Cinema e Argumento

“Hereditário”: luto familiar é a instigante matéria-prima para o medo e a paranoia (até chegar o terço final)

You don’t think I’m gonna take care of you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Ann Dowd, Milly Shapiro, Brock McKinney, Jake Brown, Mallory Bechtel, Morgan Lund, Bus Riley, Heidi Méndez

Hereditary, EUA, 2018, Terror, 127 minutos

Sinopse: Após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta adolescente, Charlie, por quem ela sempre manteve uma fascinação não usual. Com um crescente terror tomando conta da casa, a família explora lugares mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram. (Adoro Cinema)

Sucessor de Mãe! no sentido de ser o filme mais polarizador do cinema norte-americano em 2018, Hereditário, contudo, representa a consolidação do terror mais sofisticado e menos simplista junto às grandes plateias. Se já vivemos épocas em que sucessos de bilheteria eram trabalhos pautados por um estilo mais grotesco e escrachado como A Casa de CeraHorror em AmityvilleO Albergue e uma infinidade de Jogos Mortais, hoje a criatividade e a autoria parecem ter lugar cativo: Invocação do MalA BruxaCorra!Um Lugar Silencioso, citando apenas obras mais recentes, exploram as possibilidades estilísticas do gênero de forma exemplar, além de, em casos pontuais, proporem a discussões contemporâneas a partir do medo, da tensão ou do assombro. Com Hereditário, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, ganhamos mais um título para reforçar essa tese, e um título dos mais interessantes do ponto de vista de repercussão: independente de pré-conceitos e do quanto o resultado como um todo é envolvente, você precisa assisti-lo e, principalmente, debatê-lo, sensação despertada apenas por uma mínima porcentagem dos filmes que costumamos conferir ao longo do ano.

Conduzindo situações e personagens por terrenos incertos, onde muito se deduz e pouco se diagnostica em termos daquilo que devemos temer ou suspeitar (uma qualidade tremenda, diga-se de passagem), Hereditário mostra todo o talento do diretor Ari Aster em seu primeiro longa-metragem: há uma atmosfera latente no filme, auxiliada tanto pelas ferramentas técnicas (a trilha de Colin Stetson cria o clima ideal até mesmo nas notas mais altas e previsíveis) quanto por essa matéria-prima da incerteza que define os melhores relatos de terror. A força maior, contudo, está no conceito pensado para a trama, que é impulsionada pela discussão sobre como a dor e o luto são capazes de nos levar a lugares inimagináveis. Tudo começa quando Annie (Toni Collette) perde a mãe e, dias depois, sofre outro baque emocional que atingirá também e principalmente o filho Peter (Alex Wolff). Entre eles, há ainda o pai vivido por Gabriel Byrne e a estranha irmã mais nova (Milly Shapiro), mas é do intenso calvário emocional de Annie e Peter que Hereditário extrai tensão e angústia. Ao mostrar o quanto o luto mexe com as nossas ideias e sentidos, o roteiro desafia o espectador a concluir se o estado de transe dos personagens está apoiado na loucura, na realidade ou, quem sabe, até mesmo no sobrenatural. E os resultados desse processo de questionamentos são ricos no drama e no terror, inclusive porque Toni Collette e Alex Wolff são ótimos atores.

O filme que percorre caminhos tão instigantes vai por água abaixo no terço final, e por uma razão que julgo ser bastante decisiva, para não dizer um pouco desonesta: a de virar completamente do avesso o seu estilo de terror. Poderíamos dizer que, antes disso, Hereditário ainda comete o pecado de explicar ponto a ponto o seu mistério, o que soa amador para uma obra que vinha carregando força e tensão exatamente na falta de respostas, mas o problema maior está mesmo nessa troca de estilo, que é gravíssima para um gênero tão específico como o terror. Ora, ninguém engoliria Os Outros, por exemplo, caso, de repente, todo o seu mistério fosse somente um plano do boneco Chucky. Hereditário me chateia por causa disso: além das explicações desnecessárias, a conclusão, cuja cena final é uma clara evocação do que já vimos em A Bruxa, transforma um filme em outro (um que eu provavelmente não veria), e ainda o faz a passos apressados, com guinadas e conclusões tumultuadas. Já se a mudança drástica é parte de um plano maior para causar o efeito da provocação e do incômodo, ao menos há de se reconhecer que Ari Aster acertou em cheio, pois Hereditário é, indiscutivelmente, quer se goste ou não, o filme-evento da temporada.

