Cinema e Argumento

Apostas para o Screen Actors Guild Awards 2019

Menos relevante do que se poderia esperar para uma temporada altamente pulverizada, o Screen Actors Guild Awards anuncia, neste domingo (27), os vencedores de uma seleção que praticamente não exerce influência no Oscar. Sem A Favorita e Roma na disputa de melhor elenco, o prêmio reforça sua falta de sintonia com o Oscar, tendência já assinalada ano passado, quando A Forma da Água foi o grande vencedor do prêmio da Academia sem sequer concorrer na categoria principal do SAG. A ausência de Regina King, grande favorita que acumulou até agora o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Awards como atriz coadjuvante, também é outra ausência expressiva e inexplicável. Com isso, a disputa em melhor elenco está completamente aberta, inclusive porque o momento de Nasce Uma Estrela parece ter evaporado. Nesse sentido, ao menos há de se reconhecer que, ao contrário do ano passado, o SAG acontece com uma cota considerável de incógnitas, inclusive no segmento televisivo, o que é interessante para uma temporada que costuma ser tão previsível. A cerimônia será transmitida aqui no Brasil pela TNT, a partir das 22h. Confira abaixo as nossas apostas:

CINEMA

MELHOR ELENCO: Infiltrado na Klan / alt: Nasce Uma Estrela
MELHOR ATRIZ: Glenn Close (A Esposa) / alt: Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
MELHOR ATOR: Christian Bale (Vice) / alt: Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Adams (Vice) / alt: Rachel Weisz (A Favorita)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia) / alt: Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM DRAMA: Ozark / alt: The Americans
MELHOR ELENCO EM COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: The Kominsky Method
MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Sandra Oh (Killing Eve) / alt: Laura Linney (Ozark)
MELHOR ATOR EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark) / alt: Sterling K. Brown (This is Us)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Michael Douglas (The Kominsky Method)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (Escape at Dannemora) / alt: Amy Adams (Sharp Objects)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (American Crime Story: The Assassination of Gianni Versace) / alt: Hugh Grant (A Very English Scandal)

Melhores de 2018 – Atriz Coadjuvante

Com mais de 80 produções no currículo, Laurie Metcalf é uma veterana da TV e do teatro que, em 2018, viveu tardiamente o momento mais expressivo de sua carreira cinematográfica. Consagrada em inúmeras associações de críticos por seu desempenho em Lady Bird: A Hora de Voar, Metcalf concentra uma imensa parcela do afeto transmitido por esse longa que marca a estreia de Greta Gerwig na direção. Como a mãe da protagonista-título, a atriz busca toda a delicadeza e, principalmente, os contrastes emocionais de uma mãe que, pelas mais diferentes razões, pouco consegue se comunicar com a própria filha. Entre duras exigências maternas e reprimidas demonstrações de carinho, ela encanta ao iluminar, com inteligência e sutileza, as camadas de um papel incrivelmente cotidiano, mas que, por meio de sua performance, torna-se tão complexo, vivo e fascinante quanto a própria vida. Ainda disputavam a categoria: Elizabeth Debicki (As Viúvas), Lesley Manville (Trama Fantasma), Mackenzie Davis (Tully) e Rachel McAdams (Desobiência).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Clarisse Abujamra (Como Nossos Pais) | 2016 – Juliana Paes (A Despedida) | 2015 – Kristen Stewart (Acima das Nuvens) | 2014 – Lesley Manville (Mais Um Ano) | 2013 – Helen Hunt (As Sessões) | 2012 – Viola Davis (Histórias Cruzadas) | 2011 – Amy Adams (O Vencedor) | 2010 – Marion Cotillard (Nine) | 2009 – Kate Winslet (O Leitor) | 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro) | 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)

