Cinema e Argumento

As cinco melhores séries de 2017

Com a trajetória ascendente das plataformas on demand, tem se tornado cada vez mais árdua a tarefa de escolher quais séries assistir ao longo do ano, pois há programas para todos os gostos, em todos os formatos com todos os tipos de atrativos. Claro que, em contramão, isso se assemelha aos tempos cada vez mais distantes em que perdíamos horas buscando algo realmente interessante para assistir nas centenas de canais disponibilizados pela TV a cabo, mas aí é questão de novamente aplicar os filtros corretos: afinal, o que não falta atualmente é opção boa entre as narrativas seriadas. E, para quem quiser tirar o atraso de 2017, resolvi selecionar as minhas cinco séries favoritas do ano, contemplando, em uma única lista, os dramas, as comédias e até as minisséries, formato que acertadamente se populariza com novo fôlego e prestígio em produções de altíssimo nível.

5º – OZARK (Netflix)

“Dinheiro é, em sua essência, a medida das nossas escolhas”.

A pior coisa que você pode fazer para Ozark é tentar igualá-la ao ícone Breaking Bad. Sim, os dois programas são sobre dois pais de família envolvidos em negócios escusos e que colocam vidas em perigo, mas, conforme comentei no texto sobre a primeira temporada, toda e qualquer semelhança termina por aí. Ozark tem personalidade própria, optando por renegar arcos clássicos de histórias dessa natureza, como a própria incursão gradativa do protagonista no mundo da ilegalidade, onde descobre possibilidades e aptidões até então camufladas. Quando Ozark começa, tudo isso já aconteceu. Desviando-se ainda da necessidade de apresentar algum tipo de catarse, o que é sempre muito cobrado pelo público, o seriado caminha com uma batida mais comedida, mas sem ser morno por conta disso. E o que dizer da coesão do elenco? Fora Jason Bateman e Laura Linney, que são ótimos protagonistas, existe Julia Garner, ótima como a jovem Ruth, um pequeno furacão que jamais passa despercebido quando está em cena.

4º – THE HANDMAID’S TALE (Hulu)

“Agora eu acordei para o mundo. Antes, estava adormecida. E foi assim que nós deixamos tudo acontecer. Nós não acordamos quando eles dilaceraram o Congresso. Nós não acordamos quando eles culparam os terroristas e suspenderam a Constituição. Nada muda de uma hora para outra. Em uma banheira que se aquece gradativamente, você seria cozinhada viva antes que pudesse perceber”.

Seria necessário um tipo muito especial de incompetência para fazer um programa como The Handmaid’s Tale dar errado, mas a verdade é que poucos conseguiriam conferir a essa adaptação do livro de Margaret Atwood tanta potência técnica e dramática. Assustadoramente atual, a série produzida pela Hulu – e que volta para uma segunda temporada em abril de 2018 – chega a causar extremo desconforto pela veracidade com que encena de forma ficcional as atrocidades cometidas contra as mulheres. Atrocidades que, na verdade, são mais comuns na vida real do que gostaríamos de constatar. Elisabeth Moss, em mais um desempenho poderoso, ganhou o seu tão aguardado Emmy de melhor atriz pelo trabalho realizado aqui, acompanhada da também premiada e sempre extraordinária Ann Dowd, impecável como a cruel tia Lydia, que intensifica a ditadura machista dessa distopia capturada com uma linguagem técnica lindíssima e inteligente, mas ao mesmo tempo profundamente aterradora em sua perspectiva dramática. 

3º – FEUD: BETTE AND JOAN (FX)

“Tudo dá certo no final, Joanie. Sabe, nós do mundo do entretenimento… Toda a raiva que sentimos por não sermos amados – que é o primeiro motivo pelo qual entramos nesse negócio – todas as lágrimas, os gritos, o ódio… Isso tudo desaparece. E o público, o que eles lembram, na maior parte do tempo, é das coisas boas, do trabalho e de toda a alegria que nós trouxemos a eles. Acredite. Todo o sofrimento terá valido a pena”.

