Cinema e Argumento

O que esperar de “Direito de Amar”?

Sempre existe um filme, nas épocas de premiação, que me cativa mais do que qualquer outro. Em anos anteriores, criei imensas expectativas para: Notas Sobre Um Escândalo, Na Natureza Selvagem e Dúvida. Nunca me decepcionei. Agora em 2010, foco todas as minhas atenções em Direito de Amar. Okay, título mais cafona que esse não poderia ter – mas isso é o que menos importa.

Vencedor do prêmio de melhor ator em Veneza para Colin Firth, o filme já desperta a minha atenção por dois aspectos específicos. Primeiro, tem um dos trailers mais magníficos que já vi. A prévia é bem como eu gosto: revela pouco sobre o filme e ainda entrega um resultado extraordinário. Segundo, a trilha de Abel Korzeniowski. Desde As Horas eu não ficava tão impressionado com uma trilha. Já a ouvi incansavelmente.

Direito de Amar ainda tem outros pontos óbvios que já causam interesse. A interpretação de Firth (saudada como um momento único na vida do ator) e a aparição de Julianne Moore (que dizem ser pequena, ao estilo Viola Davis em Dúvida). A fotografia parece linda, assim como a direção de arte. A trama parece ser aquilo que filmes como Milk não conseguiram ser: uma história realmente humana sobre os homossexuais. Algo que só o telefilme Orações Para Bobby conseguiu alcançar.

Esse filme independente de Tom Ford, portanto, é o que mais espero nessa temporada. Baseado na obra de Christopher Isherwood, Direito de Amar tem sua estreia prevista para o dia 26 de fevereiro (data bem significativa para mim, por sinal). Confira, abaixo, o trailer do filme:

Um globo popular e mediano

Gervais: decepção.

Os grandes vencedores da noite foram Avatar, Up – Altas Aventuras e… Coração Louco! Cada um com dois prêmios cada. Só isso já comprova como a temporada de premiações está descentralizada esse ano. O longa de James Cameron é sim o grande favorito ao Oscar – mas, veja bem, quando não existem categorias técnicas a serem consideradas, o filme fica no mesmo nível de seus outros concorrentes. A distribuição de prêmios fica quase igualitária.

Fiquei com a impressão de ver um Globo de Ouro muito bagunçado, onde os votantes não parecem estar seguros de seus votos. Ora, o que vimos na noite desse domingo foi uma festa feita justamente para agradar o público. Avatar, o sucesso do momento, é o vencedor principal. Sandra Bullock, queridinha de muita ganete, ganha prêmio de atriz em drama. Robert Downey Jr. consegue uma inesperada vitória pela aventura Sherlock Holmes. E, pra completar, o sucesso de Se Beber, Não Case! sobe à cabeça dos votantes – que o definiram como a melhor comédia do ano. E, ainda na TV, a badalada Glee fez a felicidade dos fãs ao ganhar na sua categoria principal. Será que o Oscar vai seguir o mesmo perfil?

Sem mais enrolações, faço abaixo rápidos comentários aleatórios sobre a festa de ontem:

  • Já vi gente torcendo o nariz para Avatar depois do Globo de Ouro. Mas, essas pessoas já podem ir quebrando logo o nariz, o filme é o grande favorito e duvido muito que alguém roube esse posto dele.
  • O prêmio para Se Beber, Não Case! é irrelevante. É óbvio que, mesmo com bilheteria e apoio, o filme não chega entre os dez indicados ao Oscar. A vitória só serviu pra deixar Nine no chinelo mesmo. A equipe do filme de Rob Marshal deveria se envergonhar depois de ontem…
  • A vitória de Sandra Bullock, ao contrário do que muita gente pensa, só fortaleceu Meryl Streep. Bullock não leva Oscar de qualquer jeito (e nenhum outro prêmio relevante nessa temporada) e agora que Mulligan perdeu o Globo de Ouro, a jovem atriz inglesa também está fadada a perder o SAG. E o BAFTA não conta no caso de Mulligan, né? Ou seja, o suspense que poderia ter sido criado (Streep com GG e SAG e Mulligan com GG e BAFTA) se dissolveu completamente.
  • Já posso dar adeus para as chances que eu imaginava que Julianne Moore teria… Direito de Amar passou batido – incluindo a soberba trilha de Abel Korzeniowski.
  • Outro prêmio irrelevante: Robert Downey Jr. Ele não vai chegar a lugar nenhum mesmo.
  • A canção de Coração Louco pode muito bem nem ser indicada ao Oscar. A última música que ganhou GG e foi indicada ao Oscar foi Into the West, de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei.

Código de Conduta

Direção: F. Gary Gray

Elenco: Jamie Foxx, Gerard Butler, Viola Davis, Regina Hall, Bruce McGill, Michael Kelly, Josh Stewart, Leslie Bibb, Colm Meaney

Law Abiding Citizen, EUA, 2009, Suspense, 105 minutos, 14 anos

Sinopse: Clyde (Gerard Butler) é um dedicado pai de família que testemunha sua esposa e filha serem assassinadas. Um dos culpados ganha liberdade graças a um acordo feito com o ambicioso promotor Nick (Jamie Foxx). Anos depois o assassino é encontrado morto e Clyde é preso mesmo sem provas contra ele. Seu único objetivo é denunciar o corrupto sistema judicial nem que para isso tenha que matar um a um, todos os envolvidos.

Certos filmes prendem a atenção e conseguem envolver o espectador na trama, mas, simplesmente, não são excepcionais ou sequer notáveis para justificar algum elogio mais plausível. Código de Conduta se enquadra nessa situação: é um filme interessante e com bons momentos, mas que não chega a ser uma produção que mereça maiores elogios. O diretor F. Gary Gray soube segurar as pontas durante quase todo o filme. Porém, comete o erro de ter entregue a produção para dois atores que não conseguem sustentar o roteiro.

Gerard Butler e Jamie Foxx aparecem ineficientes, sem carisma algum para criar empatia com o público. Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por Ray, continua a se mostrar um dos profissionais mais canastrões de sua geração, ao passo que Butler permanece sem mostrar ao que veio. Focalizando a abordagem no personagem de Foxx, o roteiro até cria dois personagens interessantes – o porém é que seriam melhor representados por atores mais competentes. Ainda contando com a partipação de Viola Davis no elenco, Código de Conduta já perde parte de sua eficácia na escalação dos atores.

Mas sorte que a hitória tem seus momentos. É um daqueles filmes de investigação em que o desenrolar dos fatos cria expectativa. Nesse sentido, a produção acerta, deixando todos intrigados com o suspense montado. Contudo, eis que aí surge outro problema. Se no início dava para ficar entusiasmado com todo o suspense envolvendo o personagem de Butler, logo tudo começa a ficar improvável. Como, afinal, ele consegue causar tantas coisas extraordinárias  fora das grades se ele está preso e impossibilitado de ter qualquer contato com o mundo exterior? E o pior de tudo: a explicação para isso é insatisfatória.

Está bem, alguns podem me acusar de estar sendo crítico demais com um filme desse gênero. Afinal, já aprendemos que a maioria dos filmes desse estilo não primam por veracidade. Mas, um pouco de realidade não faria mal a ninguém. Apesar disso, temos em Código de Conduta um filme assistível e que pode entreter. É verdade que o longa-metragem está cheio de irregularidades, de atores ineficientes e de uma abordagem muito mecânica e seca. No entanto, é só abrir mão de se focar nesses detalhes e o espectador encontrará a possibilidade de entrar no clima.

FILME: 6.5

Melhores de 2009 – Roteiro Adaptado

Só a origem teatral de Dúvida já explicaria a excelência do roteiro. A peça, que venceu o Pullitzer, foi adaptada pela própria pessoa que a criou para os palcos. John Patrick Shanley, portanto, tem sim seus erros na direção  – já que ele deixa a sensação de que simplesmente filmou uma peça e não necessariamente trouxe atributos cinematográficos para a história – mas é impossível negar que o roteiro é um dos mais excepcionais dos últimos tempos. Para mim, o mais impecável desse ano. Não existe uma cena desnecessária em Dúvida e cada diálogo é milimetricamente construído para maximizar as brilhantes interpretações e a ótima trama. A história é bem conduzida, existem algumas discussões geniais (o sermão sobre a fofoca, por exemplo, é maravilhoso) e o desenvolvimento é repleto de grandes momentos. Um trabalho exemplar. Em anos anteriores: 2006 – Filhos da Esperança, 2007 – Notas Sobre Um Escândaloe 2008Desejo e Reparação (escolha do público: Ensaio Sobre a Cegueira)

O LEITOR

Não sei se O Leitor tem alguma originalidade narrativa, mas é dono de uma excelente adaptação. Ainda existem alguns erros de ritmo – especialmente depois de sua metade, mas nada que estrague o ótimo trabalho de David Hare (da obra-prima As Horas), que conseguiu mais uma indicação ao Oscar por seu trabalho. Se o tratamento de algumas cenas é frio como a maioria dos cinéfilos aponta, a culpa não é do roteiro – que faz de tudo para envolver o espectador nas emoções do protagonista Michael Berg.

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Existe algo de empolgante no roteiro de Quem Quer Ser Um Milionário?. Só isso para explicar o fato de eu ter me envolvido bastante com uma história narrada em flashbacks e cheia de coincidências. A princípio, pode parecer que não é mérito do texto. O que não é verdade. O trabalho de adaptação do filme merece elogios, pois conseguiu o feito de transformar uma história aparentemente clichê em algo muito prazeroso de se assistir.

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Dos cinco indicados na categoria, esse roteiro é, provavelmente, o que mais apresenta alguns problemas. Acho que a história perde muito com algumas narrativas (especialmente aquela dos marinheiros) e com a longa duração. Mas, não consigo deixar de elogiá-lo e de colocá-lo como um dos melhores do ano. É louvável a mensagem que o filme quer passar e, nos seus momentos finais, faz isso com muito sentimentalismo e competência – ou melhor, com perfeição.

FROST/NIXON

Mais um roteiro de origem teatral. O texto é o maior mérito de Frost/Nixon, que encontra toda a sua força no embate travado entre os dois protagonistas. Frank Langella e Michael Sheen estão ótimos, mas boa parte da excelência vem do roteiro, que traz diálogos muito inteligentes e que proporcionam conflitos igualmente competentes para as figuras em cena. É um texto bem escrito, politizado da maneira correta e com uma verossimilhança única.

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Escolha do público:

1. Quem Quer Ser Um Milionário? (31%, 22 votos)

2. Dúvida (29%, 21 votos)

3. Frost/Nixon (29%, 21 votos)

4. O Leitor (8%, 6 votos)

5. O Curioso Caso de Benjamin Button (3%, 2 votos)

Melhores de 2009 – Direção de Arte

O mundo de Benjamin Button (Brad Pitt) não poderia ter sido representado de melhor maneira pela direção de arte. Não sei quanto a vocês, mas ela me envolveu e me levou para dentro da história. Cada decoraçao de set é única e a direção de arte cumpre o seu dever de passar a sensação de como todos os ambientes retratados eram verossímeis e detalhistas. O que, para mim, é a principal missão desse segmento. A direção de arte, portanto, é uma das principais engrenagens do ótimo setor técnico de O Curioso Caso de Benjamin Button. Anteriormente: 2006 – Memórias de Uma Gueixa, 2007 – Maria Antonieta e 2008Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (escolha do público: idem).

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE

Depois de A Pedra Filosofal, esse deve ser o filme da série que tem o melhor trabalho de direção de arte. Mesmo que o resultado não seja novidade alguma (afinal, já são seis filmes com basicamente a mesma abordagem artística), existem muitas coisas interessantes na ambientação proporcionada pela direção de arte. Merece – e deve – ser reconhecido na próxima edição do Oscar.

A TROCA

Direções de arte que reconstituem décadas passadas sempre me agradam mais do que outras mais “originais”. Não foi diferente com A Troca, que tem um excepcional trabalho nesse aspecto. Todo o lado “clássico” do filme é representado aqui, em especial pelas decorações em cada cenário do longa-metragem. Clint pode até não ter acertado no tom atrás das câmeras, mas teve êxito na parte técnica.

FOI APENAS UM SONHO

A exemplo de filmes como As Horas (que trata de dramas urbanos), Foi Apenas Um Sonho retrata uma época com total meticulosidade. Todo o requinte contido dos anos 50 e a simplicidade das casas “perfeitas” dessa década são representadas por uma ótima direção de arte – que é um dos melhores aspectos desse mediano filme.

INIMIGOS PÚBLICOS

Inimigos Públicos foi tão certinho que pouco deu para perceber o ótimo trabalho técnico do filme. Principalmente a excelente direção de arte, que segue o estilo de outros indicados dessa lista, retratando com precisão uma determinada época. Se o filme em si não cativa muito, ao menos esse aspecto tem que receber certa valorização.

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Escolha do público:

1. O Curioso Caso de Benjamin Button (45%, 15 votos)

2. A Troca (18%, 6 votos)

3. Harry Potter e o Enigma do Príncipe (15%, 5 votos)

4. Foi Apenas Um Sonho (15%, 5 votos)

5. Inimigos Públicos (6%, 2 votos)