Cinema e Argumento

Melhores de 2018 – Roteiro Adaptado

Delicada adaptação do romance homônimo escrito pelo egípcio André Aciman em 2007, Me Chame Pelo Seu Nome tem como base uma história que já oferece um riquíssimo material para uma boa transposição ao cinema. Eis, no entanto, que o diretor e produtor Luca Guadagnino convoca James Ivory (Retorno a Howards End, Vestígios do Dia) para cuidar da adaptação. Ivory, aos 89 anos, tornou-se a pessoa mais velha a concorrer (e a vencer) um Oscar, e seu prêmio de melhor roteiro adaptado não poderia ser mais justo: iluminando uma jornada de autodescoberta sexual que normalmente é tratada pelo cinema (e pela vida) com dor e pesar, ele descomplica qualquer discussão em torno da sexualidade de dois personagens para simplesmente encará-los como pessoas apaixonadas e que, assim como todos nós, passam por desencontros, mágoas, frustrações e amadurecimentos. Em cada personagem, há uma imensidão de sentimentos, inclusive naqueles que aparecem tão pouco em cena, como o pai vivido por Michael Stuhlbarg. O que Ivory faz na adaptação de Me Chame Pelo Seu Nome é de uma maturidade ímpar, aliando, com sabedoria, o talento de um profissional veterano com um material que lhe proporciona todas as munições para a criação de uma delicada pérola. Ainda disputavam a categoriaDesobediênciaInfiltrado na KlanPaddington 2 Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

As Glorias de Sebatián Lelio: histórias praticamente iguais, mas em contextos um tanto diferentes

Despontando como um dos realizadores mais interessantes da atualidade, o chileno Sebastián Lelio recentemente dirigiu um longa-metragem vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro (Uma Mulher Fantástica) e também proporcionou momentos sublimes a atrizes como Rachel Weisz e Rachel McAdams (Desobediência). Ainda assim, a expressão mais cativante de sua identidade como realizador está no ano de 2013, com Gloria, filme que rendeu à protagonista Paulina García um incontestável Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim. Lelio diz ter imaginado o papel da protagonista-título especialmente para Paulina, intérprete que sempre o impressionou, mas que, segundo o cineasta, jamais havia recebido um papel à altura de seu talento. De certa forma, o contexto se repete agora, quando Lelio chega aos cinemas brasileiros com o remake do filme que ele próprio dirigiu em 2013.

Dessa vez, o realizador está em Hollywood e com Julianne Moore no papel principal. Não deixa de ser simbólico que ele novamente esteja valorizando uma atriz que, mesmo premiada recentemente com o Oscar (Para Sempre Alice), poderia receber mais papeis dignos de sua excelência. Paulina e Moore são, cada uma a sua maneira, atrizes fascinantes e entregam diferentes perspectivas para a mesma personagem, ainda que Gloria (2013) e Gloria Bell (2019) sejam longas-metragens praticamente idênticos. Se Sebastián Lelio resolveu dirigir o que podemos chamar de uma versão de seu próprio filme chileno para norte-americano ver sem legendas, ao menos a repetição da história vale pela chance de observar duas Glorias tão semelhantes quanto distintas.

Paulina García na última cena de Gloria: premiada por sua interpretação no Festival de Berlim, atriz tem um dos desempenhos femininos mais marcantes do cinema recente de língua latina.

Perto dos 60 anos, Gloria (Paulina García) percebe que os filhos não precisam mais de sua ajuda. Separada, ela vive sozinha, mas mantem uma vida muito ativa: trabalha, almoça com os amigos, frequenta as aulas de yoga da filha e, acima de tudo, não encara a independência ou a solidão como o fim do mundo. Pelo contrário: estar sozinha e frequentar salões de baile em busca de um novo amor ou de apenas uma noite de sexo lhe é tão natural como talvez tenha sido na juventude. É essa a preciosa maturidade de Gloria, o filme: entender possíveis entristecimentos da protagonista, mas não fazer de seus dilemas uma densa sessão de terapia na tela grande. Sebastián Lelio prefere buscar uma tônica mais agridoce para os dias da personagem, que atravessa as dores e as alegrias de estar viva como qualquer ser humano.

