Cinema e Argumento

“Parasita”: fascinante mistura de gêneros ilustra questões sociais marcantes dos nossos tempos

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho e Han Jin Won

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Ji-so Jung, Ji-hye Lee, JaeWook Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park, Keun-rok Park

Gisaengchung, Coréia do Sul, 2019, Drama/Comédia/Suspense, 132 minutos

Sinopse: Toda a família de Ki-taek está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos. (Adoro Cinema)

A possibilidade de viajar o mundo é um dos maiores fascínios proporcionados pelos filmes que assistimos. Navegando por obras de diversas nacionalidades, podemos desbravar novas culturas, conhecer diferentes linguagens e descobrir a maneira como cada lugar registra, através do cinema, a sua própria existência. Tão maravilhoso quanto isso é perceber como, uma vez que outra, apesar dos idiomas, dos quilômetros e das vivências que nos separam, compartilhamos muitas coisas, até mesmo angústias e conflitos. Nesse sentido, poucas ferramentas conseguem ser tão poderosas quanto a sétima arte, algo que é possível constatar em uma involuntária quadrilogia de filmes recentes que, em língua não-inglesa, evidencia problemas equivalentes em diversos cantos do mundo, como as brutais diferenças entre classes, a reivindicação por algum tipo de humanidade e as dores dos desassistidos pela vida, pela sociedade e pelos governantes.

Vem do Brasil, aliás, um dos exemplares dessa quadrilogia tão representativa: Bacurau, que levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes e versa sobre uma cidade nordestina diante da ameaça de sumir do mapa. Antes disso, o Japão e o Líbano nos entregaram, respectivamente, Assunto de Família e Cafarnaum, dois longas que, entre a delicadeza e a visceralidade, lançaram luz sobre a duríssima jornada de pessoas sem perspectivas de vida. E, agora, chegamos ao impactante Parasita, da Coreia do Sul, que ganhou a Palma de Ouro do último Festival de Cannes em uma escolha unânime do júri presidido pelo cineasta Alejandro González-Iñárritu. Acumulando elogios por onde passa, tornando-se, inclusive, um grande sucesso de público nos Estados Unidos, onde obras de língua não-inglesa raramente performam com certa popularidade, Parasita ostenta um consenso justíssimo ao observar as disparidades no convívio entre famílias de classes distintas, saltando de um gênero a outro com maestria e elevando a já reconhecida carreira de Bong Joon-Ho (Mother, O Hospedeiro, Okja, Expresso do Amanhã) a um novo (e emblemático) patamar de excelência.

São claras e inteligentes as fronteiras de gênero entrelaçadas por Parasita. Desconhecendo a trama, é possível supor que, a partir do primeiro terço, trata-se de uma curiosa e instigante comédia. Passada a apresentação dos personagens e a conclusão do conflito inicial, Bong Joon-ho, que assina o roteiro ao lado de Han Jin Won, leva o espectador para um eufórico suspense de becos aparentemente sem saída. Por fim, o ciclo se completa com um peso dramático que ressignifica a comédia e o suspense trabalhados até ali. O caldeirão de gêneros apresentado em Parasita funciona porque Bong Joon-ho, claro, é um expert nessa mistura (para quem ainda não conferiu qualquer outro filme assinado por ele, vale a busca para constatar tal talento), e o diretor se esbalda em cada abordagem: a comédia é esperta e apropriada para a fase introdutória do filme, o suspense não é nada óbvio e consegue promover uma grande virada na trama, e o drama amarra todas as pontas com um misto de delicadeza e profundidade. Tudo sem fazer com que Parasita pareça ter vários filmes dentro de um.

A matéria-prima para qualquer um dos gêneros trabalhados por Bon Joon-ho é, sem dúvida, a contemporânea sequência de reflexões sociais que atravessa o filme do início ao fim. Interpretando a família pobre como animais que precisam se esconder ou ser exterminados (a casa sendo dedetizada logo no início, a família embaixo da mesa da sala, a forma como a mãe fala que todos devem se esconder como baratas quando a família rica chegar), Parasita ilustra contrastes sociais com um roteiro impecável. Toda ação tem uma consequência, cada detalhe ganha um significado posterior e até mesmo algumas das revelações da trama são plantadas muito discretamente entre um diálogo e outro, sem que o espectador perceba. E não é pouca coisa, uma vez que temos quase uma dezena de personagens interagindo em um mesmo ambiente, o que gera um considerável número de dinâmicas diferentes.

A imensa casa onde a ação do longa se desdobra é também um personagem à parte. Tanto o casarão pode representar a ascensão financeira e social que uma família pobre tanto almeja quanto pode ser desprovida de qualquer idealização material para se tornar o secreto reduto de uma dolorosa distância familiar. Bong Joon-ho distribui acontecimentos e personagens por uma quantidade infinita quantidade de cômodos com um elegante trabalho de mise-en-scène que define praticamente toda a ação do filme, assim como o comportamento e as decisões tomadas pelos personagens (vale também registrar, claro, o excepcional trabalho de elenco, onde há unidade e destaques pontuais). Com cada elemento orquestrado no devido esmero, Parasita agrega as mais distintas plateias, tornando-se grandioso no detalhe, e hiper relevante em tudo aquilo que, assim como tantos outros filmes recentes, acaba registrando sobre cicatrizes sociais e universais.

“A Vida Invisível”: refinado melodrama de Karim Aïnouz traz uma perspectiva íntima e feminina para a labiríntica jornada de duas irmãs

Você não sabe a falta que você me faz…

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, baseado no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Maria Manoella, António Fonseca, Nikolas Antunes, Fernanda Montenegro, Gillray Coutinho, Cristina Pereira, Bárbara Santos

Brasil/Alemanha, 2019, Drama, 139 minutos

Sinopse: Rio de Janeiro, década de 1940. Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida. Guida (Julia Stockler) é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier). (Adoro Cinema)

Em vários materiais promocionais, A Vida Invisível se define como “um melodrama tropical de Karim Aïnouz”. É sensacional que a obra se (re)conheça de tal maneira e que já deixe muito claro para o espectador qual a tônica trabalhada na tela, pois os conflitos são desfiados a partir de situações muito clássicas, quase novelescas, o que pode ser interpretado de maneira pejorativa porque quem prima pela criatividade e não vê beleza na simplicidade. Criar um melodrama consistente e de elementos refinados é um trabalho dificílimo que o cineasta Karim Aïnouz, munido de toda a experiência acumulada em projetos como Madame Satã, O Céu de Suely e Praia do Futuro, domina com destreza. Através dessa perspectiva, A Vida Invisível se apresenta como uma obra delicada e universal que, marcada pela passagem do tempo, conduz o espectador a um labirinto de desencontros entre duas irmãs no Rio de Janeiro dos anos 1940.

Grande vencedor da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2019, o longa tem como núcleo dramático a relação entre personagens de personalidades muito distintas. Eurídice (Carol Duarte) é uma aspirante a pianista que, retraída, segue as regras da família e das tradições da época, tentando encontrar algum propósito de vida em meio a tantas repressões. Já Guida (Julia Stockler), a irmã mais velha, busca a autorrealização fazendo o que quer, mesmo que isso lhe custe a relação com a família e especialmente com o pai, um padeiro português que comanda as mulheres de sua vida (incluindo a esposa) com as doses de machismo e autoritarismo tão comuns à época. De tudo isso, A Vida Invisível poderia extrair uma linguagem televisiva e previsível, mas o roteiro escrito por Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, com base no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, deixa de lado a afetação para buscar a sutileza. 

