Cinema e Argumento

Melhores de 2016 – Design de Produção

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Uma das melhores decisões de Animais Fantásticos e Onde Habitam é criar uma personalidade própria ao invés de ser apenas uma extensão de Harry Potter. E quando falamos sobre personalidade própria, isso também se estende a toda técnica do filme, que, ao transportar sua história do Reino Unido para os Estados Unidos, já ganha uma nova roupagem. Mas Animais Fantásticos é mais ambicioso do que somente a ideia de trocar de país. Unindo a experiência de Stuart Craig no mundo bruxo (ele participou de todos os filmes de Harry Potter) com a competência de James Hambridge em aventuras contemporâneas (ele se junto ao time com Batman: O Cavaleiro das Trevas007 – Cassino Royale entre outros grandes trabalhos na bagagem), o design de produção de Animais Fantásticos consegue fazer uma mistura perfeita entre a magia dos bruxos e a normalidade dos trouxas (aos que não sabem: esse é o termo usado para definir quem não faz parte do mundo mágico). Por ambientar boa parte de sua história na vida dos que não desfrutam de feitiços, o longa precisa registrar uma época com fidelidade (a história se passa nos anos 1920), e o faz com grande frescor, além de mesclar tudo isso com a inventividade não menos impressiva de um realidade paralela repleta de cenários transformados pela magia e pela imaginação. Ainda disputavam a categoriaAve, César!A BruxaCarol e O Roubo da Taça.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 Expresso do Amanhã | 2014 O Grande Hotel Budapeste | 2013 Anna Karenina | 2012 A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet 2007 – Maria Antonieta

La La Land: Cantando Estações

Here’s to the ones who dream.

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Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Damien Chazelle

Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Finn Wittrock, Callie Hernandez, Jessica Rothe, Sonoya Mizuno, Jason Fuchs, Damon Gupton

La La Land, EUA, 2016, Musical/Romance, 128 minutos

Sinopse: Ao chegar em Los Angeles o pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) conhece a atriz iniciante Mia (Emma Stone) e os dois se apaixonam perdidamente. Em busca de oportunidades para suas carreiras na competitiva cidade, os jovens tentam fazer o relacionamento amoroso dar certo enquanto perseguem fama e sucesso. (Adoro Cinema)

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Foi em setembro de 2014 que uma querida ex-professora do meu ensino fundamental conseguiu colocar em palavras algo que considero fundamental – e, muitas vezes, até pouco praticado, dependendo de quem está no lado de cá da tela – sobre o ato de ir ao cinema. Ela, que tanto me ensinou sobre História, participou da coluna Três atores, três filmes aqui do blog e falou sobre uma trilogia de desempenhos de uma única atriz: a grande Meryl Streep. Dois deles seriam os escolhidos por boa parte do público: A Escolha de SofiaAs Pontes de Madison. Já outro causa ligeira surpresa: Mamma Mia!. Mas os argumentos usados pela Raquel Cirne não só embasam muito bem sua escolha pelo musical de Phyllida Lloyd como também nos trazem ao que La La Land: Cantando Estações agora proporciona mundo afora. “Para ter valor, nem sempre um filme precisa ser questionador, enigmático ou difícil de entender. Também ter que ter música luminosa, leveza, beleza, como aquela linda celebração do casamento com velas penduradas nas árvores… Cinema é magia, e deve ter a função de inspirar, de estimular os sonhos, de colorir a vida”, escreveu. E, realmente, não há descrição mais certeira do que essa para explicar a qual estado de espírito o musical de Damien Chazelle nos leva durante pouco mais de duas horas de projeção.

