Cinema e Argumento

Independent Spirit Awards 2024: “Ficção Americana”, de Cord Jefferson

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Cord Jefferson pode estar debutando na direção de longas-metragens com Ficção Americana, mas os louros que ele vem recebendo por esse trabalho de estreia não deveriam ser uma surpresa, especialmente se lembrarmos que é de sua autoria o roteiro de This Extraordinary Being, um dos episódios mais fenomenais da minissérie Watchmen. O Emmy conquistado por esse trabalho é inquestionável: nele, Jefferson e o criador Damon Lindelof fazem a protagonista Angela Abar (Regina King) voltar no tempo para compreender a verdadeira história de seu avô e do herói Hooded Justice, ao mesmo tempo em que coloca o espectador diante de uma série de discussões históricas e sociais sobre as eternas cicatrizes deixadas pelo racismo sistêmico.

O fascínio causado pelo roteiro desse episódio reside na criatividade com que Jefferson e Lindelof aliam a reflexão da pauta a uma estrutura criativa e frequentemente surpreendente, sem jamais perder de vista o diálogo entre técnica e emoção. Ainda que caminhe para um lado oposto em Ficção Americana, é palpável o quanto Jefferson, dessa vez no plano da comédia, sublinha o seu comprometimento em fugir do óbvio. Para tanto, ele toma como base o romance Erasure, de Percival Everett, agora se debruçando em questões raciais a partir das relações entre autor, público e crítica no campo da literatura. E, assim como aconteceu em This Extraordinary Being, não há nada de intelectualoide no resultado.

O protagonista de Ficção Americana é Thelonius Ellis (Jeffrey Wright), autor e professor universitário que já lançou alguns livros em sua carreira. Todos sem sucesso, e sempre catalogados nas livrarias como literatura de estudos afro-americanos, apenas por terem sido escritos por um autor negro. Thelonius se dói dessas visões simplistas: ele não apenas está cansado de ver a população negra estereotipada em papéis de rappers, traficantes e presos injustamente pela polícia, como já começa a perder a paciência com um certo policiamento de vocabulário. Ele, por exemplo, diz não se ofender mais com o uso da palavra nigga, e que é preciso ressignificar o que de fato se configura como ofensa ou racismo nos dias de hoje.

A impaciência de Thelonius com o que vê ao seu redor é divertida de se assistir, mais ainda quando ele se depara com o sucesso de Sintara Golden (Issa Rae), uma escritora negra que rapidamente alcança as paradas de best sellers com um romance repleto de estereótipos sobre a população negra. Aos olhos do protagonista, claro. A partir daí, Ficção Americana joga o personagem em um emaranhado de situações que questionam seus valores e suas próprias ideias de sucesso. Afinal, vale a pena tentar tanto mudar o mundo quando ninguém lê o que você escreve? Ou é melhor apenas abraçar a obviedade do mundo e aceitar as cifras inimagináveis que trabalhos simplistas oferecem, mesmo que em detrimento da sua própria visão de mundo?

Em paralelo a essas discussões, Ficção Americana observa a vida de Thelonius, mostrando que muito do seu gênio intelectual (e, por que não, difícil) também se reflete na forma como ele lida com questões familiares: desde a irmã que cobra dele uma maior presença no dia a dia da família (Tracee Ellis Ross), ao irmão gay que está tardiamente se confrontando com dilemas pessoais devido ao longo tempo passado dentro do armário. É própria família que fará Thelonius rever muitos de seus comportamentos e, claro, o que ele de fato deseja de sua carreira e a forma como encara a negritude, tanto a sua, quanto a dos outros.

A fina ironia de Ficção Americana é deliciosa, muito porque Cord Jefferson se preocupa em não fazer do protagonista um intelectual pedante ou apenas rabugento. Ele consegue esse feito ao colocar o espectador em seu lugar; afinal, é mesmo cômica, para não dizer trágica, a relação que grande parte da população branca estabelece com a representação de pessoas negras no terreno da literatura ou do cinema. A sacada de colocar Thelonius entre os jurados de um concurso literário, por exemplo, representa bem a tônica do longa: é de rir e revirar os olhos como três escritores brancos defendem o prêmio para o livro rasteiro escrito por um ex-presidiário negro, somente pela urgência do tema racial, enquanto os dois escritores negros da banca avaliadora rejeitam a obra em função do discurso fácil e dos clichês utilizados na questão da representatividade.

