR DESENHO DE SOM: Gustavo Soesi (Um Tempo Só)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: para as atrizes Divina Valéria e Wallie Ruy (Marie), por nos permitirem vivenciar deslocamentos corporais inesperados e por imaginarem um futuro travesti no país que mais mata trans no mundo
MENÇÃO HONROSA: Ester Amanda Schafe (A Pedra), pela vigorosa interpretação e pelo talento promissor que revela
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Marie
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Teoria Sobre Um Planeta Estranho
PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL: Marie

47º Festival de Cinema de Gramado #8: o que esperar da premiação?

Equipe de Pacarrete na noite de estreia em Gramado: filme de Allan Deberton estrelado por Marcélia Cartaxo é o favorito para dominar a noite de premiação do Festival.

O Festival de Cinema de Gramado encerra hoje a sua 47ª edição. Após três perdas recentes (o apresentador Leonardo Machado e os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho), o evento serrano trouxe, em 2019, uma seleção menos instigante em comparação a outros anos. À parte a exibição fora de competição do aguardado Bacurau, o único ponto realmente alto da mostra competitiva foi Pacarrete, longa cearense dirigido por Allan Deberton que despertou uma comoção como poucas vezes vista no Palácio dos Festivais. Não só o prêmio de melhor atriz parece mais do que garantido para a veterana Marcélia Cartaxo como o filme em si, desde já uma pérola do cinema brasileiro, tem tudo para levar para casa uma grande quantidade de Kikitos.

O júri, na verdade, tem uma tarefa árdua: a de fazer a matemática inversa e pensar, na verdade, quais os prêmios não dar para Pacarrete. Isso porque os demais concorrentes não se equiparam ao título cearense, que é a experiência mais encantadora, completa e comovente da edição. É de se imaginar que a lista de vencedores guarde uma ou outra estatueta para O Homem Cordial, alguns prêmios técnicos para Hebe – A Estrela do Brasil e até alguma menção honrosa do júri como consolação para um dos concorrentes. De resto, sobram obras medianas para baixo, que dividiram opiniões na Serra Gaúcha ou que certamente seriam uma surpresa em qualquer categoria principal, como Veneza, Raia 4 ou Vou Nadar Até Você.

É importante, contudo, nunca subestimar o que pode acontecer em uma reunião de júri. Temos três decisões polêmicas na história recente de Gramado: Colegas, em 2012, tirando o prêmio de melhor filme de O Som ao Redor; A Estrada 47, em 2014, sendo consagrado o melhor longa de uma edição que premiou o belo A Despedida em direção, ator, atriz e fotografia; e 2018, quando Benzinho, o melhor filme pelo júri popular e da crítica, perdeu o Kikito para Ferrugem. Ainda assim, é um tanto inconcebível Gramado consagrar qualquer outra obra que não seja Pacarrete. Já entre os curtas-metragens brasileiros e os longas-metragens estrangeiros, a situação é mais aberta, ainda que se perceba, pelo menos nos curtas concorrentes, um forte protagonismo de temáticas sobre diversidade (Marie, que acompanha a história de uma transexual; Sangro, sobre um jovem lidando com a descoberta de HIV; e Menino Pássaro, ambientado em um condomínio paulista que fica em polvorosa com a chegada de um jovem morador de rua negro na calçada do prédio).

Rumo aos seus 50 anos, o Festival de Cinema de Gramado segue como a mais prestigiada tela do Brasil e como palco da estreia nacional de marcantes títulos brasileiros como Aquarius, Que Horas Ela Volta?, Benzinho, Como Nossos Pais, O Som Ao Redor e, agora, Bacurau. A mostra estrangeira, que um dia já premiou Pedro Almodóvar, Juan José Campanella, Norma Aleandro e Javier Bardem, certamente precisa ser revista, mas o Festival, que não teve uma sessão sequer sem protestos por parte dos realizadores contra o governo Bolsonaro, tem sempre aberto novas portas (em 2017, inaugurou o Gramado Film Market, programação inteiramente voltada à discussão do audiovisual como indústria e mercado), o que logo nos cria boas expectativas pelo que vem por aí com a aproximação da meia década de história do evento.

A premiação do 47º Festival de Cinema de Gramado acontece hoje (24), a partir das 21h, com transmissão pelo Canal Brasil e pela página oficial do evento no Facebook.

47º Festival de Cinema de Gramado #7: “Hebe – A Estrela do Brasil”, de Maurício Farias

Sem seguir o beabá tão comum das cinebiografias brasileiras, Hebe – A Estrela do Brasil faz seu registro da inesquecível apresentadora com dignidade e reverência.

Falecida em setembro de 2012, Hebe Camargo é considerada, ainda hoje, a grande rainha da televisão brasileira. Difícil imaginar uma apresentadora de brilho equivalente no Brasil e muito menos quem possa um dia ocupar esse título com tamanha mitologia. Nas diversas emissoras em que trabalhou, Hebe sempre preservou uma alegria e uma autenticidade que cativava tanto a plateia quanto os incontáveis entrevistados que recebia em seu famoso sofá. De figuras religiosas a transexuais, ela deu voz para diversas causas e pensamentos em plena rede nacional, cultivando uma legião de adoradores que hoje parece impossível ser alcançada no âmbito televisivo. Por essa e outras tantas razões, o desafio é imenso: afinal, de que maneira é possível fazer jus a uma figura como Hebe Camargo sem cair na vala tão comum de frágeis relatos que, presos à ânsia de abranger todos os momentos marcantes da vida de determinado biografado, renderiam, na verdade, ótimos documentários?

Pois Hebe – A Estrela do Brasil, que fez sua estreia nacional no 47º Festival de Cinema de Gramado, consegue escapar do formato hiper engessado de cinebiografias porque conta com Carolina Kotscho, talentosa roteirista que fez a diferença em outras duas cinebiografias brasileiras: 2 Filhos de Francisco e Flores Raras. O que esses dois títulos e Hebe têm em comum? Todos entendem que é contraprodutivo querer condensar a vida de uma icônica figura da vida real em meras duas horas, preferindo escolher um determinado recorte de tempo ou fases pontuais dos biografados. No caso de Hebe, acompanhamos a estrela durante a sua transição da TV Bandeirantes para o SBT, justamente quando ela, tão direta e aberta sobre assuntos considerados tabus à época, como a epidemia da AIDS, sente a censura bater em suas canelas. Já perto de seus 60 anos, a Hebe retratada pela roteirista também enfrenta turbulências na relação com o marido e na sua falta de comunicação com o filho adolescente.

Segundo Kotscho, a família e os fãs de Hebe disponibilizaram um acervo com mais de três mil matérias de revistas e jornais para a pesquisa do longa. Desse imenso arquivo, saem todas as falas oralizadas protagonista durante o filme, sem tirar nem pôr. O trabalho, entretanto, faz seus ajustes, o que é perfeitamente aceitável para uma obra de ficção (novamente, não estamos falando de um documentário), lógica que o diretor Maurício Farias transferiu inclusive para o plano da direção. A escalação de Andréa Beltrão é uma prova disso: ainda que devidamente caracterizada e maquiada como Hebe Camargo, a atriz pouco dedica sua atuação a imitações, tiques e trejeitos. Beltrão está preocupada em buscar a energia e a desenvoltura desse ícone televisivo com o talento e as habilidades que, todos nós sabemos, ela tem de sobra. E o resultado é ótimo justamente por priorizar o interior da personagem e não a reprodução de gestos, visuais ou movimentos. 

Ganhando nova dimensão em tempos onde a voz da imprensa é questionada, a liberdade de expressão passa a ser perigosamente ameaçada e pessoas voltam a ser condenadas por ser quem são, Hebe registra a relação da biografada com o público, e não o inverso: tudo o que se vê da apresentadora durante os programas é a partir dos bastidores, inclusive momentos emblemáticos como o de Dercy Gonçalves mostrando os seios ao vivo em rede nacional. É outra decisão bacana porque exime o filme de ter que emular milimetricamente as cenas como elas estão gravadas na memória do público. A perspectiva, afinal, é a de Hebe Camargo, não dos espectadores. Ainda que imperfeito, o filme lida bem com elementos que poderiam ser apenas um fan service, a exemplo da rapidíssima aparição de Nair Bello e Lolita Rodrigues, que diz muito sobre a cumplicidade e a espontaneidade que a protagonista tinha com suas amigas. Aliás, vai além: ao ignorar o beabá das cinebiografias, Hebe até cativa com a sua protagonista-furacão, principalmente nessa fase retratada onde a apresentadora, antes uma mulher ligada à ideia da TV como veículo restrito ao entretenimento, enfim compreende o poder do microfone que tem em mãos.