Colaborador do diretor Terrence Malick em filmes como O Novo Mundo e A Árvore da Vida, o montador Hank Corwin só veio a receber reconhecimento com A Grande Aposta, que lhe rendeu indicações ao BAFTA e ao Oscar em sua respectiva categoria. A lembrança pelo filme de Adam McKay é merecidíssima, já que a montagem de Corwin é fundamental para uma das principais missões do projeto: reconhecer a dificuldade do tema trabalhado (a especulação imobiliária em Wall Street) e fazer de tudo para torná-lo instigante e ao mesmo tempo mais dirigível. Claro que, apesar das tentativas bem sucedidas, A Grande Aposta continua sendo um filme muito particular sobre um universo cheio de especificidades, mas é fácil reconhecer o quanto ele procura ser diferente na forma. Transitando com admirável organicidade entre os detalhes técnicos apresentados pela história e tudo o que é criado para explicá-la de forma mais pop (lembram das divertidas aparições de Selena Gomez e Margot Robbie para literalmente explicar termos didaticamente para o espectador?), a montagem de A Grande Aposta só contribui para a pegada diferenciada do longa, além de ter outra qualidade surpreendente: ser incrivelmente dinâmica e, ainda assim, nunca se tornar um elemento extra para confundir o espectador. Na matemática da história, é um elemento inteligentemente simplificador. Ainda disputavam a categoria: O Contador,Ponto Zero,Spotlight – Segredos Revelados e Steve Jobs.
EM ANOS ANTERIORES:2015– Whiplash: Em Busca da Perfeição |2014 – O Lobo Atrás da Porta|2013 – Capitão Phillips |2012 – Guerreiro |2011 – 127 Horas|2010– A Origem|2009– Quem Quer Ser Um Milionário?|2008– Onde os Fracos Não Têm Vez |2007 – Babel
Just ‘cause it’s the way, doesn’t make it right, understand?
Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Allison Schroeder e Theodore Melfi, baseado no livro “Hidden Figures: The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race”, de Margot Lee Shetterly
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali, Aldis Hodge, Glen Powell, Kimberly Quinn, Olek Krupa, Kurt Krause
Hidden Figures, EUA, 2016, Drama, 127 minutos
Sinopse: 1961. Em plena Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputam a supremacia na corrida espacial ao mesmo tempo em que a sociedade norte-americana lida com uma profunda cisão racial, entre brancos e negros. Tal situação é refletida também na NASA, onde um grupo de funcionárias negras é obrigada a trabalhar a parte. É lá que estão Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), grandes amigas que, além de provar sua competência dia após dia, precisam lidar com o preconceito arraigado para que consigam ascender na hierarquia da NASA. (Adoro Cinema)
É ao mesmo tempo lógico e injusto comparar Estrelas Além do Tempo a Histórias Cruzadas,ambos filmes sobre mulheres negras que, na década de 1960, buscam protagonismo em uma sociedade norte-americana que ainda as obriga a usar banheiros e até mesmo xícaras de café separadas da população branca. A lógica de colocar as duas obras lado a lado vem pelo compartilhamento da temática, do bom humor e do sucesso estrondoso: enquanto Histórias Cruzadas faturou oito vezes mais do que o seu orçamento em âmbito mundial, Estrelas Além do Tempo se encaminha para o mesmo triunfo, já que, em pouco mais de um mês de exibição considerando a data desse texto, o filme de Theodore Melfi (Um Santo Vizinho) já quadruplicou o retorno de seus próprios custos mundo afora. Em contrapartida, a injustiça se dá em termos de qualidade: se Estrelas Além do Tempo é tão popular e novelesco quanto Histórias Cruzadas, pelo menos abraça esse perfil preferindo confiar na graça de suas intérpretes e em uma inegável simplicidade do que em posicionamentos rasteiros e em piadas que oscilam entre o preparo de tortas de fezes e caricaturas fáceis.
Iluminando a jornada de figuras que, como o título original indica, sempre ficam escondidas quando o assunto é a famosa corrida especial entre os Estados Unidos e a União Soviética, Estrelas Além do Tempo não tem vergonha de sua formalidade e, principalmente, de seu apelo popular. Melodramático, o próprio flashback de abertura surge como uma ferramenta meramente explicativa que nunca é retomada ao longo do filme, já sendo um claro indício do quanto os roteiristas Alison Schroeder e o próprio Theodore Melfi não querem saber de muita sofisticação: o que é representado ali poderia ser brevemente mencionado em um simples diálogo posterior, por exemplo. Além do roteiro, o diretor também não é econômico no apelo do tom empregado à história: a trilha de Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer e Pharrell Williams acentua toda e qualquer emoção mais expressiva, as protagonistas eventualmente fazem discursos explosivos e idealizados para conscientizar outras pessoas em cena e os coadjuvantes, como aqueles vividos por Jim Parsons e Kirsten Dunst, estão ali apenas para dificultar a vida das nossas heroínas.
Só que para fazer tudo isso, o diretor, que não escapa da velha fórmula de inserir um personagem branco que, aqui ou ali, dará aquele empurrãozinho para resolver conflitos decisivos em relação ao racismo, tem a sorte de ter três intérpretes muito talentosas em seu filme e, principalmente, de saber dirigi-las. Se Tate Taylor não segurou o completo histrionismo de Bryce Dallas Howard ou a caricatura repetitiva de Octavia Spencer em Histórias Cruzadas, Melfi tira o melhor até mesmo da própria Spencer, que, dessa vez, não precisa de caras e bocas para fazer graça e é inclusive delicada quando vive os dilemas de uma mulher que, assim como suas amigas, sofre para alcançar reconhecimento no trabalho, mas que julga ser mais fracassada por não conseguir ser tão pioneira quanto elas. Totalmente diferente da divertida e extravagante Cookie Lyon, do seriado Empire, Taraji P. Henson dá conta do recado com seu carisma habitual, abraçando com segurança a maior parcela de protagonismo da história. Quem completa o trio é a cantora Janelle Monáe, que combina beleza e desenvoltura em uma personagem menor, mas que jamais deixa de se igualar as outras em carisma e interesse.
Voltando a Histórias Cruzadas, não há problemas em achar graça na forma como elese utiliza da comédia porque humor é sempre algo muito particular, mas o que Estrelas Além do Tempo faz é, no mínimo, mais interessante. Basta reparar em uma das primeiras cenas do filme, onde as protagonistas, após serem paradas na estrada por um policial branco, precisam seguir a viatura depois do interrogatório, mas brincam que, em plenos anos 1960, elas são três mulheres negras poderosas perseguindo uma autoridade branca. É com esse tipo de descontração pontuado por três excelentes atrizes que o filme ganha um caráter popular que se distancia do apelativo, o que é algo muito saudável, uma vez que nem sempre temos um hit de bilheteria que, mesmo tradicional na forma e no conteúdo (a parte espacial envolvendo os avanços da NASA cumprem a missão histórica, mas não chegam a ser particularmente empolgantes), acerta ao fazer uma representatividade menos escrachada de dois núcleos, que, ainda depois de meio século, seguem basicamente na mesma luta por protagonismo: o feminino e o negro. E Estrelas Além do Tempo, que é mais passatempo do que registro marcante em termos de qualidade, não deixa de contribuir, de alguma forma, para esse importante retrato, especialmente em uma temporada de filmes marcados por histórias otimistas sobre pessoas que procuram seu lugar ao sol.
Em todos os sentidos, “Simple Song #3” é uma canção impecável. Por si só, já seria uma ópera de arrepiar, mas, contextualizada em A Juventude, ganha um valor extremamente simbólico. É importante valorizar músicas narrativas porque essa é a melhor função que elas podem ter no cinema: complementar, sintetizar ou simplesmente traduzir histórias. E o diretor Paolo Sorrentino, que costuma prezar por esse diálogo em seus trabalhos, faz uma perfeita representação de tal ideia com a canção escrita por David Lang. Encerrando A Juventude, “Simple Song #3”, com beleza e elegância, dá o tom a um momento muito aguardado do filme. Sam Smith que me perdoe, mas todos os prêmios que ele recebeu com a tediosa “Writing’s on the Wall” para 007 Contra Spectre se tornam uma ofensa quando o perfeito tino cinematográfico de “Simples Song #3” entra na jogada. Ainda disputavam a categoria: “Canção da Metrópole” (Sinfonia da Necrópole), “None of Them Are You” (Anomalisa), “Still Falling for You” (O Bebê de Bridget Jones) e “Try Everything” (Zootopia – Essa Cidade é o Bicho).
EM ANOS ANTERIORES:2015– “Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade) |2014– “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante) |2013– “Last Mile Home” (Álbum de Família) |2012– “Skyfall” (007 – Operação Skyfall) |2011– “Life’s a Happy Song” (Os Muppets) |2010– “Better Days” (Comer Rezar Amar) |2009– “By the Boab Tree” (Austrália) |2008– “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)
Otimismo (além de diversidade, claro) é a palavra de ordem da temporada de premiações em 2017: com La La Land fora da disputa, Screen Actors Guild Awards premia o espirituoso Estrelas Além do Tempo na categoria de melhor elenco.
Se você estava cansado do marasmo de emoções dessa temporada de premiações, o Screen Actors Guild Awards veio para mexer um pouco com os nossos ânimos. Isso não se refere à vitória de Estrelas Além do Tempo (que, na realidade, vem apenas para enfraquecer Moonlight e engrandecer La La Land, provando que a temporada quer premiar histórias que prezam pelo otimismo), mas pela virada decisiva de Emma Stone como favorita ao Oscar de melhor atriz com o musical de Damien Chazelle. Há muito comentamos aqui no blog que um segundo Oscar para Natalie Portman seria improvável (atrizes sempre precisam provar mais competência do que atores – em carreira, papeis e desempenhos – para ganhar um prêmio novamente, o que não é o caso de Natalie, que, desde Cisne Negro, só vem fazendo coisas como Thor e Sexo Sem Compromisso), e o SAG assinou embaixo: Emma Stone, estrela em ascensão da vez no filme mais querido da temporada, pode mesmo quebrar o jejum de 43 anos do Oscar sem premiar uma atriz principal de musical (a última foi Liza Minelli, por Cabaret).
Também é importante observar a vitória de Denzel Washington. O ator está mesmo ótimo em Um Limite Entre Nós e não tinha um SAG em casa até então. À parte a dívida, Denzel tinha como principal concorrente Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar), que vem encarado problemas com as acusações de assédio sexual que a grande imprensa insiste em não dar muita bola. É certo que, desde o ano passado, a premiação tem sido pioneira em abraçar como ninguém a diversidade, mas um possível terceiro Oscar para Denzel vai ao encontro do que já dissemos: é sempre mais fácil um homem ser celebrado novamente do que uma mulher. Daniel Day-Lewis, que nem tem carreira tão constante assim, que o diga! E, como o Oscar está sedento para apagar a sua fama de racista, não seria surpresa alguma ver o ator levando uma nova – e merecida – estatueta por seu desempenho. Ele e Affleck, cada um a sua maneira, são excelentes em seus respectivos filmes. O que vai pesar aqui é a influência de fatores exteriores. Mas, afinal, não é quase sempre assim quando o assunto é premiações de cinema? Confira abaixo a lista de vencedores:
MELHOR ELENCO: Estrelas Além do Tempo MELHOR ATRIZ: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações) MELHOR ATOR: Denzel Washington (Um Limite Entre Nós) MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis (Um Limite Entre Nós) MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar) MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA: Stranger Things MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Orange is the New Black MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Claire Foy (The Crown) MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: John Lithgow (The Crown) MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: William H. Macy (Shameless) MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Sarah Paulson (The People v. O.J. Simpson: American Crime Story) MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Bryan Cranston (All the Way)
O Sindicato dos Produtores consagrou La La Land: Cantando Estações como o melhor filme do ano (precisa mesmo esperar até 26 de fevereiro para entregar o Oscar ao musical de Damien Chazelle?), mas hoje o Screen Actors Guild Awards será um tantinho diferente dos outros prêmios porque o papa-prêmios da temporada concorre apenas nas categorias de melhor atriz e melhor ator. A noite deve ser de Moonlight: Sob a Luz do Luar, com La La Land consagrando apenas Emma Stone e carimbando de vez a atriz como franca favorita ao Oscar (a situação só se reverte se Natalie Portman finalmente começar a vingar com Jackie, que tem feito uma fraca carreira até aqui). É bom lembrar que, desde o ano passado, o Screen Actors Guild Awards tem abraçado a diversidade (lembram dos prêmios para Idris Elba, Queen Latifah, Uzo Aduba e Viola Davis?). Por isso, não se surpreendam se até Denzel Washingston desbancar o favorito Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) com seu ótimo desempenho em Um Limite Entre Nós. Denzel nunca ganhou o SAG e, na justa tendência que estamos vivendo de celebrar a diversidade, ele pode ser uma alternativa lógica. Devido ao Miss Universo, a TNT não tramiste a premiação ao vivo, deixando a exibição exclusiva aqui no Brasil para a TBS a partir das 23h.
MELHOR ELENCO: Moonlight: Sob a Luz do Luar / alt: Estrelas Além do Tempo MELHOR ATRIZ: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações / alt: Natalie Portman (Jackie) MELHOR ATOR: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) / alt: Denzel Washington (Um Limite Entre Nós) MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis (Um Limite Entre Nós) / alt: Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar) MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar) / alt: Hugh Grant (Florence: Quem é Essa Mulher?) MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA: The Crown / alt: Westworld MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Black-ish / alt: Veep MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Thandie Newton (Westworld) / alt: Claire Foy (The Crown) MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: John Lithgow (The Crown) / alt: Rami Malek (Mr. Robot) MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Lili Tomlin (Grace and Frankie) MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent) / alt: Anthony Anderson (Black-ish) MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Sarah Paulson (The People v. O.J. Simpson: American Crime Story) / alt: Bryce Dallas Howard (Black Mirror) MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Courtney B. Vance (The People v. O.J. Simpson: American Crime Story) / alt: Bryan Cranston (All the Way)