Como o excelente ator que sempre foi, Jeffrey Wright alcança equilíbrio perfeito na construção de um protagonista tragicômico. Seu maior feito é conseguir conectar a plateia com a incredulidade de Thelonius, mas também fazê-la compreender as frustrações e os caminhos tortuosos tomados por esse homem em conflito com o mundo. O timing de Wright é precioso, e só melhora quando divide a cena com um elenco recheado de participações tão rápidas quanto eficientes, como as de Tracee Ellis Ross, Issa Rae e Sterling K. Brown. Nem todos encontram terreno fértil ao interpretar um homem mundano com aspirações cotidianas — tarefa complicada, mesmo se considerarmos o campo das comédias. Felizmente, Jeffrey consegue essa proeza tão logo Ficção Americana começa.

Aos 42 anos, Cord Jefferson debuta na direção de longas com uma experiência bastante curta. São, segundo o IMDb, foram apenas sete títulos até aqui, incluindo outras séries de sucesso como The Good Place e Master of None. Parece pouco, para alguém que se apresenta agora nos cinemas com frescor, ideias arejadas e a capacidade de abordar, com leveza e inteligência, discussões normalmente tratadas pelo cinema com as obviedades que o protagonista Thelonius tanto rechaça. Que o reconhecimento recebido até agora, desde o carinho da crítica às indicações para premiações como o Independent Spirit Awards e o Oscar, sejam a confirmação de um talento em ascensão — e o incentivo necessário para que mais vozes como a deste diretor sejam descobertas.

INDICAÇÕES AO INDEPENDENT SPIRIT AWARDS 2024:
– Melhor filme (Cord Jefferson, Jermaine Johnson, Nikos Karamigios e Ben LeClair)
– Melhor roteiro (Cord Jefferson)
– Melhor performance protagonista (Jeffrey Wright)
– Melhor performance coadjuvante (Erika Alexander)
– Melhor performance coadjuvante (Sterling K. Brown)

“Monster”: os ruídos e os sofrimentos causados por vidas vividas em silêncio

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Direção: Hirokazu Kore-eda

Roteirista: Yûji Sakamoto

Elenco: Soya Kurokawa, Sakura Ando, Eita Nagayama, Hinata Hiiragi, Mitsuki Takahata, Akihiro Kakuta, Shidô Nakamura, Yûko Tanaka

Kaibutsu, Japão, 2023, Drama, 127 minutos

Sinopse: Uma mãe sente que há algo errado quando seu filho começa a se comportar de maneira estranha. Ao descobrir que um professor é o responsável, ela vai até a escola exigindo saber o que está acontecendo. Enquanto o caso se desenrola pelos olhos da mãe, do professor e da criança, a verdade começa a surgir.

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* Atenção! O texto abaixo contém spoilers envolvendo detalhes centrais do filme.

Por definição, empatia é capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer. Para praticá-la, uma mudança no nosso ponto de vista se faz necessária, de modo que enxerguemos o mundo com outra perspectiva, tarefa nem sempre fácil ou natural. As belezas, os dramas e os mistérios desse ato são a força motriz de Monster, trabalho mais recente do cineasta japonês Hirokazu Kore-eda (Assunto de Família), pois, justamente, três pontos de vista diferentes fecharão o círculo de uma trama  sobre os estranhos comportamentos de uma criança e a busca de sua mãe por compreender o que está acontecendo.

O roteiro escrito por Yûji Sakamoto rejeita a estrutura clássica de apenas reencenar os mesmos acontecimentos e faz algo bem mais interessante, repetindo a mesma linha temporal, mas seguindo as vivências de outros personagens até então conhecidos apenas superfialmente, até que, em pontos específicos, as histórias finalmente se cruzam e se complementam. No terreno do mistério, isso não poderia ser mais intrigante, pois os pontos parecem impossíveis de ser conectados, em uma estrutura que desafia nosso senso de investigação com inteligência.

