Cinema e Argumento

Rapidamente: “Um Dia de Chuva em Nova York”, “Ford vs. Ferrari”, “As Golpistas” e “História de Um Casamento”

Constance Wu e Jennifer Lopez em As Golpistas: filme dirigido por Lorene Scafaria é tudo aquilo que Oito Mulheres e Um Segredo deveria ter sido.

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (A Rainy Day in New York, 2019, de Woody Allen): A Amazon não pensou duas vezes antes de colocar Um Dia de Chuva em Nova York na geladeira quando as problematizações envolvendo o passado de Woody Allen ressurgiram durante a era #MeToo. Finalmente revelado ao mundo após um processo do diretor contra a plataforma, o filme sai da geladeira direto para o esquecimento: com um roteiro repetitivo, apático e cansativo, Woody Allen recicla várias de suas marcas sem nenhuma inspiração, colocando abaixo a teoria de que mesmo os seus piores projetos são melhores do que muitos outros realizados por aí. Da interpretação inconvincente e recheada de tiques de Timothée Chalamet ao carrossel de coadjuvantes insípidos, Um Dia de Chuva em Nova York esbarra em táticas já empoeiradas de Allen, como a de traduzir nos personagens traços próprios de sua personalidade. O problema é que aqui estamos falando de protagonistas jovens, e por isso mesmo o linguajar erudito e as reflexões excessivamente filosóficas soam tão inverossímeis. Sem nem utilizar a geografia de Nova York com muita inspiração, Allen entrega uma trama das suas tramas mais cansativas, onde a única sequência arejada e envolvente é a do monólogo protagonizado por Cherry Jones. Frente a esse trabalho tedioso, o subestimado Roda Gigante, que Woody dirigiu anteriormente, tem as suas qualidades ainda mais evidentes. 

FORD VS. FERRARI (Ford v Ferrari, 2019, de James Mangold): Com um público-alvo muito bem definido, Ford vs. Ferrari não esconde a sua predileção por plateias brancas e masculinas, uma vez que não há qualquer traço de representatividade ou universalidade em sua concepção. A temática em si não deixa de ser limitadora: o mundo das corridas automobolísticas e toda a ganância de um contexto corporativo que faz duas grandes marcas do gênero se digladiarem dentro e fora das pistas. A partir dessa perspectiva, é importante perceber como Ford vs. Ferrari ignora a existência de qualquer pessoa negra, considera flatulências, socos e testículos como matéria-prima para o humor e desenvolve apenas uma personagem feminina, limitada a ficar mais da metade do filme apenas acompanhando as corridas do marido pela TV. Dramaticamente, os antagonistas são unidimensionais e pura caricatura, reforçando a falta de qualquer sutileza do filme. As cenas de corrida chegam a prender a atenção e refletem uma uma parte técnica bem acabada, assim como Christian Bale se diverte à beça com seu personagem, mas é só. Para quem não aprecia toda a testosterona envolvendo carros potentes, Ford vs. Ferrari faz jus a sua longuíssima metragem (152 minutos) e prende o espectador em um verdadeiro chá de cadeira. 

AS GOLPISTAS (Hustlers, 2019, de Lorene Scafaria): Em 2018, Oito Mulheres e Um Segredo tentou realizar um entretenimento protagonizado por mulheres que arquitetavam um grande assalto. Eventualmente, funcionava como passatempo, mas o roteiro era frágil, as personagens pouco desenvolvidas e o próprio assalto não transmitia nenhum senso de ameaça. Tudo isso, de certa forma, é compensado em As Golpistas, onde um grupo de strippers resolve passar a perna nos seus riquíssimos clientes de Wall Street quando eles deixam de frequentar o clube após a crise financeira que abalou os Estados Unidos entre 2007 e 2008. Com uma diretora mulher comandando a história, o cenário ultrapassa a barreira de um filme pop e feminino sobre trapaça para fazer inúmeros comentários sociais, seja sobre o papel das mulheres na sociedade (e como elas são julgadas por trabalhos tidos hipocritamente como indignos) ou sobre como o dinheiro é, para o bem e para o mal, um instrumento fundamental para definir nossa sobrevivência no mundo. Também autora do roteiro, Lorene Scafaria dirige As Golpistas harmonizando muito bem o senso de entretenimento e reflexão. É um feito raro e que ganha ótimos contornos com a ajuda de personagens femininas nunca objetificadas e sempre devidamente exploradas, com destaque, claro, para as duas protagonistas vividas com brilho por Constance Wu e Jennifer Lopez.

