Cinema e Argumento

Bling Ring – A Gangue de Hollywood

I think we just wanted to be part of the lifestyle.

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Direção: Sofia Coppola

Roteiro: Sofia Coppola, baseado no artigo “The Suspect Wore Louboutins”, de Nancy Jo Sales

Elenco: Katie Chang, Emma Watson, Israel Broussard, Claire Julien, Taissa Farmiga, Georgia Rock, Leslie Mann, Carlos Miranda, Gavin Rossdale, Stacy Edwards, G. Mac Brown, Marc Coppola

The Bling Ring, EUA, 2013, Drama, 90 minutos

Sinopse: Nicki (Emma Watson), Marc (Israel Broussard), Rebecca (Katie Chang). Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julian), entre outros jovens de Los Angeles têm em comum uma vida meio vazia, de pais ausentes, como Laurie (Leslie Mann), mãe de Nicki, que não tem a menor noção do que as filhas estão fazendo nas ruas, durante o dia e, pior, durante a noite. Fascinados pelo mundo glamuroso das celebridades das revistas, como Paris Hilton, e artistas como Kirsten Dunst, o grupo começa a fazer pequenos assaltos na casa dessas pessoas, quando descobrem que entrar nas residências deles não é nada difícil. Cada vez mais empolgados com “os ganhos”, o volume dos saques desperta a atenção das autoridades, que decidem dar um basta nos crimes dessa garotada sem limites. Baseado em fatos reais. (Adoro Cinema)

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Em O Diabo Veste Prada, de David Frankel, a protagonista Andrea Sachs (Anne Hathaway) é uma jornalista recém-formada cheia de ideais que mal sabe se vestir e consegue um emprego na conceituada revista de moda Runway. Inicialmente contrariada, ela pouco a pouco começa a se envolver com aquele mundo que desprezava até virar uma moça de salto alto bem vestida que não dispensa uma boa grife. Quando é obrigada a refletir sobre sua transformação frente à chefe Miranda Priestly (Meryl Streep), ela nega firmemente ter se tornado uma jovem que só pensa em flashes e roupas. Mas Miranda rebate: “Não seja ridícula. Todo mundo quer isso. Todo mundo quer ser como nós”. Se Andrea Sachs virou outra pessoa pela força do ambiente em que trabalhava, os protagonistas de Bling Ring – A Gangue de Hollywood já não podem dizer o mesmo. Eles são exatamente o que Miranda Priestly atesta: pessoas que querem estar nesse mundo – nem que para isso tenham que assaltar a casa de várias celebridades estadunidenses.

Baseado no artigo The Suspect Wore Louboutins, de Nancy Jo Sales, publicado originalmente na revista Vanity Fair, o mais novo filme de Sofia Coppola não chega ser a revolução capaz de apagar as péssimas impressões de Um Lugar Qualquer, aquela tortura realizada pela diretora antes de Bling Ring – A Gangue de Hollywood. Mas esta nova investida tem o seu valor, principalmente porque, antes de retratar uma geração obcecada por roupas, sapatos e perfumes, também faz um eficiente estudo dessa necessidade específica dos jovens de hoje de alcançar qualquer tipo de fama, seja frente às câmeras de TV ou a um computador contabilizando vários likes no Facebook. Só que já diz o ditado que ser famoso na internet é o mesmo que ser rico em banco imobiliário. Por isso, os jovens de Bling Ring não se contentam com fotos em festas que se repercutem no Facebook. Eles querem mais. E, para isso, invadem as casas de celebridades como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Rachel Bilson para roubar e se vangloriar com todos os acessórios caríssimos que levaram secretamente da casa de cada uma delas.

Obviamente que a necessidade de fama e tal irresponsabilidade para consegui-la denotam outros problemas emocionais e imaturidades que não são discutidas pelo filme. E nem precisam, até porque elas não casariam com a proposta de Sofia Coppola. Só as circunstâncias apresentadas pela diretora já bastam para que possamos levantar nossas próprias discussões acerca dos personagens (inclusive dos próprios pais, figuras curiosíssimas e tão irresponsáveis quanto próprios os filhos). O problema de Bling Ring – A Gangue de Hollywood é outro: mostrar incansavelmente as mesmas cenas durante praticamente uma hora de projeção. Todos nós sabemos que Coppola gosta de falar sobre o vazio na vida de pessoas que querem/precisam mostrar justamente o contrário. Porém, frequentemente ela confunde o nada da vida de seus personagens com mostrar nada em seus longas longas. O cúmulo foi Um Lugar Qualquer, e Bling Ring – A Gangue de Hollywood flerta muito com esse perigo. Em 20 minutos, já entendemos todas as obsessões e os vazios de cada personagem do filme. Porém, a diretora insiste em ficar mostrando, cena após cena, as infinitas provas de figurino e perfumes dos jovens dentro das casas em que entraram ilegalmente.

