Cinema e Argumento

Filmes em DVD

Inspeção Geral, de Sidney Lumet

Com Glenn Close, Maggie Gyllenhaal e Ken Leung

Poderoso telefilme da HBO dirigido por Sidney Lumet que trata dos efeitos pós 11 de setembro. Mais especificamente sobre a forma como os governos passaram a interrogar pessoas da forma como bem entendem. É uma temática que O Suspeito se atrapalhou todo na hora de desenvolver e que Inspeção Geral tira de letra. Temos aqui uma trama calcada puramente em diálogos – que transitam entre tensão e drama com muita facilidade. Especialmente porque Lumet tem uma direção segura e Glenn Close e Maggie Gyllenhaal estão divinas. Elas não contracenam, mas dão um show à parte quando aparecem em cena. Pena que ambas as atrizes dialoguem com atores tão péssimos. Inspeção Geral só não alcaça total êxito por causa disso e de sua narrativa de alternâncias, que aborda duas histórias com exatamente os mesmos diálogos.

FILME: 9.0

Os Piratas do Rock, de Richard Curtis

Com Philip Seymour Hoffman, Bill Nighy e Kenneth Branagh

Richard Curtis é um dos profissionais mais confiáveis que existem. Ele não faz grandes filmes nem muito menos tem maiores pretensões comerciais, mas todos os seus filmes funcionam muito bem. Os Piratas do Rock não é diferente. O diretor orquestra um ótimo elenco numa divertida história permeada por muita música boa. Essa produção, que foi diretamente lançada em dvd e ainda tem uma pequena participação de Emma Thomspon, é uma agradáel surpresa que vale a pena ser descoberta.

FILME: 8.0

O Contador de Histórias, de Luiz Villaça

Com Maria de Medeiros, Jacqueline Obrigon e Paulinho Mendes

Impressionante como esses filmes menores e mais sutis passam despercebidos pelo público brasileiro. O Contador de Histórias tem traços bem sentimentais, algo diferente do que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro dos dias de hoje. É fato que não é nada de excepcional, mas é um longa bem singelo e que, com sua minúcias, aos poucos vai conquistando o espectador. É fácil se envolver com a história dos dois protagonistas. O Contador de Histórias merece uma espiada.

FILME:8.0

Mrs. Harris, de Phyllis Nagy

Com Annette Bening, Ben Kingsley e Ellen Burstyn

Mais uma produção da HBO que traz um grande desempenho. Annette Bening está impecável como a protagonista de Mrs. Harris, uma mulher cheia de complicações emocionais e que matou o marido. Baseado em uma história verídica, o filme tem os seus problemas de ritmo, em especial porque se propõe a narrar tudo em flashbacks e com alguns depoimentos. Mas Annette valida a experiência, junto com o sempre ótimo Ben Kingsley. Mrs. Harris, portanto, é um trabalho de atores. São eles o grande destaque da produção.

FILME: 8.0

Retorno a Howards End, de James Ivory

Com Emma Thompson, Helena Bonham Carter e Anthony Hopkins

Esse foi o filme que deu o Oscar de melhor atriz para a excepcional Emma Thomspon. Contudo, Retorno a Howards End traz um ótimo trabalho não só de Thompson, mas de todo o elenco. O filme em si não é lá essas coisas, já que tem uma história não tão interessante – e que é narrada de forma não muita satisfatória, além de muitos personagens e alguns saltos no tempo. Mas é também um filme de típicas estruturas inglesas, o que por si só já é um atrativo. Portanto, apesar de não ser o grande filme que poderia ser, Retorno a Howards End é bem satisfatório.

FILME: 8.0

Crepúsculo, de Catherine Hardwicke

Com Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner

Quem é viciadinho em Crepúsculo deve parar de ler aqui, os comentários não serão positivos. Durante muito tempo fugi desse longa, mas nos últimos dias finalmente criei coragem para conferi-lo. E ele é bem aquilo que eu esperava: bobinho, mal dirigido e sem história relevante. Mas o que mais me impressionou foi o incrível combate entre os atores para ver quem se sai pior. É um superando o o outro. Enquanto Kristen Stewart cai nas armadilhas de caras e bocas, Robert Pattinson consegue demonstrar uma absurda inexpressividade. Crepúsculo, portanto, é um romancezinho teen nada demais e que consegue ter um dos piores elencos de adolescentes da década.

FILME: 5.0

Onde Vivem os Monstros

Direção: Spike Jonze

Elenco: Max Records, Catherine Keener, Pepita Emmerichs, e com as vozes de Paul Dano, James Gandolfini, Lauren Ambrose, Mark Ruffalo, Forest Whitaker, Chris Cooper

Where the Wild Things Are, EUA, 2009, Drama, 95 minutos, Livre

Sinopse: Max (Max Records), um garoto travesso, fica de castigo, preso em seu quarto, sem jantar. Usando a imaginação, ele cria uma floresta habitada por animais selvagens e monstros exóticos, onde ele é o rei.

Não sei explicar muito bem o que dá certo em Onde Vivem os Monstros. Mas, algo encanta e até mesmo torna tudo muito melancólico. É um trabalho diferente do diretor Spike Jonze, que aqui cria um filme de fantasia voltado para um público mais maduro – e não para o infantil, como o trailer e as imagens de divulgação sugeriam. Não chega a ser um produto de grandes momentos ou sequer de setores que se sobressaiam, mas é a sinceridade que conta na história.

Usando a imaginação como metáfora de isolacionismo – o garoto “cria” um mundo quando não está satisfeito com a sua própria realidade – Onde Vivem os Monstros é um trabalho que junta pequenos pontos positivos que, no final, formam um excelente filme. Portanto, não existe um ou outro aspecto mais digno de reconhecimento. O filme é fruto de minúcias. Em todos os sentidos. À princípio a história pode parecer simples, mas existem algumas reflexões a serem consideradas nela. Reflexões que, no final das contas, formam um ótimo filme.

Um problema de Onde Vivem os Monstros é a falta de conflitos. Quase não existem problemáticas para os personagens e tudo se centra apenas no cotidiano do garoto protagonista com os tal monstos – fazendo joguinhos,ou fazendo construções, por exemplo. Mas, talvez, seja por isso mesmo que o longa conquiste. No final, é essa convivência que fará o espectador se sentir comovido. Portanto, o jeito é entrar na história e curtir a ótima trilha de Karen O. e Carter Burwell.

FILME: 8.0


Melhores de 2009 – Canção Original

Austrália não é um filme muito digno de elogios. Contudo, se existe algo de muito belo no épico de Baz Luhrmann é a canção originalmente feita para o longa. Não sei se é porque eu tenho um fraco por músicas melancólicas e românticas, mas By the Boab Tree me conquistou completamente. A canção, que aparece de forma bem ligeira nos créditos finais, ganha uma sonoridade muito especial pela voz de Angela Little e traz tudo aquilo que o romance entre o casal principal deveria trazer: sinceridade, sentimento e verossimilhança. Quase ninguém sequer ouviu falar de By the Boab Tree. O que é uma pena, já que, para mim, é a melhor música cinematográfica do ano de 2009. Anteriormente: 2008 – “Falling Slowly”, Apenas Uma Vez (escolha dos leitores: idem), 2007 – “Come So Far (Got so Far to Go), Hairspray – Em Busca da Fama e 2006 – “You Know My Name”, 007 – Cassino Royale

“I THOUGHT I LOST YOU” (Bolt – Supercão)

I Thought I Lost You ganha uma sonoridade excessivamente infantil na voz de Miley Cyrus. O que nos leva a pensar que a música, de certa forma, pode ser desprezível. A verdade é que a canção é um excelente guilty pleasure que esconde uma coisa que poucos notam: a profunda letra. É analisando trechos como “I felt so empty out there and there were days I had my doubts / I thought I lost you when you ran away to try to find me” que dá pra se notar onde reside a excelência dessa música

“THE WRESTLER” (O Lutador)

É de se admirar que uma música tão bonita como essa (e cantada pelo mestre Bruce Springsteen) não tenha sido valorizada da maneira como deveria. É aquele tipo de canção que me atrai bastante: a que sintetiza o protagonista de um determinado filme. The Wrestler narra, com grande precisão, a jornada do personagem de Mickey Rourke, sendo, portanto, um retrato fiel da história narrada pelo diretor Darren Aronofsky. Letra e melodia se unem em uma excelente canção.

“JAI HO” (Quem Quer Ser Um Milionário?)

Jai Ho já virou baladinha na voz das Pussycat Dolls e, inclusive, virou hit instanâneo, o que tira um pouco da essência da canção. É fato que ninguém se importa com o que está sendo dito na letra (eu, até hoje, não sei o que ela quer dizer), mas ela é tão empolgante que dá pra se esquecer desse detalhe. Mais do que isso, ainda é coreografada por todo elenco em um excelente número musical que toca nos momentos finais do filme – deixando o finale ainda mais interessante.

“O… SAYA” (Quem Quer Ser Um Milionário?)

Toda a correria e a agilidade da câmera de Danny Boyle ganham um fluxo ainda mais dinâmico quando começa a tocar O… Saya nos momentos iniciais de Quem Quer Ser Um Milionário?. É outra canção muito empolgante de A.R. Rahman – que não mereceu o Oscar (já que eu tenho relutância em premiar essas trilhas que não são instrumentais) – mas que deve ser valorizado pela excelente compilação de sonoridades indianas e que aqui ganharam tratamentos extremamente empolgantes

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Escolha do público:

1. Jai Ho, Quem Quer Ser Um Milionário? (17 votos, 43%)

2. The Wrestler, O Lutador (12 votos, 30%)

3. By the Boab Tree, Austrália (5 votos, 13%)

4. I Thought I Lost You, Bolt – Supercão (4  votos, 10%)

5. O… Saya, Quem Quer Ser Um Milionário? (2 votos, 5%)

2009 argumentado

2009 foi um ano cinematográfico extremamente complicado para mim. Nunca me senti tão deslocado em relação ao público e à crítica. E essa sensação já tomou conta de mim logo no início do ano. Enquanto todos vibravam com os oito prêmios de Quem Quer Ser Um Milionário? no Oscar, eu assistia ao evento muito incomodado. Não gostava de ver um filme sendo tão celebrado enquanto outros, que eram igualmente competentes, ficavam preteridos por completo.

O ano passou e essa situação não mudou. Enquanto todo mundo venerava certas obras, eu apenas assistia a tudo de camarote, desaprovando a maioria das opiniões. E 2009 se encerrou assim. Bastardos Inglórios e Avatar foram louvados até o último fio de cabelo e eu fiquei aqui apenas apreciando um aspecto ou outro desses dois filmes. Mais uma vez, fui contra a maioria e desaprovei o resultado desses longas.

Mas, refletindo um pouco nesses últimos momentos de 2009, comecei a me perguntar se o problema não é comigo. Ora, não admirei Tarantino, Cameron nem Almodóvar e achei 2009 um dos anos mais fracos dos últimos tempos. Tá certo, já me falaram que sou crítico demais e que eu não consigo apreciar um filme de cabeça mais aberta ou de um jeito mais acessível. Talvez esse ano eu concorde um pouco com essas pessoas. Acho que o problema é realmente a minha exigência excessiva.

Espero que isso mude em 2010.

Encerro, então, o ano de 2009 aqui no Cinema e Argumento com esse pequeno desabafo.

Que o próximo ano seja repleto de bons filmes para nós, cinéfilos.

Mas que, principalmente, eu também possa participar mais desse ciclo de opiniões.

Feliz 2010!

Matheus Pannebecker.

Melhores de 2009 – Atriz Coadjuvante

Alguns consideram Kate Winslet como lead actress em O Leitor. Já eu a considero uma personagem secundária – mesmo que a trama se desenvolva por causa das suas atitudes. Comparada ao protagonista, ela tem um espaço bem mais limitado em cena e, em determinados momentos, fica muito em segundo plano. Independentemente disso, Winslet tem um desepenho visceral como a misteriosa e complicada Hanna Schmitz. Ela se entregou de corpo e alma para a personagem, despindo-se de qualquer beleza para mostrar ao espectador como Hanna era uma mulher verdadeira. Winslet poderia facilmente cair no lugar comum ao vitimar a personagem ou até mesmo deixar de humanizá-la. Mas, faz justamente o oposto: ela provoca o espectador. Ao mesmo tempo em que sentimos pena da personagem, também não deixamos de puni-la pelo que ela fez. Uma personagem extremamente complicada, mas que nas mãos de uma atriz do calibre de Winslet recebeu uma abordagem sensacional. É a segunda indicação da inglesa aqui no blog (concorreu antes como protagonista por Pecados Íntimos) e a primeira vitória. Em anos anteriores: 2006 – Meryl Streep, por O Diabo Veste Prada, 2007 – Imelda Staunton, por Harry Potter e a Ordem da Fênix e 2008 – Marcia Gay Harden, por O Nevoeiro (escolha dos leitores: Penélope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona)

VIOLA DAVIS (Dúvida)

É necessária uma presença muito forte para roubar a cena em poucos minutos de aparição. Mais do que isso, Viola Davis ainda conseguiu brilhar mais do que a veterana Meryl Streep quando ambas contracenaram juntas. Desconhecida e emergindo para o cinema com um papel contundente, Davis emociona ao mostrar toda a força amorosa que uma mãe tem pelo filho. Ajudada por um texto excepcional, ela conseguiu uma indicação ao Oscar de coadjuvante – e deveria ter saído da festa com a estatueta em mãos.

ROSEMARIE DEWITT (O Casamento de Rachel)

Subestimada pelas premiações – e também pelo público – Rosemarie DeWitt é uma das figuras mais interessantes do mosaico familiar apresentado por O Casamento de Rachel. Ela, que pode muito bem estar no nível (e até melhor) que a protagonista Anne Hathaway, tem uma atuação digna de elogios, onde fica visível o entendimento que tem sobre a sua personagem e sobre o contexto em que ela esta inserida na história. DeWitt é, realmente, uma ótima atriz e que aqui está em um momento iluminado.

ELSA ZYLBERSTEIN (Há Tanto Tempo Que Te Amo)

A principal marca da atuação de Elsa Zylberstein é o completo oposto que ela exerce sob a sua companheia de tela, Kristin Scott Thomas. Enquanto Kristin é a reclusa e a sileciosa, Elsa encarna a sentimental e a comunicativa irmã. O que é algo muito interessante, pois traz um certo alívio em relação ao papel gélido da protagonista. Zylberstein aparece muito a vontade em cena, conseguindo provar uma notável maturidade que a transforma num dos melhores pontos de Há Tanto Tempo Que Te Amo.

AMY ADAMS (Dúvida)

Não sei se a palavra coadjuvante é apropriada para definir a participação de Amy Adams em Dúvida, mas ela se encaixa mais nessa categoria do que na de protagonista. Adams mais uma vez faz o papel da menina meiga e ingênua, mas aqui o personagem é mais complexo e bem trabalhado do que o habitual. Como a freira indecisa que fica no meio do confronto entre Aloysius (Meryl Streep) e Flynn (Philip Seymour Hoffman), ela demonstrou que continua sendo uma das atrizes mais interessantes da sua geração.

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Escolha do público:

1. Kate Winslet, O Leitor (47%, 17 votos)

2. Viola Davis, Dúvida (22%, 8 votos)

3. Amy Adams, Dúvida (14%, 5 votos)

4. Rosemarie DeWitt, O Casamento de Rachel (8%, 3 votos)

5. Elsa Zylberstein, Há Tanto Tempo Que Te Amo (8%, 3 votos)

008 – Marcia Gay Harden, por O Nevoeiro (escolha dos leitores: Penélope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona)