Cinema e Argumento

49º Festival de Cinema de Gramado #8: “Carro Rei” é o grande vencedor da mostra competitiva de longas brasileiros

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Carro Rei, de Renata Pinho, é o terceiro longa-metragem pernambucano a vencer o Festival de Cinema de Gramado nos últimos dez anos. Foto: Edison Vara/Pressphoto.

Pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Cinema de Gramado se viu obrigado a acontecer em um formato televisivo e online, atendendo de forma responsável aos efeitos da pandemia da Covid-19. Um tanto mais desgastado do que o ano passado em diversos sentidos, o Festival tomou forma sem a garra que poderia se esperar para um evento que, em 2022, comemora nada menos do que 50 anos de existência, o que inclui desde modificações bastante complicadas na grade horária (antes exibida às 20h no Canal Brasil, a programação saltou para às 21h30, levando os filmes madrugada adentro) até percalços recorrentes na concepção técnica e artística de transmissões ao vivo e das próprias premiações. Foi uma edição menor e novamente realizada em tempos de exceção, mas que não se mostrou tão presente como a do ano passado, também concebida no mesmo formato. Que, em 2022, possamos celebrar o cinquentenário de Gramado presencialmente!

Responsável por tentar traduzir em prêmios o melhor de uma seleção de longas-metragens irregular, o júri formado por Catarina Apolonio, Carol Castro, Fabricio Boliveira, Ana Paula Mendes e Tabajara Ruas acertou em cheio ao consagrar o pernambucano Carro Rei, de Renata Pinheiro, como o melhor filme da 49ª edição. Trata-se da terceira vez, em menos de uma década, que o cinema pernambucano se consagra na Serra Gaúcha: em 2019, a coprodução King Kong em Asunción levou a melhor, e Tatuagem foi o grande vencedor do ano de 2013. Mistura visceral de diversos gêneros e referências, Carro Rei também levou os prêmios de melhor desenho de som, trilha sonora, direção de arte e uma menção honrosa para o maravilhoso desempenho de Matheus Nachtergaele. É talvez o filme mais peculiar a vencer Gramado em muitos anos e também o tipo de experiência que ficará para a posteridade.

Outro aspecto bacana e muito sintomático da premiação é o de que a trinca de melhor filme — júri oficial, popular e da crítica — foi toda entregue a filmes dirigidos por mulheres. E, de fato, elas dirigiram, em maior e menor escala, os melhores longas desta edição: o júri oficial ficou com Carro Rei, enquanto o júri popular escolheu O Novelo, de Claudia Pinheiro. Já a crítica especializada consagrou A Primeira Morte de Joana, de Cristiane Oliveira. Por outro lado, é de se estranhar que a comédia Jesus Kid, de Aly Muritiba, tenha conquistado prêmios bastante importantes como o de direção e roteiro, tanto por essa constatação de um claro domínio feminino quanto pelo fato de ser mesmo uma produção de gosto duvidoso. E outra: como um filme que é o melhor em duas categorias centrais não se consagra na categoria principal? Sem dúvida, trata-se de uma dupla incoerência entre as escolhas do júri.

Além do meu apreço pela vitória de Carro Rei, gosto do amplo reconhecimento dado ao elenco de O Novelo, da participação especial de Isabel Zuaa aos atores jovens. Entre os protagonistas adultos e masculinos do filme, o prêmio de melhor ator coube a Nando Cunha, uma verdadeira surpresa considerando que o longa de Claudia Pinheiro tem vários personagens principais e que outros dois grandes atores eram franco favoritos: Matheus Nachtergaele (Carro Rei), que acabou ficando com uma menção honrosa, e Chico Díaz, cujo Homem Onça levou apenas um prêmio muito justo de atriz coadjuvante para Bianca Byington. Quanto aos prêmios técnicos, boa coerência entre os vitoriosos, seja pelas categorias faturadas por Carro Rei ou pelos prêmios para A Primeira Morte de Joana em melhor montagem e fotografia (o segundo Kikito de Bruno Polidoro na noite, já que ele também conquistou a estatueta na mostra gaúcha de longas com A Colmeia).

Por ter participado da seleção dos filmes que concorreram no segmento de curtas-metragens brasileiros, não comentarei em detalhes sobre os vencedores. No entanto, tendo abarcado um recorte muito específico para representar o Brasil em que vivemos, digo que gostei muito das escolhas do quarteto formado por Elisa Volpatto, Janaina Oliveira ReFem, Marco Antônio Pereira, Valéria Verba e Ulisses Arthur. A lista do júri foi muito feliz em conjugar os méritos cinematográficos e temáticos presentes na mostra. No que tange aos longas estrangeiros e gaúchos, tenho pouco a dizer, uma vez que as sessões, pelo menos no formato televisivo, acabavam muito tarde, o que é inviável para quem precisa acordar cedo no dia seguinte. Por fim, entre os curtas gaúchos, cuja cerimônia aconteceu no domingo à tarde, as esperadas lideranças de Desvirtude Eu Não Sou Um Robô realmente se concretizaram, já que estavam um passo à frente com o aval de duas comissões de seleção distintas: a dos gaúchos e a brasileira.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Carro Rei, de Renata Pinheiro
MELHOR DIREÇÃO: Aly Muritiba (Jesus Kid)
MELHOR ATRIZ: Glória Pires (A Suspeita)
MELHOR ATOR: Nando Cunha (O Novelo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Bianca Byington (Homem Onça)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Leandro Daniel Colombo (Jesus Kid)
MELHOR ROTEIRO: Aly Muritiba (Jesus Kid)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (A Primeira Morte de Joana)
MELHOR MONTAGEM: Tula Anagnostopoulos (A Primeira Morte de Joana)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Dj Dolores (Carro Rei)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Karen Araújo (Carro Rei)
MELHOR DESENHO DE SOM: Guile Martins (Carro Rei)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): O Novelo, de Claudia Pinheiro
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): A Primeira Morte de Joana, de Cristiane Oliveira
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Matheus Nachtergaele (Carro Rei), pela construção e domínio do personagem e pela brilhante capacidade de se reinventar.
MENÇÃO HONROSA: Fernando Lufer, Michel Gomes, Victor Alves, Kaike Pereira, Pedro Guilherme e Caio Patricio por seu talento e potência em O Novelo.
MENÇÃO HONROSA: Isabél Zuaa, pela bela e impactante atuação em O Novelo.

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: La Teoría De Los Vidrios Rotos, de Diego Fernández Pujol
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): La Teoría De Los Vidrios Rotos, de Diego Fernández Pujol
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Planta Permanente, de Ezequiel Radusky
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRIPlanta Permanente, de Ezequiel Radusky, pela abordagem de temas tão presentes em nossa sociedade que refletem as consequências de um sistema corrompido e afetam diretamente os valores humanos, e pelas interpretações das protagonistas femininas que representam a força das mulheres latinas em nosso cinema.

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS

MELHOR FILME: Cavalo de Santo, de Carlos Eduardo Caramez e Mirian Fichtner
MELHOR DIREÇÃO: Gilson Vargas (A Colmeia)
MELHOR ATRIZ: Luciana Renatha, Alexia Kobayashi e Veronica Challfom (Extermínio)
MELHOR ATOR: João Pedro Prates (A Colmeia)
MELHOR ROTEIRO: Carlos Eduardo Caramez (Cavalo de Santo)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (A Colmeia)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Gilka Vargas e Iara Noemi (A Colmeia)
MELHOR MONTAGEM: Joana Bernardes e Mirela Kruel (Extermínio)
MELHOR DESENHO DE SOM: Gabriela Bervian (A Colmeia)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Cânticos Sagrados dos Orixás preservados pelos Terreiros gaúchos e Alabê Oni (Cavalo de Santo)
MELHOR FILME: (JÚRI POPULAR) Cavalo de Santo, de Carlos Eduardo Caramez e Mirian Fichtner

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: A Fome de Lázaro, de Diego Benevides
MELHOR DIREÇÃO: Fabio Rodrigo (Entre Nós e o Mundo)
MELHOR ATRIZ: Tieta Macau (Quanto Pesa)
MELHOR ATOR: Lucas Galvino (Fotos Privadas)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Grabowsky, Aline Portugal e Manoela Sawitzki (Fotos Privadas)
MELHOR FOTOGRAFIA: Rodolpho Barros (Animais na Pista)
MELHOR MONTAGEM: Caroline Neves (Entre nós e o Mundo)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Eli-Eri Moura (Animais na Pista)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Torquato Joel (A Fome de Lázaro)
MELHOR DESENHO DE SOM: Breno Nina (Quanto Pesa)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Desvirtude, de Gautier Lee
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Entre Nós e o Mundo, de Fábio Rodrigo
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Fabio Rodrigo (Entre Nós e o Mundo), por responder de forma consciente em termos estéticos, afetivos e narrativos a pergunta “como falar sobre a dor da perda e ainda ter esperança?”.
MENÇÃO HONROSA: A Beleza de Rose, de Natal Portela, por fazer um delicado recorte da vida de muitas mulheres negras no nordeste do Brasil.
PRÊMIO CANAL BRASIL: A Beleza de Rose, de Natal Portela

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)

MELHOR FILME: Desvirtude, de Gautier Lee
MELHOR DIREÇÃO: Gautier Lee (Desvirtude)
MELHOR ATRIZ: Evellyn Santos (Desvirtude)
MELHOR ATOR: Álvaro Rosacosta (Rufus)
MELHOR ROTEIRO: Felipe Yurgel, Gabriela Lamas e Maurilio Almeida (Eu Não Sou Um Robô)
MELHOR FOTOGRAFIA: Lívia Pasqual (Eu Não Sou Um Robô)
MELHOR MONTAGEM: Gabriel Borges (Desvirtude)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Gabriela Lamas (Eu Não Sou Um Robô)
MELHOR TRILHA SONORA: Renan Franzen (Noite Macabra)
MELHOR DESENHO DE SOM: Kiko Ferraz e Chrístian Vaisz (Um Dia de Primavera)
MELHOR PRODUÇÃO EXECUTIVA: Álvaro Rosa Costa, Carmem Fernandes, Fernanda Kern, Laura Cohen, Lisiane Cohen, Maurício Borges de Medeiros (Era Uma Vez Uma Princesa)
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Eu Não Sou Um Robô, de Gabriela Lamas
MENÇÃO HONROSARota, de Mariani Ferreira, por nos colocar diante de uma relação complexa de forma inteligente, cuidadosa e provocadora; pelas atuações, que em momentos certeiros, ampliam profundamente a distancia entre pai e filha; e, por fim, pela elaboração do roteiro, pela direção, montagem, desenho de som, e pela força de toda a equipe de produzir Rota em um tempo tão diferente.

49º Festival de Cinema de Gramado #7: “A Primeira Morte de Joana” e “Jesus Kid”

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“A Primeira Morte de Joana”,

de Cristiane Oliveira

Ainda há algo de novo a ser dito em relação às histórias de ritos de passagem? Do cinema brasileiro ao Hollywoodiano, o chamado coming of age ganhou grande popularidade nos últimos anos e agora parece chegar a um ponto de virada, onde a temática deixa de encantar por si só e o que acaba pesando na balança é a capacidade de cada cineasta mergulhar na temática propondo novos olhares. Não sou um entusiasta de Mulher do Pai, filme anterior da gaúcha Cristiane Oliveira, mas embarquei em A Primeira Morte de Joana, onde ela demonstra uma admirável facilidade em identificar o tipo de história que lhe interessa e em estabelecer uma identidade muito própria como realizadora. Neste caso, Cristiane busca as especificidades e as camadas de um coming of age ambientado em Osório, cidade localizada a 95 quilômetros de distância de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

A geografia é fundamental para que A Primeira Morte de Joana não seja um relato reiterativo da temática, inclusive no que tange à descoberta da protagonista sobre a sua própria homossexualidade. Não só as dinâmicas conservadoras e reprimidas do povo gaúcho quanto à diversidade se apresentam aqui em tom mais íntimo e familiar como também os elementos da natureza — no caso, os ventos tão característicos de Osório, que abriga a segunda maior usina eólica da América Latina — contribuem para entendermos as transformações internas de Joana (Letícia Kacperski). O ponto de partida também é curioso, pois a protagonista inicia uma jornada de autodescoberta a partir de um segredo familiar: o de que a sua tia-avó faleceu aos 70 anos sem nunca ter namorado alguém. A partir daí, A Primeira Morte de Joana lança um olhar para as relações entre diferentes gerações femininas daquela família.

Capturando com perfeição os costumes e os sentidos da vivência gaúcha contemporânea em uma cidade como Osório, Cristiane Oliveira faz um filme muito honesto e que chega à competição do 49º Festival de Cinema de Gramado após ter passado outros eventos do gênero em países como Índia, Suécia, Alemanha e Estados Unidos. Em contraponto, o fato de A Primeira Morte de Joana ser uma experiência tão redondinha e “com tudo no lugar” traz certo afastamento, como se faltasse uma garra maior em termos criativos, de ritmo e atmosfera. Trata-se da já conhecida sensação de que, mesmo agradável, delicado e com méritos facilmente identificáveis ao longo da projeção, o longa desperta mais envolvimento enquanto estamos em contato com ele, reverberando menos após a chegada dos créditos finais — sensação essa que, claro, depende de espectador para espectador, ainda mais em um filme sobre questão tão íntimas de uma personagem bastante identificável.

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“Jesus Kid”, de Aly Muritiba

O que explica um diretor ir de todo o impacto da minissérie O Caso Evandro para um apanhado de descompassos e desarranjos como Jesus Kid? É o tipo de involução surpreendente, inclusive por estarmos diante de um projeto que se propõe a adaptar uma obra do sempre criativo Lourenço Mutarelli. Pois, em Jesus Kid, o baiano Aly Muritiba erra a mão em uma comédia desencontrada, para dizer o mínimo. O que seria ela, afinal? Sátira? Deboche? Pastelão? Nonsense? Difícil saber em qual humor ele quer acertar, e não em um bom sentido. O caos visto em Jesus Kid não é, por exemplo, aquele proposital e metafórico que já vimos neste 49º Festival de Cinema de Gramado com Carro Rei. A confusão aqui é mesmo reflexo de um projeto mal calibrado e sem unidade. 

No centro do longa está Eugênio (Paulo Miklos), escritor de western que sê vê em dificuldades quando seu personagem mais famoso, Jesus Kid, começa a ir mal de vendas. Mas eis que aparece uma possível salvação: ele é contratado para escrever o roteiro de um filme. Quem vive Jesus Kid é Sérgio Marone, que adquiriu os direitos de adaptação da obra de Mutarelli e convidou o baiano Aly Muritiba para assumir a direção. Também autor do roteiro, Muritiba fez ajustes no texto original, incorporando à trama piadas e referências relacionadas ao estado político atual do Brasil. Infelizmente, elas não são orgânicas e soam forçadas quando Jesus Kid as adota como muleta. É uma oportunidade perdida porque o longa poderia construir algo muito mais refinado em sua proposta de western contemporâneo e povoado por homens armados e pseudo-vilões.

Na medida em que se perde e se confunde em todas as brincadeiras já um tanto confusas, o filme de Muritiba logo se torna cansativo. As metalinguagens entre literatura e cinema reforçam essa impressão, algo que afeta o próprio elenco. Paulo Miklos, que vem se dedicando cada vez mais ao cinema (em 2019, ele chegou a ganhar o Kikito de melhor ator pelo drama O Homem Cordial, talvez a sua melhor interpretação até aqui), interpreta o protagonista Eugênio tateando qual linha cômica usar o tempo inteiro, mas sem encontrá-la. Enquanto isso, Sérgio Marone, que sempre foi mais galã do que bom ator, funciona até melhor do que o próprio Miklos em diversos momentos, pois seu porte físico, sua estatura de 1,93m e até mesmo seu ar canastrão servem ao propósito desse caubói inusitado. Ou seja, quando se torna possível fazer esse tipo de constatação entre atores de estilos e repertórios opostos, é porque algo está errado. E, em Jesus Kid, não é difícil afirmar que realmente está. 

49º Festival de Cinema de Gramado #6: “Carro Rei”, de Renata Pinheiro

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Com desempenho visceral, Matheus Nachtergaele é, em Carro Rei, a representação do que existe de melhor nesta fábula singular e provocadora sobre o caos do Brasil.

Confesso que nunca entendi muito bem a aversão de grande parte do público por filmes divisivos, polêmicos e que se situam bem fora da curva. Deve ser porque prefiro amar ou odiar ao extremo uma experiência cinematográfica do que ficar indiferente a ela. Filmes mornos não me interessam, e é por isso mesmo que defendo amplamente Carro Rei, um dos trabalhos mais inusitados e singulares do cinema brasileiro recente. Aturdido, terminei a sessão sem saber muito bem o que achei do filme, inclusive porque muitas referências e leituras me escaparam ao longo da projeção, mas, aos poucos, tudo foi crescendo comigo e logo constatei o porquê: em seu quarto trabalho como diretora de longas, Renata Pinheiro chuta o balde com gosto, sem se preocupar com classificações, expectativas ou pré-conceitos, entregando um trabalho que ressoa e se enriquece muito após a sessão. Tamanha falta de amarras com o convencional e com tudo de mais padronizado que aí está deve ser sempre motivo de celebração.

Do delírio ao techno-extravagante, para citar algumas das definições usadas por público e crítica em exibições internacionais e agora no 49º Festival de Cinema de Gramado, Carro Rei é um caldeirão de infinitas referências e gêneros. Há uma certa fábula em seus primeiros minutos (alguns dos personagens se chamam Uno, Zé Macaco ou Amora, fazendo referência a vários símbolos da trama). Gradativamente, ela abre espaço para alegorias de todos os tipos, além de ter um atmosfera muito presente de aventura e ficção científica. Ao fim, me pareceu mais um filme de terror. Nesta história sobre um menino que descobre ter o poder de se comunicar com carros, a crítica pode se esbaldar em seu hábito (vício?) de fazer associações temáticas com outras obras. As mais citadas até aqui são Christine, o Carro Assassino, de 1983, ou Crash – Estranhos Prazeres, dirigido por David Cronenberg em 1996. No meu caso, faço o diálogo com Holy Motors, aquela deliciosa alucinação de Leos Carax protagonizada por um impressionante Denis Lavant.

À parte as conexões cinematográficas, talvez o lado mais potente de Carro Rei seja aquele em que podemos enxergar todo o caos que o Brasil vem vivendo nos últimos anos, mas não com discursos prontos ou referências óbvias, como aconteceu, por exemplo, em Jesus Kid, outro filme em competição no Festival de Cinema de Gramado de 2021. Mesmo sequências um tanto explícitas, a exemplo daquela em que jovens de uniforme começam a se movimentar como robôs enquanto toca o hino nacional, são potentes por tudo o que significam. Considerando essa em específico, faço coro ao que Renata Pinheiro disse em uma bela entrevista ao portal Mulher no Cinema: por retratar uma juventude que começa a se robotizar e a ser instrumento do sistema ao som dos falsos ideários que tomaram conta da bandeira e do hino nacional, tudo se torna, de certa forma, inesperadamente triste.

Neste conto sobre o caos, conforme define a própria diretora, encontramos elementos que podem muito refletir a identidade brasileira, mas no sentido crítico. Além do fetiche louco por carros que costuma ser o modo com que homens provam seus altos níveis de testosterona, é estimulante ver a reflexão em cima do personagem Zé Macaco vivido por Matheus Nachtergaele em desempenho visceral e de notável harmonia entre um impressionante trabalho físico e o domínio das camadas emocionais de um personagem suscetível a caricaturas. Ele é a perfeita representação dessa população oprimida que, quando vê a oportunidade de deter certo poder e relevância, acaba justamente se tornando o opressor e um símbolo de perigo.  Também coloque na conta o renascimento de ideias totalitárias no Brasil contemporâneo e aquele que é o processo mais amedrontador de Carro Rei e que, em linhas gerais, termina por ser o fio condutor de todo o longa: a forma com que as máquinas evoluem na mesma medida em que os homens involuem ao acharem que estão conquistando o mundo ao aperfeiçoá-las.

Naturalmente, por tentar agrupar uma infinidade de leituras através de diversos gêneros e referências, Renata Pinheiro corre o risco de não alcançar a devida profundidade em certas discussões ou até mesmo de perder a mão frente a tantas ideias. E Carro Rei é mesmo um longa-metragem imperfeito, acertando em algumas reflexões (as citadas até aqui) e errando em outras (a mensagem ecológica previsível, a sensação de não captar tudo no ritmo propositalmente caótico), enquanto também tem suas limitações em outros aspectos, como no próprio elenco, que se engrandece mais pelo desempenho de Nachtergaele do que pelo conjunto de atores. Só que é difícil se ater a esses pormenores quando Renata emoldura o projeto com um trabalho técnico refinadíssimo, onde a trilha de DJ Dolores e o desenho de som assinado por Guile Martins se destacam por uma sinfonia imersiva que carrega o espectador ao longo do filme. Não se trata de uma experiência fácil. Será amada e odiada nas mesmas proporções. Terá suas variações entre o gosto particular de cada um. E sem dúvida oscilará entre o “genial” e o “ridículo” com o público. Uma coisa, no entanto, é certa: com Carro Rei, mais uma vez podemos afirmar que hoje o cinema brasileiro se renova e se reinventa graças ao talento potente dos pernambucanos.

49º Festival de Cinema de Gramado #5: “O Novelo”, de Claudia Pinheiro

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Com elenco em estado de graça, O Novelo é um belo retrato familiar sobre abandono paterno e sobre a forma com que as pessoas lidam com um mesmo peso de diferentes modos.

Costumo dizer que, para mim, os filmes mais fascinantes são aqueles sobre pessoas comuns, rotinas identificáveis e sentimentos que, de uma forma ou de outra, marcam a nossa existência. Encontrar delicadeza e grandiosidade neste “gênero” é mais difícil do que se imagina e, por isso mesmo, filmes como O Novelo são tão especiais. Baseado no espetáculo homônimo lançado em 2010, o longa de Claudia Pinheiro convoca Nanna de Castro, autora do texto original, para também assinar o roteiro da versão cinematográfica. A dificuldade que muitos encontram de transpor seu próprio texto para o cinema, especialmente no que se refere à busca pelo ritmo e o estilo cinematográfico, não é um problema para Nanna. E para Claudia também não. Juntas, elas preservam traços da natureza teatral de O Novelo ao mesmo tempo em que conferem uma forma cinematográfica onde o afeto, a verossimilhança e a conexão com os personagens emolduram o resultado final.

