Cinema e Argumento

O Vencedor

I’m the one who’s fighting. Not you, not you, and not you.

Direção: David O. Russell

Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo, Amy Adams, Jack McGee, Melissa McMeekin, Bianca Hunter, Erica McDormett

The Fighter, EUA, Drama, 115 minutos

Sinopse: Dicky Ecklund (Christian Bale) foi uma lenda do boxe, mas ficou conhecido por desperdiçar seu talento e sua grande chance. Agora, o seu meio-irmão Micky Ward (Mark Wahlberg) tentará se tornar uma nova esperança de campeão e superar as conquistas de Dicky. Treinado pela família e sem obter sucesso em suas lutas, Micky terá que escolher entre seus familiares e a vontade de ser um verdadeiro campeão.

Micky (Mark Wahlberg) é o filho preterido. Ele é lutador de boxe, mas vive à sombra do sucesso promissor que seu irmão, Dicky (Christian Bale), um dia teve no mesmo esporte. Só que hoje Dicky é viciado em drogas, além de ser um irresponsável que só traz problemas para a família. Ainda assim, é o queridinho da matriarca Alice (Melissa Leo), que tem a tendência de acobertar e perdoar todos os erros do filho. A situação financeira da família não é das melhores e Micky resolve investir em novas lutas para ganhar dinheiro. Nesse meio tempo, conhece Charlene (Amy Adams), uma garota que vai incentivá-lo nessa jornada. Micky, no entanto, vê que sua carreira profissional não consegue ir adiante, uma vez que sua família só lhe traz problemas.

Sinceramente, não pensei que O Vencedor fosse um filme tão novelesco. Como dá para perceber pelo enredo narrado acima, o longa de David O. Russell não prima pela originalidade. Pelo contrário. Não sei se foi intencional (e, se foi, o diretor não deixa isso claro), mas toda a estrutura – tanto da narrativa quanto da técnica – é quase que ultrapassada. Sem aspectos técnicos interessantes, O Vencedor é todo calcado nas interpretações dos atores e no roteiro originalmente escrito pelo trio Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson. Nada além disso. É, também, um filme de boxe que está longe de explorar de forma interessante a montagem, a fotografia e a direção nas cenas de luta. Portanto, é tudo simples demais, longe de tantos outros filmes que já encenaram esse esporte com maestria.

Não tem como negar: O Vencedor não tem méritos na técnica, realizando apenas o óbvio. Mas já que a história não pretende se focar no boxe e sim no relacionamento do protagonista com as pessoas em sua volta, a responsabilidade de trazer qualidade para o resultado fica com o roteiro e o elenco. Como já dito, a história é novelesca, quando não estereotipada – principalmente no que se refere aos personagens quase que caricatos, como a mãe interesseira e cafona vivida por Melissa Leo ou o irmão problemático encarnado por Christian Bale. Algumas cenas são extremamente previsíveis, assim como quase todos os acontecimentos. Nada que acompanhamos em O Vencedor é original. Nós já vimos tudo isso em algum outro filme.

Mas o que acontece com esse filme tão simples e óbvio para que ele tenha recebido tanta atenção? Ora, a resposta é muito simples: os atores. Ah, os atores! Se não fosse por eles, O Vencedor não passaria de uma produção com cara de telefilme batido. Os protagonistas, na maioria das histórias clichês, sofrem porque são ofuscados pelos coadjuvantes. Com Mark Wahlberg não é diferente. Christian Bale é o destaque toda vez que entra em cena, Melissa Leo faz uma ótima composição de uma personagem adoravelmente detestável e Amy Adams demonstra cada vez mais ser uma atriz muito eficiente ao unir sua expressão frágil com uma personagem decidida. Wahlberg fica de escanteio, fazendo apenas o que é necessário.

Merecidamente reconhecido pelas premiações, o elenco de O Vencedor impede que o clima novelesco e a técnica decepcionante tomem conta do filme. Eles são a razão para que o longa de David O. Russell seja conferido. As falhas estão ali presentes e, no final, fica aquela sensação de que O Vencedor poderia ter sido muito mais do que realmente é. Mas aí fica a dúvida: a culpa é da história batida ou da direção que não tentou apostar em um diferencial? A verdade é que os ótimos atores mereciam mais do que esse filme apenas satisfatório. O Vencedor, no final das contas, fica na memória como um produto cinematográfico que tem suas falhas perdoadas pelos excelentes desempenhos. Tire eles e você não terá razão alguma para destacar com entusiasmo qualquer outro aspecto.

FILME: 7.5

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:


Melhores de 2010 – Montagem

A montagem é, possivelmente, o que existe de mais brilhante no setor técnico de A Origem. Dando uma simetria impecável para as múltiplas histórias que se desenvolvem em dimensões diferentes, o trabalho de Lee Smith é o que traz essa estrutura “complicada” para o longa de Christopher Nolan. Afinal, se a montagem não fosse tão elaborada, talvez A Origem não tivesse todo o impacto que tem. Certamente, é um resultado que merece aplausos, já que poucas vezes no cinema contemporâneo vimos uma montagem tão impecável como essa – especialmente porque Lee Smith ultrapassa barreiras e mostra que não é qualquer montador que tem o dom de transformar o “complicado” em algo espetacular. Sem falar, claro, que é a montagem que constrói todo o espetáculo que é esse longa de Nolan.

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A REDE SOCIAL

Não sou fã de A Rede Social e, inclusive, acho que o filme está longe de ser tudo o que dizem por aí e mais longe ainda do que as premiações apontam. De interessante mesmo só a atuação do coadjuvante Andrew Garfield e a montagem de Angus Wall. Intercalando os momentos iniciais da criação do Facebook com a batalha pelos direitos autorais dessa rede social, o longa de David Fincher ganha maior fluidez com a montagem dinâmica e bem aproveitada. Pena que o filme não seja tão interessante como o trabalho de Wall.

TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO

Seria fácil resumir a qualidade da montagem de Tropa de Elite 2 ao conjunto de cenas de ação. É óbvio que o filme de José Padilha é excelente nesse aspecto, mas é também fundamental reconhecer que a montagem também tem destaque em todos os outros momentos. Apostando em uma estrutura muito mais dinâmica que a do primeiro longa para narrar os fatos da vida do capitão Nascimento, Tropa de Elite 2 torna-se um filme com excelente ritmo em função da ótima montagem.

AMOR SEM ESCALAS

É satisfatório ver a forma como a montagem de Amor Sem Escalas se ajusta ao tom contemporâneo da proposta do roteiro. Existem cenas particularmente interessantes (aquela em que o protagonista explica sua rotina de viagens logo no início é sensacional), mas todo o conjunto alcança resultado digno de elogios. Injustamente esquecida pelo Oscar (o que Preciosa fazia entre os indicados?) a montagem é um aspecto muito positivo desse ótimo filme.

DIREITO DE AMAR

Fico até hoje impressionado como o filme de um diretor novato conseguiu ser tão impecável. Até mesmo na montagem o longa de Tom Ford acertou com precisão. Sendo bastante efetiva na hora em que precisa mostrar as memórias de George (Colin Firth) com Jim (Matthew Goode), a montagem também acerta em momentos cruciais do longa metragem. Destaco, em particular, as primeiras e últimas cenas, onde o trabalho de edição se une com qualidade ao incrível trabalho de Abel Korzeniowski na trilha.

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Escolha do público:

1. A Origem (27 votos, 77.14%)

2. A Rede Social (3 votos, 8.57%)

3. Direito de Amar (3 votos, 8.57%)

4. Tropa de Elite 2 (1 voto, 2.86%)

5. Amor Sem Escalas (1 voto, 2.86%)

O Discurso do Rei

If I am King, where is my power? Can I declare war? Form a government? Levy a tax? No! And yet I am the seat of all authority because they think that when I speak, I speak for them.

Direção: Tom Hooper

Elenco: Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Michael Gambon,  Derek Jacobi, Jennifer Ehle, Andrew Havill, Tim Downie

The King’s Speech, Inglaterra, Drama, 118 minutos

Sinopse: Desde os 4 anos, George (Colin Firth) é gago. Este é um sério problema para um integrante da realiza britânica, que frequentemente precisa fazer discursos. George procurou diversos médicos, mas nenhum deles trouxe resultados eficazes. Quando sua esposa, Elizabeth (Helena Bonham Carter), o leva até Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta de fala de método pouco convencional, George está desesperançoso. Lionel se coloca de igual para igual com George e atua também como seu psicólogo, de forma a tornar-se seu amigo. Seus exercícios e métodos fazem com que George adquira autoconfiança para cumprir o maior de seus desafios: assumir a coroa, após a abdicação de seu irmão David (Guy Pearce).

Nunca me acostumei a falar em público. Até hoje tenho sérios problemas em falar para muitas pessoas, especialmente porque sou tomado pelo nervosismo. Deve ser assim para a maioria das pessoas. Mas, para Albert (Colin Firth), a situação é ainda pior: além de ser obrigado a dar discursos, ele é gago. O Discurso do Rei, portanto, não planeja ser um estudo sobre a monarquia britânica e muito menos quer desenvolver questões políticas para construir a sua linha dramática. O filme tem como principal foco a superação de Albert para que ele possa exercer o cargo de rei sem ser motivos de deboche em função de sua gagueira. Ou seja, um filme de época focado no ser humano e não nos acontecimentos da realeza.

Desprezado em toda parte por ter conseguido um número surpreendente de indicações ao Oscar (foram doze, ao total), é fácil entender o porquê de O Discurso do Rei ter sido tão celebrado. Estamos diante de um longa-metragem que parece estar embalado em papel-presente para os prêmios e que atende a todos os requisitos que o público mais tradicional aprecia. É um filme de época que explora muito bem a parte técnica (com destaque para a fotografia e direção de arte) e que entrega para os atores a missão de engrandecer um roteiro correto e, de certa forma, esquemático. Então, quem não consegue entender o sucesso de O Discurso do Rei precisa prestar melhor atenção em alguns detalhes.

Trazendo um desempenho espetacular de Colin Firth (que, ano passado, já estava perfeito no subestimado Direito de Amar), o longa de Tom Hooper encontra nos atores a sua principal força. Se Firth apresenta um brilhantismo singular tanto no trabalho mais técnico quanto no emotivo (ele transmite humanidade com muita facilidade apenas no olhar), o ator também recebe a carismática ajuda do excelente Geoffrey Rush. Juntos, eles trazem os melhores momentos do filme – até porque não são apenas situações dramáticas, mas também bem humoradas e descontraídas. A dupla é o ponto alto de O Discurso do Rei, longa-metragem que aproveita para trazer uma Helena Bonham Carter mais contida e humana do que seus papéis habituais (e isso está longe de ser depreciativo).

Se Tom Hooper aposta em tipos de enquadramentos desnecessários apenas para chamar a atenção, pelo menos ele consegue comandar com segurança O Discurso do Rei. Elegante (ainda que sem aquele irresistível charme de A Rainha), o filme explora com qualidade todos os aspectos aproveitáveis de um tradicional filme de época. É um prato cheio para os fãs desse gênero (afinal, não lembro a última vez em que um filme desse estilo foi tão bem produzido), o que justifica completamente a adoração de muitos. Entretanto, ainda que não seja careta, O Discurso do Rei é quadrado e não consegue se livrar de certos maneirismos ultrapassados. Então, a adoração é compreensível, mas a dificuldade em aceitá-lo também é. Afinal de contas, o público de hoje, acostumado com propostas mais inovadoras como as dos recentes Cisne Negro e A Origem, ainda está disposto a abraçar um filme convencional como o de Tom Hooper? Eu ainda estou.

FILME: 8.0

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Inverno da Alma

I’d be lost without the weight of you two on my back. I ain’t going anywhere.

Direção: Debra Granik

Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, Valerie Richards, Shelley Waggener, Garret Dillahunt

Winter’s Bone, EUA, 2010, Drama, 100 minutos

Sinopse: Aos 17 anos de idade, Ree Dolly (Jennifer Lawrence) embarca em uma missão para encontrar seu pai, já que ele usou a casa de sua família como forma de garantir sua liberdade condicional e desapareceu sem deixar vestígios. Confrontada com a possibilidade de perder a casa onde mora com seus irmãos pequenos e precisar voltar para a floresta de Ozark, Ree desafia os códigos e a lei do silêncio arriscando sua vida para salvar sua família. Ela desafia as mentiras, fugas e ameaças oferecidas por seus parentes e, dessa forma, começa a juntar a verdade sobre seu pai.

É impossível assistir Inverno da Alma sem lembrar de Rio Congelado, ótimo filme estrelado pela extraordinária Melissa Leo. Os dois trabalhos são frutos do cinema independente encenados em paisagens inóspitas e que mostram a jornada de uma protagonista batalhadora que faz de tudo para salvar sua família. Não sei se foram as semelhanças gritantes que fazem Inverno da Alma parecer uma versão inferior de Rio Congelado ou se o resultado é realmente fraco, mas essa produção de 2010 está muito longe de ser um dos melhores exemplares da atual safra do cinema independente.

Segundo longa-metragem da diretora Debra Granik, Inverno da Alma tem a seu favor a ótima performance de Jennifer Lawrence, uma jovem que acertou completamente na composição de sua personagem. Destemida para sua idade mas também fragilizada por dentro, a Ree Dolly de Lawrence é o que existe de melhor na história. Lawrence, indicada ao Oscar por seu desempenho, é tudo aquilo que o longa não consegue ser. John Hawkes, outro celebrado pela Academia com uma indicação, também ajuda nessa missão.

De resto, Inverno da Alma é uma experiência arrastada e pouco interessante. O conflito principal da trama (a garota em busca do pai desaparecido) não consegue sustentar o filme, principalmente porque tudo se resolve muito cedo e de forma pouco instigante. Toda a dramaticidade está centrada na protagonista, a engrenagem que faz a boa parte do longa funcionar. Se não fosse por Lawrence, Inverno da Alma seria algo completamente desnecessário. Por sorte, ela conseguiu levar o filme nas costas – pena que não o suficiente para tirá-lo da falta de ritmo.

FILME: 6.0


Melhores de 2010 – Ator

No texto que escrevi para Direito de Amar, comentei que não gosto de usar a palavra “perfeito” para definir o desempenho de um profissional, já que tal definição parece defintivia demais. O problema é que não consigo achar outro adjetivo para definir o desempenho de Colin Firth em Direito de Amar. Poucas vezes no cinema contemporâneo vi uma atuação tão completa. Nada sobra ou falta na impecável composição que Firth fez do protagonista George Falconer. Além de ser um desempenho que nos deixa a par de todos os sentimentos do personagem, também consegue fazer com que o espectador crie simpatia por sua figura. É fácil gostar de George e sentir o que ele sente. A serenidade que disfarça o desespero emocional dele é o que cria essa sensação. No mais, é fácil dizer que Colin Firth alcançou um resultado simplesmente brilhante em Direito de Amar. E é de se lamentar que, tanto ele quanto o filme, não receberam os merecidos aplausos.  Colin Firth não estava menos que fenomenal. Trabalho de mestre.

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WAGNER MOURA (Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro)

No primeiro Tropa de Elite, Wagner Moura trabalhava essencialmente o lado visceral de seu personagem, que comandava policiais, tentava arrancar confissões de traficiantes e participava de rígidos treinamentos. Já no segundo, o ator tem a possibilidade de desenvolver melhor o lado “humano” do capitão Nascimento e se utilizar melhor das palavras para construir um personagem que é bem diferente do filme anterior. Wagner Moura é um ator singular e todo mundo sabe disso, mas vê-lo atuando em Tropa de Elite 2 é um verdadeiro prazer.

SAM ROCKWELL (Lunar)

Não deve ser fácil carregar um filme inteiro sozinho, mas Sam Rockwell recebeu essa missão em Lunar. E quer saber? Cumpriu tudo com maestria! Rockwell é um dos atores mais subestimados da atualidade e, pela primeira vez, tem um filme inteiro para colocar seu talento na vitrine. E Lunar, além de ser um longa surpreendente, traz o melhor momento do ator. Preciso até mesmo no tom de voz para demonstrar a solidão do protagonista, Sam Bell, Rockwell construiu um personagem super interessante e conseguiu envolver a cada minuto.

BEN FOSTER (O Mensageiro)

Revelação desde os tempos em que fez participações especiais em três temporadas do seriado A Sete Palmos, Ben Foster também chamou atenção em Alpha Dog. Agora, pela primeira vez, ele é o grande protagonista de um longa-metragem. Injustamente preterido em função de seus colegas (Woody Harrelson e a ótima Samantha Morton), Foster é a principal engrenagem de O Mensageiro, entregando uma intensa atuação que não fica nem um pouco atrás de seus colegas de elenco. Competente como sempre, o jovem ator mostrou que tem uma promissora carreira pela frente.

LEONARDO DICAPRIO (Ilha do Medo)

O grande filme de Leonardo DiCaprio em 2010 foi A Origem, mas a grande atuação dele ficou em Ilha do Medo. Cada vez mais maduro como ator, hoje ele já se mostra muito seguro como intérprete e correspondeu a todas as expectativas protagonizando esse longa de Martin Scorsese. Com pelo menos uma cena memorável, DiCaprio não precisa mais dar provas de seu talento e Ilha do Medo é um exemplo disso. Em um longa superesetimado e cheio de previsibilidades, o ator foi o grande diferencial.

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Escolha do público:

1. Colin Firth (27 votos, 56.25%)

2. Leonardo DiCaprio (11 votos, 22.92%)

3. Wagner Moura (7 votos, 14.58%)

4. Ben Foster (2 votos, 4.17%)

5. Sam Rockwell (1 voto, 2.08%)