“O Juízo”, um suspense genérico e deslocado na recente safra do cinema brasileiro

Você já se perguntou por que nada em sua vida dá certo?

Direção: Andrucha Waddington

Roteiro: Fernanda Torres

Elenco: Felipe Camargo, Joaquim Torres Waddington, Carol Castro, Criolo, Kênia Bárbara, Fernando Eiras, Fernanda Montenegro, Lima Duarte

Brasil, 2019, Suspense, 90 minutos

Sinopse: Augusto Menezes (Felipe Camargo) muda-se com a mulher Tereza (Carol Castro) e o filho, Marinho (Joaquim Torres Waddington), para uma fazenda abandonada, herdada do avô, na esperança de colocar a vida nos trilhos. A propriedade, no entanto, carrega o carma da traição ao escravo Couraça (Criolo), que busca ao longo dos séculos a vingança contra a família de Augusto.

Todo contexto envolvendo a idealização de um filme pode ser fator crucial para definir a reação do público com o que é colocado na tela. Afinal, nada acontece no vácuo, nem mesmo o cinema. Podemos analisar O Juízo a partir dessa premissa: estreando nos cinemas em uma era onde o audiovisual brasileiro viu seus chamados filmes de gênero ressurgirem de maneira empoderada, o longa dirigido por Andrucha Waddington empalidece perante As Boas Maneiras, O Animal Cordial e Mormaço, três títulos recentes que discutiram cicatrizes sociais de nosso país com identidade, bravura e inventividade.

Não tem a ver necessariamente com o nível de excelência alcançado por cada obra, mas sim com o contexto, como já mencionado. Em meio a essa nova corrente de longas de suspense/terror, O Juízo em nada se parece com os seus pares. Claro que isso poderia ser interpretado como um elogio caso o resultado não se assemelhasse, na verdade, com produções de 20 ou 30 anos atrás que não envelheceram bem e adotam fórmulas bastante ultrapassadas, sem tratar clichês em tom de homenagem ou com certa brincadeira.

As pitadas de frustração começam na premissa que ainda insiste em colocar uma família afundada em conflitos no meio do mato, isolada de toda a sociedade e de qualquer meio de comunicação. Lá, coisas estranhas começam a acontecer, espíritos surgem, barulhos passam a vir da floresta e os personagens, inevitavelmente, serão afetados por tudo isso, testemunhando, aos poucos, o desdobramento de um relato envolvendo conturbados episódios de seus antepassados familiares. Tudo da forma como você supõe, entregue do jeitinho convencional que você já viu muitas vezes.

Era de se esperar astúcia maior de O Juízo porque o roteiro é escrito por Fernanda Torres, que, além de ser uma atriz de mão cheia, tornou-se uma autora genial nos últimos anos (seus dois romances, Fim A Glória e Seu Cortejo de Horrores, são obras-primas cercadas de fluidez, criatividade e esperteza) e já havia co-assinado o roteiro de Redentor, uma produção que escapava de ideias formulaicas. Uma teoria para justificar tamanha insipidez talvez seja a de que O Juízo estivesse engavetado há anos, sendo realizado somente agora com certo atraso, sem acompanhar a atual linguagem do cinema brasileiro.

Realizado em família, o filme tem o privilégio de contar com Fernanda Montenegro em um papel coadjuvante. Ela faz o que pode com uma personagem que cai na vala comum: uma médium que, em determinado momento, chega a dizer para um médico que ele precisa acreditar no poder da fé para tratar traumas hereditários, fazendo uma pequena menção ao clássico conflito entre ciência e fé. É um mero detalhe, mas também um elemento que exemplifica bem as abordagens tão antigas quanto o mundo que moldam a trama.

Marido de Fernanda, o cineasta Andrucha Waddington trouxe ainda o filho do casal para integrar o trio de protagonistas. Joaquim Torres Waddington, assim como seus companheiros de tela Felipe Camargo e Carol Castro, navegam no suspense de O Juízo com visível envolvimento, mesmo que a direção de Andrucha não ajude no tema de casa. Tudo leva a crer, no entanto, que o problema esteja no casamento com o texto da vez, pois Andrucha já havia feito um ótimo trabalho com toques de suspense em Gêmeas, longa realizado em 1999 com base em uma obra do mestre Nelson Rodrigues.

Em breves 90 minutos, O Juízo mergulha em traumas transmitidos de geração para geração, fé, (in)sanidade, escravidão e incomunicabilidade, ancorado em um ajuste de contas do fantasma Couraça (Criolo) com a linhagem familiar que um dia lhe causou uma grande perda. A espinha dorsal do suspense, enfim, falha igualmente em surtir efeito. Ao não se apresentar como reflexão social ou como um relato sofisticado o bastante para explorar as vertentes do gênero, o conflito central se esvai e, ocasionalmente, sequer desperta interesse. E o descaso, como sempre, é um dos piores sentimentos que qualquer filme pode despertar na plateia.

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