Prato farto para os cinéfilos – como não se deliciar com as inúmeras referências registradas a cada episódio? -, Feud: Bette and Joan, por outro lado, prefere não se limitar a um relato estritamente de nicho. O que esse primeiro capítulo da antologia criada pelo prolífero Ryan Murphy quer é trazer uma perspectiva humana e ampla ao universo feminino a partir do envelhecimento, com foco na indústria Hollywoodiana, onde as mulheres historicamente precisam batalhar dia a dia para conquistar o mínimo de respeito e reconhecimento. Jessica Lange e Susan Sarandon são um arraso como Joan Crawford e Bette Davis, fortalecendo um contraste difícil de antever: se a história começa como um relato divertido sobre o embate entre duas estrelas, logo Feud: Bette and Joan questiona o porquê de tanto fascínio com a disputa para, ao final, entregar o desfecho mais desolador do ano. Não é sempre que equilíbrio entre reflexão e entretenimento se mostram tão afiados em minisséries.

2º – THE YOUNG POPE (Sky/HBO/Canal+)

“Renunciei o homem em mim porque não quero sofrer ou ter que suportar o coração que o amor quebra. Seria maravilhoso amá-la do jeito que você quer que eu a ame, mas eu não sou um homem. Sou um covarde. Assim como todos os padres”.

É bem provável que você não tenha ouvido falar em The Young Pope, uma produção de alto requinte dirigida pelo prestigiado cineasta italiano Paolo Sorrentino, mas faça a sua parte e ajude a compensar o descaso da mídia e dos prêmios ao dar uma chance para essa primeira temporada de oito episódios (um segundo ano já foi confirmado, mas talvez a história e os personagens sejam outros). Nela, Jude Law tem, com folga, o melhor desempenho de sua carreira como o fictício Pio XIII, o primeiro papa norte-americano e o pontífice mais jovem da história do Vaticano. Ele é um sujeito complexo, evocando, logo de cara, a ideia que juventude pode não trazer qualquer garantia de inovação, nem mesmo na igreja católica. Com profundidade e acidez, The Young Pope contempla as mais diversas facetas da fé e do catolicismo, inclusive e especialmente as suas incongruências. É programa de consistência invejável e encenada por um elenco de primeiríssima qualidade, além de não se assemelhar a nada que você já tenha visto na TV (ou nas plataformas on demand).

1º – THE LEFTOVERS (HBO)

“Ela já desconfiava, mas agora sabia sabia que ele era um covarde. Um covarde com uniforme de homem valente. Valente para cruzar dois oceanos e um continente para achá-la e lutar contra inúmeros inimigos, mas, ao final, descobrir que ficou com muito medo. Medo de se deitar ao lado dela, de ser consolado enquanto chorava, de mostrar o quão pequeno ele era, de compreender tudo isso quando ela tocasse o seu rosto e sussurrasse palavras em seu ouvido. Era um pesadelo, e só o que ele sabia fazer era fugir. Respirou fundo, sentiu o gosto do sal na língua e fechou os olhos, enquanto o barco Misterioso acelerava em direção ao horizonte. Ele estava sozinho. E tudo estava bem”

Seguindo a linha do descaso, como não falar sobre The Leftovers, uma série reconhecida apenas pela crítica ao longo de suas três brilhantes temporadas? Mais do que o programa do ano, o drama criado pela dupla Damon Lindelof e Tom Perrotta para a HBO, com base no livro homônimo de Perrotta, é inquestionavelmente um dos mais marcantes desse início de século. Partindo do desaparecimento inexplicável de 3% da população mundial, The Leftovers registra o que acontece com as pessoas que precisam lidar com a imensa interrogação que é sofrer uma perda sem saber a sua real razão. É com esse assombro que os personagens tentam (ou não) continuar suas vidas: enquanto uns apenas esperam com convicção o retorno dos que partiram, outros buscam incansavelmente – através da ciência, da fé ou do quer que seja – uma forma de reencontrá-los.

