Cinema e Argumento

O Rei do Show

You clearly have a flair for show business.

Direção: Michael Gracey

Roteiro: Bill Condon e Jenny Bicks

Elenco: Hugh Jackman, Zac Efron, Michelle Williams, Zendaya, Rebecca Ferguson, Austyn Johnson, Cameron Seely, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II, Eric Anderson, Ellis Rubin

The Greatest Showman, EUA, 2017, Musical, 105 minutos

Sinopse: De origem humilde e desde a infância sonhando com um mundo mágico, P.T. Barnum (Hugh Jackman) desafia as barreiras sociais se casando com a filha do patrão do pai e dá o pontapé inicial na realização de seu maior desejo abrindo uma espécie de museu de curiosidades. O empreendimento fracassa, mas ele logo vislumbra uma ousada saída: produzir um grande show estrelado por freaks, fraudes, bizarrices e rejeitados de todos os tipos. (Adoro Cinema)

Uma das coisas mais fascinantes de ser cinéfilo nas primeiras décadas do século XXI é ver como o cinema deu um salto sem precedentes em termos de possibilidades estéticas e narrativas. Das evoluções técnicas resultantes de descobertas tecnológicas às narrativas cada vez mais livres que descortinam histórias e personagens antes renegados ou preteridos pelas artes, a chamada sétima arte nunca produziu tanto, de forma tão plural e, dadas as proporções, com tamanha destreza. O curioso é que, na contramão, filmes como O Rei do Show nos lembram que, em certos casos, a evolução não é um processo geral e que, em tratando-se da solidez e dos conceitos de um filme, a sala de cinema ainda pode proporcionar espetáculos vazios e artificiais.

Indicado sem surpresa alguma a três categorias do Globo de Ouro no segmento comédia/musical (melhor filme, melhor ator para Hugh Jackman e melhor canção para “This is Me”), O Rei do Show idealiza e distorce a história verídica de P.T. Barnum, empresário norte-americano que, logo no início do século XIX, tornou-se o primeiro milionário do ramo do entretenimento ao comandar um circo. Só que fazer ajustes em uma adaptação é uma coisa, trapacear é outra: O Rei do Show idealiza Barnum como um pai de família caridoso e filantrópico, quando, na verdade, uma rápida pesquisa virtual ou bibliográfica já dá conta de revelar que ele nada mais era do que um verdadeiro “príncipe das falcatruas”, capaz de inventar todo tipo de mentira sobre suas atrações apenas para atrair público e encher o bolso.

A intenção do desonesto reajuste tem um propósito muito claro no roteiro assinado por Bill Condon e Jenny Bricks: criar uma história emocionante e edificante para guiar um musical colorido, alegre, movimentado e muito mais comercial do que artístico, considerando o sentido pejorativo que essa expressão carrega. Ainda assim, nem no reajuste a história é firme, pois O Rei do Show é o tipo de filme que prioriza fatos e surpresas acima de qualquer construção dramática, o que faz com que mudanças repentinas (e mal explicadas) de personalidade dos personagens sirvam de base para conflitos rasteiros, como quando o protagonista impede que seus amigos “estranhos” do circo participem de uma importante festa na cidade.

Criando e resolvendo problemas com a maior facilidade e agilidade do mundo, O Rei do Show não expande qualquer dimensão de outro personagem além de Barnum, que, ainda assim, sequer chega perto da dubiedade e das oscilações entre bondade e mau caratismo de Elsa Mars, protagonista da quarta temporada de American Horror Story: Freak Show que, vivida brilhantemente por Jessica Lange, também era uma entertainer cujo ganha-pão era explorar “aberrações” em um circo. Nada mais do que um homem bondoso que vence na vida, Barnum ganha energia nas mãos de Hugh Jackman, ator que não precisa mais provar sua desenvoltura como cantor e dançarino, mas, que, no geral, tem pouquíssimo material dramático para trabalhar, restringindo-se a olhar tudo com cara de maravilhamento ou tristeza.

Quando o próprio protagonista não tem estofo, o que resta para os coadjuvantes e para a infinidade de figurantes? A talentosa Michelle Williams, por exemplo, até causa certa vergonha alheia por ser apenas a esposa sorridente que acompanha o marido para todos os lados com as duas filhas embaixo dos braços. Aliás, o universo feminino é pobremente retratado: além de Williams, não deixem escapar o problema que é ver Zendaya apenas como a moça bonita que precisa ser conquistada pelo galã Zac Efron ou como o musical perpetua, por meio de outra figura feminina, a tese de que mulheres não aceitam ser renegadas romanticamente pelos homens sem logo em seguida arquitetar uma pequena vingança contra eles.