Tudo isso é uma grande perda de tempo por duas razões bem significativas. Primeiro porque desperdiça o grande senso de diversão que, sim, existe na diretora. Sofia Coppola sempre foi ótima com trilhas sonoras (lembro particularmente do épico álbum de Maria Antonieta) e, aqui, volta e meia faz cenas muito envolventes em festas cheias de luzes, som e dança. Segundo porque, justamente, quando a história começa a desenvolver de forma mais complexa a personalidade dos personagens, o filme termina. Incessantemente instigante em seus minutos finais, Bling Ring – A Gangue de Hollywood fica, assim, com uma forte sensação de incompletude. Os atores estavam ganhando mais força, as motivações de cada um estavam sendo devidamente pontuadas e as personalidades traçadas com notável desenvoltura pelos atores. Com essa meia hora final rápida e rasteira, não deu para esquecer aquelas sequências repetitivas e redundantes de assaltos, purpurinas e figurinos caríssimos. Preocupando-se mais em glamourizar esse lado da história (o que chega até a ser um tanto discutível) e menos nas consequências e no significado disso tudo, Bling Ring – A Gangue de Hollywood quase se torna tão vazio quanto seus próprios protagonistas.

FILME: 6.0

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41º Festival de Cinema de Gramado: A Coleção Invisível, de Bernard Attal

Mundo Novo

Do trio de jovens atores nascidos ou criados na Bahia que ganharam o Brasil, Vladmir Brichta era o único que ainda não tinha um filme para chamar de seu. Enquanto Lázaro Ramos se lançou nacionalmente com O Homem Que Copiava e Wagner Moura ganhou plateias até internacionais com Tropa de Elite, Brichta (nascido em Minas Gerais, mas cidadão baiano desde criança) era apenas um tímido coadjuvante cômico em filmes como A Máquina e A Mulher Invisível. Mas eis que surge este A Coleção Invisível, que lhe dá as devidas chances para explorar uma vertente dramática que, mesmo também desconhecida na TV, já estava presente na carreira do ator desde a década de 1990, quando ele ganhou os palcos de teatros baianos com peças como Calígula e Hamelin. Agora, no filme de Bernard Attal, Brichta encontra a chance de expandir esse diálogo com o público: como Beto, um jovem que, após perder os amigos em um acidente de carro, cai nas estradas do interior da Bahia para encontrar uma coleção de gravuras, ele mostra que oportunidades como essa deveriam aparecer sempre na sua carreira cinematográfica.

A Coleção Invisível é primeiro um filme sobre a busca e depois sobre o que é encontrado (ou não). Nada de clichês típicos de um road movie. Na história roteirizada por Bernard Attal, Sérgio Machado e Iziane Mascarenhas – baseada no conto homônimo do alemão Stefan Zweig -, tudo é trabalhado por meio de sutilezas. Por um lado, esta escolha pode minar a aceitação de várias plateias que esperam uma viagem cheia de aventuras e transformações. Por outro, tem tudo para surpreender quem espera algo fora do convencional, uma vez que A Coleção Invisível não aposta na transformação completa de um sujeito que cai na estrada de um jeito e chega ao fim dela como uma pessoa completamente diferente. O que é mostrado no longa de Attal é apenas o início de uma mudança. A história termina e o protagonista recém começa a sair da juventude para assumir o papel de um homem maduro. Por isso, não espere muitas movimentações nesse longa quase contemplativo e silencioso que nunca descamba para o pedante. Afinal, é exatamente aí que está sua benção e maldição: por ser tão sutil, corre o risco de ser incompreendido pelo público, que pode achar que nada acontece ali – o que não é verdade.