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (Marriage Story, 2019, de Noah Baumbach): Uma das boas surpresas da temporada de premiações em 2020 foi ver um filme simples e cotidiano como História de Um Casamento conseguir indicações em várias das categorias principais de cada cerimônia. Nele, o diretor e roteirista Noah Baumbach volta ao tema da separação que ele próprio já havia abordado em A Lula e a Baleia a partir de uma outra proposta, agora centrada no casal em si e não nos efeitos que o divórcio traz aos filhos. Sem cenas mirabolantes, Baumbach encontra grandeza na simplicidade e, especialmente, nos desempenhos comoventes de Scarlett Johansson e Adam Driver. Na escala dos coadjuvantes, Laura Dern, Alan Alda e Ray Liotta exploram, com diferentes abordagens, o espírito danoso e competitivo que os advogados de divórcio inevitavelmente despertam em um momento delicado como esse. Cada conflito ou reflexão de História de Um Casamento está em momentos corriqueiros do dia a dia, estreitando a possibilidade de identificação do espectador com o filme. Franco e por vezes doloroso, o longa, contudo, tem sua maior maturidade ao apresentar personagens que não estão necessariamente buscando algum tipo de reconciliação. Ele encena outro momento: aquele em que, aos poucos, ambas as partes percebem a necessidade de seguir em frente e superar todo um passado, mesmo que ainda reconheçam o quanto amam um ao outro. Trata-se de uma circunstância difícil de ser absorvida na vida real, mas que História de Um Casamento debate com uma corrosiva sinceridade.

“1917” e os efeitos do plano-sequência: ganha o fascínio ou a dispersão?

Hope is a dangerous thing.

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Krysty Wilson-Cairns e Sam Mendes

Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Pip Carter, Andy Apollo, Paul Tinto, Josef Davies, Billy Postlethwaite, Gabriel Akuwudike

EUA/Reino Unido, Drama, 119 minutos

Sinopse: Os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Quando eles são encarregados de uma missão aparentemente impossível, os dois precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão. (Adoro Cinema)

Objeto de reflexões amplas e opostas entre teóricos do cinema como André Bazin e Jacques Aumont, o cultuado plano-sequência costuma comover plateias. Em linhas gerais, a ideia consiste na captura de determinada cena sem cortes aparentes, como se a câmera fosse exatamente a mesma ao longo de toda uma ação. Filmes recentes foram altamente elogiados pelo uso dessa técnica, como BirdmanO Regresso (não por acaso, ambos renderam ao mexicano Alejando González-Iñárritu o Oscar de melhor direção). Entretanto, há uma diferença crucial entre eles e 1917, que agora tem rendido prêmios e aclamação mundial ao diretor Sam Mendes. Ao passo que Iñárritu usava o plano-sequência em momentos pontuais, 1917 narra toda a sua história a partir dessa linguagem, propondo a ideia de que o longa é contado em tempo real durante aproximadamente duas horas.

Como em tudo no cinema, partimos inevitavelmente para o campo da identificação. Tanto o espectador pode interpretar o ambicioso plano-sequência de 1917 como uma poderosa ferramenta de imersão quanto pode se distanciar do filme justamente em função dele. Afinal, onde fica a espontaneidade ou o espaço para a criação quando tudo foi tão planejado em detalhes, além de extensivamente ensaiado para que nada fugisse do controle? Sabemos, claro, que há diversos cortes camuflados e que o filme não foi rodado de uma vez só, mas a lógica interna de que a história se desenvolve em um único plano exige sincronia e continuidade cirúrgicas. Informações dão conta de que os atores ensaiaram durante seis meses para que tudo fosse registrado da maneira como o diretor Sam Mendes havia imaginado. Sem falae que, por ser uma produção de ampla escala, qualquer erro nesse processo também custaria a 1917 uma boa quantia em dinheiro. 