O seriado tem drama, suspense, bastante imaginação, interpretações superlativas, humor e ruptura com qualquer convencionalidade ou com o que as narrativas seriadas já pré-estabelecem como parâmetro aos espectadores. Em sua terceira e última temporada, The Leftovers seguiu arrebatando na técnica (boa parte das imagens mais lindas desse ano você encontra aqui) e, mais importante de tudo, manteve-se atenta à precisão de sua história: aqui, o ciclo da série se encerra talvez não dando as respostas que tanto procurávamos no início da série, mas sim aquelas que descobrimos, ao longo da trama, serem as mais importantes e necessárias sob a perspectiva dramática. O tempo deve fazer justiça ao universo poderoso que The Leftovers apresentou durante três anos breves, mas  indiscutivelmente inesquecíveis.

Três atores, três filmes… com Tanira Lebedeff

Credenciais não faltam para a minha colega jornalista Tanira Lebedeff, que tenho o prazer de ter como convidada aqui na coluna. Ela, que já ganhou o Candango de melhor roteiro no Festival de Brasília pelo curta-metragem A Vida do Outro, viveu oportunidades de ouro em sua carreira como jornalista, entre elas a de ser correspondente da Globo News em Los Angeles durante a época do Oscar! Aliás, fica a dica: Tanira conta um pouco de seus bastidores em reportagens e de seus diários de viagens de produção no livro A Velhinha Que Entrevistou George Clooney, lançado pela editora Catarse, em 2016. Hoje, ela compartilha toda a sua experiência como repórter com os futuros jornalistas do mercado ao integrar o corpo docente da ESPM Sul. Além de ser uma querida, Tanira traz ao blog escolhas indefectíveis, de intérpretes talentosíssimos, incluindo Vladimir Brichta, que vem se revelando há anos, mas que tem, em Bingo – O Rei das Manhãs, um momento realmente especial. O resto eu deixo para ela contar nos comentários abaixo!

Frances McDormand (Fargo – Uma Comédia de Erros)
Nessa comédia de erros – aliás, subtítulo que o filme ganhou no Brasil – Frances McDormand é uma policial gravidíssima investigando uma série de assassinatos desencadeados pelo plano muito infeliz do vendedor de automóveis vivido por William H. Macy. Com uma personalidade simples e um sotaque carregado, típicos de uma pequena cidade interiorana, não seria improvável duvidar de sua capacidade de desvendar um crime. Mas Marge Gunderson é astuta, determinada, não se intimida nem por bandidos brutamontes, nem pelo peso da barriga ou pela neve que em certas ocasiões é praticamente coadjuvante do filme. A policial Marge Gunderson rendeu a Frances McDormand o Oscar de Melhor Atriz em 1997. Ela foi ovacionada ao subir palco para receber estatueta imitando o caminhar desengonçado da personagem. Um clássico que merece ser revisto (inspirou série na TV americana), Fargo foi dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen. Frances é casada com Joel e trabalhou com a dupla em vários filmes, incluindo Queime Depois de Ler, em que tira uma lasquinha de George Clooney e inventa uma intriga internacional para financiar uma cirurgia plástica. Outra atuação primorosa numa obra tão imprevisível quanto Fargo.