Um exemplo desse acerto é o emocionante ponto de equilíbrio que o filme encontra ao lidar com a questão da passagem do tempo. Narrando paralelamente a vida das duas irmãs, a história envolve o espectador com reflexões inerentes a todos nós, como as relações que não remendamos, as palavras que não dizemos, as oportunidades que nos são tiradas, os erros que não consertamos e como, inevitavelmente, o tempo passa e acaba nos cobrando tudo isso. Karim, que sempre foi um diretor de relatos difíceis, talvez pela primeira vez se veja na posição de encontrar o belo em personagens e situações mais “comuns”. E o faz inspirado pela delicadeza: com duas excelentes protagonistas em cena e um Rio de Janeiro que está longe de flertar com sua versão cartão-postal, o diretor promove uma viagem muito íntima, feminina e familiar rumo a sentimentos e circunstâncias que não são extraordinários, mas que são palpáveis a todo ser humano.

A odisseia intimista de A Vida Invisível ganha brilho extra ao abordar tão bem o universo feminino e ao questionar as condições da mulher na sociedade. Tanto Eurídice quanto Guida buscam o domínio de seus próprios destinos ou pelo menos de alguma parcela daquilo que pode trazer alguma felicidade, mesmo enfrentando figuras masculinas que, no filme, são propositalmente caricatas — e a comédia é sempre uma excelente ferramenta para tecer críticas ou ridicularizar determinadas leituras, como acontece com o patético marido de Eurídice, vivido por Gregório Duvivier. Como um retrato específico, mas também muito amplo das angústias femininas, A Vida Invisível é um refinado melodrama que faz bonito com as mais simples ferramentas do cinema, e ainda nos brinda com uma comovente participação de Fernanda Montenegro, que, como sempre, preenche a tela apenas com um gesto ou olhar. Não há como duvidar: apesar das adversidades, a nossa produção audiovisual tem realmente vivido tempos preciosos.

Três atores, três filmes… com Ticiano Osório

Atual editor dos cadernos DOC, Vida e Viagem do jornal Zero Hora de Porto Alegre, Ticiano Osório é um colega jornalista cujo trabalho venho acompanhando há alguns anos. Por falar nisso, ainda tenho guardados recortes de jornais com críticas que li logo quando descobri a minha cinefilia — e, entre elas, está uma de Ticiano para Em Busca da Terra do Nunca, publicada na estreia do filme no Brasil. Lembro, no entanto, que nosso primeiro contato foi, de fato, em 2011, quando ele, então integrante do Segundo Caderno no mesmo jornal, esteve na equipe que, através de um concurso cultural, me deu a honra de representar a publicação no júri popular do Festival de Cinema de Gramado. Logo em seguida, viramos colegas de Jornalismo. Além das vezes que nos comunicamos profissionalmente (eu como assessor de imprensa, ele na redação de ZH), tive a oportunidade de entrevistá-lo na rádio Mínima, conjugando duas de suas paixões: cinema e quadrinhos. Ao longo dos anos e dessas experiências, tornei-me um grande admirador do Ticiano e de sua sensibilidade e inteligência como crítico de cinema (vejam vocês próprios na coluna que hoje ele assina na Zero Hora). Por isso é uma imensa satisfação recebê-lo aqui na coluna, onde ele nos traz uma proposta inédita: a de homenagear três atores que seguem nos deixando muitas saudades. E que atores! Valeu, Ticiano!

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Decidi homenagear nesta seção três atores que morreram antes da hora — se é que existe hora para morrer. Mas as três mortes foram inesperadas, embora, em retrospecto, tivessem sido anunciadas. Os três partiram por conta própria, assombrados por fantasmas particulares, ainda que alguns fossem públicos e comuns a outras tantas pessoas, famosas ou não, talentosas ou não. Um era jovem, tinha uma imensa carreira pela frente. O outro não tinha nem 50 anos. E o terceiro, sessentão, já tinha um passado inteiro pelo qual se orgulhar. Os três deixaram atuações memoráveis e uma saudade tremenda.