Toda essa contextualização é importante para entender como não há espaço para naturalidade ou improviso em 1917. A experiência começa muito impressionante, e a sensação de imponência é preservada até o último minuto de projeção porque a equipe técnica reunida aqui é do mais alto nível. Porém, com o desenrolar da trama, logo se percebe cada intenção de Sam Mendes na construção desse espetáculo. É perceptível onde o diretor realizou algum corte (conte as cenas em que a tela fica escura de um ambiente para outro e você já terá uma boa noção) ou onde o roteiro, escrito por Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns, planejou uma pausa reflexiva em meio à adrenalina para recuperar o fôlego do espectador. Se abríssemos 1917 como um mapa, veríamos cada fronteira dramática e cada movimento técnico desenhado. 

Uma comparação feita com fervor até aqui pela crítica e por aqueles que não embarcam na proposta é a de que o longa se assemelha muito a um videogame. E há verdade nisso: em tempo real, os personagens parecem avançar entre fases, enfrentando um desafio a cada novo ambiente explorado. Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) passam por trincheiras, escapam de tiros, enfrentam um desabamento subterrâneo, desbravam a noite, caem na lama, são levados pela forte correnteza de um rio, administram o surgimento de inimigos inesperados e, quando passam de determinadas fases, encontram até sargentos e generais interpretados por atores famosos como Colin Firth e Benedict Cumberbatch, todos remetendo aos personagens que surgem com explicações ou informações para um jogador ao concluir uma importante etapa de um jogo.

Em meio a essa atmosfera que só não entrega um joystick ao espectador para que ele controle a brincadeira, Dean-Charles Chapman e principalmente George MacKay fazem o possível para conferir algum tipo de profundidade aos protagonistas. O desafio é impossível de ser cumprido, pois 1917 está mais preocupado com suas virtudes técnicas do que com qualquer outra coisa, e por isso só resta aos atores a comunicação corporal entre tantas exigências físicas. Ainda é pouco: Chapman e MacKay não vão muito longe dramaticamente, e é até difícil lembrar o rosto de cada um após a sessão. Ambos são empenhados e comprometidos, é verdade, mas limitados à preparação física e aos ensaios de um filme cuja amplitude dramática está concentrada no tamanho da guerra.

Como exercício técnico, 1917 entrega o espetáculo prometido com o uso do plano-sequência: o mestre Roger Deakins se esbalda na direção de fotografia (a sequência noturna é de arrepiar e está entre as mais belas imagens já criadas por ele), Thomas Newman dá o tom clássico de um filme de guerra na trilha sonora e o cuidadoso trabalho de som do quarteto Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson contribui para todas as intenções de imersão do longa. Mendes foi muito mais feliz casando conteúdo e estética em 007 – Operação Skyfall, ainda que isso não diminua a ambição técnica de 1917, que, como uma produção grandiosa, é irrepreensível. Créditos também devem lhe ser dados pela ideia de fazer uma celebração não a grandes líderes, mas aos homens comuns das trincheiras. E, para mim, fica por aí. Elogiar mais do que isso depende diretamente de cada espectador ter se conectado ou não com o conceito de um longa em plano-sequência.

Os vencedores do BAFTA 2020

Seguindo a tendência de outras premiações, 1917 foi o melhor filme no BAFTA 2020.

Na reta final rumo ao Oscar, o BAFTA revelou neste domingo (02) os vencedores de sua criticada seleção de 2020. Sem mulheres concorrendo na categoria de direção e somente com atores brancos na disputa entre protagonistas e coadjuvantes, o prêmio britânico seguiu com sua recente tendência de apenas tentar prever o Oscar ao invés de seguir suas próprias intuições. Frente a esse cenário, 1917 foi o grande vencedor da noite, levando sete estatuetas para casa, entre elas a de melhor filme e direção para Sam Mendes. Os atores consagrados também foram os mesmos de outras premiações: Renée Zellweger (Judy), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood).