“Oito Mulheres e Um Segredo”: sem roteiro e direção à altura, elenco feminino é a razão do entretenimento

That was spectacular!

Direção: Gary Ross

Roteiro: Gary Ross e Olivia Milch, baseado na história de Gary Ross e nos personagens de George Clayton Johnson e Jack Golden Russell

Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling, Sarah Paulson, Rihanna, Awkwafina, James Corden, Richard Armitage, Midori Francis, Elliott Gould, Charlotte Kirk, Charles Prendergast

Ocean’s 8, EUA, 2018, Aventura, 110 minutos

Sinopse: Recém-saída da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) logo procura sua ex-parceira Lou (Cate Blanchett) para realizar um elaborado assalto: roubar um colar de diamantes no valor de US$ 150 milhões, que a Cartier mantém sempre em um cofre. O plano é convencer a empresa a emprestá-lo para que a estrela Daphne Kluger (Anne Hathaway) use a joia no badalado Met Gala, um dos eventos mais chiques e vistosos de Nova York. Para tanto, Debbie e Lou reúnem uma equipe composta apenas por mulheres: Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina), Rose (Helena Bonham Carter) e Tammy (Sarah Paulson). (Adoro Cinema)

Um pouco menos emblemática do que o público passou a considerar especialmente agora, a franquia iniciada com Onze Homens e Um Segredo e concluída como trilogia com Doze Homens e Outro SegredoTreze Homens e Um Novo Segredo era puro entretenimento, com o bônus de ser concebida em uma fase inspirada de Steven Soderbergh, diretor incansável e plural, mas também bastante irregular. Sua cartada mais certeira, entretanto, era o elenco de altíssimo nível, capaz de reunir, na mesma tela, atores como George Clooney, Brad Pitt, Al Pacino e Matt Damon (a lista completa poderia levar mais algumas linhas), todos eles arquitetando assaltos e outros trambiques em pleno clima de descontração. Lá, a presença feminina (Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones) era secundárias, mas agora o jogo virou: onze anos depois do último filme, é a vez das mulheres, como em boa parte do que tem sido produzido nos dias de hoje, assumirem a dianteira de uma franquia que segue o mesmo estilo, dessa vez intitulada Oito Mulheres e Um Segredo.

A única conexão entre esse novo filme comandado por Gary Ross (A Vida em Preto e Branco, Seabiscuit – Alma de Herói e o primeiro Jogos Vorazes) e a versão masculina é o fato de Debbie Ocean (Sandra Bullock) ser irmã de Danny (Clooney), referenciado uma vez ou outra ao longo filme. O problema é que, apesar desse fiapo de conexão, Oito Mulheres e Um Segredo depende mais do estilo e do formato dos longas anteriores do que poderia se esperar. É fato: Gary Ross, também autor do roteiro, faz um trabalho bastante acomodado ao apenas remontar uma fórmula bem sucedida. Não há aqui uma linguagem própria ou ao menos certa personalidade para distanciar Oito Mulheres e Um Segredo de uma mera inversão de elenco. Há algum mal em mexer em time que sempre vence? Não necessariamente, mas, assim como no recente Mulher-Maravilha, a sensação de prato requentado nos lembra que, sim, é alta a relevância de se ter um filme comercial estrelado por mulheres, e seria ainda maior caso determinadas produções nos apontassem novas possibilidades em um mercado historicamente definido por visões masculinas (ao contrário de Mulher-Maravilha, o caso de Oito Mulheres e Um Segredo é ainda mais delicado por ter um homem na cadeira de direção).

Munido de certas liberdades que são coerentes com a veia cool da franquia (como levar a sério a personagem vivida por Sandra Bullock começar o filme com a maquiagem em dia dentro de uma… prisão?!), Oito Mulheres e Um Segredo não é um filme que preza pela verossimilhança ou por sua engenhosidade de roteiro (dependendo do ponto de vista, é o que dá a tônica da diversão) e que não se esmera na construção das personagens, todas com personalidades que existem porque lhe foram superficialmente atribuídas e não porque foram desenvolvidas. A falha mais grave, porém, é uma mera questão de atmosfera. Sem qualquer ameça ou perigo iminente, um filme de assalto não desperta euforia, e é o que acontece com Oito Mulheres e Um Segredo: não há situação que não seja contornável ou qualquer sequência que desperte o mínimo de adrenalina. Durante todo o desenrolar, nós sabemos que os ventos sempre sopram a favor das personagens. E isso, na letra fria da história, é desestimulante, além do mais quando tanta facilidade para idealizar a esperteza das personagens abre uma série de furos no roteiro (é inadmissível, por exemplo, que, em determinado ponto, a polícia acredite que um objeto tenha sido inocentemente perdido quando ele só poderia ser retirado do corpo de quem o usava com uma ferramenta que estava justamente sob os cuidados das autoridades).