Viggo Mortensen (em qualquer filme)
Sim, para mim seu nome nos créditos é atestado de qualidade da obra. O entrevistei numa coletiva quando era correspondente em Los Angeles. Viggo, um gentleman, nos presenteou com seus livros de fotografia e escreveu um agradecimento no idioma de cada um dos jornalistas. Naqueles tempos de protestos contra as guerras no Iraque e no Afeganistão era comum vê-lo nas ruas de Los Angeles entre os manifestantes. Tudo isso transcende a tela e deixa Viggo e seus personagens ainda mais instigantes e encantadores. Aragorn, por exemplo, é o motor da trilogia Senhor dos Anéis, a personificação da nobreza. Mais recentemente Viggo encarnou o teimoso Capitão Fantástico, que conduz sua filharada hippie num road movie rumo à realidade de uma vida convencional. Mas como tenho que indicar um filme… Escolho Senhores do Crime, de David Cronenberg. Nele Viggo Mortensen é Nikolai Luzhin (SPOILER!), um agente secreto resignado que entrega sua existência para investigar a máfia russa em Londres. A cena de luta na sauna é uma das melhores de ação que já vi.

Vladimir Brichta (Bingo – O Rei das Manhãs)
O reino do politicamente incorreto tem um soberano incontestável: o Bingo de Vladimir Brichta. Inspirado na vida surreal de Arlindo Barreto, um dos atores que viveram o palhaço Bozo na TV, o filme tem altas doses de humor, drama e escracho. Vamos do ápice do sucesso ao fundo da garrafa em que o Augusto de Brichta mergulha por não poder mostrar a cara – afinal quem tem que fazer sucesso é o palhaço, não o ator. Bingo é recheado de sexo, drogas e o bom rock n’roll dos anos 80, tem fotografia e uma produção cênica primorosas. Mas quem rouba o picadeiro é Vladimir Brichta, com uma atuação intensa e honesta, sem exageros. Brichta, que era uma das pérolas no elenco da série televisiva em que trocava tapas e beijos com Fernanda Torres, ganhou um baita presente com esse filme. E honra cada palavra do roteiro (SPOILER! a participação de Domingos Montagner, como o palhaço que foi, beira o sobrenatural.)  E o melhor da piada: num ano em que arte e cultura viraram saco de pancadas, Bingo, The King of Mornings foi a produção indicada para representar o Brasil no Oscar de 2018. Bravo!

Extraordinário

Because I’m your mom, it counts the most.

Direção: Stephen Chbosky

Roteiro: Jack Thorne, Stephen Chbosky e Steve Conrad, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio

Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Mandy Patinkin, Danielle Rose Russell, Bryce Gheisar, Elle McKinnon, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Millie Davis

Wonder, EUA/Hong Kong, 2017, Drama, 113 minutos

Sinopse: Auggie Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto que nasceu com uma deformação facial, o que fez com que passasse por 27 cirurgias plásticas. Aos 10 anos, ele pela primeira vez frequentará uma escola regular, como qualquer outra criança. Lá, precisa lidar com a sensação constante de ser sempre observado e avaliado por todos à sua volta. (Adoro Cinema)

Desde que nasceu com uma deformação facial, o pequeno Auggie Pullman (Jacob Tremblay) passou por mais de 20 cirurgias plásticas. Os procedimentos repararam vários de seus sentidos prejudicados, como a visão e a audição, mas jamais lhe conferiram qualquer estética aceitável aos olhos da sociedade. Por isso, se o nosso rosto é o registro mais explícito de tudo aquilo que já vivemos através dos anos, Auggie, com apenas dez, tem história até demais para exibir ao mundo e principalmente ao amedrontador universo escolar que agora lhe aguarda. Eis a verdadeira tragédia que impulsiona a emoção de Extraordinário: não a deformidade física, e sim o fato de um garoto tão jovem e doce precisar compreender, logo cedo na vida, que nem sempre as pessoas conseguem ser generosas com aquilo que consideram remotamente “diferente”.