Não surgem no vácuo a criatividade e a paixão pelo cinema que Chazelle imprime em seu La La Land. Basta retroceder até 2014, mais especificamente aos últimos dez minutos de Whiplash: Em Busca da Perfeição, para lembrar que, desde lá, o diretor não estava de brincadeira. Seria pelo momento final do filme estrelado por Miles Teller e J.K. Simmons armar uma hipnotizante sequência movida a jazz? De certa forma, pois a música é novamente um dos pilares do novo trabalho do diretor. Entretanto, o que impressionava mesmo era como Chazelle orquestrava aquele grand finale: a montagem era habilidosa ao acompanhar os incessantes movimentos dos instrumentos musicais, o som aguçava ainda mais os nossos ouvidos para a grandiosidade da apresentação, os atores passavam por transformações sem praticamente dizer uma palavra sequer e o diretor, entre tantos outros elementos, costurava tudo como se já tivesse uma larga experiência atrás das câmeras, quando, na verdade, Whiplash era apenas o seu segundo longa-metragem aos 29 anos de idade. Se fizermos uma ponte entre os minutos finais daquele filme aos primeiros de La La Land, a lógica de chegar aos sentidos segue a mesma (e isso não é algo ruim): em um (aparente) plano sequência, esse novo musical une coreografia, música, cor, dança, humor, graça e nostalgia com grande vitalidade, deixando muito claro e sem cerimônias que essa é uma experiência sobre sonhos e leveza.

Tratando-se de um longa que se presta a fazer uma homenagem aos musicais, faz total sentido que o número de abertura já jogue o espectador na alegoria porque os títulos do gênero costumam jogar o espectador no centro da musicalidade logo no início. É assim nos clássicos como A Noviça Rebelde (Julie Andrews correndo nas montanhas com “The Sound of Music”) ou em obras mais recentes como o singelo Hairspray – Em Busca da Fama (Nikki Blonsky cantando “Good Morning Baltimore” nas ruas com a maior felicidade do mundo), mas o importante é que isso ilumina o extenso conhecimento que o diretor de La La Land tem acerca dos musicais, inclusive trazendo para sua narrativa referências assumidas como o cinema de Jacques Demy em Os Guarda-Chuvas do Amor e outras pequenas brincadeiras que (nem tão) discretamente nos remetem, por exemplo, a um certo Gene Kelly se apoiando em um poste para cantar “Singin’ in the Rain”. Contudo, curiosamente La La Land é um filme com menos músicas do que o esperado. Isso é um problema? De forma alguma. Primeiro porque o filme também quer encenar um romance à moda antiga (e, para isso, a música não é obrigatória) e segundo porque Chazelle não se restringe a ela para homenagear o gênero – e é fácil perceber a eficiência de demais aspectos que abrangem desde uma ótima trilha instrumental composta por Justin Hurwitz a outras características emblemáticas dos musicais, entre elas, um irresistível número de sapateado. Com ou sem música, La La Land é sempre um deleite.

Homenagens surgem de tempos em tempos, mas o que diferencia La La Land de O Artista, por exemplo, é que o primeiro tem a esperteza de homenagear o clássico no plano contemporâneo, enquanto o segundo, esse sim, era apenas a “mera” homenagem que os contrários ao filme de Damien Chazelle tanto apontam (e desde quando uma obra se prestar a fazer “apenas” um tributo é um problema decisivo?). Capturando a vida de quem tem dificuldades em se tornar artista mesmo quando o mundo está todo na tela de um iPhone, La La Land flerta com o passado, mas se estabelece no presente ao criar coreografias nos famosos engarrafamentos de Los Angeles inclusive com street dance e ao abarcar a contemporaneidade em todos os detalhes da parte técnica, com destaque para o mágico design de produção e para os coloridos figurinos, ambos bem sucedidos ao mesclar a delicadeza da nostalgia com o frescor dos novos tempos. Através da atmosfera, Chazelle leva o espectador por uma viagem sensorial e cativante. E quando cito atmosfera é para justificar a ideia de que o roteiro de La La Land, apesar de estar um pouco acima da média dos roteiros de musicais, não é um aspecto grandioso do conjunto. Toda graça e emoção vem do trabalho de direção que, com o bom uso das ferramentas cinematográficas, torna encantador até mesmo aquele primeiro beijo que nunca acontece porque o celular toca ou porque a luz se apaga na hora errada. 