Ainda que envolvo em um mistério a ser resolvido, Monster não é um suspense. Muito menos se levarmos em consideração as reconhecidas vocações de Hirokazu Kore-eda. A partir do roteiro de Sakamoto, ele planta as incógnitas com seu habitual estilo naturalista, dando especial atenção à construção dos personagens e a como a dinâmica entre eles, da mise-em-scène aos diálogos, pode contribuir para a nossa conexão emocional. Não há alardes ou reviravoltas policialescas, mas, sim, dúvidas sobre o comportamento humano e sobre o que pode estar sob a superfície de uma vida tão cotidiana.

Por isso mesmo, fico surpreso com quem se diz frustrado com a resolução, afinal, qualquer coisa diferente desse teor soaria no mínimo contraditório com o próprio cinema de Kore-eda. A chegada do terceiro ato, aliás, só confirma o quanto Monster é definitivamente uma obra assinada por ele. Após termos acompanhado a perspectiva da mãe em relação aos comportamentos estranhos de seu filho e depois a do professor que parece ser uma figura central no conflito, enfim o roteiro introduz as resoluções a partir dos olhos de Minato (Soya Kurokawa) e como a sua verdade passava despercebida.

Ao conhecer o colega Yori (Hinata Hiiragi), Minato inicialmente vive uma improvável amizade, até perceber que, talvez, ele esteja sendo pego de surpreso por uma relação que transcende a amizade para pousar em um outro tipo de afeto, quem sabe o primeiro de uma natureza nunca experimentada por ele até então. Isso desencadeia tanto uma grande confusão interna em Minato quanto uma série de atitudes que, aí entendemos, explicam os desentendimentos e os mistérios construídos pelo longa.

Pela proximidade de lançamento, podemos dizer que Monster é um filme-irmão do belga Close, outro relato sobre crianças tateando seus primeiros afetos e carregando o peso de vivê-los em segredo em função do julgamento alheio da sociedade. A diferença é que, enquanto Close usa esse contexto como ponto de partida para uma jornada crua e dolorosa, Monster o abraça com lirismo para ressignificar um entorno que tomávamos como nossa única referência.

A revelação inunda o filme com a sensibilidade tão característica do diretor, e é aí que entra o convite definitivo à empatia. Por meio do universo particular de Minato e Yori, carregamos esse mesmo peso contido no ato de viver algo tão puro às escondidas, mas também lembramos do quanto nunca saberemos tudo sobre o outro, por mais íntimo ou familiar que esse alguém possa parecer. Se o próximo sempre será, de certa maneira, um mistério aqui ou ali, só pode ser pretensão nossa acreditar que temos todos os fatos sobre tudo.

A emocionante trilha sonora do saudoso mestre Riuyichi Sakamoto dá o tom perfeito para o segmento final de Monster — esse, aliás, foi seu último trabalho antes de falecer em março de 2023, tendo composto apenas dois temas devido ao seu estado frágil e cedido os direitos autorais de um outro álbum seu para que Kore-eda pudesse completar o que não conseguiu entregar. Ela traz uma delicada melancolia para a parte do longa sobre o universo particular de Minato e Yori. O convívio entre os dois é de uma beleza singular — e bastante triste por acontecer às escondidas, envolto em receio e causador de tantos desentendimentos.

Quando as peças se encaixam, Monster nos reserva sequências tocantes, como a conversa entre Minato e a diretora da escola, em que ela faz a afirmação mais contundente do longa: “Se só alguns podem ter, então não é felicidade”. E, assim, Kore-eda vai filmando lindamente até o final, compreendendo as delicadezas daquela relação e as emoldurando também com um tom solar. O desfecho, em especial, é arrebatador de tão bonito, inclusive porque coloca o espectador a interpretar qual terá sido o destino dos personagens. É um lirismo dos mais tocantes e que encerra Monster em seu ponto máximo.

“Pedágio” é o reflexo que o Brasil não quer enxergar frente ao espelho

Tem coisa que nunca muda.