Como em tantos outros trabalhos onde atores ou atrizes são maiores do que os filmes em si, Oito Mulheres e Um Segredo não foge à regra e inclusive se potencializa: são nada menos do que oito intérpretes que formam um time simplesmente irresistível. Tanto o projeto tem consciência desse poder que faz o possível para enaltecer cada personagem com trocas constantes de figurinos, maquiagens dignas de um Tapete Vermelho ou tiradas que reforcem o quanto elas são descoladas (o que é ótimo!). Anterior a esse apelo, é mesmo um prazer ver Cate Blanchett contracenando com Sandra Bullock ou Helena Bonham Carter vivendo a insegura figurinista de uma radiante e inspirada Anne Hathaway. Há personagens mais secundárias e sem tanto destaque, seja pelo papel ou por quem a interprete (Sarah Paulson poderia ter rendido mais, ao mesmo tempo em que Rihanna não se justifica muito em cena), o que não quer dizer que elas não tenham sua parcela de contribuição para o carisma do elenco como um todo. É o suficiente para fazer de Oito Mulheres e Um Segredo uma experiência entusiasmante? Quase. O longa de Gary Ross pode ser um bom entretenimento, mas, poucas horas depois da sessão, já se percebe que não tem fôlego para ficar na memória como algo maior do que uma diversão de momento. E é claro que, no frigir dos ovos, como em tudo se tratando sobre  cinema, cada um tem seu próprio gosto e estilo para dar o devido valor a essa percepção.

“Tully”: o lado exaustivo e caótico da maternidade

You only live twice, or so it seems: one life for yourself and one for your dreams.

Direção: Jason Reitman

Roteiro: Diablo Cody

Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Mark Duplass, Ron Livingston, Emily Haine, Asher Miles Fallica, Lia Frankland, Gameela Wright, Maddie Dixon-Poirier, Elaine Tan, Marceline Hugot

EUA, 2018, Drama, 95 minutos

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis). (Adoro Cinema)


Selecionando um número qualquer de filmes sobre maternidade, é bem provável que a maioria eleve suas discussões, claro, para o quanto a chegada de um filho pode ser um dos momentos mais transformadores, comoventes e recompensadores da vida de uma mulher. Tully não é esse tipo de filme. Quero dizer, a roteirista Diablo Cody, que volta a trabalhar com o diretor Jason Reitman depois de Juno e Jovens Adultos, não deixa de ilustrar o imensurável amor de uma mãe por um filho, mas o faz de outra maneira, mostrando que, na verdade, o afeto começa na superação diária de uma vida cansativa, complicada e exaustiva. Afinal, essa é uma constatação universal: olhando metodicamente para o cotidiano, toda mãe logo conclui que ter filhos exige um esforço descomunal de sobrevivência, e é nesse vão formado entre a recompensa e o sacrifício materno que Tully deposita suas maiores questões e reflexões.

Propôr um olhar para o extremo oposto de situações clássicas é algo que Diablo Cody sempre fez muito bem. Façamos uma breve retrospectiva: em Juno, a garota que engravida está longe de ser a mais popular da escola, bem como o seu namorado desengonçado; em Jovens Adultos, o mulherão que todos julgam ser requisitada e bem sucedida é, na realidade, uma pessoa incrivelmente frustrada tanto na profissão quanto no plano afetivo; e, agora, em Tully, uma mãe ama cada um de seus três filhos, mas já não tem mais brilho nos olhos e deixa estampar, no rosto e no corpo, o peso diário de uma maternidade caótica. E é perfeito que esse novo roteiro de Diablo tenha ficado mais uma vez sob a responsabilidade de Jason Reitman, outro profissional dedicado a relatos sobre pessoas e sentimentos facilmente identificáveis, mesmo quando eles são sobre um homem riquíssimo que vive a vida de aeroporto em aeroporto pelos Estados Unidos (Amor Sem Escalas) ou sobre uma mulher que, sequestrada junto ao filho, desenvolve uma relação no mínimo atípica com seu sequestrador (Refém da Paixão).

