Cinema e Argumento

O Desinformante!

Direção: Steve Soderbergh

Elenco: Matt Damon, Melanie Lynskey, Eddie Jemison, Rusty Schwimmer, Scott Adsit, Scott Bakula, Allan Havey, Lucas McHughCarroll

The Informant, EUA, 2009, Drama, 108 minutos, 12 anos.

Sinopse: Um executivo em rápida ascensão na gigante empresa da agroindústria ADM, Mark Whitacre (Matt Damon), de repente, torna-se informante do governo. Mesmo delatando ao FBI a conspiração para formação de cartel por parte da multinacional onde trabalha, Whitacre acredita que será transformado em herói da população e promovido. Porém, antes que tudo isso se concretize, o FBI precisa de provas, então Whitacre, entusiasmado, concorda em usar um microfone escondido e levar um gravador escondido na pasta, imaginando-se uma espécie de agente secreto. Infelizmente para o FBI, a principal testemunha não parece tão próxima a acessar os cofres da empresa. Os relatos de Whitacre estão sempre mudando, o que frustra os agentes e põe em risco o caso contra a empresa ADM, pois vai ficando quase impossível decifrar o que é real e o que é produto da fértil imaginação de Whitacre.

O pior defeito que um filme pode ter é esse: ser monótono. Não sei quanto a vocês, mas acho que não existe nada mais desconfortável do que assistir um longa-metragem que não tem ritmo, que não tem uma história sequer interessante ou que não possui um desenrolar bem trabalhado. É o caso de O Desinformante!, que  já começa com o obstáculo de ter uma trama não muito empolgante e é uma pena que a trabalhe de forma menos instigante ainda.

Esse trabalho, portanto, é mais um fruto sem personalidade de Steven Soderbergh – que nos últimos tempos vem se confirmando como uma grande enganação. Ele pode ser eclético e fazer diversos filmes anualmente, mas é uma pena que ele não tenha conseguido imprimir firmeza em suas produções – ao contrário de outros colegas seus (como James Mangold, por exemplo, que também faz tudo o que é tipo, não possuindo um estilo próprio, mas sempre acerta). Essa ecleticidade prejudica Soderbergh, que parece não saber mais como conduzir histórias.

Mas, na realidade, não é na direção que se encontra o verdadeiro problema de O Desinformante!. O roteiro, por diversas razões, é o que mais prejudica o resultado final. Temos uma narração em off deslocada ao extremo (chega a incomodar mesmo a voz do protagonista, a todo minuto, narrando milhares de coisas), e que não serve pra nada. Depois, uma confusão corporativa na história que é detalhada demais – e podemos notar uma certa influência do questionável modo Tony Gilroy de montar esses tipos de tramas. Sem falar que o enredo é indiferente e não causa qualquer interesse em momento algum.

Matt Damon, que engordou bastante e recebeu uma questionável indicação ao Globo de Ouro por esse filme, aparece na medida, fazendo o que o personagem pede. Assim como todos do elenco, incluindo a Melanie Lynskey (pra quem não lembra, ela foi a namorada de Kate Winslet em Almas Gêmeas, do Peter Jackson). E outro fator relevante é a deliciosa trilha sonora. No entanto, é muito pouco para um filme que não flui nunca e que também jamais acerta o tom na hora de escolher a maneira certa de narrar o que está sendo desenvolvido.

FILME: 4.0


Melhores de 2009 – Ator Coadjuvante

É preciso fazer algo extraordinário para se destacar em um filme de Quentin Tarantino. Ora, o diretor sempre arrasa em suas direções e, na maioria das vezes, atrai todas atenções para si. Não foi assim com Bastardos Inglórios. Tarantino foi elogiado sim, mas quem também recebeu honrarias foi o estupendo Christoph Waltz. Assistindo Waltz em cena, dá pra ficar se perguntando: onde ele esteve durante todo esse tempo? Com uma eterna ironia no rosto (que se mistura com toda a tensão imposta pelo dúbio personagem), ele foi o grande coadjuvante desse ano, sobressaindo-se a cada cena de Bastardos Inglórios. Méritos de um personagem bem construído? Com certeza. Mas bem mais de Waltz, um extraordinário profissional. Anteriormente: 2006 – Jack Nicholson (Os Infiltrados), 2007 – Casey Affleck (O Asssassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford) e 2008 – Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez, escolha do público: Heath Ledger, por Batman – O Cavaleiro das Trevas).

PHILIP SEYMOUR HOFFMAN (Dúvida)

Acho muito provável que se, caso Heath Ledger não estivesse concorrendo no Oscar, Philip Seymour Hoffman levaria seu segundo Oscar. Sua composição é perfeita e de uma sutilidade absurda. Hoffman mais uma vez demonstra ser um monstro da atuação, não se intimidando nem perante a diva Meryl Streep. Além de ter um papel fundamental na trama, ele nos apresentou váriso momentos maravilhosos.

EDDIE MARSAN (Simplesmente Feliz)

O personagem de Eddie Marsan representa o completo oposto da personagem de Sally Hawkins. E o ator entendeu isso com uma bárbara precisão. O mal humor do instrutor de auto-escola chega a ser divertido. Marsan estava ótimo e roubava a cena toda a vez que aparecia.

EMILE HIRSCH (Milk – A Voz da Igualdade)

Não sei o que anda acontecendo com as premiações, que têm ignorado novos astros. Emile Hirsch sofre o mesmo problema de Paul Dano, por exemplo. Hirsch é um jovem talentoso, já teve um trabalho respeitável na carreira (Na Natureza Selvagem) e conseguiu ter a melhor caracterização de Milk – A Voz da Igualdade (só perdendo para Sean Penn, claro). Enquando Josh Brolin, inexplicavelmente, recebia honrarias, Hirsch mais uma vez foi esquecido. Uma pena.

STANLEY TUCCI (Julie & Julia)

Gosto muito de Stanley Tucci. Ele não é um grande ator, mas está sempre no tom certo e com um carisma inegável em suas representações. Em Julie & Julia não é diferente: Stucci se mostra completamente à vontade ao lado de Meryl Streep, convencendo completamente como o marido apaixonado que, além de amar a sua mulher, acreditava que ela era talentosa o suficiente para fazer qualquer coisa.

_

Escolha do público:

1. Christoph Waltz, Bastardos Inglórios (76%, 31 votos)

2. Philip Seymour Hoffman, Dúvida (12%, 5 votos)

3. Emile Hirsch, Milk – A Voz da Igualdade (5%, 2 votos)

4. Stanley Tucci, Julie & Julia (5%, 2 votos)

5. Eddie Marsan, Simplesmente Feliz (2%, 1 voto)

Melhores de 2009 – Fotografia

Às vezes fico me perguntando se o ótimo resultado de Quem Quer Ser Um Milionário? não se deve mais aos seus setores técnicos. Será mesmo que o filme é essa maravilha ou é “apenas” resultado de uma direção maravilhosa, de uma trilha contagiante ou de uma montagem dinâmica? Será que a história é mesmo tudo isso que dizem ser ou é a estrutura que faz a diferença? De qualquer maneira, um setor técnico que chama bastante a atenção no filme de Danny Boyle é a fotografia. Utilizando tons coloridos para que o espectador visualize toda a diversidade cultural da Índia, a fototografia tem momentos brilhantes, especialmente nas cenas que retratam a infância do protagonista. Unindo-se com puro dinamismo ao grande trabalho de Boyle na direção, o setor fotográfico é um dos grandes coringas do setor técnico de Quem Quer Ser Um Milionário?. Anteriormente: 2008Ensaio Sobre a Cegueira (escolha dos leitores: idem), 2007 – O Despertar de Uma Paixão e 2006 – Memórias de Uma Gueixa.

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Um dos aspectos mais admiráveis de O Curioso Caso de Benjamin Button é a sua fotografia. O filme é dono de grandes momentos nesse setor, tendo alguns momentos realmente memoráveis (a dança de Daisy para Button ou quando Cate Blanchett narra a história de Mr. Gateau, poe exemplo). É através de cores escuras e sutis que a fotografia cumpre a missão de passar toda a melancolia que a história exige.

O LEITOR

O mestre Roger Deakins (que também fez a fotografia de Dúvida) mais uma vez apresenta um grande trabalho. A excepcional ambientação de O Leitor é fruto de uma bela fotografia, que sabe usar os tons certos para montar a atmosfera do romance entre Hanna Schmitz e Michael Berg. Mas, o que mais se destaca é a forma como Deakins entendeu, por escolhas técnicas admiráveis, o que Bernhard Schlink quis transmitir com sua obra.

AVATAR

O mundo fantasioso criado por James Cameron encontrou uma abordagem bem interessante no setor da fotografia. Claro que grande parte dos méritos são dos efeitos especiais, mas eles não seriam nada se a fotografia não trouxesse o correto padrão artístico para Avatar. É uma parte técnica que não foi muito considerada na recepção do longa, mas que merece ser reconhecida.

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE

Talez essa seja a fotografia que melhor sintetize o clima que o longa quer passar dentre os indicados desse ano. A escolha de trazer Bruno Debonell para a fotografia de Harry Potter e o Enigma do Príncipe foi um imenso acerto. Toda a atmosfera tétrica que envolve os personagens está retratada nas felizes escolhas de Debonell. Há quem reclame da escuridão e de algumas iluminações. Mas, para mim, é um trabalho digno de aplausos.

_

Escolha do público:

1. Quem Quer Ser Um Milionário? (38%, 15 votos)

2. O Curioso Caso de Benjamin Button (33%, 13 votos)

3. Avatar (15%, 6 votos)

4. Harry Potter e o Enigma do Príncipe (10%, 4 votos)

5. O Leitor (5%, 2 votos)

Filmes em DVD

Inspeção Geral, de Sidney Lumet

Com Glenn Close, Maggie Gyllenhaal e Ken Leung

Poderoso telefilme da HBO dirigido por Sidney Lumet que trata dos efeitos pós 11 de setembro. Mais especificamente sobre a forma como os governos passaram a interrogar pessoas da forma como bem entendem. É uma temática que O Suspeito se atrapalhou todo na hora de desenvolver e que Inspeção Geral tira de letra. Temos aqui uma trama calcada puramente em diálogos – que transitam entre tensão e drama com muita facilidade. Especialmente porque Lumet tem uma direção segura e Glenn Close e Maggie Gyllenhaal estão divinas. Elas não contracenam, mas dão um show à parte quando aparecem em cena. Pena que ambas as atrizes dialoguem com atores tão péssimos. Inspeção Geral só não alcaça total êxito por causa disso e de sua narrativa de alternâncias, que aborda duas histórias com exatamente os mesmos diálogos.

FILME: 9.0

Os Piratas do Rock, de Richard Curtis

Com Philip Seymour Hoffman, Bill Nighy e Kenneth Branagh

Richard Curtis é um dos profissionais mais confiáveis que existem. Ele não faz grandes filmes nem muito menos tem maiores pretensões comerciais, mas todos os seus filmes funcionam muito bem. Os Piratas do Rock não é diferente. O diretor orquestra um ótimo elenco numa divertida história permeada por muita música boa. Essa produção, que foi diretamente lançada em dvd e ainda tem uma pequena participação de Emma Thomspon, é uma agradáel surpresa que vale a pena ser descoberta.

FILME: 8.0

O Contador de Histórias, de Luiz Villaça

Com Maria de Medeiros, Jacqueline Obrigon e Paulinho Mendes

Impressionante como esses filmes menores e mais sutis passam despercebidos pelo público brasileiro. O Contador de Histórias tem traços bem sentimentais, algo diferente do que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro dos dias de hoje. É fato que não é nada de excepcional, mas é um longa bem singelo e que, com sua minúcias, aos poucos vai conquistando o espectador. É fácil se envolver com a história dos dois protagonistas. O Contador de Histórias merece uma espiada.

FILME:8.0

Mrs. Harris, de Phyllis Nagy

Com Annette Bening, Ben Kingsley e Ellen Burstyn

Mais uma produção da HBO que traz um grande desempenho. Annette Bening está impecável como a protagonista de Mrs. Harris, uma mulher cheia de complicações emocionais e que matou o marido. Baseado em uma história verídica, o filme tem os seus problemas de ritmo, em especial porque se propõe a narrar tudo em flashbacks e com alguns depoimentos. Mas Annette valida a experiência, junto com o sempre ótimo Ben Kingsley. Mrs. Harris, portanto, é um trabalho de atores. São eles o grande destaque da produção.

FILME: 8.0

Retorno a Howards End, de James Ivory

Com Emma Thompson, Helena Bonham Carter e Anthony Hopkins

Esse foi o filme que deu o Oscar de melhor atriz para a excepcional Emma Thomspon. Contudo, Retorno a Howards End traz um ótimo trabalho não só de Thompson, mas de todo o elenco. O filme em si não é lá essas coisas, já que tem uma história não tão interessante – e que é narrada de forma não muita satisfatória, além de muitos personagens e alguns saltos no tempo. Mas é também um filme de típicas estruturas inglesas, o que por si só já é um atrativo. Portanto, apesar de não ser o grande filme que poderia ser, Retorno a Howards End é bem satisfatório.

FILME: 8.0

Crepúsculo, de Catherine Hardwicke

Com Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner

Quem é viciadinho em Crepúsculo deve parar de ler aqui, os comentários não serão positivos. Durante muito tempo fugi desse longa, mas nos últimos dias finalmente criei coragem para conferi-lo. E ele é bem aquilo que eu esperava: bobinho, mal dirigido e sem história relevante. Mas o que mais me impressionou foi o incrível combate entre os atores para ver quem se sai pior. É um superando o o outro. Enquanto Kristen Stewart cai nas armadilhas de caras e bocas, Robert Pattinson consegue demonstrar uma absurda inexpressividade. Crepúsculo, portanto, é um romancezinho teen nada demais e que consegue ter um dos piores elencos de adolescentes da década.

FILME: 5.0

Onde Vivem os Monstros

Direção: Spike Jonze

Elenco: Max Records, Catherine Keener, Pepita Emmerichs, e com as vozes de Paul Dano, James Gandolfini, Lauren Ambrose, Mark Ruffalo, Forest Whitaker, Chris Cooper

Where the Wild Things Are, EUA, 2009, Drama, 95 minutos, Livre

Sinopse: Max (Max Records), um garoto travesso, fica de castigo, preso em seu quarto, sem jantar. Usando a imaginação, ele cria uma floresta habitada por animais selvagens e monstros exóticos, onde ele é o rei.

Não sei explicar muito bem o que dá certo em Onde Vivem os Monstros. Mas, algo encanta e até mesmo torna tudo muito melancólico. É um trabalho diferente do diretor Spike Jonze, que aqui cria um filme de fantasia voltado para um público mais maduro – e não para o infantil, como o trailer e as imagens de divulgação sugeriam. Não chega a ser um produto de grandes momentos ou sequer de setores que se sobressaiam, mas é a sinceridade que conta na história.

Usando a imaginação como metáfora de isolacionismo – o garoto “cria” um mundo quando não está satisfeito com a sua própria realidade – Onde Vivem os Monstros é um trabalho que junta pequenos pontos positivos que, no final, formam um excelente filme. Portanto, não existe um ou outro aspecto mais digno de reconhecimento. O filme é fruto de minúcias. Em todos os sentidos. À princípio a história pode parecer simples, mas existem algumas reflexões a serem consideradas nela. Reflexões que, no final das contas, formam um ótimo filme.

Um problema de Onde Vivem os Monstros é a falta de conflitos. Quase não existem problemáticas para os personagens e tudo se centra apenas no cotidiano do garoto protagonista com os tal monstos – fazendo joguinhos,ou fazendo construções, por exemplo. Mas, talvez, seja por isso mesmo que o longa conquiste. No final, é essa convivência que fará o espectador se sentir comovido. Portanto, o jeito é entrar na história e curtir a ótima trilha de Karen O. e Carter Burwell.

FILME: 8.0