Cinema e Argumento

Rapidamente: “Os Primeiros Soldados”, “O Telefone Preto”, “A Viagem de Pedro” e “Uncharted”

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A Viagem de Pedro está entre os filmes pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na categoria de melhor filme internacional do Oscar 2023.

OS PRIMEIROS SOLDADOS (idem, 2021, de Rodrigo de Oliveira): Até onde alcança a minha memória, não lembro de outro longa-metragem nacional que tenha refletido com tamanha atenção a questão da chegada do HIV no Brasil. Os Primeiros Soldados preenche essa lacuna com emoção e intensidade, munido de um bom elenco e de um terceiro ato reverberante. Para tanto, abraça a perspectiva muito pessoal de três personagens, deixando de lado didatismos para fazer contextualizações. Por meio das histórias individuais de Suzano (Johnny Massaro), Rose (Renata Carvalho) e Humberto (Victor Camilo), o roteiro escrito pelo diretor Rodrigo de Oliveira começa narrando as angústias paralelas de personagens infectados pelo vírus HIV para, no melhor recorte do filme, juntá-los em um convívio tão bonito quanto trágico. É bonito ao prestar homenagem à união e ao companheirismo de uma parcela da sociedade desassistida pela ignorância frente à descoberta de uma nova doença. E é trágico por mostrar a desumanidade com que pessoas foram largadas à morte sem qualquer amparo. Se há irregularidades na construção das narrativas paralelas, a impressão é dissipada quando Os Primeiros Soldados une Suzano, Rose e Humberto. À parte a emoção trazida pela situação dos três, o filme se engrandece pela excelente sintonia entre os atores e por ser capaz de trazer delicadeza e dignidade ao encenar uma situação tão difícil. Rodrigo de Oliveira é muito feliz em, sim, relembrar um momento da nossa história que ainda é uma lacuna no audiovisual brasileiro, mas também em terminar o filme com uma nota melancólica de esperança da qual sempre precisaremos.

O TELEFONE PRETO (The Black Phone, 2021, de Scott Derrickson): Quase 20 anos atrás, Scott Derrickson estreou como diretor com um filme de terror eficiente como poucos. O Exorcismo de Emily Rose, além do elenco excepcional — Laura Linney, Tom Wilkinson, Shoreh Aghdashloo —, dispensava obviedades para entregar uma atmosfera madura e que lançava Derrickson como uma verdadeira promessa. Desde então, ele seguiu prolífero no gênero, chegando a esse O Telefone Preto, que reafirma o seu tino para terrores com substância e sem modismos. Enquanto, em O Exorcismo de Emily Rose, o pano de fundo era o pragmatismo de uma advogada e seu imenso ceticismo quanto a fatos inexplicáveis, O Telefone Preto tem como tônica o afetuoso relacionamento entre dois irmãos que, acostumados com o desolamento da vida, enfrentam o maior medo de todos quando um deles é raptado sem deixar vestígios. Eles são interpretados por duas ótimas revelações – Mason Thorne e Madeleine McGraw – que seguram muito bem tanto o drama familiar quanto o ritmo de tensão. Thorne, aliás, tem a missão mais difícil porque, primeiro, está enclausurado em único ambiente durante boa parte do filme e, segundo, porque está diante da presença mascarada e intimidante do sequestrador vivido por Ethan Hawke. Tendo escrito o roteiro em parceria com C. Robert Cargill, Derrickson é objetivo em todos os arcos, tirando da equação sustos fáceis ou voltas e mais voltas para chegar à resolução. Tamanho pragmatismo é extremamente bem-vindo para um gênero que, por vezes, dedica-se mais a distrações do que ao que tem propriamente a dizer.

UNCHARTED: FORA DO MAPA (Uncharted, 2022, de Ruben Fleischer): Entre filmes como Cherry e O Diabo de Cada Dia, Tom Holland reserva um espacinho na agenda para participar de produções como Uncharted: Fora do Mapa, garantindo que seu estrelato como protagonista de blockbusters se mantenha aquecido com ou sem Homem-Aranha. É preciso, contudo, que Holland não faça isso de maneira protocolar, como acontece neste filme de Ruben Fleischer baseado na série de videogames homônima produzida para a PlayStation. Holland, na verdade, marca presença com seu carisma de sempre e com uma visível dedicação física para dar conta de todas as cenas de ação. Acontece que Uncharted é uma aventura empoeirada e genérica. Falta à direção de Fleischer a habilidade de produzir diversão com a proposta clássica de caça ao tesouro como Jon Turteltaub fez, por exemplo, em A Lenda do Tesouro Perdido, de 2004. Tudo parece estar no piloto-automático com a fórmula de uma pista levar a outra, e cabe ao ator tentar trazer certa graça, inclusive porque o elenco de suporte é dos mais fracos, quando não estereotipado, caso do vilão latino interpretado, claro, por Antonio Banderas em uma composição previsível dos padrões hollywoodianos. Inevitavelmente, Uncharted se assemelha muito a um videogame, mas apenas no que se refere à estrutura. Ao passar de uma fase para a outra, o protagonista Nathan Drake (Holland) avança em história, enquanto o espectador nunca chega a ser convidado para participar da mesma diversão. É essa a virada de chave que teria sido feita em um piscar de olhos por um diretor mais imaginativo.

A VIAGEM DE PEDRO (idem, 2022, de Laís Bodanzky): Em seu quinto longa-metragem para os cinemas, a diretora Laís Bodanzky sai de núcleos mais familiares e intimistas como os de As Melhores Coisas do Mundo e Como Nossos Pais para realizar o seu filme mais ambicioso até aqui, ainda que A Viagem de Pedro também seja, em última instância, uma reflexão sobre os sentimentos muito particulares de um homem sempre visto pela História como um grande emblema. A mudança de ares tem impacto, visto que longa não deve nada às superproduções estadunidenses em termos técnicos. É mesmo surpreendente o rigor com que Bodanzky orquestra um filme grandioso e que, em momento algum, soa artificial em sua ambientação. A cota de desequilíbrio acaba ficando com o roteiro, que abraça um momento específico do ano de 1831, quando Dom Pedro I (Cauã Reymond) embarca em uma fragata inglesa para enfrentar o irmão que usurpou seu reino em Portugal. No que chama de uma babel de línguas e posições sociais em que se misturam membros da corte, oficiais, serviçais e escravizados, Bodanzky imagina dias críticos na vida de um Dom Pedro I em crise física e emocional. Para isso, ela apresenta um roteiro cuja toada é revisitar símbolos históricos que tomamos como certos e que clamam por reavaliações. Trazendo um protagonista impotente sexualmente e atormentado por pesadelos e visões, A Viagem de Pedro não transita muito bem, entretanto, entra as fronteiras da ficcionalização crítica e da humanização do personagem. E, com Cauã Reymond, um ator não exatamente versátil, esse certo sentimento de confusão deixado pelo filme é pouco resolvido.

50º Festival de Cinema de Gramado #8: “Noites Alienígenas” é o grande vencedor de uma edição politizada e engajada

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50ª edição do Festival de Cinema de Gramado termina com prêmios equilibrados e cerimônia altamente politizada. Foto: Lou Cardoso.

Em uma noite extremamente engajada e politizada, o 50º Festival de Cinema de Gramado apresentou seus vencedores com várias surpresas das mais agradáveis, a começar pela consagração absoluta de Noites Alienígenas, o primeiro filme do Acre realizado para as salas de cinema com financiamento de edital. Por mais que Marte Um tenha causado imensa comoção e seja, de fato, um filme dos mais preciosos, a vitória de Noites Alienígenas coloca nos holofotes o cinema descentralizado e preocupado em compreender a produção audiovisual também por meio das fronteiras e das bordas desse imenso Brasil. Também não se exclui da equação a constatação de que trata-se de um trabalho muito bem realizado e de grande personalidade.

Com os troféus de melhor filme pelo júri oficial e da crítica, além dos prêmios de melhor ator para Gabriel Knoxx, atriz coadjuvante para Joana Gatis, ator coadjuvante para Chico Díaz e menção honrosa para Adanildo, Noites Alienígenas levou, ao todo, seis Kikitos para casa, enquanto Marte Um garantiu as vitórias de melhor roteiro, trilha musical e filme pelo júri popular. A MãeTinnitus também levaram três estatuetas. A boa surpresa do primeiro caso é ver que o júri observou os outros méritos de um longa-metragem que parecia destinado a levar apenas o merecido prêmio de melhor atriz para Marcélia Cartaxo. Quanto ao segundo longa, difícil compreender maior comoção, principalmente no que se refere à consagração em montagem, aspecto que, ao meu ver, é um dos mais problemáticos da obra. 

Também foram bastante equilibrados os vencedores da mostra de curtas-metragens, algo a ser celebrado, visto que o grande número de documentários com causas políticas e sociais tinha tudo para embolar o meio de campo. Acabou levando a produção que realmente foi o destaque da competição: o musical Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli, sobre a precarização do trabalho de entregadores de aplicativos. A produção desembarcou em Gramado com o Leopardo de Ouro de melhor curta-metragem do Festival de Locarno e saiu da Serra Gaúcha com quatro Kikitos, seguido de perto por Último Domingo, consagrado em três categorias. Meu lamento maior deste segmento é apenas o pouco amor dado ao drama O Pato, de Antônio Galdino, que, aqui em casa, teria levado fácil o prêmio de melhor atriz para Norma Góes.

Se, de início, tinha a impressão de que o 50º Festival de Cinema de Gramado não estava fazendo um evento à altura de sua trajetória com as novidades anunciadas, logo a programação começou e fui lembrado de que, ao fim e ao cabo, são os filmes que ditam a grandeza do evento — e, com, exceção de apenas dois títulos, Gramado teve a seleção mais coesa e equilibrada de longas-metragens brasileiros em muitos anos. Isso foi o suficiente para marcar com louvor os 50 anos do evento. Simbolicamente, foi lindo ver outro momento que remonta à história do Festival: o intenso posicionamento político de praticamente todos os vencedores das mostras brasileiras. Raríssimos foram os discursos que não se posicionaram contra a política de desmonte cultural do atual governo. O palco de Gramado sempre foi assim, sem meias palavras. E sempre será, mesmo com as tentativas de apagamento da história e do tempo presente. Viva o cinema brasileiro e tudo o que ele tem a nos dizer! 

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Noites Alienígenas, de Sérgio de Carvalho
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Noites Alienígenas, de Sérgio de Carvalho
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Marte Um, de Gabriel Martins
MELHOR DIREÇÃO: Cristiano Burlan (A Mãe)
MELHOR ATRIZ: Marcélia Cartaxo (A Mãe)
MELHOR ATOR: Gabriel Knoxx (Noites Alienígenas)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Joana Gatis (Noites Alienígenas)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Chico Díaz (Noites Alienígenas)
MELHOR ROTEIRO: Gabriel Martins (Marte Um)
MELHOR FOTOGRAFIA: Rui Poças (Tinnitus)
MELHOR MONTAGEM: Eduardo Serrano (Tinnitus)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Daniel Simitan (Marte Um)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Carol Ozzi (Tinnitus)
MELHOR DESENHO DE SOM: Ricardo Zollmer (A Mãe)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Marte Um, de Gabriel Martins, que trouxe o afeto para a tela
MENÇÃO HONROSA: Adanilo (Noites Alienígenas), pela excelência da construção da linha do personagem e interpretação.

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
MELHOR FILME: 9, de Martín Barrenechea e Nicolás Branca
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): 9, de Martín Barrenechea e Nicolás Branca
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): La Pampa, de Dorian Fernández Moris
MELHOR DIREÇÃO: Néstor Mazzini (Cuando Oscurece)
MELHOR ATRIZ: Anajosé Aldrete (El Camino de Sol)
MELHOR ATOR: Enzo Vogrincinc (9)
MELHOR ROTEIRO: Agustin Toscano, Moisés Sepúlveda e Nicolás Postiglione (Inmersión)
MELHOR FOTOGRAFIA: Sergio Asmstrong (Inmersión)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Direção de Arte de Jeff Calmet (La Pampa)