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Direção: Carolina Markowicz

Roteiro: Carolina Markowicz

Elenco: Maeve Jinkings, Kauan Alvarenga, Thomás Aquino, Aline Marta Maia, Isac Graça, Caio Macedo, Clarissa Pinheiro, Erom Cordeiro

Brasil, 2023, Drama, 102 minutos

Sinopse: Suellen (Maeve Jinkings), cobradora de pedágio, percebe que pode usar seu trabalho para fazer uma renda extra ilegalmente. O seu objetivo é financiar a ida de seu filho (Kauan Alvarenga) à caríssima cura gay ministrada por um famoso pastor estrangeiro.

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Um personagem de Pedágio diz que, “se pastor e político forem comprar tudo certinho, acabou o Brasil”. É sintomática a contradição contida nessa afirmação, pois o próprio personagem, um homem de negócios escusos, ganha a vida na ilegalidade. E aí está o Brasil que a talentosa cineasta Carolina Markowicz quer mostrar: aquele de uma imoralidade normalizada porque sempre é possível lavar as mãos, terceirizar a culpa e justificar um ato ilegal diante de outros supostamente piores. Pedágio alerta para essa espécie de terra de ninguém em que cada um faz o que bem entende conforme seus valores (ou da falta deles), sem tirar um minuto sequer para se olhar no espelho e entender que escolhas erradas, por menores que possam parecer, nunca devem ser justificadas pela existência de outras.

Markowicz, que teve uma bela estreia em longas-metragens com Carvão, também emoldurado pelas contradições do Brasil, lança um olhar ainda mais microscópico para a hipocrisia nossa de todo dia com Pedágio. A religião tem papel fundamental para suas novas observações, especialmente a figura Suellen (Maeve Jinkins), que vê a homossexualidade do filho como um problema suficientemente grave para que cometa ilegalidades em busca de um tratamento que promete a famosa “cura gay”. O tema é um terreno fértil porque mexe com valores, crenças e essa soberba de dizer ao outro o que é certo ou errado. O longa-metragem coloca o dedo nessa ferida em muitos sentidos, seja pelo próprio conflito central de Suellen com o filho ou com subtramas envolvendo personagens que, em um momento, condenam a sexualidade alheia em nome de Deus e, no outro, descumprem os votos do matrimônio fazendo sexo às escondidas entre um intervalo e outro do trabalho.

Exímia roteirista, Markowicz transita pelas diversas contradições expostas Pedágio com a consciência de que a realidade já garante personagem suficientemente estereotipados, evitando pesar a mão em suas representações. A construção de Suellen se destaca nesse sentido, pois a protagonista não se apresenta com uma religiosa fervorosa de trajes brancos e cabelos compridos, mas sim como uma mulher que se coloca contra a sexualidade do filho em função do olhar alheio e do que lhe é dito por terceiros, ao invés de refletir sobre suas convicções pessoais — que, aliás, talvez ela própria não saiba exatamente quais são. A relação estabelecida com o filho Tiquinho (Kauan Alvarenga) também foge ao lugar-comum quando Markowicz captura o dia a dia entre os dois como conflituoso em vários níveis e não como o tormento religioso imposto por uma mãe que deseja doutrinar o filho. Pedágio merece os devidos louros pela abordagem sóbria e que, em outras mãos, descambaria para a simples caricatura.

Inclusive o que poderia ser classificado como paródia é usado com perspicácia, caso do pastor português que desembarca no Brasil com a promessa da cura gay. Todos os exercícios e reflexões propostas por ele com o objetivo de “reverter” os “hábitos” dos participantes são tão absurdos que somente a caricatura poderia dar conta de representar. No mais, a excelente notícia é que Pedágio jamais pode ser classificado como um filme temático, digamos assim, uma vez que diretora-roteirista costura todas as discussões com personagens muito críveis e conflitos fiéis à realidade brasileira. Sua capacidade de inserir o afeto em meio a tudo isso é, de certa forma, surpreendente, com atribuições frequentemente invertidas, como a capacidade de amar incondicionalmente, incorporada pelo único personagem que realmente se (re)conhece e está perfeitamente confortável em sua pele. E é graças a figuras como ele que não estamos em um país Brasil (e em um mundo) ainda pior.