Sucesso estrondoso de bilheteria nos Estados Unidos, Extraordinário deve repetir sua trajetória bem sucedida com as plateias do Brasil e de todos os cantos do mundo, pontuando mais um grande êxito na carreira do diretor Stephen Chbosky, que, em 2012, escreveu e dirigiu o adorado As Vantagens de Ser Invisível. O efeito é semelhante: tanto Extraordinário quanto As Vantagens de Ser Invisível foram abraçados por público e crítica, mas o diálogo entre os dois filmes é muito mais interessante no sentido de tentar entender o porquê de ambos conseguirem juntar com tanta facilidade dois públicos normalmente distintos. Afinal, como adaptar com excelência um best seller emotivo, motivacional, mais palatável e de viés comercial de modo que ele também agrade uma plateia à espera de narrativas acima da média?

Entre tantos aspectos, é preciso, claro, procurar diferentes ângulos daquilo que já conhecemos. É o que faz Extraordinário, que, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio, coloca outros personagens no centro da narrativa para levantar diferentes percepções quanto ao protagonista, como a da irmã mais velha, que nunca teve qualquer protagonismo em casa frente aos tantos cuidados físicos e emocionais com o caçula, ou a do colega de escola que, aos poucos, passa a compreender Auggie a ponto de se tornar seu melhor amigo. Dessa forma, Extraordinário deixa de ser um monólogo de seu protagonista para se tornar um filme que, sim, sempre converge para sua discussão central, mas a partir de múltiplos caminhos. Essa estrutura traz dinâmica e curiosidade para um relato que que poderia apenas se acomodar nas difíceis circunstâncias de um personagem dramático por si só.  

Chbosky, que escreve a adaptação ao lado de Jack Thorne e Steve Conrad, traça um paralelo estimulante em Extraordinário: de um lado, toda a graça de uma infância cercada de imaginação (Auggie é fã de Star Wars e encontra conforto ao sonhar que é popular na escola por levar o icônico Chewbacca ao pátio da escola!); de outro, a dura realidade de uma sociedade que, quando não comete bullying, dificilmente esconde o olhar torto e assustado para um garoto que, lá no fundo, todos preferem que tome certa distância. Chbosky cumpre os rituais para um filme de natureza assumidamente comercial (há, claro, a trilha do brasileiro Marcelo Zarvos para sublinhar emoções e eventos que surgem apenas para estender um pouquinho mais as lágrimas), mas a leveza e a tristeza são muito bem comandadas por uma direção graciosa e que, no geral, está atenta ao quanto deve açucarar a jornada emocional do longa.

Com o carisma do elenco, ainda há como incrementar o resultado: compensando o fato do talentoso Jacob Tremblay (lembram como ele era magnífico em O Quarto de Jack?) estar embaixo de uma pesada maquiagem que praticamente impossibilita uma composição mais minuciosa do ator, todo o elenco de suporte é consistente em talento, de Julia Roberts, uma atriz que gosto demais em papéis dramáticos, a outros jovens atores, como Noah Jupe, que interpreta o amigo Jack Will, e Izabela Vidovic, que dá vida à irmã de Auggie. Misturando drama e otimismo (uma combinação praticamente infalível para obras dessa natureza), Extraordinário revela mais do que um sucesso de bilheteria que remonta à boa e velha definição do filme-família: tomando certa perspectiva, é mais do que clara a consolidação de um cineasta que tem tudo para consolidar uma carreira com filmes populares e, de quebra, ainda comover novas plateias.

Rapidamente: “De Canção em Canção”, “Escravos do Desejo”, “A Vingança Está na Moda” e “Your Name”

Bette Davis e Leslie Howard em Escravos do Desejo: o filme foi produzido na década de 1930, mas a composição da história segue transgressora mesmo após oito décadas.

DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song, 2017, de Terrence Malick): Recentemente o diretor italiano Luca Guadagnino (Um Sonho de AmorUm Mergulho no Passado) alfinetou o cinema do canadense Xavier Dolan com certa razão: Guadagnino diz ter problemas com Dolan porque não acredita que um cineasta possa exercitar a criação artística lançando filmes anualmente, sem reservar uma temporada na agenda para o amadurecimento de ideias. O comentário também poderia ser aplicado à carreira recente de Terrence Malick, um diretor que já chegou a ficar 20 anos sem filmar e que hoje dá indícios de dirigir por encomenda. Só isso para explicar a série de longas genéricos e redundantes lançados por ele desde A Árvore da Vida. Olhando em retrospecto, é fácil constatar que Amor PlenoCavaleiro de Copas e esse mais recente De Canção em Canção são obras viciadas na fórmula de A Árvore da Vida. A câmera gira, atravessa paisagens, captura o pôr-do-sol e gruda na caminhada de personagens que falam frases soltas, se encaram e vagam pelo nada sem chegar a lugar algum. De Canção em Canção poderia ser um filme lindíssimo sobre a beleza e a tragédia dos relacionamentos humanos, em especial os amorosos, tão intensos, reveladores, desnorteantes, sufocantes e finitos. Ao invés disso, o filme parece não ter fim por repetir maneirismos de forma incansável, deixando de dar qualquer profundidade a personagens que, defendidos dentro do possível por um elenco de alto nível (Rooney Mara! Michael Fassbender! Ryan Gosling! Natalie Portman! Cate Blanchett!), inspiram mais tédio e inércia do que qualquer outra coisa. Um período de férias não faria mal ao diretor.

ESCRAVOS DO DESEJO (Of Human Bondage, 1934, de John Cromwell): Reza a lenda que Bette Davis, uma atriz ainda desconhecida no início dos anos 1930, quis fervorosamente protagonizar Escravos do Desejo porque pressentia que esse papel lhe daria o tão esperado estrelado em Hollywood. Bette, que foi também visionária em tantos outros pontos posteriores de sua carreira, já fazia a aposta certa desde o princípio, pois, além de trazer a sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, Escravos do Desejo já representava muito bem o tipo de cinema e de papel que eternizariam essa prestigiada intérprete norte-americana. Por mais que tenha problemas em regular a intensidade e, por que não, a verossimilhança de tantos fatos e reviravoltas em pouco mais de 80 minutos, o filme surpreende pela coragem com que trata representações que, ainda hoje, são tão delicadas para a indústria, como a da mulher, que, aqui, mesmo vista sob a luz da vilania, faz o que bem entende, além de rejeitar qualquer padrão que a sociedade queira lhe impor. Ainda em 2017, é raríssimo encontrar relatos onde o homem corra atrás de uma mulher que lhe é indiferente, invertendo a clpassica fórmula perpetuada por Hollywood ao longo de sua História. Com uma performance realmente reveladora de Bette Davis, interpretando uma das megeras menos conhecidas de sua carreira, Escravos do Desejo segura o interesse do espectador ao tornar imprevisível cada ação da protagonista, uma mulher cuja trajetória jamais se rende ao moralismo da redenção, reforçando a ideia de que Escravos do Desejo foi e ainda é uma obra transgressora.  

A VINGANÇA ESTÁ NA MODA (The Dressmaker, 2015, de Jocelyn Moorhouse): Trazendo o roteiro mais dispersivo e desorganizado da carreira de P.J. Hogan (O Casamento do Meu Melhor AmigoO Casamento de MurielOs Delírios de Consumo de Becky Bloom), A Vingança Está na Moda é uma produção australiana que beira o irritante pela quantidade de indecisões que guiam tanto os rumos da história quanto o próprio tom escolhido pela diretora Jocelyn Moorhose, que não tem qualquer destreza para regular a mistura entre drama e comédia de uma história que não diverte na comédia nem no drama. Kate Winslet até consegue causar certa graça ao desfilar lindamente pela cidade do interior que abandonara anos atrás e que agora volta a ser seu lar, mas o roteiro não molda com clareza a personalidade de uma protagonista repleta de incógnitas. Tudo é abrupto, apressado, mal explicado e, acima de tudo, sem objetivo definido. A Vingança Está na Moda atira para todos os lados e se perde em meio a tantos personagens coadjuvantes que, de vez em quando, ganham inexplicável espaço na trama. Pode até ser que o romance homônimo escrito por Rosalie Ham no qual o longa se baseia também queira se esquivar do clássico arco dramático da protagonista que, após anos, volta para a cidade natal para enfrentar fantasmas do passado, mas a recusa ao óbvio se perde ainda mais na direção: Moorhouse não tem talento desenvoltura para brincar com caricaturas e muito menos delicadeza para fazer a sempre tão refinada alquimia entre o riso e o choro, o que termina comprometendo ainda mais a adaptação já dispersiva.