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): O Elemento Tinta, de Luiz Maudonnet e Iuri Salles
MELHOR DIREÇÃO: Leonardo Martinelli (Fantasma Neon)
MELHOR ATRIZ: Jéssica Ellen (Último Domingo)
MELHOR ATOR: Dennis Pinheiro (Fantasma Neon)
MELHOR ROTEIRO: Fernando Domingos (O Pato)
MELHOR FOTOGRAFIA: Fernando Macedo (Último Domingo)
MELHOR MONTAGEM: Danilo Arenas e Luiz Maudonnet (O Elemento Tinta)
MELHOR TRILHA MUSICAL: “Nhanderekoa Ka´aguy Porã” Coral Araí Ovy e Conjunto Musical La Digna Rabia (Um Tempo Pra Mim)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Joana Claude (Último Domingo)
MELHOR DESENHO DE SOM: Alexandre Rogoski (O Fim da Imagem)
MENÇÃO HONROSA: Imã de Geladeira, de Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo, por catapultar a urgente discussão sobre o racismo estrutural através do horror cósmico
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Serrão, de Marcelo Lin, pelo frescor da narrativa a partir de um olhar ressignificado, emergente e com o coração no lugar certo
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS: Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
MELHOR FILME: 5 Casas, de Bruno Gularte Barreto
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): 5 Casas, de Bruno Gularte Barreto
MELHOR DIREÇÃO: Bruno Gularte Barreto (5 Casas)
MELHOR ATRIZ: Anaís Grala Wegner (Despedida)
MELHOR ATOR: Hugo Noguera (Casa Vazia)
MELHOR ROTEIRO: Giovani Borba (Casa Vazia)
MELHOR FOTOGRAFIA: Ivo Lopes Araújo (Casa Vazia)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Gabriela Burk (Despedida)
MELHOR MONTAGEM: Vicente Moreno (5 Casas)
MELHOR DESENHO DE SOM: Marcos Lopes e Tiago Bello (Casa Vazia)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Renan Franzen (Casa Vazia)
MENÇÃO HONROSA: Clemente Vizcaíno (Despedida), pela presença destacada no filme e por sua importância na história do cinema gaúcho, e Campo Grande é o Céu, de Bruna Giuliatti, Jhonatan Gomes e Sérgio Guidoux, pelo resgate da tradição de cantorias e da importância das comunidades quilombolas daquela região do Rio Grande do Sul

LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS
MELHOR FILME: Um Par Pra Chamar de Meu, de Kelly Cristina Spinelli.
MENÇÃO HONROSA: Elton Medeiros – O Sol Nascerá, de Pedro Murad, pela valorização do compositor, parceiro dos grandes nomes da música popular brasileira, e também pelo rigor formal e criativo na recriação visual da vida e das grandes composições de Elton Medeiros, que faleceu em 2019

MOSTRA UNIVERSITÁRIA (CONEXÕES – GRAMADO FILM MARKET)
MELHOR FILME: Ícaro, de Wesllen Machado (RS) 

50º Festival de Cinema de Gramado #7: “O Pastor e o Guerrilheiro”, de José Eduardo Belmonte

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Um hábito que gosto de praticar em festivais é o de tentar antecipar o mínimo possível sobre os filmes em competição, o que inclui um certo desapego de discursos e sinopses, mesmo quando eles fazem parte de cada uma das sessões. No caso de O Pastor e o Guerrilheiro, entretanto, fui seduzido pelas linhas gerais que o longa de José Eduardo Belmonte usa para se apresentar. Diz a sinopse: “Na virada do milênio, Juliana, filha ilegítima de um coronel que comete suicídio, descobre que seu pai foi torturador durante a ditadura militar no Brasil”. É uma síntese assertiva para a personagem citada, mas equivocada ao não contextualizar o quanto a estrutura depende muito mais do pastor e do guerrilheiro citados no título da obra. 

Ainda que seja a personagem responsável por articular as diferentes linhas temporais de O Pastor e o Guerrilheiro, a Juliana de Júlia Dalávia é a figura menos encorpada do roteiro, quando, na verdade, poderia muito bem ser a mais complexa, dado o seu interessante conflito com a identidade torturadora do pai militar. Em dúvida sobre aceitar ou não uma herança que é de seu direito, ela embarca em uma jornada de importantes (auto)descobertas quando entra em contato com um livro sobre a Guerrilha do Araguaia. O livro existe na vida real sob a assinatura do potiguar Glênio Sá, e é adaptado pontualmente para o filme como base para insights e não com o objetivo de ser uma ficcionalização literal das experiências na guerrilha e na prisão narradas pelo autor.

São três narrativas a serem equilibradas: a de Juliana, em 1999, com o livro em mãos; a de João (Johnny Massaro) aprisionado na Guerrilha do Araguaia; e a de Zaqueu (César Mello) em sua vida evangélica após os dias encarcerado por engano com João. Elas vão além do número de personagens e das distintas épocas porque, já na superfície, o roteiro assinado por Josefina Trotta abarca, entre outros temas, os levantes estudantis nos anos 1960, os horrores da tortura, a adesão à luta armada, as promessas de virada do milênio, os diálogos intergeracionais e até mesmo complexidades e discussões pouco levantadas sobre a tão caricaturada vida evangélica.

Por acompanhar tantos personagens e momentos diferentes, O Pastor e o Guerrilheiro precisa equilibrar a questão temporal, uma missão sempre difícil. E é aí que está o elo mais frágil do filme de Belmonte, mesmo que a duração de quase duas horas dê o respiro necessário para a organização. Ao invés de dar fluidez ao resultado, a montagem por vezes sobrecarrega a trama, seja por não alcançar uma boa sinergia entre os três tempos ou por revelar subtramas pouco funcionais, como a da avó vivida por Cássia Kis, personagem que, no frigir dos ovos, está ali apenas para colocar a personagem de Julia Dalávia em um conflito moral sobre a herança do pai, sem maiores aprofundamentos sobre quem é esta figura na vida na vida da jovem.

Acaba que, ironicamente, O Pastor e o Guerrilheiro funciona melhor com suas partes isoladas, a começar pela que envolve o pastor Zaqueu, interpretado com grande vigor por Cesar de Mello e muito bem aproveitado pelo roteiro, que lhe entrega discursos longos e funcionais. Sem deixar com que Zaqueu se transforme no arquétipo do evangélico oportunista que se popularizou, com certa razão, no audiovisual brasileiro, Mello busca as vocações e contradições de um homem situado em várias encruzilhadas, do reencontro com o seu passado ao diálogo com o filho que deseja levar a religião a um outro público (no caso, o da televisão).

Já no retrato de João durante a Guerrilha do Araguaia, a concentração está na longa e sofrida prisão do personagem, incorporado por um Johnny Massaro que vem trilhando uma carreira das mais interessantes e que aqui diversifica seu repertório com um consistente trabalho corporal. Não é necessariamente um relato inovador sobre a tortura, mas ganha impacto nas mãos do ator. Intercalando essas três linhas temporais, O Pastor e o Guerrilheiro tem vários altos e baixos, além de algumas barrigas. A boa notícia é que, apesar das irregularidades, há comentários pertinentes e eficientes do filme sobre os nossos dias atuais. Contrapondo o presente dos personagens a ecos de seus passados, Belmonte clama para que nunca percamos a nossa capacidade de vislumbrar o futuro, principalmente se tivermos a capacidade de aprender com o que já passou.

50º Festival de Cinema de Gramado #6: “Noites Alienígenas”, de Sérgio de Carvalho

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O Brasil é um país tão desigual em oportunidades e privilégios que Noites Alienígenas chega à competição do 50º Festival de Cinema de Gramado com o título de primeiro longa-metragem do Acre a ser produzido para os cinemas com financiamento de edital — no caso, o BO (Baixo Orçamento) do hoje extinto Ministério da Cultura. Se, por um lado, é lamentável que, em pleno 2022, ainda tenhamos que noticiar primeiros marcos como esse, por outro, é entusiasmante se deparar com o cinema vigoroso de um estado brasileiro cronicamente esquecido pelo país.

Adentrando os limites incertos entre cidade e floresta, Noites Alienígenas parte do livro homônimo assinado pelo diretor Sérgio de Carvalho em 2011. Para levar o filme às telas, Carvalho assume que atualizou muita coisa, tendo em vista os rumos tomados pelo país nos últimos anos, com destaque para o expressivo aumento de facções criminosas no Acre. Saem da trama, portanto, as discussões sobre dependência química, por exemplo, para pertinentes articulações sobre a entrada cada vez mais naturalizada da juventude no mundo no crime. 

Os comentários político-sociais do roteiro impactam e incomodam porque representam uma verdade tragédia social. Afinal, como pode ser banalizado o fato de que jovens, majoritariamente negros e indígenas, vivam a primavera de suas vidas tomados pelo instinto de matar para não morrer? Noites Alienígenas tem uma bandeira em evidência, ao passo em que ilustra suas causas com jornadas pessoais e, por isso mesmo, tão doloridas. E não se trata apenas dos próprios jovens que o filme acompanha, mas também das mães e de outras pessoas minimamente humanizadas e inconformadas com o que se apresenta.

A figura mais emblemática de tamanho desolamento é, sem dúvida, Beatriz (Joana Gatis, excelente), que entra em cena cheia de vida e que, ao fim, desaba em prantos. Vale, contudo, citar Alê, o traficante-chefe vivido pelo grande Chico Díaz, um personagem longe de qualquer caricatura e genuinamente preocupado com a condição daqueles jovens, mesmo que ele próprio seja parte da engrenagem e compreenda sua incapacidade de promover uma real mudança em destinos já pré-determinados. Díaz abre o filme com um longo plano-sequência em que canta até Raul Seixas e é estupendo em sua versatilidade e entendimento de personagem.

Nem sempre o diálogo com o realismo mágico funciona em Noites Alienígenas, além de estarmos diante de uma obra que leva bastante tempo para encontrar e reunir suas potências em uma grande unidade. No entanto, quando Sérgio de Carvalho começa a convergir as resoluções das histórias paralelas que acabam por se conectar, o filme se encontra e emana a força de um estado brasileiro com muito a dizer no audiovisual. Honrando as mães que perdem seus filhos e os jovens com vidas abreviadas, Noites Alienígenas clama para que o Brasil se (re)conheça, culminando em uma cena final emocionante e arrasadora.

50º Festival de Cinema de Gramado #5: “O Clube dos Anjos”, de Angelo Defanti

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O diretor Angelo Defanti recebeu dois votos de confiança muito importantes para realizar O Clube dos Anjos, longa que faz sua estreia nacional no 50º Festival de Cinema de Gramado. O primeiro veio do escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, autor da obra homônima que serve como base para o roteiro. Mais do que o sinal verde para a adaptação, Verissimo concordou com Defanti que, para transpor o livro às telas, o diretor deveria fazer as mudanças necessárias de acordo com sua visão artística, sem a ideia de tentar se manter religiosamente fiel ao livro lançado em 1998.

Já o segundo voto de confiança veio de ninguém menos do que Sara Silveira, produtora sempre afeita a revelar novas e promissoras vozes do cinema nacional. Ter o aval de Verissimo e Sara foi crucial para a realização do filme criativo, fluido e nada convencional que Defanti apresenta agora. De imediato, um dos méritos que saltam aos olhos é a capacidade do diretor de misturar diferentes referências sem perder de vista a linguagem cinematográfica. A partir do momento em que recebe a liberdade para desenvolver as suas próprias ideias para uma obra literária, Defanti coloca algumas pitadas teatrais no projeto, ao mesmo tempo em que sofistica narrativamente o uso de elementos audiovisuais como som e trilha sonora.

Essa mistura deve ser reconhecida porque seria fácil tornar o longa um espetáculo filmado. No centro da trama, estão os diferentes jantares entre sete amigos tão diferentes quanto semelhantes em seus fracassos. Os mesmos rituais se repetem com frequência, mas O Clube dos Anjos sabe oxigená-los com criatividade e, principalmente, com o olhar tragicômico lançado aos personagens. A sabedoria do roteiro está em não transformar os sete homens apenas em personagem medíocres que desejam estar no controle até da própria morte. O que temos em cena são homens erráticos e frustrados, explorados inclusive em suas facetas controversas e equivocadas.

Eles são todos interpretados por um elenco de primeira ponta e composto por atores de diferentes instintos. Vale destacar duas das melhores presenças: Matheus Nachtergaele, como o misterioso chef Lucidio, e Otávio Müller, como o protagonista Daniel. Vindo de uma performance potente em Carro Rei, Nachtergaele acerta em cheio nas reticências de um personagem nunca descortinado ao espectador, enquanto Müller se torna cada vez mais especialista na personificação de homens mundanos e, assim como o próprio filme, tragicômicos. Apesar dos destaques, é inegavelmente um trabalho coletivo e de grande sinergia entre os numerosos atores.

Um diretor menos vocacionado ao posto poderia apenas ligar a câmera e deixar o elenco fazer a sua mágica, até porque não é todo dia que tantos intérpretes bons se encontram em estado de graça, mas Defanti, em seu primeiro longa-metragem, reconhece os votos de confiança que lhe foram dados e coloca na tela o rigor, a fluidez e a inspiração necessária que lhe firmam como um realizador a ser acompanhado de perto. Indo mais além, digo que não é com frequência que encontramos, inclusive em cineastas experientes, alguém que consiga fazer de tudo um pouco, da boa adaptação de um universo literário específico a um esmero da linguagem cinematográfica com vislumbres teatrais.