Essencialmente concentrado em apenas dois personagens, o musical cresce ao entregar grandes responsabilidades a Emma Stone, que está no auge de uma carreira prolífera e que vem ganhando mais espaço nos últimos tempos (até indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante ela teve por Birdman!). É o segundo musical da atriz, que ganhou o papel em La La Land justamente porque o diretor a viu nos palcos da Broadway com Cabaret. Ela está encantadora como sempre e, agora, reveladora na técnica, com direto até a um número solo onde condensa talento vocal e emoção genuína (“Audition (The Fools Who Dream)”). Emma é, sem dúvida alguma, o tipo de estrela que La La Land precisava. Enquanto isso, Gosling, que andava um pouco econômico em projetos nos últimos anos depois de dramas como Half NelsonA Garota IdealNamorados Para Sempre, surge menos radiante que a colega, mas em momento algum deixa escapar o carisma. O romance entre os dois é especial a partir dos contornos dados por um diretor que reconhece o valor dos sonhos e que, mesmo compreendendo que muitas vezes é necessário abrir mão de alguns em detrimento de outros supostamente mais importantes, nenhum deve perder seu valor diante dos obstáculos impostos pela vida. La La Land termina com o clássico The End, mudando um pouco a pegada do que décadas atrás indicava a proximidade desse letreiro (mais uma atualização do filme!), mas sem jamais abandonar a certeza de que sonhar é sempre um lindo estado de espírito. Mesmo quando precisamos manter os pés bem firmes no chão.

Manchester à Beira-Mar

I can’t beat it.

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Direção: Kenneth Lonergan

Roteiro: Kenneth Lonergan

Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Matthew Broderick, Tom Kemp,  Gretchen Mol,  Chloe Dixon, C.J. Wilson, Mary Mallen, Anna Baryshnikov, Heather Burns

Manchester by the Sea, EUA, 2016, Drama, 137 minutos

Sinopse: Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai (Kyle Chandler) do rapaz, seu irmão, falecer precocemente. Este retorno ficará ainda mais complicado quando Lee precisar enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes. (Adoro Cinema)

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Como fazer a ideia de um filme pequeno se tornar grande na tela? Há vezes em que uma proposta relativamente simples é ampliada por uma ambientação altamente criativa ou por uma escala maior de produção (caso do recente musical La La Land: Cantando Estações, que poderia facilmente se tornar um romance meramente clichê ou até mesmo irritante). Em outras situações, basta um cineasta talentoso que saiba potencializar o tripé mais básico do cinema (roteiro, direção e elenco) para que a experiência ganhe consistência admirável. Com Kenneth Lonergan em Manchester à Beira-Mar, a situação se enquadra exatamente no segundo caso. A partir de uma trama simplíssima (o homem que, após a morte do irmão, viaja à cidade natal para cuidar do jovem sobrinho desamparado ao mesmo tempo em que enfrenta seus próprios fantasmas), Lonergan faz bonito ao entregar um roteiro de precisão rara, uma direção em pleno controle e um trabalho de elenco à altura de todo o conjunto. Manchester à Beira-Mar rejeita firulas ou ideias mirabolantes para impactar apenas com sua aparente simplicidade, o que lhe confere uma maturidade ímpar.

Considerando o que chamamos informalmente de tripé mais básico do cinema, primeiro é preciso discutir o roteiro. Da comédia (Máfia no Divã) ao drama (Conte Comigo) passando até por filmes de época (Gangues de Nova York), Kenneth Lonergan, no entanto, nunca foi tão refinado como em Manchester à Beira-Mar, onde não deixa de voltar às origens do próprio Conte Comigo, filme que assinou em 2000 conduzindo a ótima Laura Linney em uma singela história familiar sobre uma mulher que precisava lidar com o delicado retorno de seu irmão mais novo. Ao retomar a ideia de extrair dramas a partir de um reencontro envolvendo pessoas do mesmo sangue, Lonergan dessa vez é mais cru e menos sentimental ao narrar a história de Lee Chandler (Casey Affleck), sujeito quieto e visivelmente calejado pela vida que, de repente, se vê na condição de tutor de Patrick (Lucas Hedges), um jovem garoto em plena descoberta sexual e de identidade. No convívio entre os dois, Manchester à Beira-Mar aborda várias jornadas: a de Lee, que parece saber lidar melhor com a perda do irmão do que com a sua nova condição de tutor; a de Patrick, que, distanciado de uma mãe problemática, tenta inconscientemente abstrair a repentina ausência do pai ao se cercar de amigos e interesses amorosos; e, claro, a conjunta desses dois personagens, que agora enfrentam inúmeros reajustes sob o mesmo teto.

Manchester à Beira-Mar engloba dilemas individuais e coletivos sem perder a mão, distribuindo uma generosa cota de tempo e digestão para o drama de cada um dos personagens. Com uma longa metragem (quase 140 minutos), o filme não tem pressa em desenvolver mesmo registros supostamente corriqueiros. Isso porque tudo está ali para comunicar, como a visível infelicidade de Lee, perceptível em uma simples montagem que acompanha seus dias lidando com clientes insatisfeitos no trabalho, ou o jeito torto de Patrick acobertar emoções que explode em um pequeno acidente doméstico na cozinha. Outro aspecto que torna o roteiro incrivelmente preciso é a inteligente introdução de flashbacks e personagens coadjuvantes na trama. A comprovação máxima desse elogio é o momento em que Manchester à Beira-Mar descortina uma perturbadora tragédia do passado do protagonista. Sóbrio, o relato surge organicamente: enquanto boa parte dos diretores não resistiria em guardá-lo como uma surpreendente revelação para os minutos finais de projeção, Lonergan o insere muito antes, percebendo que ele é prioritariamente um necessário complemento para o entendimento do espectador em relação ao protagonista.

Segundo, nossa discussão chega à direção. Se a quantidade de filmes dirigidos poderia acusar uma certa inexperiência de Kenneth Lonergan (excetuando o bem sucedido Conte Comigo, houve apenas o pequeno e quase ignorado Margaret, levando em conta seus 16 anos como diretor até aqui), Manchester à Beira-Mar surpreende ao se apresentar como, disparada, a direção mais madura do nova-iorquino. Ainda assim, não deixa de causar estranheza um filme como esse se destacar tanto em uma temporada de premiações, já que é raro obras menores e de dramas “comuns” (entre aspas porque nenhum drama é comum, especialmente quando bem contado) receberem algum tipo de reconhecimento. E o estilo escolhido para conduzir Manchester à Beira-Mar amplia um pouco esse estranhamento. Isso porque a direção crua não força absolutamente nada da história, acreditando que a força individual dela é de certa forma suficiente para seu impacto. O maior mérito da direção é justamente o inverso do que normalmente recebe distinções: ao invés de sublinhar o que não é necessário com qualquer artifício (nem mesmo os flashbacks são concebidos com diferenciações estéticas) ou de intensificar a força de cenas que já são dramáticas por si só, Lonergan toma como trabalho principal delimitar fronteiras em todas as frentes – e, além de acertar na escolha, consegue fazê-la sem jamais tirar toda a densidade tão característica de Manchester à Beira-Mar.

Terceiro, por último e não menos importante, vem o elenco. São duas as figuras centrais do filme, e os atores escolhidos para interpretá-las são excelentes. Ao considerar Casey Affleck surpreendente aqui, meio mundo deve ter esquecido o quão bom ele já era em O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford. Porém, isso em nada diminui a força de sua atuação, que, assim como todo filme, é calcada na economia mesmo quando Affleck é colocado a arranjar brigas em bares. Sua fragilidade é tocante na construção de um personagem que deixou de ter qualquer aptidão social e que sabota até mesmo as chances de retomar algum contato verdadeiramente humano na vida. Em contraste, o jovem Lucas Hedges, que participou de filmes como Refém da PaixãoO Grande Hotel BudapesteMoonrise Kingdom com pequenas pontas, tem um papel mais sonoro – e com toda razão, pois, apesar de interiorizar sentimentos em relação a morte do pai, o garoto tenta se ajustar em uma banda com os amigos, administrar duas namoradas e conciliar suas vontades com as escolhas soberanas de seu novo tutor. Tanto Affleck quanto Hedges se equiparam ao filme, carimbando, também no plano da interpretação, a ideia de que Manchester à Beira-Mar, um projeto pequeno em tese, é mesmo grande na prática.

O Vaticano (e a fé) segundo “The Young Pope”

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Personagem marcante na carreira de Jude Law, Lenny Belardo é um dos grandes méritos de The Young Pope, série criada e dirigida pelo italiano Paolo Sorentino.

A HBO começa a exibir hoje (15) uma das melhores séries que você verá em 2017. Sem medo que essa afirmação um tanto definitiva se esvaia ao longo do ano, aproveito para ousar um pouco mais: se The Young Pope não faturar uma boa quantidade de prêmios a partir do próximo Emmy é porque teremos outro concorrente de altíssimo nível na disputa ou porque os votantes devem ter enlouquecido de vez. Na primeira temporada desse programa criado e dirigido pelo consagrado diretor italiano Paolo Sorrentino, Jude Law é o papa mais jovem da história do Vaticano, além de ser o primeiro nascido nos Estados Unidos. Tudo ficção, claro, mas com uma proposta menos gratuita em provocações do que pode parecer. Afinal, para The Young Pope, o tempo de questionar a existência de Deus já passou. O que importa hoje – e é isso o que torna a série tão singular tematicamente – é saber as razões que levam tantas pessoas a depender de uma suposta figura “superior” para encontrar algum sentido na vida.

Em comparações genéricas, The Young Pope não deixa de ser uma versão de House of Cards do Vaticano, principalmente em momentos que refletem sobre o poder da igreja e a sua relação com o Estado (a cena em que o papa finalmente se encontra como primeiro ministro da Itália é afiadíssima nesse sentido). Também estão presentes no roteiro toda a imponência e, por que não, o encantamento dos inúmeros rituais católicos, englobados desde os segredos de um conclave à forma como o papa é de fato tratado como Deus. No entanto, Sorrentino, com o desenrolar dos dez episódios, prefere se focar em questões mais complexas. Se a eleição do mais jovem líder da igreja católica dá indícios de que The Young Pope será a celebração da ideia de modernizar o catolicismo, o que vemos é justamente o oposto: mesmo jovem, Lenny Belardo (Jude Law) quer banir os homossexuais da igreja, é contra o aborto, recusa a ideia da eutanásia e ainda considera o sexo uma mera ferramenta de reprodução. Ou seja, as provocações de Sorrentino são mais refinadas. Para ele, juventude não é garantia de inovação e, no caso da igreja, nem deveria ser ao lançar a seguinte questão: sem o conservadorismo, quais seriam, no final das contas, os princípios zelados com tanto fervor pela comunidade católica?

set of "The young Pope" by Paolo Sorrentino. 10/22/2015 sc. 264 ep. 2 In the picture Dyane Keaton. Photo by Gianni Fiorito

Diane Keaton integra o elenco coadjuvante de alto nível da série, atuando ao lado de atores como James Cromwell, Javier Cámara e Cécile de France.

É no fascínio da figura de Lenny e na dificuldade das pessoas ao seu redor em compreender suas táticas (ele não permite ser visto publicamente nem para as fotos oficiais do Vaticano, por exemplo) que The Young Pope concentra boa parte de sua ação. Trazendo Jude Law de volta à forma em talento e beleza, o seriado tem o grande mérito de ter um protagonista altamente instigante: imprevisível, o novo papa é capaz de ir da assumida arrogância a momentos de plena compaixão e sabedoria sem nunca deixar de entrar no jogo de um Vaticano que também exige talento político. E, por mais que o programa às vezes não saiba lidar com as discrepâncias do protagonista (não são poucos os momentos em que falta organicidade na transição entre os extremos de personalidade de Lenny) e que alguns embasamentos dramáticos sejam rasteiros (o fato de ele ser eternamente atormentado pelo fato dos pais terem lhe abandonado na infância não é tão envolvente quanto o projeto tenta nos convencer), o personagem é maior do que esses eventuais defeitos, seja pelas demais construções do roteiro quanto pelo próprio desempenho de Jude Law, talvez o mais emblemático de toda a sua carreira.

E o que dizer do altíssimo nível de atores coadjuvantes de The Young Pope? A lista é grande e repleta de destaques: Diane Keaton, como a freira que criou o protagonista, é sempre confiante quanto às atitudes de Lenny, mesmo que ele, muitas vezes, lhe dê mil razões para não apoiá-lo; James Cromwell é certeiro na mágoa, mas também na complexidade de um dos poucos homens que enfrenta o novo papa sem qualquer medo; Silvio Orlando muitas vezes rouba a cena como Voiello, um cardel muito mais político do que religioso e que, como Secretário de Estado, precisa controlar as crises que surgem a partir do comportamento de um novo líder católico que não segue protocolos; Javier Cámara comove a partir da delicadeza com que mergulha nas fragilidades de um padre inseguro e alcoolista; e Cécile de France, em um papel consideravelmente menor, capta com perfeição a instantânea esperteza e admiração de uma assessora que de alguma forma compreende as estratégias do protagonista. É realmente um elenco de grande qualidade e devidamente aproveitado por uma história que sabe exatamente o que fazer com os seus personagens.

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The Young Pope explora a imponência e os mistérios do Vaticano, mas questiona principalmente a necessidade mundial de acreditar na existência de um ser superior.

Há quem não goste de Sorrentino por considerá-lo um diretor pouco econômico no que se refere ao uso das ferramentas audiovisuais (e, de fato, ele não o é). Em The Young Pope, o italiano faz questão de explorar a imponência de cenários grandiosos, de utilizar muitas alegorias para significar emoções (o canguru que vive solto no Vaticano, Lenny rezando ajoelhado e submerso em uma piscina) e de, como sempre, não poupar no uso de trilha em momentos-chave ou para fazer graça, como a belíssima releitura de Halo, da cantora pop Beyoncé, na voz de Lotte Kestner, ou a pop Sexy and I Know It quando acompanha o protagonista vestindo todos os elementos de seu figurino papal. É uma questão de gosto apreciar ou não tais escolhas, mas é importante perceber que elas se prestam ao tom de sátira e reflexão e quase sempre realmente comovem, divertem ou pelos menos impactam visualmente na minissérie. 

Se, na maior parte do tempo, The Young Pope segue um caminho diferente do esperado, por outro lado, também não deixa de discutir temas que são inevitáveis quando o assunto é a igreja católica. Entre eles,  a pedofilia e a ideia da fé como mera fuga de pessoas fragilizadas ou com naturezas que, por alguma razão, precisam ser camufladas. Envolvendo dramaticamente, o programa provoca, comove, faz rir e embala tudo com grande apuro estético e sensorial. Uma nova temporada está encomendada e, considerado que o ciclo se encerra com precisão nesse primeiro ano, é inevitável a desconfiança. Mas, tratando-se de Sorrentino e especialmente do que ele entrega em The Young Pope, não vou pensar duas vezes antes de dar um voto de fé.

Melhores de 2016 – Som

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A estrutura de Ponto Zero é fascinante porque pega o drama aparentemente comum (mas incrivelmente denso) de um garoto de 14 anos preso em um doentio furacão familiar para, lá na metade, jogá-lo em uma noite surrealista, acompanhada quase em tempo real pelo filme, que irá transformá-lo para sempre. Ao entrar nesse universo noturno e chuvoso, o requinte técnico do filme de José Pedro Goulart se acentua, explorando ainda mais o poder narrativo de setores como o de som, aqui assinado pela dupla Chrístian Vaisz e Kiko Ferraz. Entre os barulhos que ilustram eventuais momentos de horror do protagonista Ênio (Sandro Aliprandini), como o acidente na rua e o mistério em relação ao que pode estar ou não embaixo de um carro, o som também captura o minimalismo dos silêncios embalados pelo melancólico barulho de uma chuva incessante. Ponto Zero sabe, assim como em tantas outras de suas virtudes, que o trabalho de Vaisz e Ferraz é tão fundamental para a ambientação da história quanto a direção, o roteiro e o elenco dela. Ainda disputavam a categoriaA Chegada, O ContadorO Regresso e O Silêncio do Céu.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Até o Fim | 2013 Gravidade | 2012 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne