Cinema e Argumento

49º Festival de Cinema de Gramado #3: “A Suspeita”, de Pedro Peregrino

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Glória Pires em A Suspeita: atriz interpreta investigadora que descobre ter Mal de Alzheimer ao mesmo tempo em que passa a ser alvo de investigação de seu próprio departamento.

É tão louvável quanto perigosa a decisão de investir em um gênero cinematográfico sem muita tradição em determinada cinematografia. Tratando-se de A Suspeita, que marca a estreia de Glória Pires como produtora, temos o gênero policial, circunscrito em um cinema brasileiro que não costuma explorá-lo com tanta frequência. Há, claro, dois caminhos: o do acerto, onde um realizador pode ser bem sucedido em sua aposta, entregando algo bastante diferente do que estamos acostumados a ver, ou o do erro, capaz de transformar a tentativa em um exercício pouco orgânico ou crível, especialmente se o filme cair na tentação de emular a fórmula e a atmosfera de outras produções de países consolidados no gênero. Infelizmente, em que pese a boa intenção dos envolvidos, A Suspeita se enquadra no segundo caso.

Trabalho de estreia de Pedro Peregrino na direção de longas-metragens, o filme traz Glória Pires como Lúcia, uma renomada investigadora policial que, aos 55 anos de idade, descobre ter Mal de Alzheimer, ao mesmo tempo em que acaba se tornando alvo de uma investigação de seus próprios colegas. Não há muita naturalidade na confluência da vida pessoal e profissional da protagonista, ainda menos quando o projeto dá o azar de vir logo após uma produção tão bem resolvida neste aspecto: a minissérie Mare of Easttown, da HBO, onde Kate Winslet também interpreta uma investigadora workaholic que precisa equilibrar seus dias como detetive e uma vida pessoal conturbada. A Suspeita se desarmoniza na costura de perspectivas de sua protagonista, mas o problema é anterior: seja como drama policial ou pessoal, o longa tem poucas ideias.

Mulher solitária que dedica seus dias ao trabalho, Lúcia tenta tocar a vida ignorando a gravidade do Alzheimer precoce que acaba de a acometer. Para tentar se agarrar a algum tipo de referência no futuro, passa a deixar lembretes, comentários e relatos guardados em seu computador, exatamente como a personagem de Julianne Moore fazia em Para Sempre Alice, filme que, entre tantas outras inspirações, serviu de clara referência para a equipe. O problema é que o roteiro escrito por Thiago Dottori utiliza a doença mais como artifício para embaralhar as investigações policiais de Lúcia, que esquece e lembra de fatos conforme é mais ou menos conveniente para cada momento, do que como uma investigação sobre os dramáticos labirintos que começam a desestruturar a mente da protagonista — e, mais uma vez, A Suspeita dá o azar de suceder uma produção brilhante como Meu Pai, desde já um filme definitivo sobre o doloroso processo da perda de memória.

Já no plano profissional de Lúcia, os problemas do longa se equivalem e até mesmo se ampliam, uma vez que todo o enredo envolvendo a personagem como alvo de uma investigação dita os rumos do filme como um todo. Entretanto, as situações são vagas ou pouco instigantes, inclusive deixando várias lacunas, como as razões não muito claras para um determinado criminoso ser considerado tão perigoso e os próprios dilemas morais e profissionais da protagonista, que são abordados de maneira muito passageira, sem dar musculatura para o filme dimensionar dois pontos centrais: as denúncias de corrupção e a dinâmica de Lúcia em relação a seus colegas e ao sistema em que está inserida. O fato de A Suspeita se passar em 2013 na cidade do Rio de Janeiro tampouco faz diferença, pois não há necessariamente uma análise robusta de toda a engrenagem que move os trabalhos da protagonista.

No processo de costura dessas duas abordagens, a montagem de  Joana Collier acaba sendo de pouca ajuda e, na verdade, até desorganiza diversos momentos do filme com cortes anticlimáticos nas (poucas) cenas de ação e ao manter diálogos corriqueiros e que nada acrescentam entre Lúcia e seus colegas. Talvez haja por trás dessas impressões o conceito de que a montagem tenta reproduzir a visão fragmentada e nebulosa da protagonista diante de acontecimentos recentes devido ao avanço do Mal de Alzheimer, mas comigo o efeito foi de um estranhamento que jamais associei à condição de Lúcia. Interpretada por Glória Pires, a personagem, portanto, não estabelece uma grande conexão com o espectador, seja por tudo citado até aqui ou também pela constatação de que Glória não parece combinar com o papel mesmo. A soma de todos esses fatores faz de A Suspeita um filme sem atmosfera e que, ao seguir algumas fórmulas básicas ao invés de propor experimentações em um gênero de pouca tradição, termina com pouco a dizer.

Melhores de 2020: categorias de interpretação

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MELHOR ATOR COADJUVANTE
Paul Raci (O Som do Silêncio)

São 72 anos de idade e 40 de carreira, mas foi somente agora, em 2021, que Paul Raci ganhou seu primeiro papel de grande repercussão com O Som do Silêncio, chegando, inclusive, a concorrer ao Oscar de melhor ator coadjuvante. A chance tardia se dá com um trabalho repleto de significados para Raci: filho de pais surdos, ele cresceu entendendo intimamente esse universo, além de ter se tornado uma figura ativa na busca pelos direitos das pessoas surdas. Toda a sua experiência como membro de um grupo de atores surdos em Los Angeles e como vocalista da banda Hands of Doom ASL Rock, que realiza performances em LIBRAS, está evidente em cada segundo de sua interpretação, que busca apresentar a surdez com mais camadas do que o cinema norte-americano costuma abordar: sem estereótipos, mas com felicidade e tristeza, pessimismo e esperança, exatamente como acontece com todos nós.

É com essa perspectiva que o ator amplifica a importância de um papel muito pequeno e que se torna peça fundamental na jornada de autoconhecimento do protagonista Ruben (Riz Ahmed). Mais do que um personagem que o próprio Raci assume ter natureza autobiográfica, Joe é a sábia representação de um homem já em paz com a ideia de que a surdez não é algo a ser consertado. Em meio a tantas pessoas lutando contra seus próprios fantasmas em uma clínica de reabilitação, o personagem é construído com uma discrição exemplar. Aliás, Raci revelou em entrevistas que foram várias as vezes em que estava comovido por dentro ao observar a angústia de um protagonista tão perdido, mas que também sabia o quanto o controle das emoções faria bem à história, a seu personagem e ao filme como um um todo. Razão e emoção em uma performance que está entre os tantos elementos responsáveis por elevar O Som do Silêncio.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Octavia Spencer (Luce)

Atriz muito querida do público, Octavia Spencer caiu nas graças de incontáveis plateias com papeis de natureza cômica, como os de A Forma da Água Histórias Cruzadas, que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Seu melhor papel, no entanto, está em Luce, onde reafirma a máxima de que bons atores não são necessariamente bons comediantes, mas bons comediantes são indiscutivelmente bons atores. Mais comedida do que o habitual, Octavia explora as nuances de uma professora que, ao ler uma redação com comentários violentos e armamentistas de um de seus alunos, passa a desconfiar de que ele realmente concorda com tudo aquilo que escreve. Também negro, o garoto é o menino perfeito adotado por uma família rica e branca, enquanto a Harriet de Octavia é uma professora rígida que precisa manter certa autoridade e se provar constantemente na vida e na profissão.

O encontro entre os dois tem um quê de Dúvida, o filme de John Patrick Shanley estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman que coloca o espectador em uma sinuca de bico ao ter que decidir quem diz a verdade em um filme palavroso e costurado nas entrelinhas, mas Luce entra, claro, na seara racial, discutindo tudo o que se espera ou não de dois personagens negros tão distintos quanto semelhantes. A interpretação de Octavia é engrenagem potente na trama porque, ao invés de cair no radicalismo fácil de uma personagem que acusa tendo apenas seus instintos como argumento, ela prefere explorar as diferentes facetas de uma mulher que parece não ter certezas à toa em função da vida, do seu meio e de sua própria cor. Sem jamais julgar Harriet ou tentar manipular o espectador para que ele tome partido por ela, Spencer é sutil, firme e enigmática, travando um duelo dos mais instigantes com o também ótimo Kelvin Harrison Jr.

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MELHOR ATOR
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)

Ao contrário do seu colega de cena Paul Raci, o britânico Riz Ahmed embarcou em O Som do Silêncio sem uma vivência prévia com a população surda. Contudo, isso não foi um problema para o ator, que resolveu dispensar tudo o que pudesse facilitar o convívio com as pessoas surdas de verdade no set. Ahmed escolheu, por exemplo, trabalhar sem o apoio de intérpretes. Para ele, era fundamental que pudesse descobrir sozinho como se comunicar com os outros atores. Riz também decidiu usar bloqueadores auditivos nas cenas em que o seu personagem se sentia mais desorientado quanto à perda da audição. O que muitos enxergam como mérito, o ator viu apenas como parte  corriqueira de seu trabalho: no final das contas, o que ele diz ter tirado de todo esse preparo foi, na verdade, a descoberta de um profundo entendimento sobre o real sentido da comunicação e sobre como enxergar o outro vai muito além da voz e do som.

Minimalista, a interpretação de Riz é daquele tipo que marca uma carreira. A habilidade com que ele abarca uma série de situações difíceis — a perda da audição, a angústia do vício, a busca por uma nova identidade, a inevitável entrada na clínica de reabilitação — revela um ator no pleno controle técnico e emotivo de um personagem imenso em emoções e frustrações. Ao entender Ruben como um homem que se vê em uma espécie de purgatório ao ter que ressignificar o que é importante na vida, Ahmed comunica com os olhares e transmite para o espectador todas as transformações do protagonista, indo do céu ao inferno com todo o entendimento da comunicação que ele diz ter incorporado durante as filmagens. Trata-se de uma interpretação ao mesmo tempo discreta e forte, capaz de despertar a empatia do espectador do início ao fim.

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MELHOR ATRIZ
Alfre Woodard (Clemência)

É indesculpável o fato da Neon, distribuidora de Clemência, não ter feito uma ampla campanha para o desempenho de Alfre Woodard na temporada de premiações de 2020. Com certo atraso devido ao calendário britânico de estreias, a performance chegou a ser lembrada agora em 2021 pelo BAFTA, mas é pouco para um trabalho que, de tão forte e construído a partir do rico repertório de uma atriz, entra para o hall daqueles serão sempre referenciadas em uma filmografia. E não qualquer filmografia: a da grande Alfre Woodard. Nascida em Tulsa, nos Estados Unidos, Alfre se manteve ativa desde que iniciou sua carreira em 1978 com o telefilme The Trial of the Moke. Não passou um ano sequer sem atuar desde então e criou uma carreira sólida na TV, de Hill Street Blues, que lhe rendeu um Emmy logo na primeira indicação em 1984, a sucessos como Desperate HousewivesTrue BloodEmpire. Contudo, seu merecido e complexo protagonismo em Clemência é um caso à parte.

No drama dirigido pela nigeriana Chinonye Chuku, Alfre interpreta Bernardine, uma personagem forte e rica em possibilidades por si só. Diretora de um corredor da morte nos Estados Unidos, Bernardine é a única mulher em um ambiente masculino. Tendo que lidar diariamente com a morte e com os sentimentos extremos dos que estão à espera da execução ou daqueles que estão às vésperas de perder seus familiares, ela precisa camuflar qualquer tipo de emoção e se apresentar somente como uma profissional, sem qualquer envolvimento emocional. Na medida em que entendemos a natureza de seu trabalho e principalmente a forma com que Bernardine se comunica com as pessoas no trabalho e até mesmo com o marido que lhe reivindica mais presença e afeto, o trabalho de Alfre se engrandece em detalhes. Ao explorar a linha tênue entre razão e emoção, sua performance é de rara elegância e inteligência, culminando em uma cena final de tirar o fôlego e que só poderia ter tamanho impacto graças a combinação entre tempo, talento e repertório. Tudo o que Alfre Woodard tem de sobra.

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MELHOR ELENCO
Destacamento Blood

Denzel Washington e Samuel L. Jackson que me desculpem, mas é difícil imaginar Destacamento Blood sem Delroy Lindo. Também não reclamaria se Giancarlo Esposito e John David Washington estivessem no projeto, mas novamente tenho a impressão de que o filme de Spike Lee não poderia ter outra composição de elenco. É palpável a amizade entre Paul (Lindo), Otis (Clark Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Eddie (Norm Lewis), seja em tudo que ela carrega de melhor (a cumplicidade, a camaradagem, o bom humor) ou nas consequências inevitáveis do tempo (os afastamentos, as distintas visões de vida, os diferentes rumos tomados). São todos homens marcados pelos traumas da Guerra do Vietnã, o que os afasta na medida em que também os aproxima.

A dinâmica entre o quarteto é o retrato espirituoso e maduro de uma amizade de longa data, defendido por atores talentosos e extremamente à vontade em seus papeis. Destacamento Blood ainda reserva outras participações especiais, como a de Chadwick Boseman, em um de seus últimos trabalhos; outras estelares, a exemplo do francês Jean Reno; e complementos interessantes à jornada dos protagonistas, como a presença de Jonathan Majors interpretando o filho de Paul, em uma ótima dinâmica com Delroy Lindo. É essa composição entre estilos e talentos diversos que forma ótimos elencos, caso desse subestimado filme de Spike Lee.

49º Festival de Cinema de Gramado #2: “Para o Brasil se (re)conhecer” (ou uma reflexão sobre a escolha dos curtas brasileiros)

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Reunião de seleção dos curtas-metragens brasileiros do 49º Festival de Cinema de Gramado.

Aproximando-se de um emblemático aniversário de 50 anos, o Festival de Cinema de Gramado realiza, entre os dias 13 e 21 de agosto, a sua 49ª edição, mais uma vez em formato híbrido, com transmissões pelo Canal Brasil e por streaming, devido às restrições que ainda vivemos em função da pandemia do Coronavírus. Mais do que celebrar a histórica resistência de um festival que nunca deixou de acontecer apesar de adversidades das mais diferentes naturezas, é importante constatar que, ao completar 49 anos, Gramado segue refletindo a força comovente de um cinema brasileiro que, nos últimos anos, vem sendo desprezado e vilipendiado pelas políticas (ou falta delas) em curso no país.

Digo que tal resistência do cinema brasileiro está representada em Gramado porque isso se reflete na lista de filmes selecionados para a edição 2021. O Brasil segue produzindo, apesar dos pesares. E pude fazer essa constatação ainda mais de perto este ano, quando fui convidado pela organização do evento a integrar a comissão responsável por selecionar os curtas-metragens brasileiros que disputarão o Kikito. Honra gigante. Responsabilidade à altura. E um exercício dos mais instigantes. Afinal, o que levar em consideração na hora de mergulhar em um universo com centenas de curtas-metragens inscritos? Não há fórmula. E é aí que está o fascínio.

Junto a Jaqueline Beltrame, Milena Moura e Thaís Cabral, tive a oportunidade de explorar, a partir dos títulos aptos a avaliação, gêneros e temáticas variadas, trabalhadas pelos mais diferentes realizadores em todos os cantos do país. Em que pese a bagagem, a identificação e as preferências cinematográficas de cada um de nós da comissão, buscamos selecionar 14 filmes que contemplassem o Brasil em que vivemos. Esse mesmo: plural e tão único, iluminado e sofrido, cambaleante e capaz de recobrar forças. Nada mais justo para uma sociedade que merece sempre se ver representada na tela, com suas qualidades e imperfeições. A meu ver, esse foi o ponto de partida do nosso trabalho, o que me deixa muito feliz, já que cinema também serve para ser o registro histórico e a eternização da identidade cultural, social e política de um país.

Outros dois aspectos nos bateram muito forte como critério: a pluralidade de regiões onde os filmes foram produzidos, tentando escapar da massiva e inevitável predominância do eixo Rio-São Paulo, e a representatividade feminina atrás das câmeras (aliás, os dois curtas escolhidos para representar o nosso Rio Grande do Sul são dirigidos por mulheres: Desvirtude, de Gautier Lee, e Eu Não Sou Um Robô, de Gabriela Lamas). Ainda há nessa mistura comédia, drama, documentário, animação e exercícios experimentais de narrativa e estilo. Engana-se, no entanto, quem pensa que essa é uma seleção de “cotas”, como se tivéssemos categorizado as vagas que gostaríamos de preencher, inclusive porque seria uma frustração, já que não foram poucos os títulos deixados de fora e cujas discussões gostaríamos de levar a Gramado. Nunca deixamos de lado o olhar tão fundamental para a excelência e a qualidade inerentes a filmes merecedores de estarem em Gramado

Inevitavelmente, os dias de trabalho trouxeram frustrações, todas muito naturais em qualquer processo semelhante a esse. E elas estão concentradas, claro, naqueles títulos que cada um de nós quatro da comissão gostaria de ter colocado na lista final, mas que não eram unânimes ou que, então, não estavam alinhados aos conceitos abraçados pelo nosso perfil curatorial. Espero que esses filmes possam encontrar seu espaço nos outros tantos festivais realizados no Brasil e que bravamente também seguem resistindo. Em contraponto a essa pequena lamentação, trago um aprendizado dos mais interessantes: acredite, tudo pode acontecer entre o primeiro e o último dia de seleção. É bastante surpreendente constatar, por exemplo, que diversos curtas selecionados por nós de forma unânime e aclamada em uma primeira discussão simplesmente não chegaram ao corte final, por uma série de razões, enquanto um ou outro mais divisivo foi incluído no grupo (obviamente não vou revelar, mas houve até um certo filme que bati pé para não entrar e acabei cedendo nos momentos finais porque era coerente com o nosso conjunto).

Por fim, não poderia deixar de destacar o quanto a honra de ter sido escolhido para participar da seleção ganha novos contornos em tempos pandêmicos. Através do formato híbrido, estamos falando de um Festival de Cinema de Gramado que chega a todos os estados brasileiros e até mesmo a públicos que, em certos casos, jamais poderiam ir presencialmente à Serra Gaúcha para acompanhar o evento. Imaginem a responsabilidade de entrar na casa das pessoas com esses filmes! Como alguém que acredita no poder transformador e educativo do cinema (não em um sentido didático, mas sim no que ele pode representar e comunicar como exercício ou entretenimento para as mais diferentes plateias), creio que, por meio dos curtas-metragens selecionados, levaremos para as telas histórias em que o Brasil possa se (re)conhecer e se questionar. Tenho meus favoritos do coração, mas isso é assunto para mais tarde, quando vocês também puderem desbravar a a lista de selecionados. Nos encontramos nos filmes, combinado?

* Texto produzido originalmente para o portal Melhor do Sul

49º Festival de Cinema de Gramado #1: apresentação dos filmes concorrentes

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Roger Lerina e Marla Martins foram os responsáveis pela apresentação da coletiva que anunciou as novidades do evento. Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto.

Uma definição clássica acerca do Festival de Cinema de Gramado é a de que ele simboliza uma histórica resistência, seja ela da cidade, do evento e do cinema brasileiro. Às vésperas de completar 50 anos, o Festival mais uma vez não deixa de acontecer, mesmo em um ano que segue enfrentando a pandemia do Coronavírus. Para tanto, a acertada estratégia de ter suas mostras competitivas em formato híbrido (Canal Brasil e streaming) é repetida, levando produções tradicionalmente circunscritas apenas ao Palácio dos Festivais para todos os cantos do país. O único porém envolvendo essa decisão é que as exibições foram movidas para às 21h30, o que levará os espectadores para perto da madrugada.

Ainda que semelhante à edição do ano passado, há de se notar que o Festival de Cinema de Gramado apresenta uma edição mais comedida, com a mostra competitiva de longas estrangeiros reduzida a quatro títulos e a de longas-metragens gaúchos sintetizada em três títulos. O segundo caso carrega certa dúvida: em um ano em que a organização divulgou o recorde de inscrições na categoria (24 títulos ao todo), só teríamos três títulos à altura de serem selecionados? Na linha dos filmes selecionados, estranho a escolha de Fourth Grade, de Marcelo Galvão, como filme de encerramento. OK, o diretor é brasileiro e se trata de uma refilmagem de um longa brasileiro do próprio Galvão, mas encerrar um festival brasileiro e latino com um filme produzido nos Estados Unidos e falado em inglês? Soa estranho.

Outro atrativo, especialmente midiático do evento, foi configurado de modo diferente. Tradicionalmente dividida em quatro troféus, as homenagens desse ano estarão representadas em uma só, celebrando todos os profissionais do cinema à frente ou atrás das telas que tiveram a missão de resistir e se reinventar em um momento tão delicado para o segmento. Se o evento não terá o glamour e o apelo de seus tradicionais homenageados, certamente o faz por uma belíssima e importante causa, principalmente quando nos encontramos diante de um governo que tanto vilipendia a categoria.

Chegando aos filmes propriamente ditos, destaque absoluto para a mostra de longas-metragens brasileiros, talvez pela primeira vez em dez anos sem cinebiografias, documentários musicais ou títulos mais “comerciais”, se pudermos dizer assim. Não há nada de errado com o comercial, mas é interessante estarmos diante de uma lista que nos instiga a desbravar cada um dos títulos, investigando a carreira dos envolvidos e criando expectativas pelas sinopses de projetos que novamente são inéditos em território nacional. Minha curiosidades específicas ficam com A Primeira Morte de Joana, com enredo muito interessante, e Homem Onça, que, desde já fazendo um palpite às escuras, deve render o Kikito de melhor ator ao grande Chico Díaz.

Reservo a conclusão dessa breve análise para dar uma palavrinha para a mostra de curtas-metragens brasileiros, sempre uma das mais instigantes do Festival por revelar novos talentos e já dar palco para os realizadores de longas-metragens de amanhã. Neste ano, tive o prazer e a imensa responsabilidade de assinar a seleção dos curtas, ao lado de Jaqueline Beltrame, Milena Moura e Thaís Cabral. Foram mais de 500 filmes inscritos, e tivemos que chegar a uma lista com 14. Trabalho árduo e que, a partir do nosso olhar, acabou por representar uma mostra onde o Brasil se (re)conhecerá em muitas de suas facetas. Mas discutiremos esse assunto logo mais em detalhes, antes da realização do próprio evento, que acontece entre os dias 13 e 21 de agosto.

Confira abaixo a lista de filmes selecionados:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Álbum em Família (RJ), de Daniel Belmonte
Carro Rei (PE), de Renata Pinheiro
Homem Onça (RJ), de Vinícius Reis
Jesus Kid (PR), de Aly Muritiba
O Novelo (SP), de Claudia Pinheiro
A Primeira Morte de Joana (RS), de Cristiane Oliveira
A Suspeita (RJ), de Pedro Peregrino

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Gran Avenida (Chile), de Moises Sepulveda
La Teoría de los Vidrios Rotos (Uruguai/Brasil/Argentina), de Diego Fernández Pujol
Planta Permanente (Argentina/Uruguai),de Ezequiel Radusky
Pseudo (Bolívia), de Gory Patiño e Luis Reneo

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
A Colmeia (Porto Alegre), de Gilson Vargas

Cavalo de Santo (Porto Alegre), de Mirian Fichtner e Carlos Caramez
Extermínio (Cachoeira do Sul), de Mirela Kruel

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
A Beleza de Rose (CE), de Natal Portela

A Fome de Lázaro (PB), de Diego Benevides
Animais na Pista (PB), de Otto Cabral
Aonde Vão os Pés (PR), de Débora Zanatta
Da Janela Vejo o Mundo (PR), de Ana Catarina Lugarini
Desvirtude (RS), de Gautier Lee
Entre Nós e o Mundo (SP), de Fabio Rodrigo
Eu Não Sou Um Robô (RS), de Gabriela Lamas
Fotos Privadas (RJ), de Marcelo Grabowsky
Memória de Quem (Não) Fui (RJ), de Thiago Kistenmacker
O Que Há em Ti (SP), de Carlos Adriano
Per Capita (PE), de Lia Leticia
Quanto Pesa (MA),de Breno Nina
Stone Heart (AM), de Humberto Rodrigues

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Brecha
(Pelotas), de Helena Thofehrn Lessa
Cacicus (Santa Cruz do Sul), de Bruno Cabral e Gabriela Dullius
Comboio Pra Lua (Pelotas), de Rebeca Francoff
Depois da Meia-Noite (Caxias do Sul), de Mirela Kruel
Desvirtude (Porto Alegre), de Gautier Lee
Um Dia de Primavera (Porto Alegre), de Lisi Kieling
Era Uma Vez… Uma Princesa (Porto Alegre), de Lisiane Cohen
Eu Não Sou Um Robô (Porto Alegre), de Gabriela Lamas
(Porto Alegre), de Thais Fernandes
Hora Feliz (Porto Alegre), de Alex Sernambi
Isso Me Faz Pensar (Porto Alegre), de Hopi Chapman
Jardim das Horas (Porto Alegre), de Matheus Piccoli
Love do Amor (Restinga Sêca), de Fabrício Koltermann
Não Sou Eu (Porto Alegre), de Theo Tajes
Nave Mãe (Sapucaia do Sul), de Gisa Galaverna e Wagner Costa
Nilson, Filho do Campeão (Santa Cruz do Sul), de Diego Tafarel
Noite Macabra (Canoas), de Felipe Iesbick
Para Colorir (Porto Alegre), de Juliana Costa
Rota (São Leopoldo), de Mariani Ferreira
Rufus (São Leopoldo), de Eduardo Reis
Solilóquio (Porto Alegre), de Marcelo Stifelman
Tom (Porto Alegre), de Felippe Steffens
Tormenta (Porto Alegre), de Emiliano Cunha e Vado Vergara
Trem do Tempo (Pelotas), de Vitor Rezende Mendonça

Os indicados ao Emmy 2021

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Ao lado de The Mandalorian, a quarta temporada de The Crown lidera a lista de indicados ao Emmy 2021, despontando como a favorita para finalmente dar o prêmio principal à Netflix.

Em função da pandemia e do processo de filmagem de novas temporadas, o Emmy 2021 se viu sem estreias de grandes dimensões e, principalmente, sem hits como OzarkThe Morning ShowSuccession, a grande vencedora da última edição. Também não há, entre as minisséries, um estouro à altura de Watchmen, que chegou a liderar as indicações do ano passado, levando vários troféus para casa.

A chance de procurar novas séries e fugir do óbvio foi mais uma vez desperdiçada. Ao invés de garimpar produções que costumam ser subvalorizadas, o Emmy preferiu não só indicar as mesmas séries de sempre como ampliar irrestritamente o número de indicações de cada uma, o que resultou em menções forçadas e quantidades desproporcionais de celebração.

Um exemplo é a própria The Crown, que a encabeça lista de indicados ao lado de The Mandalorian. Em que pese a sua inegável excelência, é incompreensível que Claire Foy seja indicada a melhor atriz convidada simplesmente por um flashback passageiro de cinco minutos. Também não se justifica a lembrança de Emerald Fennell entre as coadjuvantes a não ser pelo fato de que ela recentemente ganhou um Oscar de melhor roteiro original por Bela Vingança.

E os exageros não param por aí. São quatro as coadjuvantes lembradas por The Handmaid’s Tale. Entre os homens, três são indicados pela série nesse mesmo segmento. Três atores coadjuvantes estão na disputa em minissérie/telefilme com Hamilton e quatro por Ted Lasso em comédia, isso sem falar em Saturday Night Live, que emplacou cinco indicações. Inspiração repentina, simultânea e grandiosa de diferentes elencos? Não. São simplesmente escolhas fáceis e confortáveis.

Entre outras mancadas, como a de ter Emily in Paris concorrendo em melhor série de comédia, o Emmy 2021 teve um acerto aqui e outro ali. Um deles é a indicação de Mj Rodriguez (Pose), a primeira atriz transexual a estar na disputa por um Emmy. Igualmente especiais são as menções a Hacks, uma das pérolas da temporada, mesmo que Hannah Einbinder concorra a coadjuvante sendo protagonista em pé de igualdade com a maravilhosa Jean Smart.

O que se pode esperar para a premiação é que a Netflix finalmente leve o prêmio de melhor série com The Crown, especialmente se levarmos em consideração que, além de não haver forte concorrência, a série está em seu melhor momento. Entre as comédias, o domínio de Ted Lasso deve ser completo, visto o amor dos votantes traduzido no número de indicações. Quanto às minisséries, tudo leva a crer que WandaVision reinará, mas nunca, em hipótese alguma, duvide do poder da HBO, destaque na lista com Mare of Easttown.

Os vencedores serão conhecidos no dia 19 de setembro. Confira os indicados:

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
The Boys
Bridgerton
The Crown
The Handmaid’s Tale
Lovecraft Country
The Mandalorian
Pose
This is Us

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Emma Corrin (The Crown)
Jurnee Smollett (Lovecraft Country)
Mj Rodriguez (Pose)
Olivia Colman  (The Crown)
Uzo Aduba (In Treatment)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Jonathan Majors (Lovecraft Country)
Josh O’Connor (The Crown)
Matthew Rhys (Perry Mason)
Rege-Jean Page (Bridgerton)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
Aunjanue Ellis (Lovecraft Country)
Emerald Fennell (The Crown)
Gillian Anderson (The Crown)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Madeline Brewer (The Handmaid’s Tale)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
John Lithgow (Perry Mason)
Max Minghella (The Handmaid’s Tale)
Michael K. Williams (Lovecraft Country)
O-T Fagbenle (The Handmaid’s Tale)
Tobias Menzies (The Crown)
Giancarlo Esposito (The Mandalorian)
Chris Sullivan (This is Us)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Black-ish
Cobra Kai
Emily in Paris
Hacks
The Flight Attendant
The Kominsky Method
Pen15
Ted Lasso

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Aidy Bryant (Shrill)
Allison Janney (Mom)
Jean Smart (Hacks)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Kenan Thompson (Kenan)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Aidy Bryant (Saturday Night Live)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
Hannah Einbinder (Hacks)
Hannah Waddingham (Ted Lasso)
Juno Temple (Ted Lasso)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Rosie Perez (The Flight Attendant)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Bowen Yang (Saturday Night Live)
Brendan Hunt (Ted Lasso)
Brett Goldstein (Ted Lasso)
Carl Clemons-Hopkins (Hacks)
Jeremy Swift (Ted Lasso)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Nick Mohammed (Ted Lasso)
Paul Reiser (The Kominsky Method)

MELHOR MINISSÉRIE/ANTOLOGIA
I May Destroy You
Mare of Easttown
The Queen’s Gambit
The Underground Railroad
WandaVision

MELHOR TELEFILME
Dolly Parton’s Christmas on the Square
Oslo
Robin Roberts Presents: Mahalia
Sylvie’s Love
Uncle Frank

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Anya Taylor-Joy (The Queen’s Gambit)
Cynthia Erivo (Genius: Aretha)
Elizabeth Olsen (WandaVision)
Kate Winslet (Mare of Easttown)
Michaela Coel (I May Destroy You)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Ewan McGregor (Halston)
Hugh Grant (The Undoing)
Leslie Odom, Jr. (Hamilton)
Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
Paul Bettany (WandaVision)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Jean Smart (Mare of Easttown)
Julianne Nicholson (Mare of Easttown)
Kathryn Hahn (WandaVision)
Moses Ingram (The Queen’s Gambit)
Phillipa Soo (Hamilton)
Renée Elise Goldsberry (Hamilton)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Anthony Ramos (Hamilton)
Daveed Diggs (Hamilton)
Evan Peters (Mare of Easttown)
Jonathan Groff (Hamilton)
Paapa Essiedu (I May Destroy You)
Thomas Brodie-Sangster (The Queen’s Gambit)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados na relação completa de indicados disponibilizada em inglês pelo Emmy.