O ponto de partida adotado por O Novelo já mostra o compromisso dos envolvidos em buscar a humanidade, o diferente e o lado simples das coisas. Em foco, estão cinco irmãos negros que, nunca marginalizados ou estereotipados, carregam um mesmo peso: o abandono do pai durante a infância. Já adultos, cada um seguiu seu rumo e lidou com a ausência paterna de maneiras diferentes, até o dia em que são confrontados com a notícia de que um homem hospitalizado pode ser o pai que eles nunca mais viram. O olhar feminino na direção e no roteiro confere a esse conflito uma delicadeza ímpar: do convívio entre os irmãos até a ideia de um possível acerto de contas com o pai, Cláudia e Nanna lançam um olhar questionador para a questão da masculinidade, mostrando-a por meio de diferentes prismas. Aqui, os homens choram, são inseguros, enfrentam problemas, carregam mágoas, lutam contra vícios e até mesmo têm sua heterossexualidade questionada sem que isso seja o fim do mundo. E por que não haveria de ser assim, já que são exemplos que, dadas as proporções e circunstância, realmente acontecem no íntimo de cada homem ao longo da vida?

Ainda no plano da desconstrução, é muito bonito como O Novelo ressignifica as narrativas negras ao colocar os personagens não em posição de vulnerabilidade social ou algo do gênero. As perspectivas viciadas e os estereótipos tão comuns, principalmente no que tange produções dirigidas por cineastas brancos que acreditam entender as dimensões da negritude, são recusadas pelo filme, que se concentra nas dinâmicas familiares sem que a raça carregue pré-conceitos. Isso é muito bonito porque O Novelo, apesar de ecoar os efeitos do abandono paterno, se debruça nas personalidades de cada um dos personagens e no momento em que eles se veem obrigados a encarar o passado e a compartilhar entre si o modo com que lidam com ele. Em complemento, é acertadíssima a estrutura de adotar um recorte específico para a trama, o que contribui diretamente para a construção da dinâmica dos personagens. Por acompanhá-los em um espaço de tempo específico, vamos pouco a pouco descobrindo suas identidades em cada detalhe do cotidiano, tornando nosso entendimento em relação a elas muito mais humano, orgânico e crível.

Por mais que, de início, seja complicado se situar entre tantos personagens e também entre as idades e vindas que o filme dá com eles — algumas muito bem sucedidas em função da nostalgia e da presença sempre marcante de Isabél Zuaa, outros nem tanto pela redundância —, é questão de tempo para estarmos familiarizados com todos. Além dos méritos de Claudia e Nanna, é fundamental reconhecer ainda o grande trabalho do elenco, onde cada ator, sem exceção, está muito bem em cena. A generosidade é tocante: jamais um tenta se sobressair mais do que o outro, por mais interessantes que determinados personagens possam ser, e isso endossa a generosidade ímpar de O Novelo e sua unidade dramatúrgica admirável. E como se não bastasse ser um pequeno grande filme, o roteiro também reserva uma excelente reflexão para o final — e que talvez até merecesse mais espaço no roteiro. Afinal quais são as ilusões que precisamos vender ou comprar para seguir em frente? Mentiras sinceras interessam? É um arremate interessantíssimo para um relato que, até ali, já era rico por si só ao ser tão prismático na costura feita de personagens múltiplos e circunscritos em um mesmo drama.

49º Festival de Cinema de Gramado #4: “Homem Onça”, de Vinícius Reis

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Desempenho de Chico Díaz é destaque de Homem Onça, filme sobre a era das privatizações.