Das páginas para as telas, “Fim” medita sobre a vida a partir da morte e é excelente adaptação de Fernanda Torres para seu próprio romance

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Dez anos separam o lançamento do livro Fim e a estreia de sua versão para o audiovisual. Há várias alterações na adaptação, e elas sempre preservam a essência da obra original.

Lembro de ler Fim, romance de estreia da atriz Fernanda Torres, com grande deslumbre. À época, mais especificamente no ano de 2013, Fernandinha já havia se provado o suficiente, seja com suas consagrações como intérprete, aventurando-se na escrita de roteiros como o de Redentor ou trabalhando sua escrita observadora e apurada em crônicas assinadas para o jornal Folha de São Paulo e para as revistas Piauí e Veja Rio. Só que escrever um romance é uma história completamente diferente e, por que não, uma ambição que poderia descambar para um mero capricho. Isso se não estivéssemos falando de Fernanda Torres. Fim não só alcançou o status de best seller com centenas de milhares de cópias vendidas como ganhou um prêmio Jabuti, o mais prestigiado do mercado brasileiro. Ou seja, ela, mais uma vez, provava ser imparável e uma das nossas artistas mais múltiplas em atividade.

Dez anos depois, o raio volta a cair no mesmo lugar com a adaptação de Fim para uma minissérie estruturada em dez episódios, todos também escritos por ela. Ser uma boa adaptação por si só já seria o bastante, pois o romance homônimo tem uma estrutura narrativa tão única e uma condução tão própria de Fernanda para o formato literário que o transpor para o audiovisual seria um desafio difícil de resolver. Como roteirista, entretanto, sua opção foi das mais sábias e desprovidas de vaidade, dispensando o zelo excessivo com material original para a escritora dar lugar à roteirista. Ao longo de seus episódios, Fim traduz na tela a vocação folhetinesca e rodrigueana de sua premissa com linguagem própria, não deixando vestígios de traços literários ou algo similar. É uma adaptação com várias alterações em formato, mas preservando o frescor de sua essência.

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Fábio Assunção e Marjorie Estiano são Ciro e Ruth, um dos tantos casais em transformação que Fim explora a partir de idas e vindas no tempo.

A narrativa deixa de ter um personagem como foco a cada episódio para misturar todos eles com idas e vindas no tempo, além de uma adição mais do que acertada: as mulheres em pé de igualdade com os homens, o que garante que a versão em minissérie de Fim tenha como norte as relações afetivas vividas por Ciro, Neto, Álvaro, Ribeiro e Silvio, o quinteto de boêmios cariocas que, ao atravessar décadas a partir dos anos 1960, experimenta todas as surpresas e transformações inerentes à vida como a conhecemos. O roteiro é exitoso em muitos aspectos, a começar pela notável habilidade em transitar entre pelo menos uma dezena de personagens e diferentes linhas temporais sem causar confusão. Pelo contrário. As diversas portas abertas por Fim só colaboram para sublinhar a proposta de falar sobre a vida por meio da morte e, principalmente, sobre o que fazemos (ou deixamos de fazer) com a irrefreável passagem do tempo. 

Não há como assistir à minissérie sem tentar se encontrar em algum daqueles personagens — ou melhor, em algum daqueles pares (trios?). Do casal apaixonado e fiel até a morte de um deles, passando por outro que desconstrói a ideia de que a vida finalmente entra nos trilhos após o casamento, ao mulherengo convicto e independente que abandona a mulher e os filhos para viver como sempre bem entendeu, Fim nos lembra de que não existem modelos certos ou errados de relacionamentos e que, na verdade, são as nossas decisões em torno deles que moldam boa parte de quem nos tornamos. Nesse sentido, o vai e vem entre os diferentes tempos jamais se apresenta como mera muleta para revelar segredos ou montar uma intrincada ciranda de afetos, e sim como uma excelente ferramenta dramática, pois ao encontrarmos os personagens já envelhecidos, decadentes ou à beira da morte, a experiência de vê-los tão jovens, vivos e otimistas se torna no mínimo agridoce.

Sob o comando dos diretores Andrucha Waddington e Daniela Thomas, o elenco reflete a harmonia da minissérie como um todo. Na realidade, é um verdadeiro prazer acompanhar a diversidade de talentos e instintos de intérpretes tão diferentes e complementares entre si. Como Ciro e Ruth na juventude, Fábio Assunção e Marjorie Estiano esbanjam carisma para, com o passar dos anos, mergulharem nas dores e frustrações de um casal diante do desmoronamento do seu castelo de conto de fadas. Já na pele de Neto e Célia, Heloísa Jorge e David Junior traduzem o afeto, mas também a firmeza, de quem mostra que, sim, o “felizes para sempre” é possível quando tudo é conversado às claras. Por outro lado, Thelmo Fernandes, como o tragicamente ingênuo Álvaro, e Debora Falabella, dando vida à uma afiada Irene, mostram os machucados e desencontros de duas pessoas unidas por mera pressão das convenções da época. Por fim, enquanto Emilio Dantas captura a eterna falta de perspectiva afetiva de Ribeiro, Bruno Mazzeo (em seu melhor momento) e Laila Garin são ótimos ao contrastar as diferenças de duas pessoas com visões de mundo muito diferentes e que só concordam em discordar sobre a forma como enxergam a vida e suas responsabilidades.

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Destaque dado a personagens femininas garante que Fim não seja celebração masculina em épocas marcadas pelo machismo normalizado.

Além de dividir a direção dos episódios com Daniela Thomas, Andrucha Waddington ficou a cargo de toda a concepção artística de Fim, uma missão árdua, tendo em vista as várias décadas contempladas, o fato de o elenco permanecer o mesmo durante toda trama e o próprio tom a ser empregado diante de um material amplo em sentimentos e personagens. Para isso, ele se utiliza de uma parte técnica primorosa que também captura em detalhes o bairro de Copacabana ao longo dos anos. A direção de arte assinada por Kiti Duarte e Rafael Cabeça, por exemplo, é meticulosa na reconstituição de época, assim como a trilha sonora de Gabriel Ferreira e do mestre Antonio Pinto cadencia os diferentes gêneros explorados com temas nada óbvios, como aquele marcante que encerra cada um dos capítulos. Andrucha concebe Fim artisticamente garantindo a alternância de fases da trama sem artificialismos, e isso é muito importante, pois evita distrações e garante fluidez na maneira como a minissérie contextualiza o espectador.

Aos 32 anos, tenho a felicidade de preservar grandes amigos, e Fim me pega muito nesse aspecto. Além de encenar os momentos de festa e diversão experimentados por Ciro, Álvaro, Neto, Silvio e Ramiro, a história coloca os amigos em conflito com a finitude de suas juventudes, de seus laços e, claro, de suas vidas. Por que um deixou esse plano antes do outro? Quem será o próximo? Em que momento eles deixaram de ser incansáveis foliões para se tornarem dependentes de remédios? Como a vida foi distanciando pessoas que um dia já foram tão íntimas? Impossível não se colocar no lugar deles — e no de suas esposas e namoradas, figuras essenciais para que Fim não seja a celebração de homens em uma época de machismo normalizado, mas sim daquilo que Fernanda Torres chama de “epitáfio do macho”. Se realmente não houver outra vida, eles todos se deparam com a conclusão aterradora de que certos erros nunca poderão ser consertados e de que biografias não podem ser reescritas. O que resta é, parafraseando a canção “Divino Maravilhoso”, seguir atento e forte, sem medo de temer a morte — porque, afinal, ao contrário do que diz Álvaro em uma das cenas mais bonitas de Fim, ela deveria, sim, ensinar alguma coisa a todos nós.