Heath Ledger (1979-2008)
Quem viu o australiano como o rebelde com alma de 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999) sentiu que estava diante de uma energia diferente. Dali em diante, Heath Ledger galvanizaria a atenção sempre que surgisse em cena, fosse qual fosse o gênero e a despeito da qualidade do filme: do controverso O Patriota a Batman: O Cavaleiro das Trevas, que lhe valeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante, do polêmico A Última Ceia a Candy, um título subestimado e certamente pouco visto. Aliás, agora me dei conta de como a tragédia e a autodestruição estavam sempre presentes nos papéis de Ledger, que morreu com apenas 28 anos. Difícil escolher um só desempenho, mas, para cumprir o pedido, fico com o de O Segredo de Brokeback Mountain, pelo qual concorreu ao Oscar de melhor ator. Seu Ennis del Mar é um personagem inesquecível, um trabalhador rural que engole suas palavras para tentar engolir junto seus sentimentos em relação ao caubói de rodeio Jack Twist. Ennis é um homem que se esconde dos outros e de si mesmo, mas, quando enfim está sozinho, permite-se um gesto delicado e doído como aquele afago na jaqueta jeans que Jack costumava usar. Arrepiante.

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)
Você lembra dele em Perfume de Mulher (1992)? Eu lembro. Era uma ponta, como um personagem desprezível, mas de alguma forma cativante. Philip Seymour Hoffman encarnaria outros desses tipos, pessoas que nos provocavam asco ou pena, que transitavam entre o grotesco e o ridículo, em filmes poderosos como Boogie Nights, Felicidade, Magnólia, O Talentoso Ripley e A Família Savage. Acho que nunca fez um mocinho, e encarnou vilões em seus raros blockbusters — Missão: Impossível 3 e os dois últimos segmentos da franquia Jogos Vorazes (morreu antes de filmar suas últimas cenas, aos 46 anos). Concorreu ao Oscar de coadjuvante três vezes, por Jogos do Poder, Dúvida e O Mestre, e ganhou a estatueta de melhor ator por Capote. Mas o papel que escolhi é o de Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, porque este filme é uma dessas pequenas joias que talvez não tenham o amplo reconhecimento merecido. O ator interpreta Andy, que convence o irmão, Hank (Ethan Hawke), a assaltar a joalheria do pai, Charles (Albert Finney), o que seria a solução de seus problemas financeiros e também a oportunidade de um acerto de contas afetivo com o velho. Neste filme engenhoso, com narrativa elíptica, Hoffman tem uma atuação magnífica como um sujeito que é um poço de inadequação e ressentimento, insegurança e ilusão.

Robin Williams (1951-2014)
Todo mundo tem seu Robin Williams favorito, embora não falte gente que torça o nariz para o ator morto aos 63 anos. Culpa, provavelmente, do seu jeitão histriônico, característica que o talhou para estrelar comédias como a deliciosa Uma Babá Quase Perfeita e emprestar sua voz a animações — seu Gênio da Lâmpada em Aladdin inclusive rendeu um Globo de Ouro especial. Mas muitos diretores perceberam que havia uma carga dramática muito interessante — não à toa, disputou o Oscar de melhor ator por Bom Dia, Vietnã, A Sociedade dos Poetas Mortos e O Pescador de Ilusões, e sua única estatueta, a de coadjuvante, veio por Gênio Indomável. Williams fez vários outros dramas pelos quais eu tenho carinho, como Tempo de Despertar e Amor Além da Vida, mas quero destacar um suspense em que ele esteve do outro lado do bem e especialmente contido — não, não é Insônia. Trata-se de Retratos de uma Obsessão, em que ele encarna Seymour Parrish, funcionário cinquentão do quiosque de revelações instantâneas de uma grande loja de departamentos. Solitário e opaco, o homem elege uma família feliz para ser a “sua”: faz uma cópia a mais de cada foto, para alimentar sua fantasia. Na pele de vilão, Williams derrubou o preconceito de que era vítima: a quem só o via como bufão e bonzinho, revelou uma faceta minimalista e macambúzia. Sem apelar para a histeria, perturbou.

“Years and Years”: minissérie imagina as ramificações de um futuro assombroso que está mais próximo do que gostaríamos de constatar

Uma coprodução entre a HBO e a BBC, a minissérie Years and Years parte da vida íntima de uma família britânica para falar sobre um futuro assustador que já está entre nós.

Uma das grandes produções de 2019 que o público ainda precisa descobrir, a minissérie Years and Years atravessa um período de 15 anos na vida da família Lyons, adotando como pano de fundo transformações políticas e sociais que, frente ao que estamos vivendo hoje, já não soam mais improváveis ou absurdas, como uma possível reeleição de Donald Trump ou a evolução assustadora de um trans-humanismo que transfere a nossa consciência para códigos armazenados em uma nuvem digital. Todavia, a grande sacada dessa coprodução entre a HBO e a BBC é a de colar as suas duas perspectivas — a intimidade dos Lyons e as notícias que movimentam o mundo — com uma proximidade quase perturbadora. Isso faz com que o espectador frequentemente se coloque no lugar dos personagens, evidenciando um tipo de empatia que costuma definir o nosso fascínio pelo audiovisual.

Não há jeito: quer você goste ou não de política, ela define as nossas vidas, e tudo o que acontece lá fora nos afeta diretamente. É essa a tônica de Years and Years, que, durante seis episódios, faz seus personagens sentirem as consequências de um mundo descontrolado e que aplaude políticos medíocres e despreparados, a exemplo da fictícia Vivienne Rook, vivida à perfeição por Emma Thomspon em um papel de aparições mínimas, mas emblemáticas para o desencadeamento da trama. Ela representa tudo aquilo que passamos a sentir na pele: a ascensão do ultraconservadorismo, a irresponsabilidade de discursos desinformados, o incentivo a ideias retrógradas e a priorização de pautas tolas em detrimento das reais necessidades do povo. Vivienne acha, entre outras opiniões estapafúrdias, que todo cidadão britânico precisa passar por um teste de QI para poder votar, uma vez que nem todos seriam devidamente qualificados para opinar sobre o destino de sua própria nação.

Inicialmente uma figurante que é apenas motivo de piada e incredulidade por dizer tantos absurdos em rede nacional, Vivienne logo ganha amplitude junto ao povo britânico com a bandeira de que, ao contrário dos outros políticos, ela dá voz (com direito a palavrões, inclusive) a tudo aquilo que uma parcela da população dita reprimida pelo politicamente correto deseja secretamente dizer. Sua sorrateira evolução passa a trazer incontáveis consequências para vida dos Lyons: paixões serão afetadas por uma avassaladora crise nas políticas migratórias e poupanças se desestabilizarão graças a um repentino colapso financeiro dos bancos, além de outros tantos acontecimentos imprevisíveis que não devem ser listados para não corrermos o risco de revelar algum spoiler.

Emma Thomspon e os pronunciamentos estapafúrdios de Vivienne Rook: mesmo com papel mínimo, atriz rouba a cena toda vez que aparece, influenciando a vida de todos os demais personagens.

Partindo do íntimo de uma família para ilustrar angústias compartilhadas de maneira universal, Years and Years domina o passar do tempo com uma maestria fascinante. São tão hipnóticas quanto angustiantes as caóticas sequências em que, através de telejornais e da própria percepção dos personagens, testemunhamos com absoluta clareza os momentos que, dentro da trama, serão responsáveis por alterar drasticamente os rumos do Reino Unido e da família Lyons. Cada salto temporal é inesperado (e pontuado com grandiosidade pela marcante trilha sonora de Murray Gold), acelerando a trama com novos recortes que garantem um ótimo fluxo de ritmo para o programa e um instigante clima de instabilidade para os personagens.