Melhores de 2018 – Trilha Sonora

Guitarrista da banda Radiohead, Jonny Greenwood é, facilmente, uma das grandes revelações dos últimos anos em termos de trilha sonora para o cinema. Tudo graças ao cineasta Paul Thomas Anderson, que, em 2007, lhe confiou a trilha do épico Sangue Negro. A colaboração entre os dois se aperfeiçoou em outros títulos como O Mestre e Vício Inerente, até alcançar a legítima perfeição em Trama Fantasma. Ao longo de 18 composições, Greenwood captura tanto o relacionamento tortuoso entre Reynolds (Daniel Day-Lewis) e Alma (Vicky Krieps) quanto a sofisticação do mundo da alta costura britânica dos anos 1950. Após idealizar a trilha tendo como conceito o tipo de música que o próprio protagonista ouviria, Greenwood apresentou uma trilha que nos conduz por diferentes emoções e reações, como se fosse uma relato com vida própria, mas sem nunca se desvincular do filme em si. Ainda disputavam a categoria: A Forma da Água, O Primeiro Homem, Sem Fôlego e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – La La Land: Cantando Estações | 2016 – Carol | 2015 – Sicario: Terra de Ninguém | 2014 – Ela | 2013 – Gravidade | 2012 – Tão Forte e Tão Perto | 2011 – A Última Estação | 2010 – Direito de Amar | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Desejo e Reparação| 2007 – A Rainha

Os indicados ao Oscar 2019

Dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos A Favorita lidera, ao lado do mexicano Roma, de Alfonso Cuarón, a lista de indicados ao Oscar 2019, concorrendo em dez categorias.

Em uma temporada marcada pelo marasmo e pela média aparentemente fraca dos principais concorrentes, o Oscar provou que pode ser muita coisa, menos influenciável em sua lista de indicados. Afinal, em qual outro grande prêmio você vê Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela) e Peter Farrelly (Green Book: O Guia) esnobados na categoria de direção para encontrar um mexicano (Alfonso Cuarón), um grego (Yorgos Lanthimos) e um polonês (Pawel Pawlikowski) na disputa? Somente no Oscar. E tal autenticidade já não é de hoje: quer você goste ou não, foi apenas a Academia que, nos últimos anos, proporcionou pérolas como as indicações de Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite), Charlotte Rampling (45 Anos) e Laura Dern (Livre), além do reconhecimento de Trama Fantasma nas categorias principais. O ano de 2019 é grandioso para a Netflix, que, além de emplacar dez indicações para Roma (incluindo atriz para Yalitza Aparicio e coadjuvante para Marina de Tavira, outra cartada exclusiva da Academia), registrou mais três menções com A Balada de Buster Scruggs, dos irmãos Coen.

No entanto, há de se reconhecer a expressiva força de A Favorita, que lidera a lista ao lado de Roma, mas com uma diferença: enquanto o filme de Alfonso Cuarón não ficou entre os finalistas de montagem (historicamente, é muito raro um filme ganhar a categoria principal sem indicação a montagem), o de Yorgos Lanthimos figura entre todos os segmentos principais, assim como Vice, que concorre em oito categorias. Quem também disputa oito prêmios é Nasce Uma Estrela que, apesar da pompa de ter seu roteiro indicado (aliás, algo simplesmente inexplicável), viu Bradley Cooper fazer a linha Ben Affleck (Argo) e ficar de fora da disputa em direção. Ainda entre os esnobados, duas atrizes ficaram duplamente de fora: Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins e Um Lugar Silencioso) e Nicole Kidman (O Peso do Passado e Boy Erased: Uma Verdade Anulada). Matematicamente, entretanto, há surpresas muito maiores, como Timothée Chalamet não ter emplacado com Querido Menino e John David Washington com Infiltrado na Klan.

O Oscar revelará seus vencedores no dia 24 de fevereiro. Confira a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book: O Guia
Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra
Roma
Vice

MELHOR DIREÇÃO
Adam McKay (Vice)
Alfonso Cuarón (Roma)
Pawel Pawikowski (Guerra Fria)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)
Yorgos Lanthimos (A Favorita)

MELHOR ATRIZ
Glenn Close (A Esposa)
Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Olivia Colman (A Favorita)
Yalitza Aparicio (Roma)

MELHOR ATOR
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Christian Bale (Vice)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)
Emma Stone (A Favorita)
Marina de Tavira (Roma)
Rachel Weisz (A Favorita)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
Sam Rockwell (Vice)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
A Favorita
No Coração da Escuridão
Green Book: O Guia
Roma
Vice

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
A Balada de Buster Scruggs
Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Poderia Me Perdoar?
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Assunto de Família (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Guerra Fria (Polônia)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)
Roma (México)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Free Solo
Hale County: This Morning, This Evening
Minding the Gap
Of Fathers and Sons
RBG

MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha no Aranhaverso
Ilha dos Cachorros
Os Incríveis 2
Mirai
WiFi Ralph: Quebrando a Internet

