Cinema e Argumento

Enrolados

Does your mother deserve it? No. Would this break her heart and crush her soul? Of course, but you just got to do it.

Direção: Byron Howard e Nathan Greno

Com as vozes de Mandy Moore, Zachary Levi, Donna Murphy, Ron Perlman, M.C. Gainey, Jeffrey Tambor, Brad Garrett, Richard Kiel

Tangled, EUA, 2010, Animação, 100 minutos

Sinopse: Flynn Ryder (Zachary Levi) é o bandido mais procurado e sedutor do reino. Um dia, em plena fuga, ele se esconde em uma torre. Lá conhece Rapunzel (Mandy Moore), uma jovem prestes a completar 18 anos que tem um enorme cabelo dourado, de 21 metros de comprimento. Rapunzel deseja deixar seu confinamento na torre para ver as luzes que sempre surgem no dia de seu aniversário. Para tanto, faz um acordo com Flynn. Ele a ajuda a fugir e ela lhe devolve a valiosa tiara que tinha roubado. Só que a mamãe Gothel (Donna Murphy), que manteve Rapunzel na torre durante toda a sua vida, não quer que ela deixe o local de jeito nenhum.

No texto que escrevi para Encantada, comentei que a infância dos dias de hoje não é mais a mesma e que histórias clássicas de princesas já não encantam mais as crianças como antigamente. Três anos se passaram desde que fiz meu post sobre Encantada e ainda permaneço com essa visão. Mas se com o filme de Kevin Lima a Disney parecia estar querendo abraçar um novo estilo de contar histórias sobre princesas, com Enrolados o estúdio volta ao convencional. E é exatamente por ter essa estrutura tão “clássica” que o filme da dupla Byron Howard e Nathan Greno funciona.

Não sei até que ponto ou qual a faixa etária que vai abraçar o jeito Enrolados de contar história. Ainda assim, é sempre gratificante ver a Disney apostando no bom e velho jeito de mostrar a jornada de uma princesa solitária que, de repente, está envolvida com um sujeito que é completamente diferente dela mas que, depois, vai roubar seu coração. Sem falar, claro, dos vilões bem definidos e que executam bem os seus papéis. Ou seja, Enrolados não agrada aqueles que não têm mais paciência para esse tipo de história. Deve ser conferido exclusivamente por aqueles que estão dispostos a acompanhar um enredo assim.

Trazendo as habituais músicas de Alan Menken (que aqui são bem simples, mas, como sempre, efetivas), o filme todo é cheio de carisma. Não só no que se refere aos personagens engraçados, mas também ao próprio modo como cada cena se desenvolve. Longe de ser uma animação marcante ou sequer excepcional em algum aspecto, Enrolados é uma homenagem aos tipos de história que fizeram tanto a Disney dar certo. Uma homenagem que tem suas obviedades, é verdade, mas que nunca deixa de divertir ou de fazer jus ao estilo narrativo proposto pelo estúdio.

FILME: 8.0


Melhores de 2010 – Edição/Mixagem de Som

Tron – O Legado é aquele tipo de filme para se assistir em uma grande tela de cinema, com óculos 3D, aproveitando toda a tecnologia que uma sala bem equipada pode trazer. Sorte que consegui assistir o filme de Joseph Kosinski nessas condições. Assim, fiquei impressionado com a potência sonora do longa-metragem, bem como pude perceber melhor o bom uso desse setor para a construção técnica da história. Alguns podem dizer que o resultado não passa do básico e que nem a parte técnica de Tron – O Legado consegue minimizar os erros do roteiro. Discordo completamente. Além dos já comentados maravilhosos efeitos especiais, a edição e a mixagem de som cumprem muito bem a sua missão de trazer ainda mais detalhes para o mundo tecnológico concebido por essa produção da Disney. Isso fica evidente não apenas nas cenas de ação, mas durante o filme inteiro. Todo o setor sonoro é acertado – e vale lembrar, também, da surpreendente trilha do Daft Punk, que ajuda a deixar essa impressão.

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO

Bons filmes de animação já possuem um ótimo trabalho de edição e mixagem de som. Como Treinar o Seu Dragão não foge à regra. Principalmente por ter vários momentos de aventura, o longa se utiliza bastante do setor sonoro não só para trazer vida aos personagens e aos dragões da trama, mas também para pontuar o dinamismo de cada cena.

LUNAR

Impressiona a quantidade de detalhes que Lunar apresenta no seu trabalho de som. Se já não bastasse a espetacular trilha sonora de Clint Mansell, a edição e a mixagem de som também conseguem ser minuciosos na hora de retratar a solitária vida do astronauta Sam Bell (Sam Rockwell) na lua. Trabalho que, inclusive, ajuda na hora de estruturar o certo suspense que o longa cria.

TOY STORY 3

O mundo dos brinquedos de Andy não teria a mesma eficiência se não fosse o excelente trabalho de som. Cada personagem possui suas particularidades sonoras, o que contribui para a sempre ótima diversão proporcionada por Toy Story 3. Vale lembrar que, assim como em Como Treinar o Seu Dragão a mixagem e a edição de som também são fundamentais na hora da aventura.