Último filme do falecido ator gaúcho Walmor Chagas, A Coleção Invisível, contudo, também não deve ser limitado a esse título. Até porque, além dele, todo o elenco está muito bem, inclusive aqueles coadjuvantes de breves participações como Clarisse Abujamra, Paulo César Pereio e Ludmila Rosa. Só que o terreno é mesmo de Vladimir Brichta. Vencendo o “empecilho” da beleza (ele tem todo o jeito de galã, mas, aqui, isso está longe de ser um problema) e da fama com a comédia (especialmente agora que está no com o programa Tapas & Beijos ao lado de Fernanda Torres), ele cria um personagem extremamente verossímil que convence com todas as suas facetas dramáticas. Vladimir nunca soa forçado como o jovem de balada que conhecemos no início do filme e muito menos como o homem introspectivo que tenta se achar em uma nova vida posteriormente. Assim como o próprio filme, a interpretação é minimalista e pede atenção para ser devidamente apreciada.

Em uma produção que tem a própria Bahia como personagem, conseguimos também nos sentir parte de tal universo. Ao explorar o interior do Estado, a pobreza daquelas regiões e a própria vivência de quem trabalha com o cacau, sentimos o cheiro da terra e a temperatura baiana… Estamos lá. E isso só ajuda o andamento desse drama, cujo cenário também é fundamental para moldar o protagonista. Terminando um pouco abruptamente e com um leve desvio de rota ao abraçar de última hora um pequeno clichê com um personagem coadjuvante (a divertida criança que está sempre cercando o protagonista), A Coleção Invisível pode até não ser aquele tipo de filme que chamamos de empolgante – mas talvez nem o queira ser mesmo. A sensação que fica, ao término dele, é que todos os pequenos acertos e detalhes se acumulam e, quando os créditos sobem, ficamos com uma vontade de acompanhar mais daquela história. Para alguns, um problema de incompletude. Para mim, um atestado de fuga do convencional. Assim como na vida, nem sempre temos todas as respostas estão ao nosso alcance. O tempo deve tornar A Coleção Invisível ainda melhor.

FILME: 8.0

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The Girl

Her inexperience is an asset. She has nothing to unlearn.

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Direção: Julian Jarrold

Roteiro: Gwyneth Hughes, baseado no livro “Spellbound by Beauty”, de Donald Spoto

Elenco: Sienna Miller, Toby Jones, Imelda Staunton, Conrad Kemp, Penelope Wilton, Angelina Ingpen, Candice D’Arcy, Carl Beukes, Kate Tilley, Aubrey Shelton, Leon Clingman, Patrick Lyster

EUA/Inglaterra/África do Sul, 2012, Drama, 91 minutos

Sinopse: Baseado no livro “Fascinado pela Beleza”, de Donald Spoto, o longa gira em torno do obsessivo relacionamento entre o diretor Alfred Hitchcock (Toby Jones) e a atriz Tippi Hedren (Sienna Miller), a protagonista de “Os Pássaros” e “Marnie – Confissões de Uma Ladra”. (Adoro Cinema)

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É incontestável: Alfred Hitchcock voltou à moda. Ganhou prelúdio de Psicose na TV com o seriado Bates Motel, uma cinebiografia com o nome de Hitchcock estrelada por Anthony Hopkins e também este novo telefilme da HBO, em parceria com a BBC, intitulado The Girl. Se Bates Motel não chega a ser um tributo à Hitchcock (o que é bom) e o filme com Hopkins decepciona profundamente, The Girl surpreende pela forma mais séria e interessante com que narra um recorte da vida do cultuado diretor. Dessa vez, acompanhamos o relacionamento dele com a atriz Tippi Hedren (Sienna Miller), durante as gravações do longa-metragem Os Pássaros. As filmagens, no entanto, foram conturbadas – tanto que a atriz só gravou mais um filme  com o diretor (Marnie – Confissões de Uma Ladra) e porque o contrato previa uma segunda parceria. O telefilme de Julian Jarrold tem algumas abordagens discutíveis (e que não chegam a ser depreciativas, dependo da forma como levamos o “baseado em fatos reais” ao pé da letra), mas, no geral, instiga pela forma eficiente com que retrata o conturbado relacionamento entre o realizador e sua musa.

Possivelmente o maior empecilho de The Girl seja a forma com que o roteiro de Gwyneth Hughes, baseado no livro Spellbound by Beauty, de Donald Spoto, constrói Alfred Hitchcock (Toby Jones). Não é exagero dizer que sua figura se torna quase um vilão da trama, uma vez que o resultado mostra muito de suas loucuras, taras e excentricidades, colocando a personagem de Sienna Miller como vítima de tantos devaneios dele. Não é fácil gostar desse retrato. E cabe ao espectador decidir até que ponto isso influencia o resultado. Particularmente, me desconectei de comparações e outros relatos do diretor e encarei The Girl como uma ficção quase que inteiramente original. Sendo assim, é fácil se envolver com o que está sendo mostrado, até porque toda a construção dramática é coerente: impossível não se encantar e confiar naquela nova parceria que se estabelece entre atriz e diretor e, pouco a pouco, incomodar-se com os pequenos momentos que começam a minar essa relação que, no final das contas, chega a vários extremos.

Toby Jones, mais uma vez atrasado (viveu Truman Capote à sombra de Philip Seymour Hoffman e agora foi ofuscado por Anthony Hopkins), tem seus momentos, mas em nada se parece com o diretor. Assim, o brilho fica mesmo com Sienna Miller, que tem aqui o desempenho de sua vida. Não só impressionante na beleza estonteante (e na caracterização de Tippi Hedren), a atriz abandona a prioridade de mimetismos para pensar primeiro na dramaticidade da personagem. E o resultado é louvável: toda a angústia de Tippi (seja por ter dificuldades em atuar – ficou notoriamente conhecida por ser ruim – ou por se perturbar com as loucuras do diretor) é transmitida pela atriz, que consegue fazer um ótimo balanço entre toda a imagem de musa da protagonista e uma excelente atuação dramática. Dessa forma, faz todo sentido do mundo que o filme se chame The Girl: é o show de Sienna Miller e uma história que quase coloca Hitchcock e o processo criativo dos filmes em segundo plano para falar sobre a tal garota cujo arco dramático é muito bem desenvolvido pelo roteiro.

The Girl tem alguns problemas, entretanto, que não passam despercebidos. Começando pelo total desperdício do elenco de suporte, especialmente de Imelda Staunton. A veterana britânica (que teve um dos melhores desempenhos da década passada com O Segredo de Vera Drake) chama a atenção quando entra em cena, mas, como Alma, esposa de Hithcock, tem pouco a fazer com o texto limitadíssimo que tem em mãos. Nesse sentido, Helen Mirren teve chances muito melhores no mesmo papel em Hitchcock. É imperdoável que o roteiro deixe uma atriz tão talentosa de escanteio e que não aproveite a personagem, cuja figura era total inspiração para o cultuado diretor. Volta e meia The Girl também erra a mão na trilha – e o que dizer, então, quando resolve usar o prelúdio de Tristão e Isolda, de Richard Wagner, que recentemente se eternizou cinematograficamente nas mãos de Lars Von Trier em cenas simplesmente inesquecíveis de Melancolia?! E se você também não aceita muito bem a ideia de que Hitchcock era completamente maluco… Bom, aí a sessão se torna realmente incômoda.

Melhor visto como um difícil processo de produção de um filme do que como uma biografia convencional, o telefilme de Julian Jarrold, apesar de pequenos detalhes, tem sua força, muito em função de Sienna Miller e desse processo constantemente difícil entre Hitchcock e Tippi Hedren. É fácil aceitar toda a trajetória da personagem, que, primeiro uma atriz totalmente insegura e deslumbrada com uma chance de ouro (literalmente, já que ela ganhou o Globo de Ouro!), logo vira uma mulher que se vê obrigada a encontrar forças para sobreviver a filmagens que chegam a lhe tirar o sono. Bem como em Hitchcock, The Girl encontra, portanto, o seu encantamento na principal figura feminina. Aqui, porém, com o bônus de ser um bom filme que, além de contar com a tradicional qualidade técnica da BBC e da HBO, faz um retrato eficiente da vida de uma mulher que se descobriu mais forte do que pensava frente a uma difícil situação.