MELHOR TRILHA SONORA
Ilha dos Cachorros
Infiltrado na Klan
Pantera Negra
O Retorno de Mary Poppins
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“I’ll Fight” (RBG)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)
“The Place Where Lost Things Go” (O Retorno de Mary Poppins)
“When a Cowboy Trades His Spurs for Wings” (The Ballad of Buster Scruggs)

MELHOR MONTAGEM
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book: O Guia
Infiltrado na Klan
Vice

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
A Favorita
Pantera Negra
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins
Roma

MELHOR FOTOGRAFIA
A Favorita
Guerra Fria
Nasce Uma Estrela
Nunca Deixe de Lembrar
Roma

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível
Han Solo: Uma História Star Wars
Jogador nº 1
O Primeiro Homem
Vingadores: Guerra Infinita

MELHOR FIGURINO
A Balada de Buster Scruggs
Duas Rainhas
A Favorita
Pantera Negra
O Retorno de Mary Poppins

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Border
Duas Rainhas
Vice

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Bohemian Rhapsody
Pantera Negra
O Primeiro Homem
Roma
Nasce Uma Estrela

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Bohemian Rhapsody
Um Lugar Silencioso
Pantera Negra
O Primeiro Homem
Roma

MELHOR CURTA-METRAGEM
Detainment
Fauve
Marguerite
Mother
Skin

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
Black Sheep
End Game
Lifeboat
A Night at the Garden
Period. End of Sentence

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
Animal Behaviour
Bao
Late Afternoon
One Small Step
Weekends

“A Esposa”: desempenho de Glenn Close carrega todas as qualidades que faltam ao filme como um todo

I am a kingmaker.

Direção: Björn Runge

Roteiro: Jane Anderson, baseado no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer

Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater, Max Irons, Christian Slater, Harry Lloyd, Annie Starke, Elizabeth McGovern, Johan Widerberg, Karin Franz Körlof, Richard Cordery, Jan Mybrand

The Wife, EUA/Reino Unido/Suécia, 2017, Drama, 100 minutos

Sinopse: Joan Castleman (Glenn Close) é casada com um homem controlador e que não sabe como cuidar de si mesmo ou de outra pessoa. Ele é um escritor e está prestes a receber um Prêmio Nobel de literatura. Joan, que passou 40 anos ignorando seus talentos literários para valorizar a carreira do marido, decide abandoná-lo. (Adoro Cinema)

A Glenn Close que provavelmente mora na sua memória é aquela que interpreta papeis de traços fortes e marcantes. Como não lembrar, afinal, de Alex Forrest em Atração Fatal? Ou então da memorável Marquesa Isabelle de Merteuil em Ligações Perigosas? Na infância de muitas gerações, ela também ficou marcada como Cruella DeVil, a inescrupulosa vilã da adaptação live-action de 101 Dálmatas. Por fim, até mesmo em uma de suas passagens mais célebres pela televisão, Glenn interpretou uma personagem implacável: a emblemática Patty Hewes, advogada que temíamos, admirávamos e questionávamos nas mesmas proporções. Pois, agora, em pleno 2019, o melhor que você pode fazer é esquecer toda essa intensa imagem da atriz para admirá-la de uma maneira bem diferente em A Esposa, onde a vemos introspectiva, discreta e delicada, algo não tão habitual em sua carreira (e que, segundo a própria atriz, é consequência dos tipos de papeis que lhe foram oferecidos ao longo dos anos). De forma isolada, a veterana intérprete já teria nosso voto de confiança ao dar vida a uma mulher que, eternamente à sombra do marido, de repente se vê obrigada a refletir sobre tudo aquilo que lhe fez viver uma vida inteira nos bastidores, mas, em comparação ao filme em si, sua presença é tão grande que nem o fato de A Esposa ser ruim abala tamanha classe. Pelo contrário: se há real complexidade, elegância e delicadeza no projeto do sueco Björn Ruge, é porque Glenn Close toma a missão para si.