YOUR NAME (Kimi No Na Wa, 2016, de Makoto Shinkai): Sucesso avassalador no Japão, onde se tornou a maior bilheteria da história do país para uma animação, superando o clássico A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyazaki, Your Name faz por merecer tanto badalo: em qualquer recorte de tempo ou espaço, esse filme assinado por Makoto Shinkai seria mesmo uma revelação por toda a sua criatividade. As linhas gerais da sinopse não fazem justiça à obra (dois jovens que passam a trocar de corpos de forma esporádica e sem razão aparente), o que não deve ser motivo de desânimo. É questão de pouco tempo de projeção para que Your Name comece a surpreender com uma narrativa intrincada, surpreendente e gradativamente emotiva. Durante boa parte da história o filme se garante com a comédia, com o carisma dos personagens e com uma trilha sonora irresistível, mas é quando começa a revelar suas artimanhas que a animação ganha uma perspectiva ainda mais interessante. Dificilmente uma experiência para os pequenos (além da trama não-linear que, pouco a pouco, demanda total atenção do espectador, há de se considerar todo o detalhamento da cultura japonesa, tão essencial para o encaixe das peças do quebra-cabeça), Your Name tem um pique invejável e consegue um feito cada vez mais raro, inclusive para filmes com pessoas de carne e osso: o de surpreender a todo momento e de sempre estar muito à frente do espectador, jamais permitindo que ele anteveja suas resoluções. Imperdível!

A Guerra dos Sexos

I’m done talking. Let’s play.

Direção: Valerie Faris e Jonathan Dayton

Roteiro: Simon Beaufoy

Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Sarah Silverman, Andrea Riseborough, Bill Pullman, Alan Cumming, Elisabeth Shue, Eric Christian Olsen, Fred Armisen, Martha MacIsaac, Lauren Kline, Mickey Sumner

Battle of the Sexes, EUA/Reino Unido, 2017, Drama/Comédia, 121 minutos

Sinopse: Uma disputa de tênis entre o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell) e a líder da classificação mundial Billie Jean King (Emma Stone) se torna centro de um debate global sobre igualdade de gêneros. Presos sob a atenção da mídia e com ideologias diferentes, Riggs tenta reviver as glórias do passado, enquanto King questiona sua sexualidade e luta pelos direitos das mulheres. (Adoro Cinema)

Com uma grande dose de incredulidade, conferi A Guerra dos Sexos percebendo que, mesmo ambientado em meados da década de 1970, esse é um filme lamentavelmente atual. E é por isso que não deixa de ser estranho que o filme assinado por Valerie Farris e Jonathan Dayton, do icônico Pequena Miss Sunshine, tenha repercutido de forma tão morna tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil. Aliás, mais do que por suas questões temáticas, essa é uma injustiça também com as qualidades do filme em si, que, contado através de uma narrativa assumidamente tradicional, consegue se esmerar no formato com graça, inteligência e discussões dramáticas cercadas de sutilezas.

Encenando a história verídica de Billie Jean King (Emma Stone), tenista que lutou pela igualdade de gênero no esporte, participando, inclusive, de uma partida emblemática com o veterano Bobby Riggs (Steve Carell) que levou os Estados Unidos à loucura, A Guerra dos Sexos chega a ser inacreditável quando mostra a quantidade cavalar de ofensas direcionadas às mulheres não apenas no cotidiano esportivo, mas também em plena rede nacional, onde comentaristas do segmento afirmavam que o sexo feminino é inferior ao masculino simplesmente pela natureza menos resistente de seus portes físicos. Das piadas danosas aos comentários grosseiros, mulheres só eram vistas como pessoas relevantes no quarto ou na cozinha, o que, convenhamos, dependendo das circunstâncias, não é muito diferente nos dias de hoje.

Do ponto de vista cômico e dramático, esse embate efervescente seria a primeira escolha como a linha de condução da história, mas A Guerra dos Sexos coloca os protagonistas em rota de colisão apenas no terço final para antes contar de forma paralela a trajetória individual de duas pessoas indiscutivelmente diferentes, mas semelhantes na essência. Afinal, tanto Billie quanto Bobby encaravam o esporte como uma alternativa para suas frustradas realidades: enquanto ela mantinha um casamento de fachada ao mesmo tempo em que não conseguia viver sua homossexualidade em tempos conservadores, ele era um desocupado que, agarrado a um passado de glória já distante, lidava com o fato de ser um apostador compulsivo sem jamais reconhecer o  problema.

A partir de um recorte específico, A Guerra dos Sexos se dedica muito mais à perspectiva de Billie, escolha que, uma vez ou outra, traz certas barrigas para o filme como um todo (seu romance com a cabeleireira toma tempo demais, quase tornando a história um relato sobre identidade sexual), mas que, no geral, é um grande acerto para dimensionar as dificuldades femininas em ambientes machistas. E se A Guerra dos Sexos não deixa de, em determinados momentos, apresentar discursos prontos, ao menos o faz com firmeza e bom humor, estando do lado mais interessante de uma trincheira cuja batalha principal, ao final do filme, será capaz de fazer com que o mais machão dos homens, de repente, também esteja torcendo pela vitória de uma protagonista feminina reprimida por suas escolhas, por sua natureza e por seu próprio sexo.

Emma Stone, que aqui está tão boa, se não até melhor, do que em La La Land: Cantando Estações, defende a personagem com admirável firmeza, sem cair em estereótipos ou no puritanismo de intérpretes que, por melhores que sejam, encarnam papeis gays com certa distância. Ela mergulha de cabeça: o primeiro encontro da personagem com sua futura paixão é capturado com delicadeza tanto pela atriz quanto pela dupla de diretores, ao passo em que o primeiro beijo lésbico da personagem é carregado com todo o medo e a aventura de uma importante descoberta como essa. Já Carell, que sempre foi um grande ator na TV com The Office e no cinema com A Grande ApostaFoxcatcher, citando dois títulos mais recentes, toma uma decisão sábia: ao invés de vilanizar Bobby Riggs, ele simplesmente o retrata como um homem demente e vulnerável, já que, ao final do dia, depois de tantas ofensas proferidas às mulheres, ele não conseguia viver sem o conforto emocional e financeiro de uma esposa que, ironicamente, mandava na casa.

Além da direção certeira de Farris e Dayton, que, pela primeira vez são creditados na tela com os nomes invertidos desde sua estreia em Pequena Miss Sunshine, há de se reconhecer o bom trabalho do roteiro assinado por Simon Beaufoy, de Quem Quer Ser Um Milionário? e de Em Chamas (o melhor capítulo da saga Jogos Vorazes), ao criar um texto que, mesmo linear e pouco surpreendente na forma, condensa um tema importante sem fazer com que a questão temática sintetize o filme em si (algo que já discuti, por exemplo, no texto de As Sufragistas, uma obra lembrada pela discussão que levanta e não por seus méritos cinematográficos). As bilheterias e as recepções mornas dizem o contrário, mas no que me toca, A Guerra dos Sexos, na medida do possível e de suas dimensões, tem uma receita bastante consistente para agradar ao público de biografias e dramédias bem contadas.