Cinema e Argumento

As formas do amor

Toda Forma de Amor está longe de ser um filme simplista. O sentimento que dá título ao filme de Mike Mills não é retratado de forma melodramática ou previsível. Ao invés de construir romances comuns, o longa-metragem está mais preocupado em mostrar como os relacionamentos podem mudar vidas – para o bem ou para o mal. Na realidade, Toda Forma de Amor procura explorar a dramaticidade do amor. Logo no início, conhecemos Oliver (Ewan McGregor), um sujeito que, como dizem no próprio filme, quer estar em um relacionamento, mas simplesmente não consegue fazer parte de um. Essa percepção torna Oliver solitário – até o dia em que conhece a irreverente Anna (Mélanie Laurent), uma moça que, talvez, possa mudar sua perspectiva sobre as relações.

A vida de Oliver, no entanto, também está marcada por memórias que ainda não foram superadas. E a maior delas é a de seu pai, Hal (Christopher Plummer), que faleceu recentemente em função de um câncer. Hal, quando descobriu a doença, resolveu assumir a sua homossexualidade, envolvendo-se com um homem muito mais novo. Ou seja, paralelo aos problemas de Oliver, ainda acompanhamos, através de flashbacks, como esse relaciomento gay ajudou (ou atrapalhou) Hal em seus últimos dias de vida.

Em sua primeira metade, Toda Forma de Amor não consegue conquistar o espectador. Demorando para mostrar as verdadeiras intenções dramáticas do filme, o roteiro só começa a funcionar de verdade na segunda parte, quando acompanhamos os personagens de McGregor e Plummer em momentos de maior intensidade emocional. Portanto, aquele filme que começou sem ritmo e narrado de forma quase estranha (os cortes abruptos podem afastar muita gente) termina de forma sensível. Ou seja, quando a história se encontra, Toda Forma de Amor envolve, especialmente em função da performance dos atores.

Ewan McGregor, que estava há anos sem um desempenho de destaque, apresenta aqui o seu melhor momento recente, conduzindo com competência um papel que não é tão fácil como aparenta. Quem rouba a cena, porém, é o veterano Christopher Plummer. A performance do ator é segura, especialmente por causa da curiosidade que sua caracterização desperta e da dedicação corajosa do ator ao papel – afinal, encontrar um ator com mais de 80 anos que aceitasse beijar outro homem em cena não deve ter sido tarefa simples. Quando aparece, Plummer é o destaque (e, por sinal, o filme poderia ter aproveitado mais isso, uma vez que os flashbacks envolvendo o personagem são breves e não tão aprofundados como poderiam ser).

FILME: 8.0


VIPs e a versatilidade de Wagner Moura

Se me perguntassem qual o melhor ator brasileiro em atividade, certamente diria que é Wagner Moura. Dos grandes talentos revelados nos últimos tempos, ele é o que mais impressiona com seu talento e, acima de tudo, sua versatilidade. Com 35 anos de idade, Moura teve seus primeiros destaques quando trabalhava na TV. No cinema, fez papeis coadjuvantes em longas como A Máquina, Carandiru e Abril Despedaçado, até conseguir maior importância e, finalmente, alcançar o grande público com seu marcante capitão Nascimento de Tropa de Elite. Só que Wagner não dá descanço: está sempre apresentando novas provas de talento.

Em Tropa de Elite 2, ele conseguiu trazer humanidade e amadurecimento para um papel que parecia fadado a ser apenas um eterno símbolo de visceralidade. Agora, ele mostra mais versatilidade em VIPs, onde tem a oportunidade de transitar pelos mais variados tipos de papeis. Na pele de Marcelo, conhecida figura brasileira que aplicou grandes golpes ao fingir identidades, Moura vai de adolescente rebelde até adulto impostor que se passa por figuras públicas. Assim, o trabalho, além de ser físico e gestual, também compreende toda uma gama de abordagens psicológicas.

O ator, claro, consegue carregar essa responsabilidade com muita folga. Inclusive, se não fosse por ele, VIPs estaria condenado ao esquecimento, uma vez que é uma produção sem muita consistência no roteiro. Os fatos narrados parecem todos soltos e sem muita conexão, como se VIPs fosse cheio de blocos onde, a cada nova troca de visual do personagem, uma nova fase se inicia. A narrativa episódica prejudica esse filme que, no final das contas, não deixa muitas lembranças exatamente por não ter foco definido.

Ainda assim, se faltou mais atenção para o emocional e psicológico do protagonista, pelo menos temos Wagner Moura em forma segurando as pontas. É o clássico caso de um ator que consegue ser maior que o filme em questão. Também não é para menos, já que estamos falando de um profissional que agora está alçando voo no exterior filmando Elysium, longa dirigido por Neill Blonkamp com Jodie Foster e Matt Damon no elenco. Não que conseguir trabalhar no exterior seja necessariamente sinônimo de talento… Mas, nesse caso, é.

O primeiro Oscar de Maggie

Conheço muito pouco da carreira de dame Maggie Smith. Ela, uma senhora de aparência frágil (tem 76 anos), é uma das mais respeitadas atrizes da Inglaterra e já venceu dois Oscars. Conhecida pela nova geração como a professora Minerva McGonagall da série Harry Potter, costuma aparecer de forma tímida no cinema – até porque é muito seleta em relação a seus trabalhos – e, atualmente, estrela o seriado de época Downton Abbey, criado por Julian Fellowes. Já havia assistido uma performance excelente de Maggie em California Suite, onde ela interpreta uma atriz que perde o Oscar. Curiosamente, a britânica foi celebrada pelo mesmo prêmio, na vida real, por seu desempenho nesse filme.

Só que antes de ser coroada por California Suite, Maggie Smith já tinha vencido o prêmio da Academia, na categoria de melhor atriz. A celebração veio em 1970, com A Primavera de Uma Solteirona. O filme narra a história de Jean Brodie, uma professora à frente do seu tempo. Suas alunas são consideradas privilegiadas por ter uma professora como ela e demonstram ser mais “evoluídas” que as outras estudantes. Só que Jean Brodie está longe de ser esse exemplo de professora, uma vez que compartilha romantismos com outros dois professores e tem um gênio difícil – principalmente porque leciona em uma escola altamente conservadora para meninas.

Essa história de A Primavera de Uma Solteirona já foi trabalhada incansavelmente pelo cinema. Afinal, quantas vezes já não vimos esse enredo de professores quebrando regras em escolas conservadoras? Para a época, o filme pode até ter sido mais original, mas, hoje, podemos dizer que ele não envelheceu muito bem, já que A Primavera de Uma Solteirona é um longa sem maiores surpresas. O que fica mesmo é a presença de Maggie Smith, em uma excelente interpretação que transmite toda a vivacidade e esperteza dessa diferente professora. É por ela que o filme vale a pena!

Filmes em DVD

Réquiem Para Um Sonho, de Darren Aronofsky

Com Ellen Burstyn, Jared Leto e Jennifer Connelly

Réquiem Para Um Sonho é uma experiência única. Darren Aronosfky realizou um filme que desperta várias sensações no espectador. Transitando entre o drama e o suspense psicológico, Aronofsky traz angústia, repulsa, medo e emoção com o resultado final. Fazendo uma parceria extraordinária com a emblemática trilha de Clint Mansell e com os grandes desempenhos (em especial o de Ellen Burstyn), o filme alcança um resultado no mínimo obrigatório para qualquer cinéfilo. O problema é saber quem vai conseguir mergulhar nesse filme pessimista e perturbador. Eu, por exemplo, apesar de ter adorado tudo, não tenho intenções de revê-lo. Precisarei ter muita força e disposição para embarcar novamente nessa verdadeira viagem perturbadora construída por Aronofsky.

FILME: 8.5

Vaidosa, de Vincent Sherman

Com Bette Davis, Claude Rains e Richard Waring

Bette Davis é a minha Meryl Streep do passado: quando penso que não posso mais me surpreender com seu desempenho, eis que surge mais uma pérola. É o caso de Vaidosa, que traz mais uma marcante interpretação de Davis. O melhor de tudo é perceber que ela é apenas uma parte de um filme repleto de acertos que trabalha muito bem a sua proposta principal. Os conflitos são interessantes, os personagens bem explorados e a parte técnica está na medida exata. Mas, não adianta, o show mesmo é de Davis, interpretando uma das muitas mulheres de sua carreira que um dia foram lindas e populares mas que precisam aprender a lidar com o esquecimento e o fracasso. Excelente!

FILME: 8.5

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, de Peter Hedges (revisto)

Com Steve Carell, Juliette Binoche e Dianne Wiest

Sabe aquele tipo de história agridoce, agradável e que traz uma sensação muito boa? Pois é, assim é Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada. Apesar do título bobo, o filme nem de perto aposta nas típicas soluções e situações de habituais comédias românticas. Além de trazer, possivelmente, o melhor desempenho da carreira de Steve Carell (mais contido e eficiente do que nunca, provando também funcionar como um sujeito sério e melancólico), temos no elenco a simpatia de Juliette Binoche e as presenças das eficientes Dianne Wiest e Alison Pill. Um filme a ser descoberto!

FILME: 8.5

Lembranças de Hollywood, de Mike Nichols (revisto)

Com Meryl Streep, Shirley MacLaine e Dennis Quaid

Quem pensa que Meryl Streep só foi soltar a voz em Mamma Mia! deveria assistir Lembranças de Hollywood. Comandada por Mike Nichols, Meryl cantou e apresentou mais um excelente desempenho nesse filme bem simples. É, Lembranças de Hollywood não tem grandes atrativos. O destaque mesmo é Meryl e, claro, Shirley MacLaine. Ambas ótimas e melhores ainda quando estão juntas em cena. Os momentos musicais funcionam (a cena final com I’m Cheking Out é ótima) e tudo está no seu devido lugar. Seria um pouco melhor caso não apostasse em conflitos banais da complicada relação mãe/filha e em um romance passageiro que nada acrescenta ao enredo.

FILME: 8.0

Deixe Ela Entrar, de Tomas Alfredson

Com Kare Hedebrant, Lina Leandersson e Per Ragnar

Tinha uma ideia completamente diferente de Deixe Ela Entrar. Não esperava encontrar um longa-metragem de ritmo lento e que apostasse mais em dramas do que em suspense. Ainda assim, foi um filme que funcionou para mim, mesmo que não seja tudo o que estavam dizendo por aí) O melhor de tudo é que todo o mistério e o sobrenatural envolvendo a natureza de uma personagem não está representado de forma explícita. É tudo bem disfarçado e sutil, sem exageros. Interpretado com qualidade (especialmente pelos jovens protagonistas), Deixe Ela Entrar é uma boa surpresa. Só deveria ser vendido de outra maneira, já que é um exemplar dramatizado de um tema que normalmente é cheio de firulas no cinema comercial.

FILME: 8.0

Lágrimas Amargas, de Stuart Heisler

Com Bette Davis, Starling Hayden e Natalie Wood

De todas as produções estreladas por Bette Davis que falam de mulheres decadentes (o melhor, sem dúvida, é o divertidíssimo O Que Terá Acontecido a Baby Jane?), essa é a mais óbvia. Lágrimas Amargas é convencional e, de certa forma, previsível. Mas quem se importa com isso quando temos uma Bette Davis bebendo litros de álcool, falando sozinha com um Oscar, indo para a cadeia e até mesmo roubando perfumes? Ela é a força desse filme que não tem muita inspiração e que é certinho demais. Sem ela, Lágrimas Amargas seria apenas uma experiência cinematográfica corriqueira na carreira da atriz.

FILME: 7.5

Filmes em DVD

Como Treinar o Seu Dragão, de Dean DeBlois e Chris Sanders

Com as vozes de Jay Baruchel, Gerard Butler e America Ferrera

Uma boa surpresa vinda da Dreamworks, que parecia redimida a viver das fracassadas continuações de Shrek. Ao contrário das últimas aventuras do ogro verde, Como Treinar o Seu Dragão é interessante do início ao fim e vai além dos meros personagens simpáticos. Essa animação da dulpa Dean DeBlois e Chris Sanders pode até trazer algumas lições batidas e uma história cheia de conflitos repetidos, mas é bom constatar que a equipe lidou com isso da forma mais agradávei possível. Ou seja, Como Treinar o Seu Dragão não é o estouro que muitos apontam, mas, sem dúvida, é uma animação super recomendável!

FILME: 8.0

Brilho de Uma Paixão, de Jane Campion

Com Abbie Cornish, Ben Whishaw e Paul Schneider

Ainda existem bons filmes de época sobre amores cheios de poesia? Sim. Brilho de Uma Paixão é um deles. Podemos encontrar nesse filme de Jane Campion o tradicional estilo narrativo desse tipo de história e algumas resoluções bem previsíveis. Mas quem gosta do formato certamente vai apreciar o que esse filme tem a oferecer. Já quem não consegue embarcar pode se incomodar com o ritmo lento e a falta de inovação. Entretanto, Brilho de Uma Paixão funciona como romance e ainda traz uma excelente interpretação de Abbie Cornish, bem como um excelente trabalho técnico – principalmente no que se refere aos figurinos. Resumindo: um filme que acerta em cheio no gosto dos apaixonados por filmes de época e romances intelectuais.

FILME: 8.0

Recontagem, de Jay Roach

Com Kevin Spacey, Tom Wilkinson e Laura Dern

Outro satisfatório telefilme da HBO, que tem se especializado em reunir nomes notáveis para suas produções. Mesmo que traga Kevin Spacey, Tom Wilkinson e Laura Dern em bons momentos (a última impecável na sua ótima caricatura), Recontagem é um filme mais de roteiro do que de atuações. Narrando toda a roubalheira que foi a eleição de George W. Bush nas eleições de 2000, o longa de Jay Roach utiliza uma estrutura bem acadêmica para desenvolver a história. Isso, inclusive, tira um pouco do ritmo da história, que, em diversos momentos, torna-se cansativa e repetitiva. Mas a boa notícia é que Recontagem tem uma trama que sempre prende o espectador. Todos nós queremos saber os bastidores de toda aquela confusão nas eleições. E esse é o maior mérito do filme.

FILME: 8.0

Terapia do Amor, de Ben Younger (revisto)

Com Uma Thurman, Meryl Streep e Bryan Greenberg

Foi com esse filme que Meryl Streep começou a sua atual onda de comédias. O início dessa fase foi positivo, uma vez que ela já demonstrava muita naturalidade e desenvoltura para o humor em Terapia do Amor. Ela não é a estrela do filme, mas conseguiu brilhar lado a lado junto com a verdadeira protagonista, Uma Thurman (que aqui está em uma interpretação bem satisfatória). Terapia do Amor é previsível e fala sobre alguns temas que já foram trabalhados à exaustão nas comédias românticas. Mas é difícil resistir ao ótimo trabalho de Meryl e Uma nesse longa simpático e que, inclusive, possui um final bittersweet e até mesmo maduro para esse tipo de história.

FILME: 7.5


Tron – Uma Odisséia Eletrônica, de Steven Lisberger

Com Jeff Bridges, Bruce Boxleitner e David Warner

Digam o que quiser (incluindo que os efeitos foram ótimos para década e que a concepção visual foi ideal para a época do lançamento), mas Tron – Uma Odisseia Eletrônica é um filme que não soube envelhecer. O trabalho do diretor Steve Lisberger ficou parado no tempo e hoje tem pouco a mostrar em valores cinematográficos e até mesmo tecnológicos. A história não poderia ser mais simples e se o recente Tron – O Legado consegue tapar os buracos do roteiro falho com o uso extraordinário de efeitos, esse filme original não consegue porque simplesmente não tem qualquer tipo de impacto nos dias de hoje. Portanto, fica fácil evidenciar os problemas desse trabalho mediano e que não passa de apenas uma boa ideia.

FILME: 6.5

Nine, de Rob Marshall (revisto)

Com Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard e Penélope Cruz

Em uma revisão, Nine caiu no meu conceito. Mas não esqueçam: acho que o filme está longe de ser esse horor que todos apontam. Rob Marshall sempre foi um péssimo diretor (não sei o que enxergam de especial no igualmente irregular Chicago) e esperar que Nine fosse o musical da década era pura ilusão. O filme impressiona com a quantidade de atores talentosos (e o elenco é, sem dúvida, um destaque), mas é uma pena que todos os atores sejam tão mal aproveitados em participações passageiras. A única que consegue se sobressair e realmente ter momentos de puro destaque é a francesa Marion Cotillard, que é o coração do filme e que tem os números musicais mais interessantes. Era Marion que merecia reconhecimento por esse filme, e não Penélope Cruz, que está apenas satisfatória mas que acabou recebendo, inexplicavelmente, indicações a diversos prêmios. Nine, no final das contas, sofre por não ter um argumento consistente nem uma história sequencial. Tudo parece solto e com clipes musicais mal costurados.

FILME: 6.0

O Sequestro do Metrô 123, de Tony Scott

Com Denzel Washington, John Travolta e James Gandolfini

Não sei como um bom ator como Denzel Washington resolveu resumir sua atual carreira a esses filmes de ação/suspense de segunda categoria. O Sequestro do Metrô 123 é previsível do início ao fim, apostando nas mais clichês escolhas desse tipo de produção. Todo mundo sabe o que vai acontecer e como cada cena vai se suceder. Denzel parece muito acomodado e nem parece se esforçar, como se soubesse que está participando de um filme sem importância. O problema, no entanto, é que John Travolta acha que está arrasando com um personagem caricato e que o ator faz questão de enfeitar com muitos exageros. Tony Scott e Denzel Washington já haviam trabalhado juntos anteriormente e agora chegam aos cinemas com Incontrolável. A amizade dos dois deve ser forte, porque, se depender do que vimos aqui, estamos prestes a encontrar uma dupla que só faz filmes sem emoção e datados como O Sequestro do Metrô 123.

FILME: 5.5

Filmes em DVD

Direito de Amar, de Tom Ford (revisto)

Com Colin Firth, Julianne Moore e Nicholas Hoult

Difícil encontrar, em 2010, outro filme que me encante tanto quanto Direito de Amar. Lembro que fui assisti-lo no cinema cheio de expectativas, e fiquei absolutamente maravilhado por elas terem sido superadas em todos os aspectos. Mais do que isso, Direito de Amar me transmitiu brilhantismo em cada momento. Se Colin Firth tem um desempenho arrasador (Jeff Bridges ganhou aquele Oscar só por causa da carreira e não por verdadeiro merecimento) e o roteiro entrega momentos sublimes, o setor técnico é igualmente encantador: a trilha do polonês Abel Korzeniowski é uma das mais belas que já escutei, a fotografia é genial e a direção de arte e figurinos são impecáveis. Em um momento ou outro, a direção de Tom Ford escorrega ao querer embelezar demais algumas tomadas. No entanto, isso é mero detalhe de um filme que já está entre os meus favoritos.

FILME: 9.5

Orações Para Bobby, de Russell Mulcahy (revisto)

Com Sigourney Weaver, Ryan Kelley e Austin Nichols

O dvd desse filme ainda não foi lançado no Brasil (e nem tem previsão), mas já pode ser adquirido em lojas do exterior – recomendo demais o dvd da Alemanha, que pode até só ter o áudio em inglês sem legendas, mas tem uma capa lindíssima e roda em qualquer aparelho de dvd. Pena que esse filme não tenha feito sucesso e é lamentável que não tenha sido produzido para o cinema. Digo isso porque Orações Para Bobby é o filme que melhor defende os direitos homossexuais. Sem falar que consegue fazer isso com muita humanidade, tornando-se o filme mais emocionante com relação a essa temática. Como é um filme feito para tv, a produção é bem compacta e vai direto ao ponto, sem muitas enrolações. O desempenho de Sigourney Weaver também é outro destaque (e ela merecia ter sido lembrada nas temporadas de premiações, onde não conquistou nenhuma estatueta), assim como a genuína representação de Ryan Kelley. Orações Para Bobby é um filme escondido e que quase ninguém sabe da existência. Uma pena, já que é uma história obrigatória para qualquer ser humano.

FILME: 9.0

Shrek Para Sempre, de Mike Mitchell

Com as vozes de Mike Myers, Cameron Diaz e Eddie Murphy

Sou fã apenas do segundo volume (por alguma razão que não consigo explicar, acho o primeiro superestimado), mas é fato que a franquia perdeu o fôlego no terceiro filme. Com a tentativa de recuperar o que foi perdido em uma suposta despedida, Shrek Para Sempre tenta trazer de volta tudo o que deu certo na história do ogro. Entretanto, mais uma vez, o resultado fica abaixo do esperado. Para uma despedida, Shrek se encerrou de forma passageira e esquecível, em uma história que não tem inspiração e que não faz nada além do óbvio. Aliás, não sei nem se crianças conseguirão ter paciência com esse enredo que tem lições de moral e uma estrutura longe de ser fácil para o público infantil. Alguns momentos divertem, mas nada que seja digno de maior nota. Uma pena que a série tenha acabado com um filme mediano desses… Agora, cadê o clima de despedida? Nem isso eu senti aqui.

FILME: 6.5

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de Terry Gilliam

Com Christopher Plummer, Andrew Garfield e Heath Ledger

Existe uma certa cota de loucuras para mim nos filmes. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus ultrapassa esse meu limite. Até certo ponto, consegui entrar nas bizarrices e nas inventividades da história. Mas, em determinado momento, não consegui mais ver saldos positivos nas loucuras do roteiro. Além da história começar a complicar um enredo que não precisava ser complicado, o filme começa a perder ritmo e termina no nível do decepcionante. O elenco é interessante, trazendo o último desempenho de Heath Ledger e outras estrelas como Jude Law, Johnny Depp e Colin Farrell. Pena que os atores e a ótima direção de arte não sejam o suficiente para salvar esse filme de suas próprias loucuras narrativas.

FILME: 6.0

Marie & Bruce, de Tom Cairns

Com Julianne Moore, Matthew Broderick e Bob Balaban

Nada pior do que um filme que tem a proposta de ser estranho e não consegue alcançar bom resultado por causa disso. Marie & Bruce tem uma história simples, mas resolve dificultar a narrativa com escolhas bem estranhas, o que confere ao filme aquele velho tom insatisfatório de irregularidade. É outro trabalho ruim na carreira de Julianne Moore, que tenta fazer de tudo para dar ao filme alguma qualidade. Contudo, ela não consegue rivalizar com esse roteiro que é vazio e sem emoções – algo muito errado, uma vez que o conflito principal é a separação de um casal que não se suporta mais. Frio e perdido, Marie & Bruce só tem momentos mais interessantes quando chega perto do desfecho.

FILME: 5.0

Filmes em DVD

Up – Altas Aventuras, de Pete Docter e Bob Peterson (revisto)

Com as ozes de Edward Asner, Christopher Plummer e Jordan Nagai

Dos últimos filmes da Pixar, esse é o que menos tem consistência no roteiro. A história é rasa e os personagens são previsíveis. No entanto, é um dos mais emotivos que a produtora já realizou. Up – Altas Aventuras tem, no mínimo, duas cenas de cortar o coração, em especial a inesquecível tomada em que acompanhamos a vida do casal da história. Além dessa veia emocional, temos uma maravilhosa trilha de Michael Giacchino, diversão bem pontuada e uma aventura que sempre funciona. Portanto, esse pode até não ser um dos melhores momentos da produtora. Mas, como já constatamos muitas vezes, até os produtos mais “fracos” da Pixar são capazes de alcançar um ótimo nível.

FILME: 8.5

The Wonders – O Sonho Não Acabou, de Tom Hanks

Com Tom Everett Scott, Johnathon Schaech e Charlize Theron

Sabe aquela história de uma banda de jovens desconhecidos que alcança sucesso, vira um fenômeno e depois começa a sofrer problemas em função da fama? Pois é, The Wonders – O Sonho Não Acabou é mais um filme assim. Porém, é tão verdadeiro e simples que conquista exatamente por não ser pretensioso. Além de ter uma música marcante (será que é possível terminar de ver o filme sem cantarolar That Thing You Do?), essa produção é cheia de carisma e, também, um projeto bem realizado de Tom Hanks, que além de atuar, também dirige e assina o roteiro. Ou seja, não é um grande filme, mas é super simpático e agradável.

FILME: 8.0

Sob o Domínio do Mal, de Jonathan Demme (revisto)

Com Denzel Washington, Liev Schreiber e Meryl Streep

Sob o Domínio do Mal é um filme que tem mais de duas horas de duração e não consegue manter a sua qualidade durante todo o tempo. Mais do que isso, também não define muito bem se quer ser um filme de investigação, um suspense ou um drama político. Mas, no geral, apesar das falhas, é um filme que tem excelentes momentos e algumas tomadas bem executadas. Seja na hora de trazer alguma abordagem política ou na hora de criar alguma tensão (e vamos dar crédito, claro, para a boa trilha de Rachel Portman). Ou seja, o filme atira para todos os lados e erra na falta de foco, mas também acerta ao trabalhar um pouco de cada gênero. No entanto, o que mais se destaca aqui é a impecável performance de Meryl Streep como uma senadora forte, decidida e um pouco vilanesca. Ela rouba a cena quando aparece e, facilmente, merecia ter recebido uma indicação ao Oscar de coadjuvante. Ela só não foi ajudada pelo filme, que não foi bem recebido e que dá certas razões para o abraço morno da crítica.

FILME: 7.5

Jezebel, de William Wyler

Com Bette Davis, Henry Fonda e George Brent

A lenda chamada Bette Davis ganhou seu segundo Oscar por Jezebel. Não sei o porquê dessa celebração, já que esse está longe de ser um dos desempenhos mais interessantes da atriz. Ela está bem, como sempre, mas linear e com pouco a fazer em um filme irregular. Jezebel tem aquele tipo de roteiro que começa contando uma história, mas, aos poucos, muda o foco de tudo e acaba com uma proposta diferente do que havia iniciado. Portanto, não consegui me fixar muito no enredo e só consegui ficar mais envolvido por causa de Davis. Jezebel, no final das contas, é uma raridade na carreira da atriz: um dos pouquíssimos filmes em que nem ela nem o filme alcançam maior notoriedade.

FILME: 7.5

Cartas Para Julieta, de Gary Winick

Com Amanda Seyfried, Vanessa Redgrave e Gael García Bernal

Cartas Para Julieta é exatamente isso que você está pensando: um filme normal, previsível e açucarado. Mas quem disse que, de vez em quando, não é bom assistir a um filme assim? Se formos levar isso em consideração, o resultado alcançado por Gary Winick é satisfatório – dentro de suas limitações, claro. Se Gael García Bernal pouco faz em cena, Amanda Seyfried tem sua simpatia habitual e Vanessa Redgrave ilumina cada cena com sua ótima presença. No final das contas, é muito simples saber se você deve ou não assistir Cartas Para Julieta, já que o filme é exatamente aquilo que você pensa dele antes mesmo de assistir.

FILME: 6.5

Duas Semanas, de Steve Stockman

Com Sally Field, Ben Chaplin e Julianne Nicholson

É fácil encontrar filmes de câncer que não comovem por exagerar no melodrama e no clichê. Agora, pensei que fosse impossível achar um filme sobre câncer que não tivesse emoção simplesmente porque o filme não passa a devida quantidade de drama. É o caso de Duas Semanas, que só encontra algum momento de tristeza quando mostra Sally Field “acabada” pela doença devida a uma boa maquiagem. De resto, é um filme extremamente formulaico, que deixa a atriz em segundo plano e ainda tem tentativas falhas de criar humor para trazer certo alívio para a narrativa. O resultado de tudo isso é superficial, sem vida e não comove nem os mais fracos por esse tipo de história.

FILME: 5.0

Filmes em DVD

A Dança das Paixões, de Pat O’Connor

Com Meryl Streep, Michael Gambon e Catherine McCormack

A Dança das Paixões é um dos filmes menos conhecidos da carreira de Meryl Streep. E, também, um dos mais subestimados. É de se lamentar que um filme tão especial como esse não tenha o devido reconhecimento. Quer dizer, A Dança das Paixões está longe de ser um filme grandioso, mas tem pequenas sutilezas e tantos momentos sinceros que, no final, fica difícil não se envolver com a história. Não é só Meryl que está muito verdadeira e natural (parece, de verdade, que ela é uma irlandesa), mas também todo o elenco. A sinceridade passada por todos os atores é o que também confere para A Dança das Paixões um tom de pura verossimilhança. Um filme a ser descoberto, mas que pode não despertar tanta apreciação justamente por ser calcado em pequenos momentos.

FILME: 8.5

Duas Mulheres, de Vittorio De Sica

Com Sophia Loren, Eleonora Brown e Carlo Ninchi

Sophia Loren foi a primeira atriz de língua não-inglesa a vencer o Oscar de melhor atriz. E mesmo que sua nacionalidade seja apenas um detalhe (já que, no filme, ela fala inglês), Loren mereceu todas as honrarias que recebeu por seu desempenho em Duas Mulheres. Muito bela e radiante, a italiana encontra um equilíbrio maravilhoso entre a sutileza e a veracidade, fazendo um belo retrato da maternidade sofrida mas também inabalável. Vittorio De Sica realizou um filme interessante, que nunca se deixa eclipsar pelo ótimo momento de Loren. Afinal, Duas Mulheres vai além de uma interpretação especial. É um filme que também chama atenção em outros aspectos.

FILME: 8.0

Infâmia, de William Wyler

Com Audrey Hepburn, Shirley MacLaine e James Garner

Infâmia trata de uma temática que aprecio bastante: o poder da palavra e como uma mentira pode destruir vidas. Se Desejo e Reparação foi um dos melhores exemplares desse tipo de história recentemente, Infâmia foi um marco dos anos 60. Não só por “endiabrar” uma criança (que origina todos os conflitos do filme), mas, também, por tocar no delicado assunto de como a sociedade condenava homossexualidade naquela época. Apesar de beber bastante de uma fonte teatral (e, em certos momentos, parece samba de uma nota só), traz um notável trabalho de elenco, em especial das protagonistas Audrey Hepburn e Shirley MacLaine. Infâmia, portanto, pode até parecer datado em certos momentos, mas nunca perde o brilho e sempre deixa transparecer competência narrativa.

FILME: 8.0

Chico Xavier, de Daniel Filho

Com Nelson Xavier, Christiane Torloni e Tony Ramos

Ao contrário do que se pode imaginar, Chico Xavier está longe de ser um filme caça-níquel. E se é, consegue não deixar essa sensação. Na realidade, é um longa-metragem mais autoral de Daniel Filho (se é que podemos encaixar o diretor nesse estilo), com uma história mais humana e menos superficial. Ainda assim, fica claro que Daniel Filho não consegue se livrar de algumas manias “comerciais”. Por exemplo, o uso desnecessário da trilha sonora para criar suspense nos momentos “espíritas”, que é bastante incômodo. Mas, o principal problema do filme é que o roteiro só engrena a partir da metade, quando o protagonista já é uma celebridade. Antes disso, tem pouco a dizer e só encena determinados momentos para cumprir as típicas formalidades de cinebiografias. Além dos atores que interpretaram Chico Xavier, destaco, também, a ótima atuação de Christiane Torloni. Ela é uma ótima atriz e merecia muito mais tempo em cena, já que rouba a cena quando aparece.

FILME: 7.0

Maluca Paixão, de Phil Traill

Com Sandra Bullock, Bradley Cooper e Thomas Haden Church

Maluca Paixão traz, possivelmente, o papel mais imbecil de toda a carreira de Sandra Bullock. O único prêmio que ela merecia ter vencido nessa temporada era o de pior atriz por esse filme, que é pura vergonha alheia. Para falar bem a verdade, ela é apenas um dos inúmeros problemas lastimáveis desse longa. Se a escalação de elenco e as atuações dos atores já começam erradas (e nisso incluo, também, a canastrice de Thomas Haden Church e a ineficiência de Bradley Cooper), tudo piora com o roteiro. A história simplesmente não convence (até porque é difícil simpatizar com uma protagonista tão lesada mentalmente) e todo e qualquer conflito chega a ser impressionante de tão sem noção. Se um filme bobo desse fosse ao menos simpático, teríamos algo mais aceitável. Mas nem isso Maluca Paixão consegue ser. É chato, fora da casinha e totalmente descartável.

FILME: 4.0

Filmes em DVD

A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz (revisto)

Com Bette Davis, Anne Baxter e George Sanders

A Malvada é um dos melhores filmes que trata sobre os bastidores da vida artística. Ao narrar a vida de Margo Channing (Bette Davis, em desempenho emblemático), que é ofuscada pela chegada de uma interesseira fã chamada Eve Harrington (Anne Baxter, ótima), o diretor Mankiewicz criou um dos filmes mais bem sucedidos da história do cinema. Recordista de indicações ao Oscar (são 14, ao total), A Malvada é uma aula de como fazer um filme acertar em todos os aspectos. Se na maioria dos filmes de Bette Davis ela é a estrela máxima, aqui isso não acontece. Ela não brilha sozinha. O filme todo é uma sucessão de acertos.

FILME: 8.5

Frost/Nixon, de Ron Howard (revisto)

Com Michael Sheen, Frank Langella e Sam Rockwell

Frost/Nixon nem parece ser um filme de Ron Howard. Quer dizer, é tão bem realizado que fica a dúvida se foi o formulaico Howard mesmo que dirigiu. Ainda assim, não é um filme que necessariamente me empolgue como cinema. Mas, por um outro lado, admiro demais toda a faceta jornalística da história. É nesse tratamento que Frost/Nixon encontra a sua força. O embate na entrevista  entre os personagens de Michael Sheen (subestimado, diga-se de passagem) e Frank Langella é o ponto alto. Considere, também, uma excelente montagem e uma ótima trilha sonora de Hans Zimmer.

FILME: 8.0

Feitiço da Lua, de Norman Jewison

Com Cher, Nicolas Cage e Olympia Dukakis

Cher foi a última atriz a vencer um Oscar de protagonista por um filme de comédia. Feitiço da Lua funciona com bastante segurança, mas, por outro lado, não justifica a celebração em torno de Cher. Ela, que alcançou uma vitória duvidosa (concorria com Glenn Close e Meryl Streep), está realmente ótima. Mas, será mesmo que era digna de tantos aplausos? Não se formos levar em consideração tantas outras atrizes que ganharam por filmes comuns e por atuações sem qualquer grandeza… Falando um pouco do filme, Feitiço da Lua é uma comédia romântica extremamente agradável e que encontra no carisma dos personagens a sua maior força. Uma história simples, mas que conquista por ser exatamente assim.

FILME: 8.0

De Repente, Califórnia, de Jonah Markowitz

Com Trevor Wright, Brad Rowe e Tina Holmes

Certos filmes querem tanto escapar dos clichê que terminam rasos e superficiais. É o caso de De Repente, Califórnia, um filme gay que não tem aquele tratamento repetitivo que sempre vemos no cinema. No entanto, na tentativa de fazer algo diferente, não conseguiu ir muito longe. Até dá para entrar na história e simpatizar com a relação dos dois, mas nenhum conflito trabalhado no roteiro tem grande repercussão. Tudo é passageiro e resolvido em questão de instantes. Tanto, que o maior conflito de De Repente, Califórnia é a complicada relação do protagonista com sua irmã, que é uma mãe relapsa e joga toda a responsabilidade que ela deveria ter com o filho para o irmão. Portanto, não é nem a auto-aceitação do personagem ou o relacionamento homossexual a principal engrenagem de De Repete, Califórnia. É um filme assistível e sutil, mas que tem medo do próprio tema e foge da responsabilidade de aprofundar o seu verdadeiro assunto principal.

FILME: 6.5

Ela é o Diabo, de Susan Seidelman

Com Roseanne Barr, Meryl Streep e Ed Begley Jr.

O primeiro pensamento que tive quando estava assistindo Ela é o Diabo foi que o filme tem, realmente, um formato de clássico da Sessão da Tarde. Mas, vale lembrar que nem todo filme que funciona nesse programa da rede Globo precisa necessariamente funcionar em dvd, por exemplo. Esse filme de Susan Seidelman tem seus atrativos quando exibido na TV, mas ao ser conferido mais criteriosamente em DVD, fica claro que ele tem inúmeros defeitos. Pode ser a trilha exagerada, a história inverossímil ou a direção irregular. A verdadeira protagonista, Roseanne Barr, também não faz muita coisa. O destaque, na realidade, fica com Meryl Streep e Ed Begley Jr. Ele está impagáel como o típico homem cafajeste, enquanto Streep já demonstrava talento cômico para interpretar megeras. Se não fosse pelos dois, o filme seria mais irregular do que já é.

FILME: 6.0

Cadê os Morgan?, de Marc Lawrence

Com Sarah Jessica Parker, Hugh Grant e Elisabeth Moss

Se um filme lembra Recém Chegada, já é um péssimo sinal. Mesmo que Cadê os Morgan? não seja tão desprezível quanto essa péssima comédia estrelada por Renée Zellweger, chega quase no memo nível de erros. Mas, por razões diferentes. Por exemplo, o filme de Marc Lawrence tem um humor besta como Recém Chegada, mas possui uma história absurdamente vazia, um casal que não combina em momento algum e reflexões que chegam a causar sono de tão previsíveis. Parker, que só está no mundo das comédias porque deu sorte com Sex and the City (além de ser estranha, não tem vigor para comédias no cinema) não consegue ter química com Hugh Grant (que está reduzido sempre ao mesmo papel de homem engraçadinho e sarcástico). Esse é o principal problema do filme. Além de Cadê os Morgan? não fugir do bobo esquema de gente rica e mimada indo para a roça, tem um casal totalmente fora de sintonia…

FILME: 5.5

Filmes em DVD

Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

Narrando, sem palavras ou diálogos, o descompasso entre as grandes metrópoles e a natureza, o documentário Koyaanisqatsi usa apenas trilha e imagens para transmitir a sua mensagem. O curioso é que, com essa estrutura, o trabalho do diretor Godfrey Reggio consegue ser muito mais interessante do que vários filmes desse gênero. A harmonia entre trilha e imagem consegue ser, inclusive, impactante artisticamente. Philip Glass, em mais um momento espetacular, traduz toda a força da mensagem em suas melodias que variam entre a melancolia e a sensação frenética.  Méritos também, claro, para a ótima montagem. Koyaanisqatsi é um filme para poucos. No entanto, é impossível fica indiferente com tal experiência.

FILME: 8.5

Powaqqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

A segunda parte da trilogia “qatsi”, iniciada com o ótimo Koyaanisqatsi, já não se mostra tão impactante ou especial nesse segundo volume. Powaqqatsi parece ser apenas um retrato sem ousadias da cultura e das dificuldades de países pobres. A trilha de Philip Glass continua em ótimo momento e a fotografia permanece bela. Porém, falta uma sincronia maior entre os setores audiovisuais. Música e imagem não parecem tão bem balanceados como em Koyaanisqatsi. Fica a sensação de que são apenas imagens embaladas, sem qualquer pretensão, por músicas. Isso, de certa forma, tira o potencial do filme e deixa Powaqqatsi apenas no nível do satisfatório.

FILME: 7.5

Naqoyqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

Tecnologia é o assunto de Naqoyqatsi, último volume da trilogia “qatsi”. Para isso, o diretor Godfrey Reggio resolveu colocar efeitos de computador em praticamente todas as imagens. São vários efeitos visuais, variações de cor e alternância de tecnologias. Esteticamente interessante, conseguiu ser melhor que o volume anterior, Powaqqatsi, mas não conseguiu alcançar o mesmo nível de impacto e hipnose de Koyaanisqatsi. O último capítulo tem a seu favor o fato do jogo de imagens computadorizadas ser bem interessante e de ter uma trilha sonora espetacular. Philip Glass sempre está ótimo, mas aqui ele aposta em violinos, o que traz uma diferente sonoridade para o resultado. Naqoyqatsi é vítima do formato, que já não surpreende mais, mas não merece desprezo em função disso.

FILME: 8.0

A Carta, de William Wyler

Com Bette Davis, Herbert Marshall e James Stephenson

Esse é um dos filmes mais simples da carreira de Bette Davis. A Carta conta a história de uma mulher (Davis), que comete um crime e quer, a todo custo, ser inocentada. O filme segue os caminhos mais comuns e não traz grandes inovações. Mas, para a época, apresenta alguns aspectos bem marcantes. A própria personagem de Davis, por exemplo, que é convicta de cada palavra que está dizendo, mas que também um pouco dissimulada por dentro. A Carta, apesar de convencional, tem como coringa a ótima interpretação da atriz – que, mais uma vez, empresta sua representação de mulher geniosa e misteriosa para a personagem. O final é um pouco insatisfatório (e diria até um pouco negativo demais e fora de tom), mas nada que apague a prazerosa experiência que é ver Davis atuando novamente.

FILME: 8.0

É Proibido Fumar, de Anna Muylaert

Com Glória Pires, Paulo Miklos e Marisa Orth

É Proibido Fumar foi o grande vencedor desse ano do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro. Devido ao estranho resultado da lista de indicados, o filme mereceu a vitória (antes ele do que Se Eu Fosse Você 2 ou A Mulher Invisível), mas, fica longe do excelente resultado de À Deriva. Esse filme de Anna Muylaert é bem convencional em todos os aspectos, tanto no roteiro linear quanto na simples técnica. Ainda assim, é uma história que funciona. Talvez, seja mais em função da presença da ótima Glória Pires (cuja melhor cena é aquela em que fala do bolo de sua falecida tia). Portanto, é fácil constatar que É Proibido Fumar é uma produção comum, mas que também funciona com muita facilidade.

FILME: 7.5

O Solista, de Joe Wright

Com Robert Downey Jr., Jamie Foxx e Catherine Keener

Mesmo que Desejo e Reparação seja um trabalho espetacular, nunca colocaria a mão no fogo por Joe Wright. Ao passo em que ele alcança resultado fenomenais, como no filme anteriormente citado, também consegue construir filmes monótonos e convencionais como O Solista. Dessa vez, o problema não foi nem Robert Downey Jr. (sem os seus maneirismos de sempre) ou Jamie Foxx (o ator que foi da excelência para a canastrice no mais curto espaço de tempo), mas sim o roteiro lento e quadrado. Todo mundo já está cansado de ver longas sobre pessoas talentosas mas que possuem problemas pessoais ou alguma doença que os impedem de ir a frente com o seu dom. O Solista conta toda essa ladainha de novo. E sem a menor originalidade.

FILME: 6.0

Filmes em DVD

O Homem Que Sabia Demais, de Alfred Hitchcock

Com James Stewart, Doris Day e Bernard Miles

Nunca pesquisei com muitos detalhes a filmografia de Alfred Hitchcock e a última vez que havia entrado em contato com os filmes do diretor foi há muito tempo atrás, com Psicose e Os Pássaros. Nessa minha retomada, comecei com o pé direito. O Homem Que Sabia Demais é um exemplo de simplicidade e suspense. A história não tem grande originalidade ou desdobramentos excepcionais, mas mesmo assim envolve de forma certeira. Nem dá para sentir as duas horas de duração, já que tudo passa com certa rapidez. Menções honrosas também merecem James Stewart e Doris Day, super competentes em seus papéis.

FILME: 8.5

A Rainha, de Stephen Frears (revisto)

Com Helen Mirren, Michael Sheen e James Cromwell

Da safra do Oscar daquele ano, A Rainha era o filme mais elegante de todos. Inclusive, também o categorizo como um dos mais subestimados. O longa-metragem de Stephen Frears é muito mais do que a ótima interpretação de Helen Mirren. Além da espetacular trilha de Alexandre Deslat (que é um elemento técnico muito marcante para a história), a direção de arte é perfeita e tanto os figurinos quanto a fotografia possuem momentos de destaque. No entanto, o que mais chama atenção em A Rainha é a forma como a história foi contada sem maniqueísmos ou apelações. Tudo na medida e com qualidade – características muito comuns do cinema britânico.

FILME: 8.5

Amor Sem Escalas, de Jason Reitman (revisto)

Com George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick

Minha visão de Amor Sem Escalas continua a mesma em DVD. Gosto muito da melancolia que existe em determinadas partes, das interpretações e dos diálogos inteligentes e reflexivos. Ainda que não seja uma produção que tenha me conquistado por inteiro, adquiriu a minha admiração. Jason Reitman merece aplausos por seu notável amadurecimento atrás das câmeras desde o apenas simpático Juno. Ele também tem méritos em Amor Sem Escalas. No entanto, o destaque é a forma verdadeira como tudo acontece. Presente de um ótimo elenco e de um texto muito especial, que não merecia ter perdido o Oscar para Preciosa – Uma História de Esperança.

The Rocky Horror Picture Show, de Jim Sharman

Com Susan Sarandon, Tim Curry e Barry Bostwick

De todos os musicais que já tive a oportunidade de assistir na minha vida de cinéfilo, esse é o mais inusitado e insano de todos. É exatamente por causa disso que The Rocky Horror Picture Show funciona tão bem. Fica claro que o filme não é para ser levado a sério. Quem conseguir entrar nesse clima e se divertir com a essência trash da história vai encontrar um ótimo entretenimento. Claro que o filme tem seus problemas (especialmente no que se refere a roteiro, ou melhor, na  quase ausência do mesmo), mas nada que apague o clima de diversão proporcionado por ele. Destaque para uma Susan Sarandon bem novinha e para as boas canções.

FILME: 8.0


O Fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson

Com as vozes de George Clooney, Meryl Streep e Bill Murray

Se por um lado não dá para desmerecer o domínio da Pixar nas premiações, por outro dá para lamentar o fato de outras boas animações não terem espaço por causa da produtora. Se Up – Altas Aventuras não tivesse na disputa, certamente, O Fantástico Sr. Raposo seria o grande vencedor. Ainda prefiro a aventura de Carl na casa cheia de balões, mas também fui conquistado de surpresa por essa adorável animação que conta com uma das melhores dublagens do gênero nos últimos tempos. O Fantástico Sr. Raposo tem um charme perfeito, conquistando qualquer bom apreciador de desenhos animados. A animação não chega a ser espetacular, mas é certo que é uma das mais originais e divertidas das últimas que apareceram.

FILME: 8.0

Maus Hábitos, de Pedro Almodóvar

Com Julieta Serrano, Marisa Paredes e Cecilia Roth

Maus Hábitos foi um dos primeiros filmes em que Almodóvar começou a apresentar as suas características tão conhecidas. Existe muita crítica e ironia no roteiro. Ao narrar o cotidiano de um convento cheio de freiras viciadas em heroínas e todas com um quê de corrupção, Almodóvar não só trouxe uma abordagem diferente nesse tipo de história como também conseguiu construir dramas simples e complexos. É fácil perceber que, em Maus Hábitos, o diretor ainda estava em fase de crescimento. Contudo, também nota-se que, desde já, ele sabia muito bem o que estava fazendo.

FILME: 8.0

Filmes em DVD

Vitória Amarga, de Edmund Goulding

Com Bette Davis, Humphrey Bogart e Geraldine Fitzgerald

Não foi só a maravilhosa interpretação de Bette Davis que teve reconhecimento em Vitória Amarga. O filme teve boa repercussão, sendo a maior bilheteria de Davis até então e também recebendo uma indicação ao Oscar na categoria principal e no segmento de trilha sonora. Não venceu nada, já que concorria contra o grandioso e inesquecível …E o Vento Levou. Mas, isso não diminui a ótima qualidade alcançada por Vitória Amarga. A história é bem simples: uma rica mulher (Davis, em sua primeira indicação ao prêmio da Academia depois de duas vitórias na cerimônia) descobre que tem poucos meses de vida em função de um problema no cérebro. O filme fala exclusivamente sobre isso, sem se aventurar por outros caminhos. O resultado, além de muito satisfatório, conquista não só por narrar com qualidade a simples história, mas também por fugir de caminhos óbvios de filmes desse estilo. Vitória Amarga em nenhum momento é melodramático ou sequer mais triste. Encontra um balanceamento perfeito nas emoções.

FILME: 8.5


Chéri, de Stephen Frears

Com Michelle Pfeiffer, Rupert Friend e Kathy Bates

Esse era um dos longas mais cotados para a temporada de premiações. E, assim como tantos outros casos, não teve repercussão alguma. Aqui no Brasil passou despercebido nos cinemas e agora chega discretamente em dvd. Realmente o filme não é nada demais, passando aquela sensação de neutralidade – onde praticamente nada chega a chamar muita atenção. Era de se esperar mais de um diretor tão talentoso como Stepehn Frears (que já realizou um marcante filme de época, Ligações Perigosas). O resultado é satisfatório e a produção tem seus aspectos interessantes, como a ótima trilha sonora de Alexandre Desplat (de novo!). Michelle Pfeiffer e Rupert Friend funcionam, mas o roteiro parece não trabalhar direito o romance dos dois. Chéri, também, era considerado o grande retorno de Pfeiffer. Pode até não ter sido, mas ao menos trouxe o melhor papel da atriz em anos de irregularidade.

FILME: 7.5

Nell, de Michael Apted

Com Jodie Foster, Liam Neeson e Natasha Richardson

Nell rendeu para Jodie Foster uma quarta indicação ao Oscar. Dos trabalhos que a atriz já realizou, esse é um dos mais diferentes: aqui ela interpreta uma mulher selvagem, que nunca teve contato com a civilização e nem fala uma língua conhecida. É missão, então, do personagem de Liam Neeson (em um bom momento, assim como Foster) de ajudar essa mulher que está sozinha no mundo agora que perdeu a mãe. Nell tem uma temática interessante, mas um desenvolvimento bem simples. Não é um filme de grandes momentos e muito menos de características especiais. Mas, só pelo bom trabalho de elenco, já vale uma conferida.

FILME: 7.5

O Destino Mudou Sua Vida, de Michael Apted

Com Sissy Spacek, Tommy Lee Jones e Beveryl D’Angelo

Foi por esse filme que a ótima Sissy Spacek venceu o Oscar de melhor atriz. Não quero desmerecer o prêmio, mas, das indicações que vi da atriz, essa foi a menos inspirada. Spacek estava bem mais interessante em outros longas como Carrie – A Estranha e Entre Quatro Paredes. Apesar disso, ela faz um bom trabalho em O Destino Mudou Sua Vida, mas é mais um daqueles papéis biográficos musicais que já tanto vimos por aí. O filme em si já não é grande coisa: demasiado longo e sem nenhuma ousadia. Spacek, portanto, é o que existe de melhor na história – mas nem isso quer dizer que seja algo necessariamente marcante. É uma produção mediana e com uma interpretação que  apenas faz o que é necessário para um gênero desses. Ou seja, formulaico em praticamente tudo. E por isso mesmo foi reconhecido pelo Oscar, que o indicou, inclusive, na categoria principal.

FILME: 6.5

Coisas de Meninos e Meninas, de Nick Hurran

Com Kevin Zegers, Samaire Armstrong e Sherry Miller

O jovem Kevin Zegers estava ótimo como o filho de Felicity Huffman em Transamérica. Também tinha boa presença em O Clube de Leitura de Jane Austen. Zegers, que, ao meu ver, só realizava bons projetos, cometeu esse enorme tropeço chamado Coisas de Meninos e Meninas. Não é de se surpreender que todo  e qualquer astro teen venha a realizar um desses romancezinhos colegiais que beiram a imbecilidade. No entanto, esse filme de Nick Hurran quase chega no desastre completo. Se a coitada da Samaire Amstrong (que participou do seriado The O.C.) sofre com cenas de pura vergonha alheia, Zegers ainda tenta fazer alguma graça com um jeito afeminado – afinal, é uma história de troca de corpos. Em vão. Os dois não conseguem trazer nada de muito útil para uma história pobre, clichê e mal realizada.

FILME: 4.5

9 Canções, de Michael Winterbottom

Com Kieran O’Brien e Margo Stilley

Fazia um bom tempo que eu não me indignava tanto com um roteiro gratuito. 9 Canções não tem história e é uma sucessão de cenas de sexo (explícito, diga-se de passagem) com outras de música (e nisso, inclui-se até uma participação de Franz Ferdinand cantando Jaqueline). Ao meu ver, tudo sem propósito e filmado sem beleza alguma. São 80 minutos de vazio e muito sexo. Se Michael Winterbottom sempre me pareceu um diretor bem questionável, agora ele confirma essa minha sensação com 9 Canções.

FILME: 2.0

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