A ORIGEM

Muito mais do que uma ótima ideia bem desenvolvida pelo roteiro, A Origem também é um excelente trabalho técnico. No setor de edição e mixagem de som não foi diferente. Se a construção visual de Christopher Nolan é extremamente satisfatória, a sonora também consegue esse feito. Mais um acerto desse filme que é um dos melhores de 2010.

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Escolha do público:

1. A Origem (19 votos, 55.88%)

2. Tron – O Legado (9 votos, 26.47%)

3. Toy Story 3 (4 votos, 11.76%)

4. Lunar (1 voto, 2.94%)

5. Como Treinar o Seu Dragão (1 voto, 2.94%)

Nosso Lar

Um dia você vai entender. Sempre há tempo para recomeçar.

Direção: Wagner de Assis

Elenco: Renato Prieto, Othon Bastos, Ana Rosa, Paulo Goulart, Werner Schünemann, Lu Grimaldi, Rosane Mulholland, Helena Varvaki

Brasil, 2010, Drama, 109 minutos

Sinopse: Ao abrir os olhos, André Luiz (Renato Prieto) sabe que não está mais vivo, apesar de ainda sentir sede e fome. Ao seu redor ele apenas vê uma planície escura e desértica, marcada por gritos e seres que vivem na sombra. Após passar pelo sofrimento no purgatório, André é levado para a cidade de Nosso Lar. Lá ele tem acesso a novas lições e conhecimentos, enquanto aprende como é a vida em outra dimensão.

Chega ser até irônico como uma personagem de Nosso Lar compreendeu a minha agonia ao assistir o filme. Em certa passagem, uma moça (desculpem, não vou perder mais do meu tempo com esse filme procurando o nome dela) diz: “Aposto que você também está louco para ir embora. Aposto que você não aguenta mais esse moralismo. Todo mundo tem algum conselho para te dar, né?”. A tal personagem faz esses comentários justamente quando está abandonando o chamado “Nosso Lar” da trama. Durante todo o filme, fiquei com a mesma sensação que ela.

O principal problema de Nosso Lar é que ninguém parece normal. Todo mundo na história tem alguma filosofia para ensinar ou alguma lição de moral para mudar o jeito de pensar do protagonista. Todos com aquela expressão de sabedoria, como se toda a população formasse um grupo de auto-ajuda incomparável. São essas representações, junto com os diálogos enfadonhos, que conferem ao longa-metragem de Wagner de Assis um caráter forçado. Nada é dito com naturalidade e os atores parecem simplesmente ter decorado as falas, sem se preocupar em sair do piloto automático.

Outro agravante é que Nosso Lar não sabe dialogar com outro público a não ser aquele que acredita em doutrinas espíritas. Infelizmente, não é um filme que sabe desviar da barreira temática e realizar algo universal. Pelo contrário. Acho difícil algum leigo no assunto conseguir se envolver com o enredo – principalmente quando ele é encenado tão sem naturalidade pelo elenco e pelo roteiro. Junte a isso efeitos especiais que, ao invés de encantarem, só plastificam ainda mais toda a situação. De destacável mesmo só a trilha do sempre mestre Philip Glass – mas nem ele sai ileso, uma vez que nada fez além de reciclar outros trabalhos seus como Notas Sobre Um Escândalo e Sob a Névoa da Guerra.

Se formos comparar Nosso Lar com o trágico trabalho anterior do diretor Wagner de Assis, A Cartomante, podemos notar uma certa evolução dele como diretor. Por mais que esse filme baseado na obra de Chico Xavier seja cheio de problemas estéticos e narrativos, pelo menos não estamos diante de um trabalho histérico como A Cartomante. Creio que Nosso Lar até seja um filme satisfatório para quem acredita no espiritismo. Como não sou desse ramo, fui avaliar o filme apenas como cinema e me decepcionei bastante. Faltou um texto mais abrangente e que não excluísse tanto quem está de fora do assunto. Numa tentantiva, então, de atrair o espectador pelo visual, também falhou. Uma pena. Nosso Lar é uma sucessão de tentativas que não deram certo.

FILME: 5.0


Melhores de 2010 – Animação

Antes de qualquer definição, é recomendável que todos saibam que Mary & Max – Uma Amizade Diferente não é uma animação para crianças. Ilustrando sua história com várias problematicas (uma personagem alcoólatra, tentativa de suicídio e até mesmo descoberta de homossexualidade), esse trabalho do diretor Adam Eliott encontra na maturidade narrativa o seu ponto mais forte. Isso quer dizer que Mary & Max tem uma história que parece vinda de um filme com pessoas reais, além de uma dramaticidade digna de tantos filmes reflexivos sobre amizade e distância. Dublado com notável precisão pelos ótimos Philip Seymour Hoffman e Toni Collette, é uma animação que dialoga de forma contundente com todas as pessoas que possuem uma pessoa especial que mora a quilômetros de distância. Assim, Mary & Max terá um significado todo especial para esse público – podendo, inclusive, emocionar bastante. Todavia, isso não significa que o enredo não funcionará para os outros públicos. Muito pelo contrário. A história comandada por Adam Elliott é universal justamente por ser extremamente humana e verdadeira. Um trabalho adulto e cheio de belas mensagens.