A única surpresa que o BAFTA proporcionou e que pode ser um sinal diferenciado para o Oscar foi prêmio de melhor roteiro original entregue a Parasita. O filme de Bong Joon-ho já havia faturado o mesmo prêmio junto ao Sindicato de Roteiristas no sábado (01), mas lá o favorito Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood) estava fora de competição por não ser filiado ao Sindicato. Tarantino, que conquistou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Awards, de repente viu a boa fase do seu filme se dissipar. Com a dupla vitória de Parasita, não será mais surpresa ver Bong Joon-ho levando a melhor na disputa de roteiro original. Em tempos mais autênticos, o BAFTA talvez tivesse levado a produção sul-coreana ainda mais longe…

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME1917
MELHOR FILME BRITÂNICO1917

MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917)
MELHOR ELENCOCoringa
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOJojo Rabbit
MELHOR TRILHA SONORACoringa
MELHOR FOTOGRAFIA1917
MELHOR MONTAGEMFord vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO1917
MELHOR FIGURINOAdoráveis Mulheres
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo
MELHOR SOM1917
MELHORES EFEITOS VISUAIS1917

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAParasita (Coréia do Sul)
MELHOR DOCUMENTÁRIOFor Sama
MELHOR ANIMAÇÃO: Klaus
MELHOR ESTREIA DE UM DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO: Bait (Mark Jenkin, diretor e roteirista; Kate Byers; Linn Waite, produtor)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Learning to Skateboard In A Warzone (If You’re A Girl)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Grandad Was a Romantic
EE RISING STAR AWARD: Micheal Ward

“Judy: Muito Além do Arco-Íris”: cinebiografia presta tributo à memória de Judy Garland sem hipocrisia, embelezamentos ou momentos edificantes

You won’t forget me, will you?

Direção: Rupert Goold

Roteiro: Tom Edge, baseado no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter

Elenco: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Finn Wittrock, Michael Gambon, Rufus Sewell, Richard Cordery, Royce Pierreson, Darci Shaw, Andy Nyman, Bella Ramsey, Lewin Lloyd

Judy, Reino Unido, 2019, Drama, 118 minutos

Sinopse: Inverno de 1968. Com a carreira em baixa, Judy Garland (Renée Zellweger) aceita estrelar uma turnê em Londres, por mais que tal trabalho a mantenha afastada dos filhos menores. Ao chegar ela enfrenta a solidão e os conhecidos problemas com álcool e remédios, compensando o que deu errado em sua vida pessoal com a dedicação no palco. (Adoro Cinema)

Fatores externos não devem necessariamente ser pré-requisitos para a devida apreciação de um filme, mas há casos em que compreender elementos orbitantes a um projeto só contribui para a nossa experiência como espectador. Reserve um tempo, portanto, para investigar a vida de Judy Garland antes de conferir Judy: Muito Além do Arco-Íris. E o mais importante: recupere também a carreira de Renée Zellweger, desde quando ela teve seu primeiro papel de destaque em Jerry Maguire: A Grande Virada nos anos 1990 até chegar ao próprio Judy. Espelhando a trajetória de ambas, a semelhança fica clara em um piscar de olhos: descobertas, celebradas, mastigadas e, por fim, cuspidas por Hollywood, as duas viram o melhor e o pior dessa complicada indústria.

A diferença, claro, é que Renée não faleceu aos 47 anos em um dos momentos mais baixos de sua carreira. Na verdade, aos 50, a texana vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Cold Mountain tem a chance de renascer em Hollywood justamente ao prestar um tributo muito íntimo e particular à colega que não teve a mesma chance de se reerguer. Após ter amargado vários projetos terríveis, enfrentado anos de depressão e lidado com toda a misoginia de uma opinião pública impiedosa com a aparência e o envelhecimento das mulheres, Renée agora reverencia o legado de Garland com uma série de significados muito particulares e que talvez apenas ela pudesse traduzir com tamanha propriedade.