Aliás, tratando-se deles, a minissérie trabalha um punhado considerável de vidas com notável equilíbrio. Claro que temos figuras mais interessantes do que outras (a matriarca sem papas na língua interpretada por Anne Reid) e outros que são menos empáticos do que o roteiro supõe, a exemplo do Stephen Lyons de Rory Kinnear. Ainda assim, o programa aproxima o espectador de todos eles, munido de uma importante representatividade: gays, negros e pessoas com deficiência são, ao menos dentro da família, tratados em pé de igualdade, sem que sua dramaticidade se resuma a conflitos de raça ou sexualidade. Ao torná-los como próximos de quem os assiste, Years and Years acaba, inevitavelmente, comovendo com euforia ou pesar, dependendo dos vislumbres de esperança (que, sim, existem) ou desalentos.

Nos 15 anos contemplados pelo programa, o criador Russel T. Davies (Doctor Who, A Very English Scandal) também lança uma interessante (e necessária) provocação: a de fazer o público refletir sobre a sua parcela de responsabilidade perante tudo que aí está. A reflexão vem em um corriqueiro jantar de família, onde determinada figura levanta a ideia de que todos que sentam à mesa são coautores da loucura que acontece no mundo. Ora, ao nos acostumarmos com a tecnologia substituindo processos humanos ou a nos limitarmos a postar textões nas redes sociais ao invés de tomar alguma iniciativa de fato efetiva diante do que nos incomoda, passamos a ser coniventes com o caos. Convocando para a ação ao invés de simplesmente encenar um futuro problemático e sem perspectivas, Years and Years, portanto, ainda se torna grande por re(tomar) consciência do papel da arte como uma importante ferramenta de reflexão e transformação. Na companhia de programas como esse, talvez o futuro possa parecer menos aterrorizante.

Rapidamente: “Ad Astra”, “El Camino”, “Era Uma Vez em… Hollywood” e “A Lavanderia”

Meryl Streep em A Lavanderia: novo filme de Steven Soderbergh replica o espírito e as fórmulas de A Grande Aposta e Vice, títulos recentes assinados pelo diretor Adam McKay.

AD ASTRA: RUMO ÀS ESTRELAS (Ad Astra, 2019, de James Gray): É recomendável dar uma pesquisada na filmografia de James Gray (Os Donos da Noite, Amantes, Era Uma Vez em Nova York) antes de embarcar em Ad Astra: Rumo às Estrelas. A partir dela, já é possível concluir que essa nova ficção científica estrelada por Brad Pitt não seguirá formatos óbvios e muito menos uma cartilha comercial do gênero. E é isso mesmo o que acontece: contemplativo, Ad Astra é uma experiência sensorial mais preocupada na viagem interior de um homem designado a ir atrás do próprio pai em outro planeta do que nas curiosidades ou nas possíveis adrenalinas envolvendo uma saga no espaço sideral. Munido da belíssima trilha de Max Richter e da excelente fotografia de Hoyte Van Hoytema, James Gray conduz o filme em baixa fervura e com com um toque íntimo que, especialmente no terço final da história, confere uma delicada potência emotiva à jornada do protagonista. Sendo assim, por mais que tenha uma interrogação central, o roteiro de Ad Astra não tem como objetivo desencadear um suspense ou explorar os mistérios do universo. Sua vocação é investigar os meandros de uma relação paterna mal resolvida e lacunar, algo definitivamente alinhado à identidade de Gray como realizador. Não é o tipo de filme que conquistará multidões, mas, como um ponto fora da curva em um gênero amplamente explorado nos últimos anos, Ad Astra alcança o sempre bem-vindo efeito de reverberar além da sessão.