TOY STORY 3

Mantendo o excelente padrão criado pela Pixar, Toy Story 3 foi outro atestado de originalidade e competência do estúdio. O resultado não me empolgou tanto como Ratatouille ou WALL-E, mas também é digno de muitos elogios. Repleto de personagens sempre carismáticos, a animação de Lee Unkrich também tem a seu favor o fato de trazer um notável retrato sobre como a transição entre fases de nossa vida pode ser melancólica. Tal característica está ilustrada de forma excepcional na última cena, capaz de emocionar qualquer um.

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO

Grata surpresa da Dreamworks, que parecia redimida a viver das fracassadas continuações de Shrek. Bom ver que o estúdio ainda tem fôlego para criar animações cheias de diversão e personagens simpáticos como os vistos em Como Treinar o Seu Dragão. Se formos prestar atenção, a história é batida e as resoluções são previsíveis, mas a animação tem a habilidade de retratar cada momento com pura descontração. É fácil se conectar com a história e torcer pelos personagens. Um longa sobre ultrapassar as barreiras da diferenças e também sobre a necessidade de mudar princípios antiquados.

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Escolha do público:

1. Toy Story 3 (32 votos, 66.67%)

2. Mary & Max – Uma Amizade Diferente (12 votos, 25%)

3. Como Treinar o Seu Dragão (4 votos, 8.33%)

Enterrado Vivo

I’m so sorry, Paul.

Direção: Rodrigo Cortés

Elenco: Ryan Reynolds, Ivana Miño e vozes de José Luis García Pérez, Robert Paterson, Samantha Mathis, Stephen Tobolowsky, Kali Rocha

Buried, EUA/Espanha/França, 2010, Suspense, 95 minutos

Sinopse: Paul Conroy (Ryan Reynolds) é um americano que trabalha como motorista de caminhão no Iraque. Ele acorda, sem saber como, enterrado vivo dentro de caixão de madeira. Sem saber o que aconteceu e o porquê de estar ali, ele tem em suas mãos apenas um telefone celular e um isqueiro. Começa então uma tensa corrida contra o tempo e a falta de ar. A pressão aumenta ainda mais quando os sequestradores exigem um resgate milionário para libertá-lo e um vídeo com suas imagens vai parar no YouTube.

São 95 minutos de filme em apenas um cenário. Não existe outra pessoa em cena além do ator Ryan Reynolds. E, para completar, tudo se passa dentro de um caixão. Só de saber de uma proposta dessas, já ficaria muito curioso para conferir o resultado. Imagine, então, quando o filme consegue uma boa recepção de público e crítica. Assim é Enterrado Vivo, um suspense claustrofóbico comandado pelo espanhol Rodrigo Cortés e que foge dos padrões convencionais do estilo norte-americano de fazer suspense. Ou seja, mais uma excelente surpresa vinda de mãos espanholas (para quem não se lembra, o excelente [REC] também era comandado por diretores da Espanha).

Mesmo que falado todo em inglês e protagonizado por um popular ator dos Estados Unidos, dá para notar que Enterrado Vivo não se assemelha muito com um suspense qualquer vindo da terra do tio Sam. Se a proposta por si só já é original, o longa também surpreende por conseguir manter o ritmo e a qualidade durante todo o tempo. Com uma estrutura dessas (principalmente no que se refere ao difícil trabalho de limitar-se a um único e pequeno cenário), seria fácil cair em armadilhas. Felizmente, não é o que acontece aqui. O diretor Rodrigo Cortés soube explorar com muita objetividade todas as possibilidades para história. Algo que, possivelmente, diretores norte-americanos poderiam arruinar e entupir de exageros e inverossimilhanças.

Nem por isso Enterrado Vivo está livre de falhas. Demorando para apresentar de fato alguma tensão real além de apenas claustrofobia, a primeira metade da história limita-se a sucessivas ligações do protagonista por um celular. A trilha de Victor Heyes, que muitos comparam com as trilhas dos filmes de Hitchcock, também não me agradou, tornando-se um pouco exagerada em diversos momentos. Depois da primeira parcela de duração é que o roteiro finalmente engrena e consegue construir um cenário muito mais envolvente e desesperador – muito devido ao ótimo desempenho de Ryan Reynolds e às situações criadas pelo roteiro. Alguns momentos previsíveis existem, é verdade, mas tudo isso passa despercebido em um filme bem arquitetado e que possui um final corajoso e nada parecido com os de tantos suspenses que estamos acostumados a ver.

FILME: 8.0