49º Festival de Cinema de Gramado #4: “Homem Onça”, de Vinícius Reis

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Desempenho de Chico Díaz é destaque de Homem Onça, filme sobre a era das privatizações.

Homem Onça faz a sua primeira exibição em um momento muito propício. Ainda que ambientado no final dos anos 1990, o filme de Vinícius Reis mostra um Brasil facilmente identificável em 2021: esse que adora a ideia de privatizações e que joga para o ralo o valor da carreira, da camaradagem e de incontáveis carreiras dedicadas ao progresso de um país. Quando o lucro de grandes corporações está acima de qualquer coisa, principalmente quando almejado por autoridades engravatadas dos Estados Unidos, muito se perde e pessoas se corrompem, acarretando profundas mudanças nos aspectos sociais e políticos de um país. O fato de o Brasil discutir, em pleno 2021, a privatização dos Correios, por exemplo, reacende a triste constatação de que pouco mudou e de que vivemos em um país cuja filmografia já lançou luz sobre muitos de seus aspectos político-sociais, mas que talvez nunca tenha olhado de maneira tão específica para os dilemas das privatizações como em Homem Onça.

A ideia do projeto partiu de uma experiência muito pessoal do diretor Vinícius Reis, uma vez que seu próprio pai, funcionário da Vale do Rio Doce à época da privatização da mesma, precisou reconstruir a vida após anos dedicados à estatal. A onça que é referenciada no título do filme também é uma lembrança de seu pai e que, na versão cinematográfica, foi traduzida como uma metáfora dessa transformação. Vinícius, no entanto, não faz um filme biográfico, e sim uma ficcionalização de fatos e lembranças que lhe são muito próximas, conferindo a Homem Onça um retrato íntimo desse protagonista tão brasileiro e interpretado com a excelência habitual do grande Chico Díaz. Em suma, estamos diante de um protagonista que se move a partir de estímulos externos e desconhecidos para ele próprio até então, o que o coloca em situações tanto extremamente desconfortáveis, como aquela em que é acusado de não ter lutado pela permanência de uma pessoa de sua equipe, quanto de certa libertação, a exemplo das noitadas regadas a incontáveis garrafas de vinho e cantorias após o seu desligamento.

Por querer fazer um paralelo entre a vida do protagonista antes e depois das privatização, Homem Onça estrutura a trama a partir de duas linhas temporais que correm paralelamente ao longo do filme. Não acho que seja uma escolha das mais acertadas, principalmente no que se refere à parte em que o Pedro de Chico Díaz, ainda trabalhando na fictícia Gás do Brasil, começa a perceber o movimento gradual do processo de privatização da empresa. A dedicação em dar tanta atenção a esse recorte específico enfraquece o resultado por dois motivos. Primeiro é por de levar tanto tempo — praticamente uma hora, arrisco dizer — para tomar rumos muito claros desde o início e desenhados sem surpresas pelo roteiro também escrito por Vinícius Reis. E o segundo é por preterir maiores reflexões de natureza histórica-sociológica, abandonando, por sinal, a força das imagens reais de protestos contra as privatizações que abrem o filme. Um engajamento mais complexo e menos dramatizado dos fatos talvez pudesse minimizar um pouco a impressão novelesca que fica da parcela dedicada a todo o processo de desligamento profissional do protagonista.

Além de trazer um descompasso de ritmo e interesse a Homem Onça, a divisão em duas linhas temporais também não deixa de truncar a nossa conexão com as transformações internas do personagem vivido por Chico Díaz. As cenas em que ele contracena com a ótima Bianca Byington são luminosas porque nelas percebemos um novo homem imergindo em suas angústias e êxtases. Aprendendo (ou não) a lidar com o vazio trazido pela sensação de ter vivido uma vida de certa forma desperdiçada, Pedro gradativamente se entrelaça, do ponto de vista metafórico, com a onça que habita as redondezas de sua casa no meio do mato. Mais do que associá-lo ao animal, a doença que também passa a acometer o protagonista pode ser interpretada de modo similar ao que vimos em Mormaço: mesmo que seja essencialmente física, ela expressa uma série de conflitos emocionais transferidos para sinais do próprio corpo, como se Pedro não pudesse esconder o que passa dentro de si. É exatamente esse o tipo de discussão que me interessa em Homem Onça e que, em grande parte, está traduzida menos no filme como um todo e mais no excelente desempenho de Chico Díaz, um ator de imenso repertório.

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