Sem entrar em detalhes do que de fato é feito o tal show criado pelo protagonista (as apresentações são apenas o clímax hiperbólico de números musicais iniciados em outro cenário mas concluídos no circo), o longa ganha certa graça e empolgação graças às ótimas canções, todas muito bem ritmadas, pontuadas e corretas no sentido ser componente de uma construção narrativa. E qual não é a surpresa em vê-las desperdiçadas por números tão artificiais, muitos deles carregados em efeitos visuais e quase todos sem qualquer sincronia entre a expressão facial do ator e a versão infinitamente mais potente gravada por ele próprio em estúdio para dublagem?

Musicais plastificados, repletos de otimismo e carregados em dublagem já foram feitos aos montes, assim como outros indiscutivelmente mal dirigidos que se tornaram hits hoje lembrados com carinho (nesse caso, cito Mamma Mia! como um favorito particular), mas, em todos os casos, se existe um punhadinho de alma, a situação já ganha algum tipo de frescor. O Rei do Show, que marca o trabalho de estreia do diretor Michael Gracey, não se encaixa nessa perspectiva. Por isso, para quem, por razões já citadas, não entra na batida e sequer compra a obra como um guilty pleasure, a experiência deve somente gerar um grande aborrecimento, ficando positivamente para a posteridade apenas com sua divertida trilha que, essa sim, vale ser revisitada.