A escalação da atriz é perfeita porque Renée compreende que uma cinebiografia como essa não deve ser feita para passar a mão na cabeça de Hollywood. Judy recusa a ideia de glorificar a vida de sua personagem-título ou de tentar amenizar todo o sofrimento vivido por ela em suas últimas semanas de vida. A escolha do recorte já é um claro recado: com base no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter, o roteirista Tom Edge reúne acontecimentos da temporada em que Garland, esquecida e escanteada pelos Estados Unidos, viaja à Inglaterra para juntar algum dinheiro com uma agenda de shows e, assim, voltar a sustentar seus próprios filhos.

Ao mesmo tempo em que encena os dias de uma Judy Garland já derrotada e debilitada, o filme busca devolver à atriz algum tipo de respeito e dignidade. E o faz sem purpurinas, momentos edificantes ou a tão esperada apresentação final responsável por induzir o espectador a pensar que, apesar dos pesares, tudo ficou bem. Sem hipocrisia, Judy se apresenta como uma comovente reparação para uma estrela que não desistia apesar das adversidades. As pílulas que lhe foram empurradas goela abaixo desde criança, a pressão por ter se tornado estrela cedo demais em um mundo de aparências e as crueldades trazidas pela vida e pelo trabalho após o envelhecimento lhe abalavam, mas, até certo ponto, nunca lhe aniquilavam.

Na pequena grande resistência de Garland, Judy tem uma personagem que, no fundo, tentava seguir em frente porque, assim como todos nós, tinha medo de ser esquecida. Essa perspectiva é traduzida na relação estabelecida pelo filme entre a protagonista e os palcos. Cantar, de certa forma, já não era mais suficiente para Garland, que muitas vezes se apresentava alterada por remédios, bebidas e noites de insônia. Contudo, quando se empoderava sob os holofotes, dominava a atenção por completo. A mulher magra, pálida e frágil dos bastidores de repente voltava a alcançar as notas que lhe alçaram ao sucesso mundial, (re)conquistando plateias e também o espectador do lado de cá da tela.

Quando Garland eventualmente se reergue, a conexão entre Renée e ela se estreita, e aí fica difícil (no bom sentido) distinguir quem nos comove: a protagonista em si dentro daquele recorte pontual ou quem a interpreta. Essa simbiose íntima e especial comove inclusive porque as canções são interpretadas por Renée. Mesmo que auxiliada pelo playback de gravações em estúdio, a atriz se junta a Taron Egerton em Rocketman e não a Rami Malek em Bohemian Rhapsody no sentido de criar a sua homenagem particular a Garland, procurando voz e interpretação próprias para encarnar uma figura que merece ser muito maior do que uma simples mímica.

Assumindo que um tributo a Garland tem mais dignidade quando inexiste a obsessão de tentar copiá-la, Renée se mostra sábia e corajosa. A cena em que ela canta Somewhere Over the Rainbow atesta tal posicionamento: para a atriz, o importante nesse momento não é reproduzir fielmente a voz de Garland, mas sim toda a rouquidão, a hesitação e a fragilidade de uma mulher tão sugada pela vida e que já não consegue cantar um de seus maiores clássicos com desenvoltura. Renée ressignifica muitas das fragilidades do filme e potencializa detalhes importantes, como a relação da protagonista com o público gay, aqui retratado por um humilde casal que faz companhia a Garland em uma noite onde, assim como em tantas outras, ninguém mais lhe espera na saída do teatro para um autógrafo.

Tratando-se de forma, Judy: Muito Além do Arco-Íris é um longa-metragem tradicional, imperfeito e até inexpressivo do ponto de vista estético. O diretor Rupert Goold, cuja carreira é muito mais teatral do que cinematográfica, não faz muita diferença no projeto: tê-lo ou não atrás das câmeras parece irrelevante, pois as decisões mais importantes não vêm dele, e sim do recorte proposto pelo roteiro e, claro, da escalação de Renée Zellweger. Judy, portanto, ganha na franqueza: sem ser apaziguador, associa a retrospectiva do legado de Garland à necessidade de fazer Hollywood refletir sobre cicatrizes que ainda continuam bastante abertas. As coisas realmente não mudaram muito com o passar dos anos.

Melhores de 2019: “Parasita” e “A Favorita” lideram lista do blog com nove indicações cada

Disputando nove categorias, Parasita é o filme de língua não-inglesa com o maior número de indicações em todas as listas de melhores do ano já realizadas pelo blog.

Criada em 2007 aqui no blog, a lista de Melhores do Ano busca, assim como qualquer outra seleção assinada por qualquer pessoa do universo, elencar as produções mais marcantes de determinado ano. É um trabalho em vão: ainda que existam exceções, somente o tempo poderá provar o quanto determinada obra é realmente grandiosa ou inesquecível. Ainda assim, adoramos listas, mas é importante lembrar que elas sempre dizem muito mais sobre quem as faz do que sobre os filmes em si. Não há certo ou errado: cada um escolhe a partir de suas preferências, afinidades, bagagens e identificações. O divertido mesmo é a troca de opiniões e perspectivas.

Selecionando os filmes que considero os melhores de 2019, usei, como sempre, o parâmetro de identificação. Todas as obras listadas abaixo se conectaram comigo de alguma maneira em suas respectivas categorias. E o resultado traz dois filmes liderando a lista com nove indicações cada: Parasita, de Bong Joon-ho, e A Favorita, de Yorgos Lanthimos, seguidos de perto pelo libanês Cafarnaum e pelo espanhol Dor e Glória, ambos com seis indicações. Cheguei organicamente a um conjunto mais próximo de filmes de língua não-inglesa, e verdade seja dita: foi lindo viajar por tantos países e sotaques em 2019. Os vencedores dessa seleção serão conhecidos nas próximas postagens, com comentários individuais em cada categoria. 

Confiram abaixo a lista completa de indicados, considerando os títulos lançados comercialmente no Brasil em 2019 (incluindo streaming):

MELHOR FILME
Bacurau
Cafarnaum
Dor e Glória
A Favorita
Parasita

MELHOR DIREÇÃO
Barry Jenkins (Se a Rua Beale Falasse)
Bong Joon-ho (Parasita)
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Bacurau)
Nadine Labaki (Cafarnaum)
Pedro Almodóvar (Dor e Glória)

MELHOR ELENCO
Assunto de Família
Bacurau
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ATRIZ
Camila Morgado (Vergel)
Glenn Close (A Esposa)
Lupita Nyong’o (Nós)
Olivia Colman (A Favorita)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Marco Nanini (Greta)
Zain al Rafeea (Cafarnaum)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cho Yeo-jeong (Parasita)
Fernanda Montenegro (A Vida Invisível)
Penélope Cruz (Dor e Glória)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Yordanos Shiferaw (Cafarnaum)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Joe Pesci (O Irlandês)
Leonardo Sbaraglia (Dor e Glória)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Song Kang-ho (Parasita)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Bacurau
Dor e Glória
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Greta
Poderia Me Perdoar?
Querido Menino
Se a Rua Beale Falasse
A Vida Invisível

MELHOR MONTAGEM
Bacurau
Cafarnaum
Democracia em Vertigem

A Favorita
Parasita

MELHOR FOTOGRAFIA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Coringa
A Favorita
Se a Rua Beale Falasse
Vergel

MELHOR TRILHA SONORA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Cafarnaum
Coringa
História de Um Casamento
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Coringa
A Favorita
Parasita
Rocketman
Vergel

MELHOR FIGURINO
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês

Rocketman
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR SOM
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Bacurau
Coringa
Nós
Rocketman

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“A Glass of Soju” (Parasita)
“(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)
“Revelation” (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
“Zero” (WiFi Ralph: Quebrando a Internet)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Ad Astra: Rumo às Estrelas
O Irlandês
Vingadores: Ultimato

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês
Rocketman
A Vida Invisível