Homem Onça faz a sua primeira exibição em um momento muito propício. Ainda que ambientado no final dos anos 1990, o filme de Vinícius Reis mostra um Brasil facilmente identificável em 2021: esse que adora a ideia de privatizações e que joga para o ralo o valor da carreira, da camaradagem e de incontáveis carreiras dedicadas ao progresso de um país. Quando o lucro de grandes corporações está acima de qualquer coisa, principalmente quando almejado por autoridades engravatadas dos Estados Unidos, muito se perde e pessoas se corrompem, acarretando profundas mudanças nos aspectos sociais e políticos de um país. O fato de o Brasil discutir, em pleno 2021, a privatização dos Correios, por exemplo, reacende a triste constatação de que pouco mudou e de que vivemos em um país cuja filmografia já lançou luz sobre muitos de seus aspectos político-sociais, mas que talvez nunca tenha olhado de maneira tão específica para os dilemas das privatizações como em Homem Onça.

A ideia do projeto partiu de uma experiência muito pessoal do diretor Vinícius Reis, uma vez que seu próprio pai, funcionário da Vale do Rio Doce à época da privatização da mesma, precisou reconstruir a vida após anos dedicados à estatal. A onça que é referenciada no título do filme também é uma lembrança de seu pai e que, na versão cinematográfica, foi traduzida como uma metáfora dessa transformação. Vinícius, no entanto, não faz um filme biográfico, e sim uma ficcionalização de fatos e lembranças que lhe são muito próximas, conferindo a Homem Onça um retrato íntimo desse protagonista tão brasileiro e interpretado com a excelência habitual do grande Chico Díaz. Em suma, estamos diante de um protagonista que se move a partir de estímulos externos e desconhecidos para ele próprio até então, o que o coloca em situações tanto extremamente desconfortáveis, como aquela em que é acusado de não ter lutado pela permanência de uma pessoa de sua equipe, quanto de certa libertação, a exemplo das noitadas regadas a incontáveis garrafas de vinho e cantorias após o seu desligamento.

Por querer fazer um paralelo entre a vida do protagonista antes e depois das privatização, Homem Onça estrutura a trama a partir de duas linhas temporais que correm paralelamente ao longo do filme. Não acho que seja uma escolha das mais acertadas, principalmente no que se refere à parte em que o Pedro de Chico Díaz, ainda trabalhando na fictícia Gás do Brasil, começa a perceber o movimento gradual do processo de privatização da empresa. A dedicação em dar tanta atenção a esse recorte específico enfraquece o resultado por dois motivos. Primeiro é por de levar tanto tempo — praticamente uma hora, arrisco dizer — para tomar rumos muito claros desde o início e desenhados sem surpresas pelo roteiro também escrito por Vinícius Reis. E o segundo é por preterir maiores reflexões de natureza histórica-sociológica, abandonando, por sinal, a força das imagens reais de protestos contra as privatizações que abrem o filme. Um engajamento mais complexo e menos dramatizado dos fatos talvez pudesse minimizar um pouco a impressão novelesca que fica da parcela dedicada a todo o processo de desligamento profissional do protagonista.

Além de trazer um descompasso de ritmo e interesse a Homem Onça, a divisão em duas linhas temporais também não deixa de truncar a nossa conexão com as transformações internas do personagem vivido por Chico Díaz. As cenas em que ele contracena com a ótima Bianca Byington são luminosas porque nelas percebemos um novo homem imergindo em suas angústias e êxtases. Aprendendo (ou não) a lidar com o vazio trazido pela sensação de ter vivido uma vida de certa forma desperdiçada, Pedro gradativamente se entrelaça, do ponto de vista metafórico, com a onça que habita as redondezas de sua casa no meio do mato. Mais do que associá-lo ao animal, a doença que também passa a acometer o protagonista pode ser interpretada de modo similar ao que vimos em Mormaço: mesmo que seja essencialmente física, ela expressa uma série de conflitos emocionais transferidos para sinais do próprio corpo, como se Pedro não pudesse esconder o que passa dentro de si. É exatamente esse o tipo de discussão que me interessa em Homem Onça e que, em grande parte, está traduzida menos no filme como um todo e mais no excelente desempenho de Chico Díaz, um ator de imenso repertório.