EL CAMINO: A BREAKING BAD MOVIE (idem, 2019, de Vince Gilligan): Há de se compreender a imensa vontade do público em querer voltar ao universo da premiada série Breaking Bad. Contudo, El Camino, o filme dirigido por Vince Gilligan que avança um tantinho na história do programa, jamais se justifica — e pior: sequer está entre os momentos inspirados do seriado, que teve seu último episódio exibido em setembro de 2013. Em linhas gerais, o filme é apenas a encenação de uma nova via crucis para Jesse Pinkman, o trágico personagem vivido sempre com muita garra por Aaron Paul. Vá lá, muitos reencontros são bem-vindos, e há uma infinidade de referências nostálgicas a elementos e outros personagens da série. Entretanto, como extensão ou complemento ao universo de Breaking Bad, El Camino é uma decepção sem fim: além de ter um roteiro repleto de furos (é inadmissível que Jesse, perseguido nacionalmente pela polícia, hospede-se na casa de amigos traficantes já investigados um punhado de vezes sem que ninguém o procure lá), El Camino não tem clima ou muito menos menos uma trama que acrescente camadas desconhecidas de Jesse Pinkman. Nem como entretenimento funciona: repetitivo, o longa é uma sucessão de cenas de tensão que seguem a mesmíssima fórmula, apontando para uma falta de inspiração e cuidado que jamais poderíamos prever em um roteiro de Vince Gilligan. Apesar da nova investida, o desfecho que seguirá forte na memória é, sem dúvida alguma, o que vimos lá em 2013 no episódio Felina, e não El Camino, que tem tudo para não resistir ao tempo.

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019, de Quentin Tarantino): Mais um trabalho de excessos assinado por Quentin Tarantino, Era Uma Vez em… Hollywood reforça a falta de objetividade que tem acometido o diretor nos últimos anos. Assim como em Os Oito Odiados, ele leva cerca de três horas para contar uma história que poderia durar muito menos. É clara a dedicação em criar uma atmosfera mais calorosa e nostálgica, mas a marcha é tão lenta que não consegue levar o espectador para muito além das homenagens afetuosas ao cinema que o diretor presta com tanta propriedade aqui (e que podem tanto deliciar os apaixonados por cinema quanto entediar as plateias mais populares que acompanham a filmografia de Tarantino). No sentido de não fazer muita coisa com o imenso tempo que toma do espectador, a mais prejudicada é Margot Robbie, resumida a irradiar tela com sua beleza bem fotografada (ela não dispõe de texto suficiente ou outras munições para expandir sua personagem). Entre ecos de outros filmes de cineasta (a reimaginação de acontecimentos reais como em Bastardos Inglórios) e o tradicional clímax sanguinolento, macarrônico e de tom elevado, Era Uma Vez em… Hollywood tem em Leonardo DiCaprio e Brad Pitt as suas melhores qualidades. Inspirados e assertivos nas facetas de papéis muito diferentes, eles são o sopro de energia em um longa maçante, excessivo e por vezes interminável. A conclusão segue a mesma: um pouco de objetividade só faria bem a esse icônico cineasta que hoje está viciado em inchaços narrativos.

A LAVANDERIA (The Laundromat, 2019, de Steven Soderbergh): É inevitável tecer comparações entre A Lavanderia e o estilo que o diretor Adam McKay passou a adotar nos últimos anos em títulos como A Grande Aposta e Vice. Novamente, temos um tema super complicado (para não dizer desinteressante) tratado com um tom cômico, crítico e com certas opções narrativas cujo objetivo é facilitar o entendimento da trama para o espectador mais leigo. O prolífero Steven Soderbergh, que já chegou a vencer um Oscar de melhor direção por Traffic, aborda, dessa vez, os desdobramentos do Panama Papers, um dos maiores escândalos de vazamento de dados da história, quando milhões de documentos revelaram um amplo esquema de ocultamento de fortunas e lavagem de dinheiro em diversos paraísos fiscais ao redor do mundo. Para tanto, ele opta se apoiar descaradamente na fórmula de A Grande Aposta e Vice, entregando uma experiência requentada, quase sem personalidade, onde nem mesmo o elenco de luxo encabeçado por Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Banderas consegue trazer certo frescor. Isso é um tanto inaceitável mesmo quando lembramos de Soderbergh em seus momentos menos interessantes, já que ele sempre errou experimentando e não copiando. Há uma crítica contundente e importante na cena final, protagonizada por Meryl Streep em seu melhor momento no filme, mas é pouco para uma obra que, ao contrário dos trabalhos que tenta emular, não cria uma ponte efetiva entre o espectador e a difícil trama que tenta traduzir de forma irreverente.