Cinco fatos que podem fazer a diferença nos prêmios de 2018

Dezenas de associações de críticos dos Estados Unidos já divulgaram seus vencedores, assim como grandes premiações televisionadas como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards também já revelaram seus indicados, mas a temporada de premiações mal começou de verdade e, fora a matemática do que cada filme colecionou até aqui, ainda há muito a ser considerado. E, tratando-se do Globo de Ouro e do SAG, que realizarão suas cerimônias nessa primeira quinzena de janeira, algumas estatísticas devem ser levadas em conta na hora de prever os vencedores. Abaixo, elenco algumas delas e explico como ignorá-las pode ser decisivo para não perder pontos nas primeiras de muitos apostas que pipocam durante essa temporada.
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1. ATÉ ONDE VAI O REINO DE ALLISON JANNEY? 
Da comédia ao drama, Allison Janney é uma das atrizes mais premiadas na história do Emmy, com sete
 estatuetas conquistadas desde a sua primeira indicação em 2000 (quatro por The West Wing, duas por Mom e uma por Masters of Sex). No SAG, também tem prêmio de sobra, com seis vitórias, incluindo duas estatuetas de elenco em cinema com Histórias CruzadasBeleza Americana. Quanto ao Globo de Ouro, a situação é bem diferente: até aqui, são cinco indicações sem consagração. Pelo longa-metragem Eu, Tonya, Janney está mais uma vez na disputa, inaugurando sua primeira lembrança no segmento de cinema. Amplamente reconhecida por seu trabalho na TV, será que Janney tem força para transferir todo o seu prestígio também para o cinema e conquistar sua primeira vitória individual no SAG e o primeiro Globo de Ouro de toda a carreira? Teoricamente falando, dado o vitorioso histórico, a longa carreira e o forte reconhecimento do colegiado televisivo, seria uma das apostas mais fáceis da temporada. Isso se não concorresse com Laurie Metcalf, uma colega com trajetória bastante semelhante, mas de carreira mais, digamos, “alternativa”.
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2. LAURIE METCALF E A TRÍPLICE COROA DA ATUAÇÃO
Premiada três vezes no Emmy por seu desempenho na sitcom Roseanne, Laurie Metcalf não foi reconhecida pelo Globo de Ouro por seu trabalho no seriado. Foram duas indicações sem vitória, e a terceira vem agora com Lady Bird: É Hora de Voar, que, estatisticamente, tem colocado a atriz como a franca favorita no segmento das coadjuvantes se considerarmos as listas das associações de críticos dos Estados Unidos. É importante frisar que crítico de cinema não vota em Oscar e tampouco tem influência nas premiações verdadeiramente decisivas da temporada, mas é bom não subestimar o poder dessa atriz aparentemente desconhecida, mas que vem trilhando um caminho brilhante nos últimos anos: você pode lembrar de Metcalf como a mulher ensandecida que faz várias pessoas de reféns em um supermercado naquele que é um dos episódios mais explosivos do seriado Desperate Housewives (Bang!), o que é um tanto injusto com uma carreira que, recentemente, foi coroada pelo Tony (melhor atriz, em 2017, por A Doll’s House: Part 2) e novamente iluminada pelo Emmy (em 2016, recebeu indicação tripla ao prêmio, concorrendo em drama e comédia com Getting OnThe Big Bang TheoryHorace and Pete). Ou seja, Laurie tem sido vista por todo tipo de indústria nos últimos anos. Não são todas as atrizes que têm esse tipo de prestígio.
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3. NICOLE KIDMAN NUNCA VENCEU O SAG (…)
Quem vê uma atriz amplamente premiada como Nicole Kidman e relembra seu riquíssimo repertório pode muito bem cair na pegadinha de que, claro, ela tem todos os prêmios da vida em casa. Errado. Se a vitória de Kidman como melhor atriz em minissérie por Big Little Lies já se consolidou como uma das maiores certezas da temporada, a situação ganha ainda mais força no SAG, uma vez que a atriz nunca foi vitoriosa no prêmio, tanto nas categorias de TV quanto nas de cinema. No ano de As Horas, filme que lhe rendeu o Oscar, Kidman viu o prêmio de melhor atriz parar nas mãos de Renée Zellweger, por Chicago. Desde então, colecionou mais sete indicações em categorias individuais e de elenco, sem nunca levar a estatueta para casa. E o SAG, que é um prêmio relativamente recente (foi criado em 1995) e que adora celebrar quem historicamente nunca pôde ser celebrado (Meryl Streep vencendo pela primeira vez por Dúvida, assim como Denzel Washington ano passado com Um Limite Entre Nós), certamente não tem oportunidade melhor para acertar os ponteiros com Kidman do que na edição de 2018.
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4. (…) E SUSAN SARANDON O GLOBO DE OURO (…)
Comentei acima que a vitória de Nicole Kidman na categoria de melhor atriz em minissérie por Big Little Lies no SAG é aposta fácil, mas, no Globo de Ouro, não jogo todas as fichas na atriz. Isso porque Susan Sarandon, uma veterana que dispensa comentários, inacreditavelmente nunca levou o prêmio para a casa, enquanto Nicole Kidman já tem três em casa. Não seria surpresa se Sarandon, solenemente ignorada pelo Critics’ Choice, surgisse como azarona e finalmente tivesse o seu momento no prêmio outorgado pela Hollywood Foreign Press Association com seu milagroso desempenho como a lendária Bette Davis na minissérie Feud: Bette and Joan. Sarandon, que venceu o Oscar por Os Últimos Passos de Um Homem, mas perdeu o Globo de Ouro para Sharon Stone (Cassino), concorre desde 1989 com menções no cinema e na TV, seja por obras mais célebres como O Óleo de Lorenzo Thelma e Louise ou por trabalhos menos ambiciosos como Lado a Lado e o telefilme Bernard e Doris. Quem sabe a premiação finalmente lhe faz justiça? Eu não reclamaria, seja pela carreira ou pelo próprio desempenho em Feud.
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5. (…) ASSIM COMO FRANCES MCDORMAND
Ainda na listinha de atrizes que nunca faturaram determinados prêmios, a grande Frances McDormand também entra para a conta. Há quem aposte em um segundo Oscar para a atriz por Três Anúncios Por Um Crime, e o Globo de Ouro pode dar um empurrãozinho: mesmo que pareça irresistível o prêmio novamente dar os holofotes para Meryl Streep depois de seu discurso emblemático na homenagem do ano passado e de suas confusões com Trump (recemente foi descoberto que os cartazes em Los Angeles acusando a atriz de saber dos assédios de Harvey Weinstein foram espalhados por apoiadores do presidente), McDormand, que só levou uma menção honrosa e coletiva junto ao elenco de Short Cuts, não saiu vitoriosa na premiação com o longa Fargo – Uma Comédia de Erros e a minissérie Olive Kitteridge, citando dois de seus trabalhos mais célebres. Se Frances realmente é um estouro em Três Anúncios Para Um Crime e se o prêmio quiser tirar o atraso, pode ser a oportunidade perfeita, já não é loucura dizer que o jogo da categoria de atriz dramática está aberto.

Adeus, 2017! (e as melhores cenas do ano)

Em mais um ano que chega ao fim, novamente vou deixar minha lista de favoritos para depois da virada. O motivo simples e perfeitamente compreensível: como ainda estou em dívida com muitos títulos, prefiro dar mais um tempinho para conferi-los e, assim, não cometer nenhum crime que possa me trazer remorso mais adiante. Certamente, por uma série de razões, tanto fora quanto ao meu alcance, não conferi — nem vou conferir — centenas de títulos como boa parte dos meus colegas blogueiros, mas, dentro do meu singelo escopo, quero ter o devido tempo para ficar plenamente satisfeito com as minhas escolhas.

Por isso, mantenho ao menos uma tradição aqui do blog: a de elencar os meus momentos favoritos no cinema ao longo do ano, considerando, como sempre, os títulos lançados comercialmente e via streaming no Brasil. Não deixem de opinar quanto aos selecionados abaixo (atenção, alguns deles podem trazer spoilers em suas justificativas), pois sempre gosto de ouvir o que vocês, leitores, têm a dizer. Afinal, vem muito mais por aí em 2018! Feliz ano novo e um abraço carinhoso para cada um de vocês!

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#10 – Harry (Ralph Fiennes) dança “Emotional Rescue”, dos Rolling Stones, em Um Mergulho no Passado

Ralph Fiennes é um verdadeiro estouro em Um Mergulho no Passado, filme pouco reconhecido do italiano Luca Guadagnino, cineasta que agora é celebrado mundo afora com Me Chame Pelo Seu Nome. Com um personagem desafiador, Fiennes se esbalda nas sutilezas e nos atordoamentos de um homem que grita, fala, canta e dança o tempo inteiro, mas que, no fundo, é estridente por não conseguir lidar com as reflexões trazidas pelos momentos de silêncio. Há também algo de muito autêntico e libertador nesse homem que sempre faz e fala o que bem entende, sem medir palavras ou atitudes para agradar aos outros. E quando ele dança ao som de “Emotional Rescue”, dos Rolling Stones, é puro fascínio, tanto pelo personagem quanto por Ralph Fiennes.

#9 – Gretchen (Emanuelle Araújo) brilha em Bingo – O Rei das Manhãs

Poucas cinebiografias têm toda a energia e o pique ostentados por Bingo – O Rei das Manhãs, trabalho de estreia do montador Daniel Rezende na direção de longas. E se tratando da trajetória ascendente de ritmo do filme, não existe sequência mais empolgante do que a breve aparição da cantora e dançarina Gretchen, interpretada com graça e carisma por Emanuelle Araújo. Emulando acertadamente os trejeitos e o modo de dançar da Rainha do Bumbum, Emanuelle injeta uma nova dose de ânimo a um filme já empolgante até ali. Mais do que toda a animação vinda de Conga, Conga, Conga, a cena conquista por reforçar toda a personalidade que fez de Bingo um verdadeiro (e merecido) sucesso nacional.

#8 – Rose (Viola Davis) confronta Troy (Denzel Washington) em Um Limite Entre Nós

Clássico caso de filme onde os atores são muito maiores do que o resultado como um todo, Um Limite Entre Nós sai perdendo em ritmo e em relevância cinematográfica com a sua falta de criatividade e seu zelo excessivo ao adaptar uma célebre peça de teatro. Por outro lado, quem ganha são os atores, que, com o texto na ponta da língua (foram centenas de apresentações nos palcos dos Estados Unidos), têm naturalidade de sobra para arrasar com o material. Denzel Washington e, especialmente, Viola Davis merecem uma nota à parte pelo que fazem durante o maior momento do filme, quando um segredo vêm à tona e Rose (Viola) precisa confrontar o marido com todas as suas dores e frustrações reprimidas durante anos. Quem não se arrepiou?

#7 – Diana (Gal Gadot) nas trincheiras em Mulher-Maravilha

Na prática, Mulher-Maravilha é menos criativo e autêntico do que as pessoas estão dispostas a admitir, mas ter uma personagem feminina como protagonista faz mesmo a diferença em várias passagens dessa aventura dirigida por Patty Jenkins. Não é sempre que vemos uma mulher derrotando, no corpo a corpo e na inteligência, uma quantidade significativa de marmanjos, e muito menos uma que vá a campo em uma grande guerra e, sozinha, enfrente incontáveis disparos do outro lado da trincheira com uma coragem de dar inveja. Diana encarando tudo aquilo sozinho é muito representativo, além de ser o auge estético e de adrenalina do blockbuster.

#6 – A cena do vestido em Roda Gigante

Aos 45 do segundo tempo, Kate Winslet veio repleta de talento em inspiração em Roda Gigante, a ponto de figurar entre as performances mais marcantes do ano. Uma cena específica justifica o festejo em torno da interpretação, e essa é quando Ginny (Kate Winslet), incorporando a carreira de atriz que deixou para trás junto com o seu passado de erros, chega ao limite de suas frustrações e insatisfações ao ser confrontada por Mickey (Justin Timberlake). Em seu devaneio repentino, ela se caracteriza e se maquia como se de fato estivesse em cena, evocando os romances e as tragédias gregas que volta e meia referencia ao longo da história e que, ironicamente, quase sempre terminam em um (quase) monólogo como o seu. Tem metalinguagem, tem a linda fotografia de Vittorio Storaro e tem, claro, Kate Winslet afiadíssima como não víamos há muitos anos.

#5 – Confronto em meio às águas em Blade Runner 2049

Desconfie de quem lhe disser que não achou Blade Runner 2049 um arraso do ponto de vista estético. No geral, não sou fã do filme como um todo, que, em contraste, proporciona sequências épicas ao conjugar som e imagem. Uma delas, em particular, consegue me pegar em cheio: aquela em que K (Ryan Gosling), dentro de um veículo prestes a ser engolido pela água, precisa vencer um combate corpo a corpo que salvará não apenas a sua vida, mas também a de outro personagem. O confronto em um espaço minúsculo e pouco a pouco tomado pela água é eletrizante, sem falar dos toques mais do que especiais da fotografia do mestre Roger Deakins e da trilha sonora assinada pela dupla Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer.

#4 – Doloroso reencontro em Manchester à Beira-Mar

Longa-metragem mais carregado na dor que passou pelos cinemas brasileiros ao longo de 2017, Manchester à Beira-Mar, em uma das tantas costuras perfeitas de seu roteiro irrepreensível, arrebenta de vez o nosso coração quando promove um cotidiano e inesperado reencontro entre Lee (Casey Affleck) e Randi (Michelle Williams), tempos depois de um doloroso acontecimento. A cena, imersa no exímio controle dramático que o diretor Kenneth Lonergan trabalha ao longo de toda a projeção, tem sentimentos arrasadores porque mostra o quanto a dor faz com que o ser humano coloque a emoção frente à razão, despejando tudo o que estava represado e conferindo inclusive conotações tristes e atrapalhadas para um “eu te amo” que outrora seria cercado de otimismo.

#3 – Noite na praia em Moonlight: Sob a Luz do Luar

Calcado no naturalismo, Moonlight: Sob a Luz do Luar é um filme de estrutura problemática (sigo considerando o terceiro e último capítulo uma falha imperdoável em uma história contada com grande excelência até ali), o que não amortece a lembrança de passagens como aquela em que Chiron (Ashton Sanders), já adolescente, tem o seu primeiro contato íntimo de natureza homossexual, algo que lhe era negado e reprimido até então. O registro é de arrepiar porque, com a beleza estética inerente ao longa, acerta na potência com que mistura a aventura, o perigo e a emoção de um momento divisor de águas para um garoto que já tem a consciência de que a vida quase nunca lhe sorrirá de volta.

#2 – A última noite na casa de Mãe!

Do amor ao ódio, Mãe! ostentou seguramente o título de filme mais polêmico do ano. Tenho certeza que essa era a intenção do diretor Darren Aronofsky, que, com um roteiro repleto de interpretações (bíblicas, sociais, ambientais), entregou cenas para ferver a mente de todo o tipo de público. E o ato final, encenado na última noite na casa da protagonista, usa e abusa de todas as possibilidades, sejam elas dramáticas e técnicas, de seu universo próprio, desafiando as fronteiras das formalidades, das previsibilidades e — o mais importante — daquilo tudo que o espectador gosta de ter ao seu controle quando assiste a um filme. Não é todo dia que vemos um atrevimento delicioso como esse.