A união do olhar apurado dessa dupla potencializa um texto que toca em outras questões que ultrapassam o plano da identificação com o universo feminino e maternal: em determinado ponto, Tully convida o espectador a refletir sobre como passamos por certas transições sem de fato notá-las, quando só mais tarde, com um misto de pesar, nostalgia e compreensão, chegamos à conclusão que, apesar dos pesares, a vida não ofereceu outra opção a não ser aceitar uma série de desprendimentos para encarar as inevitáveis trocas de papeis que precisamos fazer. Sem discursos manjados ou expositivos, Tully, enfim, percorre esse imenso mundo intimista refletindo sobre as alternativas que criamos para sobreviver e ir em frente, mesmo quando elas soam mais perigosas e capazes de colocar em xeque a nossa identidade do que estamos dispostos a admitir.

Tully, que talvez seja mesmo o melhor roteiro escrito por Diablo Cody até aqui, é minucioso ao extrair de momentos cotidianos a força de seu drama: em uma cena que claramente faz referência à sequência de Amor Sem Escalas onde o personagem de George Clooney prepara a sua mala de viagem uma centena de vezes entre um aeroporto e outro, o filme traduz todo o turbilhão que se instala em uma casa quando chega um recém-nascido (o choro, as fraldas limpas, as fraldas sujas, o peito para mamar, o banho, o acordar, o despertar, a atenção vigilante mesmo à noite). E Charlize Theron, que vem colecionando grandes desempenhos nos últimos anos (Monster – Desejo Assassino, Jovens Adultos, Mad Max: Estrada da Fúria), adiciona mais um à lista, pois sua Marlo é bastante complexa tanto por dentro como por fora, o que exige da atriz uma entrega que ultrapassa a transformação física (ela engordou 22 kg para o papel) e vai fundo nas camadas emocionais de uma protagonista cuja exaustão física e existencial se percebe em cada expressão, palavra e movimento.

Eventualmente, certos detalhes do roteiro de Tully parecem deixar furos pelo caminho (e prefiro não pontuá-los para não estragar a surpresa do que virá pela frente). É também estranha, para não dizer um pouco desconexa com o filme, uma determinada situação envolvendo a protagonista, a recém-contratada babá e o marido. Entretanto, a sensação de estranhamento com idealizações e supostos desvios de roteiro se dissipam ao fim, quando Diablo reserva uma pequena reviravolta que esclarece toda e qualquer interrogação sugerida durante o desenrolar da história. A surpresa vem para promover não a reviravolta pela reviravolta, mas para intensificar questões discutidas ao longo do filme, deixando uma sensação agridoce que permeia qualquer lembrança relacionada a esse pequeno grande filme, mas que, parando para pensar, pode ser exatamente a mesma que temos em relação à vida e ao que ela exige de todos nós.

“As Boas Maneiras”: formação humana e familiar em noite de lua cheia

Você gosta de criança?

Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra

Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Felipe Kenji, Andrea Marquee

Brasil, 2018, Drama/Terror, 135 minutos

Sinopse: ​Clara (Isabél Zuaa), enfermeira solitária da periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana (Marjorie Estiano) como babá de seu futuro filho. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.​ (Adoro Cinema)

Se você precisa categorizar As Boas Maneiras, a escolha mais óbvia seria dizer que essa é uma obra de terror. No entanto, assim como tudo na carreira da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, tal classificação só tende a simplificar a riqueza cinematográfica de seus trabalhos e dos importantes temas que ambos costumam tratar tanto nos longas que dirigem juntos (Trabalhar Cansa) quanto nos que comandam individualmente (Sinfonia da NecrópoleO Silêncio do Céu). As Boas Maneiras confirma a regra: por ter uma atmosfera de suspense fantástico, o longa é predominantemente interpretado pelo público a partir dessa perspectiva, quando, na verdade, ganha diferentes dimensões ao fazer com que a trama oscile, com extrema fluidez e versatilidade, entre momentos de mistério, drama e romance, sendo alguns deles, inclusive, pontuados por sequências musicais! Tanto frescor e desapego aos padrões fazem de Rojas e Dutra dois dos mais talentosos e instigantes realizadores de sua geração. E, para quem se propor a conferir As Boas Maneiras, outras tantas surpresas chegam com esse longa que, na última edição do Festival do Rio, faturou as categorias de melhor filme, atriz coadjuvante (Marjorie Estiano) e fotografia.

Assim como os melhores relatos de terror, As Boas Maneiras usa elementos do gênero para falar sobre questões muito mais amplas e não têm nada de irrealistas. Se é difícil falar sobre o filme sem entregar elementos cruciais de sua narrativa, o que talvez baste saber é algo que os próprios diretores defendem sobre a história: ela é, em suma, sobre a formação de uma família. Nada mais justo para o mundo atual, onde redefinimos constantemente conceitos ao mesmo tempo em que nadamos contra uma corrente conservadora e elitista que defende o modelo tradicional de todo tipo de relação. As Boas Maneiras é também uma resposta direta a esse público, cujo repúdio extrapola o âmbito familiar, transformando o fato de ser “diferente” em um ato de resistência. E, por isso, As Boas Maneiras pode muito bem se configurar como um relato político, pois defende, através da alegoria, uma causa importantíssima e contemporânea que ganha leitura nas camadas de duas protagonistas opostas em quase todos os aspectos, começando pela cor da pele até a posição social em que ambas se encontram. 

Após um acontecimento que modifica por completo a sua história, As Boas Maneiras passa a concentrar sua discussão em um outro personagem. Essa quebra, contudo, não representa uma fragilidade. Muito pelo contrário, já que, na medida em que se encaminha para o desfecho, o longa potencializa a sua encenação, agora com um outro viés, sobre o que realmente define as relações humanas. Para tanto, todos os personagens de As Boas Maneiras se justificam em cena, uma vez que Dutra e Rojas, também autores do roteiro, definem muito bem a personalidade de cada um deles. Ainda que deixem para o espectador a tarefa de imaginar elementos que embasam determinados pontos dramáticos, isso surge mais como mérito do que como problema, já que as incógnitas contribuem diretamente para a atmosfera tensa que se instala já no primeiro e desconfortável encontro entre uma babá e a sua futura patroa. Seja no mistério ou na essência familiar, o projeto enaltece Isabél Zuaa, uma atriz forte e que se transforma durante o desenrolar da história, sempre muito bem acompanhada por Marjorie Estiano, pelo garotinho Miguel Lobo (um pequeno furacão!), pela “cantriz” Cida Moreira e por Andrea Marquee. É um elenco de peso, com a cara e o talento de um país que, apesar de tantas mazelas, segue se empoderando e se democratizando na tela do cinema graças a filmes como As Boas Maneiras

Rapidamente: “Maze Runner: A Cura Mortal”, “Perfeita é a Mãe 2”, “Roman J. Israel” e “Todas as Razões Para Esquecer”

Johnny Massaro em Todas as Razões Para Esquecer: filme trata com leveza e bom humor o término de um relacionamento a partir do ponto de vista masculino.

MAZE RUNNER: A CURA MORTAL (Maze Runner: The Death Cure, 2018, de Wes Ball): Sempre gostei de Maze Runner por sua total falta de pretensão em meio a uma enxurrada de franquias infanto-juvenis baseadas em bestseller como Jogos VorazesDivergente. A trilogia comandada pelo diretor Wes Ball nunca quis ser mais do que um eficiente entretenimento, e esse senso de diversão tem seu ponto alto no capítulo derradeiro chamada A Cura Mortal, que, infelizmente, chegou aos cinemas com uma tremenda falta de timing (o protagonista se machucou durante as gravações, atrasando um ano todo o cronograma de finalização e divulgação do filme). O desfecho não merecia mais esse golpe em termos de repercussão (Maze Runner, por alguma razão, nunca chegou a se tornar um verdadeiro hit) porque a trama, ainda que trabalhada em soluções fáceis demais, tem um pique admirável ao conduzir cenas de ação que, pelo realismo e pelo uso mínimo de efeitos digitais, fazem o espectador sentir o perigo e a adrenalina muito mais do que em em outros longas recentes do mesmo estilo. A Cura Mortal, assim como os capítulos anteriores de Maze Runner, tem pouco a dizer dramaticamente (uma prejudicada nesse sentido é Patricia Clarkson, cujo maior destaque ao longo da franquia foi uma esquecível reviravolta), mas será que não é um tanto injusto cobrar do projeto algo que ele próprio nunca prometeu?