Mais interessante na teoria do que na prática, A Esposa trilha o caminho fácil de vilanizar um personagem para que tenhamos compaixão por outro. É bem certo que, do ponto de vista histórico e cultural, a dita soberania masculina tem mesmo intoxicado vidas femininas e relações amorosas, mas o que falta ao roteiro escrito por Jane Anderson, com base no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer, é certa substância para acreditarmos que, de alguma forma, a protagonista é ou um dia foi apaixonada pelo marido que pouco carinho lhe dá e que, ao longo dia, trata-a como uma assistente que cuida de seus remédios e horários. Por que, afinal, Joan (Glenn) sempre se submeteu às traições, à vaidade inflada e ao egoísmo desse homem? Quais foram as reais razões que levaram uma escritora de talento na juventude a abdicar da carreira e de sua própria identidade para servi-lo? Anderson, que surpreendentemente parece ter deixado de lado toda a sofisticação dramática que um dia apresentou como roteirista da premiada minissérie Olive Kitteridge, esquece de se debruçar sobre as complexidades da relação entre os dois para, ao invés disso, fazer de Joe (Jonathan Pryce) um mero personagem insuportável que torna a vida de sua esposa uma penitência.  

Ao contrário do que A Esposa sugere, é possível sim traçar as complexidades de um relacionamento tóxico sem pegar o atalho fácil de apenas construir figuras antagônicas e quase estereotipadas, como se uma leitura mais clínica de fatos e acontecimentos não fosse necessária. No recente Trama Fantasma, por exemplo, Daniel Day-Lewis vive um estilista misógino e cheio de si que se apaixona por uma mulher muito mais jovem. Inicialmente submissa e sem voz, a garota, ao mesmo tempo em que não consegue largar seu novo amor apesar de tantas agressões emocionais, acaba reivindicado seu espaço, nem que seja de maneira torta e macabra. Tal relação é riquíssima em complexidades no filme de Paul Thomas Anderson porque o roteiro entende a importância de cada mínima dinâmica, sugerindo, cena a cena, todas as razões que separam e aproximam esse casal. Em contraste, isso é apenas protocolar em A Esposa: ainda que utilizando flashbacks para explicar como se deu o início da relação entre Joan e Joe, o filme propriamente dito não convence, algo que frustra o embasamento dramático da obra e dá um trabalho muito ingrato para Jonathan Pryce, um ator que, na medida do possível, tenta dar dimensões a uma figura antipática.

Entrando um pouco mais no roteiro, é decepcionante perceber que versão final do texto tenha mantido tantos aspectos dispensáveis, como a relação de Joe com o filho, que, também escritor, busca desesperadamente a aprovação do pai. Além de Max Irons ser muito ruim no papel, sua participação é rasa, tendo como missão exclusiva conduzir o espectador a uma surpresa artificial e que, do ponto de vista dramático, dilui as discussões da obra ao tirar certos contextos e reflexões do plano da sugestão para a literal verbalização. Além disso, A Esposa tem dificuldade em lidar com tramas secundárias: se Christian Slater está limitadíssimo ao interpretar o estereótipo do jornalista sedento por um escândalo e que não tem outra função a não ser descortinar traumas relacionados ao passado da protagonista, Annie Stark (filha de Glenn Close na vida real) é inexpressiva ao protagonizar flashbacks que, em um roteiro mais esperto, nem existiriam, pois dão conta de acontecimentos que poderiam ser facilmente sintetizados em diálogos mais reveladores e contundentes.

Frente a tudo isso está Glenn Close, que é milimétrica na composição da sua personagem e que confere ao projeto tudo aquilo que lhe falta como um todo. Há momentos marcantes, como o misto de alegria e pesar ao receber a notícia de que seu companheiro será laureado com o prêmio Nobel ou a interiorização de um completo pavor quando testemunha o discurso do marido na cerimônia de homenagem (a título de comparação, não seria surpresa se Glenn revelasse que a cena final de 45 Anos serviu de inspiração para esse momento). Na discrição e na sutileza, a atriz desdobra os anseios e as dúvidas dessa mulher que tenta sempre manter as aparências — e a sequência em que ela precisa manter a pose e as expressões ao ser provocada em em diferentes níveis pelo jornalista de Christian Slater é outro exemplo dos belos contrastes que existem na interpretação da atriz, mas não no longa em si. Boatos dão conta de que A Esposa, exibido desde 2017 em festivais internacionais como o de Toronto, segurou sua data de estreia para poder concorrer ao Oscar e finalmente consagrar Glenn Close após seis indicações. Se conseguirá ou não é outra história, mas, independente disso e da decepção que é o longa, A Esposa marca o que vemos de melhor vindo da atriz em muitos, muitos anos.