Ver a vida pelos olhos de uma mulher madura sem que ela esteja reduzida a qualquer sofrimento de sua própria idade faz de Gloria um longa delicadíssimo, inclusive por conhecermos a protagonista por meio de uma ótica cotidiana. Se uma dança em meio à multidão ganha contornos diferenciados é pela decisão de Sebastián Lelio de capturar o momento com um viés observacional, interferindo o mínimo possível com estilizações ou guinadas de roteiro. Com isso, Gloria se atira com imensa confiança no universo de sua personagem, e acerto maior não há: toda a beleza dessa leitura a respeito de uma mulher que vive, ama, dança e sofre como todos nós está na construção de uma figura feminina crível e de fácil identificação não apenas para quem tem traços ou histórias em comum com ela.

A imensidão de sutilezas não seria a mesma sem, claro, o desempenho espetacular de Paulina García, que está totalmente alinhada ao espírito do longa de renegar a vitimização. Ela é ao mesmo tempo discreta e profunda em cena, incorporando uma mulher que, sabotada aqui e ali por relações amorosas complicadas ou pelo próprio destino, é encantadora por ter pleno conhecimento de si e por aceitar que, na vida e no amor, é preciso fazer tentar tirar ao menos algum aprendizado das situações mais difíceis. Elegante e radiante, a presença da atriz reforça a percepção muito verdadeira de que são raros os homens que conseguem conviver com mulheres seguras e autossuficientes. Podem acreditar: é impossível não se apaixonar pela construção de Paulina literalmente até o último milésimo de projeção. 

Apaixonada pelo longa chileno de 2013, Julianne Moore revive, com seu inegável talento, a Gloria de Paulina García, mas com uma perspectiva mais estilizada e rejuvenescida.

Seis anos depois de Gloria, Sebastián Lelio mais uma vez nos leva para o universo da personagem, que, agora em terras hollywoodianas, ganha vida pelas mãos da espetacular Julianne Moore. Em termos de história, vemos praticamente o mesmo filme, com pouquíssimos ajustes (há, no máximo, a inclusão de novos personagens bastante passageiros e falas que são transferidas de uma sequência para outra), decisão tomada deliberadamente pelo diretor, que nunca quis falar sobre outros momentos de Gloria que não fossem aqueles mostrados no filme estrelado por Paulina García. Entretanto, em entrevistas sobre o remake, Lelio revela que, ao revisitar a protagonista, Gloria Bell não deixa de atualizar sua personagem, que agora tem trajetória encenada em um outro país e com uma certa estilização já ensaiada pelo diretor em Uma Mulher Fantástica.

Por contar a mesmíssima história em um curto espaço de tempo, há a sensação de que Gloria Bell é somente um produto encomendado para que os norte-americanos entrem em contato com essa belíssima personagem sem ter que recorrer a um filme chileno com legendas. À parte a questão mercadológica, sejamos justos: a história é maravilhosa, o diretor é o mesmo e, sendo assim, a matemática soa infalível. Gloria Bell bebe da fonte de uma história quase intocada em sua transposição para os norte-americanos, e quem só tem a ganhar com esse texto é Julianne Moore, que, apaixonada pela versão de 2013, ligou para Lelio, lançou a ideia de uma refilmagem e logo tornou o projeto possível, inclusive assumindo o cargo de produtora executiva. Tratando-se de Moore, não há o que duvidar: como Gloria, agora batizada com o sobrenome Bell, ela aproveita o melhor de um papel nivelado ao seu inquestionável talento.

Curiosamente, o que me impede de admirar Gloria Bell tanto quanto admiro Gloria é a escalação da atriz. Nada a ver especificamente com Moore ou com o seu desempenho: na verdade, ela é perfeita para as atualizações propostas para a personagem na refilmagem. O que acontece é que a versão chilena tinha peso maior em sensibilidade e delicadeza porque falava sobre uma mulher se aproximando da terceira idade. Mesmo que Moore tenha 58 anos e seja mais velha ao interpretar o papel do que Paulina era na época do primeiro filme (52), sua Gloria é demasiadamente bem fotografada, beirando a glamourização inclusive em luxuosas locações de Las Vegas. A decisão de escalar um ator muito mais jovem como filho de Gloria (Michael Cera) e de colocar em cena a mãe da protagonista que não existia no filme anterior (Holland Taylor) também deixa a impressão de que Gloria, em sua versão Bell, está, no máximo, chegando aos 50, o que rejuvenesce bastante o contexto de importantes complexidades que ganham outras camadas na vida de quem está perto dos 60.

Melhores de 2018 – Montagem

Com maestria, Joe Bini ligou todos os pontos de Você Nunca Esteve Realmente Aqui através de uma montagem que carrega o difícil desafio de encontrar um perfeito equilíbrio entre drama, ação e suspense. Se o mais recente filme de Lynne Ramsay é harmônico nos tantos gêneros que se desdobram ao longo da história, certamente é em função da montagem de Bini, que já havia trabalhado com a diretora no também excepcional Precisamos Falar Sobre o Kevin. Boa parte da carga dramática de Você Nunca Esteve Realmente Aqui vem dessa mistura que orquestra com inventividade as potencialidades técnicas de um filme igualmente impactante em trilha sonora e fotografia, por exemplo. Ou seja, além de encontrar o timing perfeito ao transitar por diversas camadas emocionais e de gênero, o montador cria um filme ainda mais sensorial ao interseccionar, de maneira sempre surpreendente, segmentos técnicos que já seriam fascinantes por si só. Ainda disputavam a categoria: Eu, Tonya, O ProcessoRoma As Viúvas.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Em Ritmo de Fuga | 2016 – A Grande Aposta | 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2018 – Efeitos Visuais

Com o desafio de tornar dinâmico e envolvente um filme ambientado praticamente por inteiro em um universo de videogame, o quarteto David Shirk, Grady Cofer, Matthew E. Butler e Roger Guyett misturou técnicas de animação e de capturas de movimento (aquela mesmo que tanto consagrou Andy Serkis em sagas como O Senhor dos Aneis e Planeta dos Macacos) para reproduzir as relações que Jogador Nº1 estabelece entre o real e o virtual, além da infinidade de referências pop que somente um diretor como Steven Spielberg conseguiria colocar na tela com tanta propriedade. É fato que o longa usa e abusa de efeitos visuais sem se preocupar com sutilezas ou economia (seria difícil, considerando as cenas de ação e a gama de personagens recriados e idealizados especialmente para o filme), mas poucas vezes, assim como nos melhores momentos da carreira de Spielberg, o uso das tecnologias serviu tão bem a um entretenimento grandioso, empolgante e inventivo nas mesmas proporções. Ainda disputavam a categoriaPaddington 2Pantera NegraO Primeiro Homem Vingadores: Guerra Infinita.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Blade Runner 2049 | 2016 – Doutor Estranho | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Planeta dos Macacos: O Confronto| 2013 – Gravidade | 2012 – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar (primeiro ano da categoria)

Melhores de 2018 – Canção Original

Como toda canção marcante escrita especialmente para um longa-metragem, “Shallow” é uma excelente síntese em versão musical de tudo aquilo que acompanhamos em Nasce Uma Estrela. Tanto na tela quanto na canção, o espectador se depara com dois personagens insatisfeitos com suas próprias vidas e que, quando se conhecem, passam a enxergar, no amor e na música, uma razão para seguir em frente e criar. Escrita por Andrew Wyatt, Anthony Rossomando, Lady Gaga e Mark Ronson, “Shallow” é o ponto alto de uma trilha sonora que molda os caminhos emocionais de um filme sobre dois músicos. Também é uma canção que reafirma a incrível potência musical de Lady Gaga e que, acima de tudo, carrega toda a força e a emoção que, para o escriba que vos fala, não se desenha de maneira equivalente no filme em si. Merecidamente premiada com o Oscar, “Shallow” já se firmou como uma das canções mais marcantes premiadas recentemente na categoria, e não por menos: se há uma razão para Nasce Uma Estrela ser lembrado, essa é, sem dúvida alguma, esse hit que ainda levou para casa um Grammy na categoria de melhor performance de uma dupla ou grupo pop. Ainda disputavam a categoria: “All the Stars” (Pantera Negra), “Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome), “Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa) e “Visions of Gideon” (Me Chame Pelo Seu Nome).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – “Another Day of Sun” (La La Land: Cantando Estações) | 2016 – “Simple Song #3” (A Juventude| 2015 – “Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante| 2013 – “Last Mile Home” (Álbum de Família| 2012 – “Skyfall” (007 – Operação Skyfall| 2011 – “Life’s a Happy Song” (Os Muppets| 2010 – “Better Days” (Comer Rezar Amar| 2009 – “By the Boab Tree” (Austrália| 2008 – “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)