PERFEITA É A MÃE 2 (A Bad Moms Christmas, 2017, de Jon Lucas e Scott Moore): Subestimado, o primeiro filme de Perfeita é a Mãe! trazia um elenco feminino de excelente timing cômico em uma história que, a partir de um tom de comédia mais popular, questionava os papeis impostos às mulheres, especialmente às mães, em um mundo onde o conceito de perfeição tem sido cada vez mais desconstruído e determinadas obrigações são felizmente questionadas. Aí imaginem a minha empolgação quando Christine Baranski e Susan Sarandon foram somadas ao time já formado por Mila Kunis, Kathryn Hahn e Kristin Bell para uma continuação. Porém, o entusiasmo termina quando o filme começa: além de antiquado na forma e com prazo de validade já estourado (comédias natalinas envolvendo confusões e desavenças familiares parecem cada vez mais experiências de décadas passadas), Perfeita é a Mãe 2 surpreende de forma negativa ao mudar a pegada do humor, agora predominantemente físico, sexual e gráfico. Dependendo do filme, situações com tapas, pontapés, drogas e ereções podem ter lá sua graça, mas aqui até o talentoso elenco surge pouco à vontade com um texto ralo e sem timing, que chega a comprometer atuações como as de Kathryn Hahn e Susan Sarandon. Previsível do início ao fim e em boa parte de mau gosto, Perfeita é a Mãe 2 é uma ressaca desnecessária.

ROMAN J. ISRAEL (Roman J. Israel, Esq., 2017, de Dan Gilroy): Os indicados ao Oscar 2018 foram anunciados em janeiro, mas ainda hoje tento entender as razões que levaram Denzel Washington a ser lembrado por um filme morno como Roman J. Israel. Denzel é sempre bom ator, mas, vindo de um desempenho intenso como o de Um Limite Entre Nós, sua presença aqui pouco impressiona. Em grande parte, há de se culpar o filme comandando por Dan Gilroy, cineasta que debutou com o visceral O Abutre, mas que, em Roman J. Israel, não preserva o mesmo talento e entusiasmo ao mais uma vez fazer um estudo de personagem. À parte a obra não ter ritmo ou criatividade, Gilroy, que também é autor do roteiro, não extrai complexidade de um protagonista desinteressante, cujas transformações ao longo da história também não são devidamente sentidas. Partindo do relato de um advogado mundano que, ao trocar de empresa, passa a enfrentar dilemas éticos, morais e profissionais ao ter que defender um homem acusado de homicídio, Roman J. Israel planta algumas promessas que acabam não se cumprindo, mas que, na medida do possível, são bem defendidas pelo desempenho sempre crível de Denzel Washington. Ainda assim, é pouco e inexpressivo para um diretor que, em seu filme anterior, já foi muito mais fundo e intenso em questões que, de certa maneira, também não deixam ser discutidas aqui.

TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER (idem, 2018, de Pedro Coutinho): Com o uso cada vez mais popular do termo white people problems, um longa como Todas as Razões Para Esquecer teria imensa dificuldade em ser levado a sério. Isso se o diretor Pedro Coutinho não contasse a história com leveza, contemporaneidade e um perceptível conhecimento acerca das consequências de um coração partido. Sem essas qualidades, o filme não passaria de um amontoado de situações rasas sobre um garoto branco, carioca e de classe média que trabalha em uma grande agência de publicidade e tenta superar um término de namoro entre um porre e outro. A obra em si não é necessariamente inventiva — filmes como Ela(500) Dias Com Ela, também sobre corações despedaçados, são referências óbvias inclusive na construção visual, e a tentativa de dar estofo dramático a personagens como a psicóloga vivida por Regina Braga não soam convincentes —, mas há uma certa despretensão na obra, que, ao invés de proferir filosofias ou se aprofundar em reflexões, olha para o vazio de uma geração confusa sentimentalmente tentando fazer com que ela, de alguma forma, possa se identificar com tudo aquilo, percebendo que, apesar das pedras no caminho, tudo fica bem, de um jeito ou de outro. E esse material, digamos, agridoce, ainda é certeiro para Johnny Massaro, que, após o ótimo desempenho em O Filme da Minha Vida, constrói, com versatilidade, as qualidades e defeitos de um personagem que, em teoria, sempre fica a um passo de se tornar caricato.