Rapidamente: “De Canção em Canção”, “Escravos do Desejo”, “A Vingança Está na Moda” e “Your Name”

Bette Davis e Leslie Howard em Escravos do Desejo: o filme foi produzido na década de 1930, mas a composição da história segue transgressora mesmo após oito décadas.

DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song, 2017, de Terrence Malick): Recentemente o diretor italiano Luca Guadagnino (Um Sonho de AmorUm Mergulho no Passado) alfinetou o cinema do canadense Xavier Dolan com certa razão: Guadagnino diz ter problemas com Dolan porque não acredita que um cineasta possa exercitar a criação artística lançando filmes anualmente, sem reservar uma temporada na agenda para o amadurecimento de ideias. O comentário também poderia ser aplicado à carreira recente de Terrence Malick, um diretor que já chegou a ficar 20 anos sem filmar e que hoje dá indícios de dirigir por encomenda. Só isso para explicar a série de longas genéricos e redundantes lançados por ele desde A Árvore da Vida. Olhando em retrospecto, é fácil constatar que Amor PlenoCavaleiro de Copas e esse mais recente De Canção em Canção são obras viciadas na fórmula de A Árvore da Vida. A câmera gira, atravessa paisagens, captura o pôr-do-sol e gruda na caminhada de personagens que falam frases soltas, se encaram e vagam pelo nada sem chegar a lugar algum. De Canção em Canção poderia ser um filme lindíssimo sobre a beleza e a tragédia dos relacionamentos humanos, em especial os amorosos, tão intensos, reveladores, desnorteantes, sufocantes e finitos. Ao invés disso, o filme parece não ter fim por repetir maneirismos de forma incansável, deixando de dar qualquer profundidade a personagens que, defendidos dentro do possível por um elenco de alto nível (Rooney Mara! Michael Fassbender! Ryan Gosling! Natalie Portman! Cate Blanchett!), inspiram mais tédio e inércia do que qualquer outra coisa. Um período de férias não faria mal ao diretor.

ESCRAVOS DO DESEJO (Of Human Bondage, 1934, de John Cromwell): Reza a lenda que Bette Davis, uma atriz ainda desconhecida no início dos anos 1930, quis fervorosamente protagonizar Escravos do Desejo porque pressentia que esse papel lhe daria o tão esperado estrelado em Hollywood. Bette, que foi também visionária em tantos outros pontos posteriores de sua carreira, já fazia a aposta certa desde o princípio, pois, além de trazer a sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, Escravos do Desejo já representava muito bem o tipo de cinema e de papel que eternizariam essa prestigiada intérprete norte-americana. Por mais que tenha problemas em regular a intensidade e, por que não, a verossimilhança de tantos fatos e reviravoltas em pouco mais de 80 minutos, o filme surpreende pela coragem com que trata representações que, ainda hoje, são tão delicadas para a indústria, como a da mulher, que, aqui, mesmo vista sob a luz da vilania, faz o que bem entende, além de rejeitar qualquer padrão que a sociedade queira lhe impor. Ainda em 2017, é raríssimo encontrar relatos onde o homem corra atrás de uma mulher que lhe é indiferente, invertendo a clpassica fórmula perpetuada por Hollywood ao longo de sua História. Com uma performance realmente reveladora de Bette Davis, interpretando uma das megeras menos conhecidas de sua carreira, Escravos do Desejo segura o interesse do espectador ao tornar imprevisível cada ação da protagonista, uma mulher cuja trajetória jamais se rende ao moralismo da redenção, reforçando a ideia de que Escravos do Desejo foi e ainda é uma obra transgressora.  

A VINGANÇA ESTÁ NA MODA (The Dressmaker, 2015, de Jocelyn Moorhouse): Trazendo o roteiro mais dispersivo e desorganizado da carreira de P.J. Hogan (O Casamento do Meu Melhor AmigoO Casamento de MurielOs Delírios de Consumo de Becky Bloom), A Vingança Está na Moda é uma produção australiana que beira o irritante pela quantidade de indecisões que guiam tanto os rumos da história quanto o próprio tom escolhido pela diretora Jocelyn Moorhose, que não tem qualquer destreza para regular a mistura entre drama e comédia de uma história que não diverte na comédia nem no drama. Kate Winslet até consegue causar certa graça ao desfilar lindamente pela cidade do interior que abandonara anos atrás e que agora volta a ser seu lar, mas o roteiro não molda com clareza a personalidade de uma protagonista repleta de incógnitas. Tudo é abrupto, apressado, mal explicado e, acima de tudo, sem objetivo definido. A Vingança Está na Moda atira para todos os lados e se perde em meio a tantos personagens coadjuvantes que, de vez em quando, ganham inexplicável espaço na trama. Pode até ser que o romance homônimo escrito por Rosalie Ham no qual o longa se baseia também queira se esquivar do clássico arco dramático da protagonista que, após anos, volta para a cidade natal para enfrentar fantasmas do passado, mas a recusa ao óbvio se perde ainda mais na direção: Moorhouse não tem talento desenvoltura para brincar com caricaturas e muito menos delicadeza para fazer a sempre tão refinada alquimia entre o riso e o choro, o que termina comprometendo ainda mais a adaptação já dispersiva.

YOUR NAME (Kimi No Na Wa, 2016, de Makoto Shinkai): Sucesso avassalador no Japão, onde se tornou a maior bilheteria da história do país para uma animação, superando o clássico A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyazaki, Your Name faz por merecer tanto badalo: em qualquer recorte de tempo ou espaço, esse filme assinado por Makoto Shinkai seria mesmo uma revelação por toda a sua criatividade. As linhas gerais da sinopse não fazem justiça à obra (dois jovens que passam a trocar de corpos de forma esporádica e sem razão aparente), o que não deve ser motivo de desânimo. É questão de pouco tempo de projeção para que Your Name comece a surpreender com uma narrativa intrincada, surpreendente e gradativamente emotiva. Durante boa parte da história o filme se garante com a comédia, com o carisma dos personagens e com uma trilha sonora irresistível, mas é quando começa a revelar suas artimanhas que a animação ganha uma perspectiva ainda mais interessante. Dificilmente uma experiência para os pequenos (além da trama não-linear que, pouco a pouco, demanda total atenção do espectador, há de se considerar todo o detalhamento da cultura japonesa, tão essencial para o encaixe das peças do quebra-cabeça), Your Name tem um pique invejável e consegue um feito cada vez mais raro, inclusive para filmes com pessoas de carne e osso: o de surpreender a todo momento e de sempre estar muito à frente do espectador, jamais permitindo que ele anteveja suas resoluções. Imperdível!

3 comentários em “Rapidamente: “De Canção em Canção”, “Escravos do Desejo”, “A Vingança Está na Moda” e “Your Name”

  1. Eu costumava eleger Mallick meu cineasta preferido.
    Mas depois de O Cavaleiro de Copas, parei.
    Ele deveria parar um pouquinho Tb, concordo com você.

  2. “Bette Davis não foi indicada ao Oscar por Escravos do Desejo, causando assim protestos contra a Academia, que ‘autorizou’ a seu votantes na hora de escolher os vencedores, votar em qualquer nome que quisessem, assim Bette ganhou votos, ficando em terceiro lugar na votação final”

    • Tiago, mas, tecnicamente, no final das contas, vale como uma indicação, já que ela ficou em terceiro lugar em uma lista tradicional de cinco concorrentes. O IMDb também credita como a primeira indicação da carreira! :)

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