Cinema e Argumento

Código de Conduta

Direção: F. Gary Gray

Elenco: Jamie Foxx, Gerard Butler, Viola Davis, Regina Hall, Bruce McGill, Michael Kelly, Josh Stewart, Leslie Bibb, Colm Meaney

Law Abiding Citizen, EUA, 2009, Suspense, 105 minutos, 14 anos

Sinopse: Clyde (Gerard Butler) é um dedicado pai de família que testemunha sua esposa e filha serem assassinadas. Um dos culpados ganha liberdade graças a um acordo feito com o ambicioso promotor Nick (Jamie Foxx). Anos depois o assassino é encontrado morto e Clyde é preso mesmo sem provas contra ele. Seu único objetivo é denunciar o corrupto sistema judicial nem que para isso tenha que matar um a um, todos os envolvidos.

Certos filmes prendem a atenção e conseguem envolver o espectador na trama, mas, simplesmente, não são excepcionais ou sequer notáveis para justificar algum elogio mais plausível. Código de Conduta se enquadra nessa situação: é um filme interessante e com bons momentos, mas que não chega a ser uma produção que mereça maiores elogios. O diretor F. Gary Gray soube segurar as pontas durante quase todo o filme. Porém, comete o erro de ter entregue a produção para dois atores que não conseguem sustentar o roteiro.

Gerard Butler e Jamie Foxx aparecem ineficientes, sem carisma algum para criar empatia com o público. Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por Ray, continua a se mostrar um dos profissionais mais canastrões de sua geração, ao passo que Butler permanece sem mostrar ao que veio. Focalizando a abordagem no personagem de Foxx, o roteiro até cria dois personagens interessantes – o porém é que seriam melhor representados por atores mais competentes. Ainda contando com a partipação de Viola Davis no elenco, Código de Conduta já perde parte de sua eficácia na escalação dos atores.

Mas sorte que a hitória tem seus momentos. É um daqueles filmes de investigação em que o desenrolar dos fatos cria expectativa. Nesse sentido, a produção acerta, deixando todos intrigados com o suspense montado. Contudo, eis que aí surge outro problema. Se no início dava para ficar entusiasmado com todo o suspense envolvendo o personagem de Butler, logo tudo começa a ficar improvável. Como, afinal, ele consegue causar tantas coisas extraordinárias  fora das grades se ele está preso e impossibilitado de ter qualquer contato com o mundo exterior? E o pior de tudo: a explicação para isso é insatisfatória.

Está bem, alguns podem me acusar de estar sendo crítico demais com um filme desse gênero. Afinal, já aprendemos que a maioria dos filmes desse estilo não primam por veracidade. Mas, um pouco de realidade não faria mal a ninguém. Apesar disso, temos em Código de Conduta um filme assistível e que pode entreter. É verdade que o longa-metragem está cheio de irregularidades, de atores ineficientes e de uma abordagem muito mecânica e seca. No entanto, é só abrir mão de se focar nesses detalhes e o espectador encontrará a possibilidade de entrar no clima.

FILME: 6.5

Melhores de 2009 – Roteiro Adaptado

Só a origem teatral de Dúvida já explicaria a excelência do roteiro. A peça, que venceu o Pullitzer, foi adaptada pela própria pessoa que a criou para os palcos. John Patrick Shanley, portanto, tem sim seus erros na direção  – já que ele deixa a sensação de que simplesmente filmou uma peça e não necessariamente trouxe atributos cinematográficos para a história – mas é impossível negar que o roteiro é um dos mais excepcionais dos últimos tempos. Para mim, o mais impecável desse ano. Não existe uma cena desnecessária em Dúvida e cada diálogo é milimetricamente construído para maximizar as brilhantes interpretações e a ótima trama. A história é bem conduzida, existem algumas discussões geniais (o sermão sobre a fofoca, por exemplo, é maravilhoso) e o desenvolvimento é repleto de grandes momentos. Um trabalho exemplar. Em anos anteriores: 2006 – Filhos da Esperança, 2007 – Notas Sobre Um Escândaloe 2008Desejo e Reparação (escolha do público: Ensaio Sobre a Cegueira)

O LEITOR

Não sei se O Leitor tem alguma originalidade narrativa, mas é dono de uma excelente adaptação. Ainda existem alguns erros de ritmo – especialmente depois de sua metade, mas nada que estrague o ótimo trabalho de David Hare (da obra-prima As Horas), que conseguiu mais uma indicação ao Oscar por seu trabalho. Se o tratamento de algumas cenas é frio como a maioria dos cinéfilos aponta, a culpa não é do roteiro – que faz de tudo para envolver o espectador nas emoções do protagonista Michael Berg.

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Existe algo de empolgante no roteiro de Quem Quer Ser Um Milionário?. Só isso para explicar o fato de eu ter me envolvido bastante com uma história narrada em flashbacks e cheia de coincidências. A princípio, pode parecer que não é mérito do texto. O que não é verdade. O trabalho de adaptação do filme merece elogios, pois conseguiu o feito de transformar uma história aparentemente clichê em algo muito prazeroso de se assistir.

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Dos cinco indicados na categoria, esse roteiro é, provavelmente, o que mais apresenta alguns problemas. Acho que a história perde muito com algumas narrativas (especialmente aquela dos marinheiros) e com a longa duração. Mas, não consigo deixar de elogiá-lo e de colocá-lo como um dos melhores do ano. É louvável a mensagem que o filme quer passar e, nos seus momentos finais, faz isso com muito sentimentalismo e competência – ou melhor, com perfeição.

FROST/NIXON

Mais um roteiro de origem teatral. O texto é o maior mérito de Frost/Nixon, que encontra toda a sua força no embate travado entre os dois protagonistas. Frank Langella e Michael Sheen estão ótimos, mas boa parte da excelência vem do roteiro, que traz diálogos muito inteligentes e que proporcionam conflitos igualmente competentes para as figuras em cena. É um texto bem escrito, politizado da maneira correta e com uma verossimilhança única.

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Escolha do público:

1. Quem Quer Ser Um Milionário? (31%, 22 votos)

2. Dúvida (29%, 21 votos)

3. Frost/Nixon (29%, 21 votos)

4. O Leitor (8%, 6 votos)

5. O Curioso Caso de Benjamin Button (3%, 2 votos)

Melhores de 2009 – Direção de Arte

O mundo de Benjamin Button (Brad Pitt) não poderia ter sido representado de melhor maneira pela direção de arte. Não sei quanto a vocês, mas ela me envolveu e me levou para dentro da história. Cada decoraçao de set é única e a direção de arte cumpre o seu dever de passar a sensação de como todos os ambientes retratados eram verossímeis e detalhistas. O que, para mim, é a principal missão desse segmento. A direção de arte, portanto, é uma das principais engrenagens do ótimo setor técnico de O Curioso Caso de Benjamin Button. Anteriormente: 2006 – Memórias de Uma Gueixa, 2007 – Maria Antonieta e 2008Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (escolha do público: idem).

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE

Depois de A Pedra Filosofal, esse deve ser o filme da série que tem o melhor trabalho de direção de arte. Mesmo que o resultado não seja novidade alguma (afinal, já são seis filmes com basicamente a mesma abordagem artística), existem muitas coisas interessantes na ambientação proporcionada pela direção de arte. Merece – e deve – ser reconhecido na próxima edição do Oscar.

A TROCA

Direções de arte que reconstituem décadas passadas sempre me agradam mais do que outras mais “originais”. Não foi diferente com A Troca, que tem um excepcional trabalho nesse aspecto. Todo o lado “clássico” do filme é representado aqui, em especial pelas decorações em cada cenário do longa-metragem. Clint pode até não ter acertado no tom atrás das câmeras, mas teve êxito na parte técnica.

FOI APENAS UM SONHO

A exemplo de filmes como As Horas (que trata de dramas urbanos), Foi Apenas Um Sonho retrata uma época com total meticulosidade. Todo o requinte contido dos anos 50 e a simplicidade das casas “perfeitas” dessa década são representadas por uma ótima direção de arte – que é um dos melhores aspectos desse mediano filme.

INIMIGOS PÚBLICOS

Inimigos Públicos foi tão certinho que pouco deu para perceber o ótimo trabalho técnico do filme. Principalmente a excelente direção de arte, que segue o estilo de outros indicados dessa lista, retratando com precisão uma determinada época. Se o filme em si não cativa muito, ao menos esse aspecto tem que receber certa valorização.

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Escolha do público:

1. O Curioso Caso de Benjamin Button (45%, 15 votos)

2. A Troca (18%, 6 votos)

3. Harry Potter e o Enigma do Príncipe (15%, 5 votos)

4. Foi Apenas Um Sonho (15%, 5 votos)

5. Inimigos Públicos (6%, 2 votos)

Apostas para o Globo de Ouro

Meryl Streep, a queridinha desse blog, rumo ao seu sétimo Globo de Ouro.

Melhor filme drama: É até meio óbvio que Avatar será o vencedor nessa categoria. Todo mundo viu, todo mundo gostou, todo mundo venera. Já é a segunda maior bilheteria da história e ainda tem apelo comercial – o que conta para o Globo de Ouro, que costuma ser bem “popular”. Caso dê uma louca nos votantes, quem vence é Amor Sem Escalas, o mais “queridinho” entre os críticos.

Melhor filme comédia/musical: Nessa altura do campeonato Nine anda tão mal das pernas que nem sei se o filme tem todo esse potencial pra vencer. No entanto, o Globo de Ouro adora musicais (Dreamgirls e Sweeney Todd foram os mais recentes vitoriosos na categoria) e o super elenco pode influenciar bastante para uma vitória do filme de Rob Marshall. A surpresa pode ser (500) Dias Com Ela, um filme que é muito querido e tem uma legião de admiradores.

Melhor ator drama: Não adianta, sempre que George Clooney aparece ele está cercado de boas energias. Ou ele está ótimo mesmo (como em Conduta de Risco) ou está num filme que recebe grande apoio, como é o caso desse Amor Sem Escalas. Esse é um de concorrentes interessantes na categoria, mas aqui Clooney deve levar a melhor. Numa segunda opção, coloco Morgan Freeman, que tem um papel que normalmente favorece bastante, ainda que eu torça e acredite em um prêmio para o Colin Firth.

Melhor ator comédia/musical: Logo quando vi o nome de Daniel Day-Lewis nessa lista, dei uma risada alta e disse que, sem sombra de dúvidas, ele ia ganhar. Hoje já não tenho tanta certeza, mas acho que ele ainda é o mais provável vitorioso dessa categoria. Mas quem sabe não resolvem consolar o Matt Damon, já que ele vai perder mesmo na categoria de ator coadjuvante?

Melhor atriz drama: Não nego: Carey Mulligan pode estar mesmo maravilhosa em Educação, mas não creio que ela consiga grande repercussão nessa temporada de prêmios. O Globo de Ouro deve ser o único grande prêmio dela, já que Meryl Streep não concorre nessa categoria. É uma vitória quase certa. Quase, já que é bom ficar de olho aberto com a Sandra Bullock. De olho bem aberto, por sinal.

Melhor atriz comédia/musical: Não tem essa lorota de “divisão” de votos. Faz tempo que isso não acontece. Então, não vai ser nem um pouco difícil para a Meryl Streep ganhar seu sétimo Globo de Ouro, seja por Julie & Julia ou Simplesmente Complicado. Minha intuição diz que ela vai ganhar pelo filme de Nancy Meyers (até porque a premiação gostou bastante do filme, já que deu até uma indicação para o roteiro), mas acho extremamente complicado o Globo de Ouro contradizer todas as outras listas e não premiá-la por sua hilária representação de Julia Child.

Melhor ator coadjuvante: Christoph Waltz na cabeça. Tem apoio de todo mundo e realmente merece por sua extraordinária interpretação. Não dá nem pra cogitar a possibilidade de um outro concorrente, mas se fosse pra escolher alguém, eu escolheria Stanley Tucci. Ele é um dos atores coadjuvantes mais versáteis e ainda teve ótima aparição em Julie & Julia.

Melhor atriz coadjuvante: Chegou a hora da Julianne Moore e, com o Globo de Ouro, ela vai alçar vôo nas premiações. Mo’Nique, tão celebrada, tem um passado cinematográfico bem cretino e ultimamente anda falando mais do que devia (principalmente em seus comentários desdenhando o Oscar). Moore, por um outro lado, é tida como uma das grandes atrizes de sua geração e o fato de nunca ter vencido um prêmio importante pesa ao seu favor. Não quero acreditar que ela vá deixar de ser celebrada novamente. E principalmente por alguém como Mo’Nique.

Melhor diretor: James Cameron, além de levar o prêmio principal, também deve levar o prêmio de diretor pelas razões já citadas. Tá certo que até existe uma campanha para a Kathryn Bigelow ser a primeira mulher a ganhar algum prêmio relevante e para o Quentin Tarantino finalmente ser reconhecido como deveria, mas Cameron trouxe o grande espetáculo da temporada. E mesmo que eu não o admire tanto como a maioria, devo reconhecer que é o favorito e que tem sim os seus méritos.

Melhor roteiro: O Globo de Ouro, normalmente, costuma viajar na maionese nessa categoria e premiar alguém que ninguém esperava. Mas, na maioria das vezes, é uma boa surpresa. Bastardos Inglórios deve, portanto, levar a melhor. Não sou fã do roteiro (até acho o aspecto mais fraco do filme), mas o texto tem grandes momentos e um tratamento típico de Tarantino. É um grande feito, conseguir mexer com fatos históricos e ainda assim conseguir incluir um tom pessoal. Logo atrás, na minha opinião, vem Up in the Air.

Melhor Canção: Nessa categoria não tenho nenhum palpite formado, até porque, pra mim, é indiferente quem vai vencer. Não torço nem tenho simpatia por nenhum dos candidatos. Mas, seguindo o comercialismo do prêmio, u2 deve sair com a estueta para a canção feita para o longa Entre Irmãos. Desde que I See You não ganhe, já tá de bom tamanho.

Melhor trilha sonora: Tenho até medo de apostar nessa categoria, já que todas são trilhas que gosto muito. Minha torcida absoluta fica para a perfeita trilha de Abel Korzeniowski para O Direito de Amar. Como o Globo de Ouro adora novos talentos, aqui está uma oportunidade de premiar alguém merecedor até o último fio de cabelo. Mas se fosse para escolher uma opção mais óbvia, essa seria Michael Giacchino e seu trabalho em Up – Altas Aventuras.

Melhor Animação: Up – Altas Aventuras. Precisa dizer alguma coisa?

Melhor filme estrangeiro: Un Prophète. Sei lá, chutei.

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e, pra quem se interessar, em breve as apostas de TV no Séries e Argumento.

Melhores de 2009 – Mixagem/Edição de Som

Qualquer prêmio técnico para Avatar é incontestável. Logo depois dos efeitos especiais, o que mais chama a atenção no longa de James Cameron é a parte sonora. É um trabalho extraordinário de sutilezas. O áudio impressiona por ser tão meticuloso – imponente quando necessário nas cenas grandiosas e minucioso nas partes mais calmas. O mundo dos Na’vi ganha um contexto sonoro que deixa todos os outros concorrentes desse ano para trás. É mais um mérito técnico de Avatar – que, assim como todos os filmes de Cameron, é muito feliz nas escolhas técnicas. Em anos anteriores: 2007 – O Ultimato Bourne e 2008WALL-E (escolha dos leitores: idem).

2012

É meio óbvio o trabalho realizado aqui – justamente porque um filme como esse já requer um setor sonoro competente. Mas, 2012 realmente faz a sala de cinema tremer com a sua qualidade. Unindo-se aos extraordinários efeitos especiais, a mixagem e a edição de som fazem parte de uma engrenagem fundamental para o bom funcionamento técnico do filme de Roland Emmerich.

UP – ALTAS AVENTURAS

A parte sonora da Pixar evolui cada vez mais. Ratatouille era exemplar, WALL-E um espetáculo e Up – Altas Aventuras mais um grande trabalho de mixagem e edição de som. A animação esse ano não teve chances com outros filmes tão grandiosos nesses aspectos, mas é simplesmente impossível deixar de reconhecer mais esse ótimo trabalho.

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Questiono eternamente o Oscar sonoro que Quem Quer Ser Um Milionário? faturou (não era o melhor entre os indicados), mas a verdade é que eu não desprezo essa parte técnica do filme. Aliás, acho de muito bom gosto tudo o que envolve som (incluindo a trilha sonora de A.R. Rahman) no filme de Danny Boyle. Tanto a mixagem e a edição de som dão para a história um ritmo realmente admirável.

STAR TREK

Seguindo o exemplo dos blockbusters dessa temporada, Star Trek tem um trabalho exemplar na parte sonora. Não chega a ser alguma surpresa – provavelmente, o último dessa lista – mas cumpre a sua missão de dar os toques certos para a história narrada por J.J. Abrams, principalmente quando temos ação em cena.