“Assassinos da Lua das Flores” traz olhar mais íntimo de Martin Scorsese para um importante registro histórico

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Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Eric Roth e Martin Scorsese, baseado no livro “Killers of the Flower Moon: The Osage Murders and the Birth of the FBI”

Elenco: Leonardo DiCaprio, Robert De Niro, Lily Gladstone, Jesse Plemons, Tantoo Cardinal, Cara Jade Myers, Janae Collins, William Belleau, Jillian Dion, Jason Isbell, John Lithgow, Brendan Fraser, Scott Shepherd

Killers of the Flower Moon, EUA, 2023, Drama/Policial, 206 minutos

Sinopse: Na virada do século 20, o petróleo trouxe uma fortuna para a nação Osage, que, da noite para o dia, tornou-se uma das mais ricas do mundo. A riqueza desses nativos americanos atraiu imediatamente intrusos brancos, que manipularam, extorquiram e roubaram dinheiro Osage antes de recorrerem a assassinatos.

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Não é um whodunit, e sim um who-didn’t-do-it. Nas palavras do próprio diretor Martin Scorsese, Assassinos da Lua das Flores não coloca o espectador na busca pela identidade de quem teria cometido uma série de crimes contra a nação Osage, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1920. A tragédia foi tamanha que o filme sabiamente dispensa o mistério para refletir sobre a moralidade (ou a falta dela) através de um recorte em que o crime é dado como hábito. O difícil mesmo é descobrir quem não está por trás de uma conspiração em busca de território, fortuna e poder que, como tantas outras, expõe as cicatrizes da formação dos Estados Unidos como nação.

Baseado no livro homônimo de David Grann, Assassinos da Lua das Flores poderia ser, em linhas gerais, um clássico policial com a marca de Scorsese. Entretanto, o cineasta vem munido de grande sensibilidade ao equilibrar uma áurea épica com as jornadas íntimas dos personagens. Para chegar neste equilíbrio, uma mudança de perspectiva foi fundamental: aquela proposta por Leonardo DiCaprio de que o roteiro não fosse focado, como inicialmente escrito, na investigação dos crimes pelos olhos de um xerife, e sim na vivência de quem abraçou e perpetuou a violência contra a nação Osage.

Ao concordar com a ideia de DiCaprio, o roteirista Eric Roth e o próprio Scorsese tecem uma trama protagonizada por figuras conflituosas, afinal, os crimes eram arquitetados, majoritariamente, por homens que se casavam com as mulheres herdeiras da fortuna adquirida a partir da descoberta de petróleo nos territórios Osage. De explosivos implantados em pontos estratégicos a um esquema médico que envolvia injeções adulteradas de insulina, os métodos variavam conforme conveniência de cada golpe, e são vistos no filme a partir da relação entre Ernest (DiCaprio), que é envolvido pelo tio William Hale (Robert De Niro) no esquema, e Mollie (Lily Gladstone), que vê a sua comunidade ameaçada diante dos crimes.

A alternância entre o corrompimento de Ernest e o contido desespero de Mollie é o que faz de Assassinos da Lua das Flores o trabalho mais instigante entre os lançados por Scorsese nos últimos anos. As características que lhe tornaram Scorsese seguem presentes, mas com outro ritmo, outra atmosfera. Por sinal, ainda que tenha custado mais de 200 milhões de dólares, o projeto é comedido em escala, seja ela a técnica ou a emocional, como podemos perceber na trilha sonora de Robbie Robertson, sutil até mesmo quando precisa criar algum sentimento de tensão, e no excelente elenco, com destaque para a interpretação econômica e ao mesmo tempo muito contundente de Lily Gladstone, que rouba o filme para si toda vez que entra em cena, e para Robert De Niro, que se equilibra habilmente entre o verdadeiro caráter de seu personagem e o que ele busca transparecer para a sociedade.

São mais de três horas de projeção que o diretor conduz com admirável unidade, o que nem sempre costuma acontecer, como é possível constatar em O Irlandês, seu trabalho anterior. Isso talvez venha de um perceptível afeto de Scorsese pelo romance original, que também foi cotado para adaptação por diretores como JJ Abrams e George Clooney. Difícil imaginar outra pessoa contando essa história, mesmo que ela, inevitavelmente, seja frequentemente mais inclinada para abordagens já conhecidas de Scorsese com seus personagens masculinos gananciosos do que para de fato uma inédita representatividade temática. À parte isso, Assassinos da Lua das Flores é, sim, um dos filmes imperdíveis do ano.