#1 – Uma vida passada a limpo em La La Land: Cantando Estações

A vida, ao contrário do que secretamente desejamos, é feita de pequenos momentos e, principalmente, de pequenas escolhas. Mais do que isso: na maioria dos casos, mudamos drasticamente o rumo da nossa existência sem perceber que ele foi transformado pela mais corriqueira das nossas decisões. E La La Land, um musical repleto de momentos emblemáticos, chega ao máximo de sua beleza e emoção ao passar a vida inteira de um casal a limpo em um epílogo de cortar o coração. Fora a trilha instrumental hipnotizante de Justin Hurwitz e toda a parte visual que é um show à parte, a sequência se eterniza por nos lembrar, através da melancolia, de que a vida pode nos pregar peças e obstáculos a todo momento, mas que, no final das contas, apenas nós somos os senhores dos nossos próprios destinos.

Roda Gigante

When it comes to love, we often turn out to be our worst enemy.

Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple, Jack Gore, Max Casella, David Krumholtz, Tony Sirico, Steve Schirripa, Robert C. Kirk, John Doumanian, Tom Guiry

Wonder Wheel, EUA, 2017, Drama, 101 minutos

Sinopse: A atriz Ginny (Kate Winslet), casada com Humpty (James Belushi), acaba se apaixonando pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake). Mas quando sua enteada, Carolina (Juno Temple), também cai de amores pelo rei da praia, as duas começam uma forte concorrência. (Adoro Cinema)

Plataforma on demand que compete diretamente com a gigante Netflix, a Amazon vem trilhando um caminho diferente de sua concorrente ao apostar em uma estratégia de auto-promoção menos expansiva e em projetos menos comerciais e assinados por realizadores conceituados do ponto de vista artístico, especialmente no âmbito cinematográfico. O mais recente êxito da Amazon foi seu voto de confiança para a distribuição de Manchester à Beira-Mar, magnífico filme de Kenneth Lonergan, indicado a seis Oscars e vencedor de dois (melhor ator para Casey Affleck e melhor roteiro para o próprio Lonergan). Mostrando que não está para brincadeira, a Amazon, ainda em 2015, também trouxe Woody Allen para o seu time, jogada que logo se revelou pouco frutífera: o desastroso seriado Crisis in Six Scenes não foi visto por ninguém e o próprio cineasta faz questão de dizer aos quatro ventos, com toda razão, que a experiência no formato foi mesmo catastrófica.

Agora, chegamos ao drama Roda Gigante, onde a Amazon se enroscou em um problema que ultrapassa as fronteiras artísticas: descortinados os casos de assédios sexuais em Hollywood, o interesse pelo filme se dissipou, e Allen, que tem um longa, nebulosa e problemática história pessoal envolvendo o tema, viu sua mais recente obra ser boicotada mundo afora, reflexo também das lamentáveis e recentes declarações onde “alertava” sobre o início de uma possível temporada de caça às bruxas contra os homens em Hollywood, como se, de repente, eles agora fossem pobres coitados na história toda. A contextualização é importante porque nos leva à acertada estratégia de promoção da Amazon para Roda Gigante na temporada de premiações: nas peças publicitárias e nos famosos screeners enviados aos votantes, o nome de Woody Allen foi excluído de qualquer item da lista “for your consideration”, onde cada estúdio elenca quais aspectos do filme merecem ser lembrados pelos votantes na hora de escolher seus favoritos do ano. A medida da Amazon é justíssima porque é uma injustiça descomunal condenar ao esquecimento centenas de pessoas envolvidas em um filme por conta de polêmicas envolvendo apenas uma delas. E, na jornada contra Roda Gigante, há, pelo menos, dois grandes injustiçados que serão pontuados mais adiante nesse texto.

Tematicamente, o drama estrelado por Kate Winslet é mais um relato requentado de Woody Allen (como se isso fosse novidade em boa parte de sua carreira), mas o diretor estabelece uma espécie de diálogo entre o longa de agora e o celebrado Blue Jasmine, que é indiscutivelmente a fonte de material para sua mais nova obra. Se, em ambos os filmes, acompanhamos protagonistas femininas à beira de um ataque de nervos e afundadas em tragédias pessoais, uma diferencia crucial as separa: enquanto a Jasmine de Cate Blanchett escolhia viver em uma realidade paralela para acreditar que o universo conspirava contra cada movimento da sua vida, a Ginny de Kate Winslet assume, inclusive verbalmente, que muitas de suas tragédias foram causadas por ela própria — e o que ela (não) faz em relação a isso é o que dá a tônica ao longa, que se sai muito melhor como um estudo de personagem do que como o relato de um quadrilátero amoroso.

É melhor encarar Roda Gigante sob o prisma de sua protagonista porque, em termos práticos, o roteiro escrito por Woody Allen não apresenta desdobramentos tão interessantes quanto a personagem que radiografa. Por sinal, surpreende como alguns artifícios tenham chegado à versão final do roteiro, com destaque para a escolha de usar Mickey (Justin Timberlake) como narrador da trama. Há gracejo na opção, mas ela liquida com uma possibilidade mais instigante: a de Mickey ser trabalhado na dubiedade, algo que traria maior consistência a sentimentos e pensamentos mastigados demais por esse contador de histórias. Sendo assim, no turbilhão em que vive Ginny – casamento infeliz, trabalho desgastante, carreira frustrada como atriz, filho problemático – conta menos o que acontece a ela e mais os detalhes de cada personagem, inclusive dos coadjuvantes, como a construção de Carolina (Juno Temple), a enteada de Ginny, que, em tantas outras obras, seria a jovem sedutora que vem para competir com a madrasta (aqui, felizmente, ela ela não passa de uma boa moça que deseja colocar a vida nos eixos).

Sem grandes criações, Roga Gigante, em contraste, se alça ao status de filme mais relevante de Woody Allen desde Blue Jasmine graças ao desempenho sensacional de Kate Winslet, que conjuga técnica e emoção ao abraçar uma riqueza de protagonismo que, ao mesmo, tempo lhe é tão merecida, mas lhe é tão negada em sua carreira recente. No quase-monólogo que norteia a cena final de Kate com Justin Timberlake (bom galã, ainda que ator irregular), ela ganha força extra, em um daqueles momentos que entram para os mais marcantes de sua filmografia. Posto isso, é injusto que escanteiem Roda Gigante ignorando um desempenho especial como esse que, em outro recorte de tempo, seria celebrado por tudo quanto é tipo de premiação, bem como a estonteante fotografia de Vittorio Storaro, que trabalha com inteligência as oscilantes luzes de um parque de diversões para registrar as transições emocionais dos personagens. Storaro e Winslet formam a dupla que não merece pagar pelo boicote ao filme (se você se importa com métricas, Roda Gigante é o filme de Woody Allen com pior avaliação no Rotten Tomatoes), inclusive porque o que mais fica com o espectador depois da sessão é a qualidade ímpar do que cada um realiza. E de tudo que você pode falar do longa, nada depreciativo deve ser relacionado a eles.

Rapidamente: “Em Ritmo de Fuga”, “Gatos”, “Madame Satã” e “Nossas Noites”

Lázaro Ramos é visceral em Madame Satã, filme de Karim Aïnouz que contempla a vida de uma marcante figura da vida boêmia carioca dos anos 1920.

EM RITMO DE FUGA (Baby Driver, 2017, de Edgar Wright): Menos maneirista e artificial do que em Scott Pilgrim Contra o Mundo, o diretor Edgar Wright alcançou o momento mais célebre da sua carreira até aqui com Em Ritmo de Fuga, aventura que rendeu ao jovem Ansel Egort uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator no segmento comédia/musical. Menciono Scott Pilgrim porque foi o único trabalho de Wright que conferi antes de Em Ritmo de Fuga – e, vocês precisam me perdoar, mas a lembrança não era das melhores. Continuo com a impressão de que o diretor embala demais o seu trabalho para alcançar o status de pop, cult e descolado, o que me distancia da história em si, mas Em Ritmo de Fuga é um bom entretenimento por ter um protagonista devidamente carismático e humano, um bom elenco de suporte, uma trilha bacana e sequências de ação ao mesmo tempo dinâmicas e bem coreografadas. A trajetória pessoal do protagonista ainda dá um toque especial para uma história que, na essência de seus crimes e assaltos, não chega a ser esse espetáculo todo que celebraram desde a estreia. Um dos últimos filmes em que tivemos a oportunidade de ver Kevin Spacey com naturalidade antes da sua irreversível derrocada em Hollywood, Em Ritmo de Fuga tem qualidade técnica e vontade de divertir a qualquer custo. E, considerando mais uma vez a minha relação particular com o cinema de Wright, é justamente a consciência dessa vontade que acaba me distanciando de um mergulho completo na diversão.

GATOS (Kedi, 2016, de Ceyda Torun): Como um grande apaixonado por felinos, fiquei com um sorriso aberto de ponta a ponta ao longo de toda a projeção de Gatos, documentário ambientado em Istambul, na Turquia, onde milhares dos bichanos-título circulam livremente pelas ruas. O maior mérito do filme dirigido pela estreante em longas Ceyda Torun é escapar da armadilha de fazer um registro apenas fofinho sobre os animais para de fato conferir personalidade a cada um deles, como se fossem personagens tão interessantes quanto qualquer um de nós. Percebam também a delicadeza do filme ao destacar a relação dos gatos com os seres humanos, inclusive em casos tocantes, alguns deles cercados de superstição, em que homens e mulheres relatam experiências que trazem à tona todo o afeto e o cuidado que detratores dos felinos insistem em dizer que eles não têm. Tratando-se de solidez cinematográfica, Gatos, em contrapartida, acaba se diluindo. Mesmo compactado em menos de 80 minutos, o documentário, lá pela metade, já começa a andar em círculos por não interseccionar histórias e personagens, aqui apresentados de forma independente, como em capítulos. Quando chegamos ao terceiro ou quarto animal, o longa segue mantendo a curiosidade muito mais pelo charme dos gatinhos e pela habilidade da diretora em acompanhá-los em situações curiosíssimas do que por sua habilidade em explorar novas possibilidades de narração.

MADAME SATÃ (idem, 2002, de Karim Aïnouz): Um dos trabalhos mais marcantes do diretor Karim Aïnouz, Madame Satã aborda, com notável segurança, a personalidade avassaladora de João Francisco dos Santos, que, sob o codinome que dá título ao filme, foi uma personagem marcante da noite carioca em meados dos anos 20. Pobre, analfabeto, negro, homossexual e travesti, Madame Satã tinha um temperamento dos mais fortes, o que o levou para a prisão inúmeras vezes, muitas delas por furtos, agressões e desacato à autoridade. Sobre seus encarceramentos, dizia que boa parte das brigas com os policiais era ocasionada por sua intolerância ao tratamento que eles davam às pessoas, principalmente quando elas eram negras e coincidentemente consideradas suspeitas. Dadas as linhas gerais desse personagem, é preciso aplaudir o trabalho de Karim Aïnouz ao abarcar o furacão Madame Satã sem jamais fazer com que o filme degringole em qualquer tipo de tom, seja da própria história ou da interpretação visceral de Lázaro Ramos, que está no desempenho mais desafiador e brilhante de sua carreira. Premiado em Havana, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Madame Satã é um filme de época que, na escolha da simplicidade, captura a parte boêmia e marginalizada de um Rio de Janeiro de quase 100 anos atrás sem qualquer artificialidade. Para completar, uma força extra-fílmica: sob a luz dos dias de hoje, onde negros, gays e travestis não deixaram de seguir à margem da sociedade, Madame Satã permanece como um elegante grito de reivindicação.

NOSSAS NOITES (Our Souls at Night, 2017, de Ritesh Batra): Não vou esconder que tenho um tremendo fraco por filmes que reúnem atores veteranos, especialmente em propostas como a de Nossas Noites, que toca em questões tão camufladas na arte, como as mazelas cotidianas do envelhecimento e as pequenas alegrias que podem redimensionar essa fase da vida. Normalmente, na mesma proporção da imediata simpatia que projetos como esse me despertam, vem a decepção, pois nem sempre tais histórias são contadas com a devida dose de complexidade, carisma ou criatividade. E Nossas Noites, adaptação do romance homônimo escrito por Kent Haruf, é mais um exemplar que fica no meio do caminho. Jane Fonda e Robert Redord são ótimos, claro, especialmente juntos, mostrando que, muitas vezes, só mesmo a experiência pode trazer químicas instantâneas e naturais como a deles, mas o grande problema de Nossas Noites não é nem entregar o filme inteiro a eles para se esquecer de contar uma história, e sim tentar separá-los durante boa parte da trama. Quando se atenta demais a personagens secundários (o neto que chega para passar uma temporada na cidade, o filho problemático que passa por uma tumultuada separação, os vizinhos que morrem ou confabulam sobre a relação dos protagonistas), Nossas Noites cai em lugares-comuns, esquecendo-se que a preciosidade da experiência é acompanhar apenas aqueles duas pessoas em universo tão próprio e particular.