FILME: 8.0

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Os vencedores do 41º Festival de Cinema de Gramado

Vencedores do 41º Festival de Cinema de Gramado foram conhecidos no sábado (17). Foto: Cleiton Thiele/PressPhoto

Vencedores do 41º Festival de Cinema de Gramado foram conhecidos no sábado (17). Foto: Cleiton Thiele/PressPhoto

O grande vencedor da 41ª edição do Festival de Cinema de Gramado veio diretamente de Pernambuco, contando uma história de amor gay em tempos de ditadura. É Tatuagem, de Hilton Lacerda, que venceu o prêmio do júri oficial e da crítica, além das categorias de melhor ator (Irandhir Santos) e trilha musical. Lacerda não é novato no cinema (foi roteirista de filmes como Amarelo Manga, Baixio das Bestas e Febre do Rato), mas só agora teve seu debut como diretor de ficção. Tatuagem, que teve sua primeira exibição em Gramado, incomodou as plateias mais conservadoras por sua veracidade quanto ao mundo gay, mas seu valor cinematográfico mobilizou discussões e debates entusiasmados que facilmente já indicavam essa premiação que aconteceu no último sábado (17).

É recompensador ver que a arte cada vez mais quebra preconceitos (Cannes também premiou um filme gay em 2013: La Vie d’Adele, de Abdellatif Kechiche), o que só comprova como as mentes de Marco Feliciano e Silas Malafaia se mostram absurdamente retrógradas. Gramado acertou plenamente nesse sentido, mas a lista, claro, tem suas ressalvas. Sejamos justos: os vencedores primaram pela pluralidade e pelo reconhecimento a todos. Sempre apóio a descentralização de prêmios (desde que a distribuição seja justa ou no mínimo compreensível), mas isso não quer necessariamente dizer que premiar todos é positivo. Pelo contrário: pode parecer medo de desagradar. E foi exatamente isso que deu para sentir com o júri formado por Affonso Beato, Amir Labaki, Beto Rodrigues, Joana Fomm e Kleber Mendonça Filho.

Leandra Leal compareceu ao evento e ganhou seu segundo Kikito, dessa vez por "Éden". Foto: Edison Vara/PressPhoto

Leandra Leal compareceu ao evento e ganhou seu segundo Kikito, dessa vez por “Éden”. Foto: Edison Vara/PressPhoto

Só mesmo isso para explicar algumas das premiações que comento na sequência. Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, de Domingos Oliveira, foi o vencedor na categoria de melhor roteiro. No entanto, o reconhecimento parece mais uma homenagem à memória do diretor e uma comoção ao seu estado de saúde (ele caminha muito mal e tem uma dicção quase incompreensível). Isso porque o filme em si é uma miscelânea de reciclagens e pretensões. Nele, Domingos quer ser um filho de Robert Altman e Woody Allen – o que incomoda profundamente quem conhece a obra desses dois diretores, uma vez que, se for para ver uma mera cópia de segunda, é melhor beber diretamente da fonte.

Revelando Sebastião Salgado, da diretora Betse de Paula (que recentemente arrasou no Cine PE com Vendo ou Alugo), estava prestes a sair de mãos vazias. Porém, eis que o júri resolver conceder um “prêmio especial do júri” – sem explicações – entregando um Kikito para o documentário que celebra a figura do célebre fotógrafo-título. Questiona-se também o prêmio do júri popular. Antes formado por leitores vencedores de concursos culturais em jornais de diversos pontos do Brasil, agora o júri volta a ser quem está na própria sessão, votando ao final dela. Só que fica evidente que os dois vencedores – A Coleção Invisível e Até Que a Sbórnia nos Separe – venceram porque tiveram as sessões mais cheias de todo o Festival (por coincidência, o primeiro foi exibido em uma sexta-feira, dia em que o Festival enche!).

Ainda sobre ressalvas, o absurdo mesmo foram as duas premiações para A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade. Ainda tendo compreender a mensagem que desejam passar com os prêmios de melhor direção e fotografia para a dupla (celebração da nova geração?), mas é simplesmente impossível: presentes em Gramado já no ano passado com o insosso curta-metragem A Triste História de Kid Punhetinha, agora os diretores voltaram recebendo confetes com esse filme pretensioso, forçado e voltado exclusivamente ao umbigo e aos fetiches de seus próprios realizadores.

Agraciada pela terceira vez com um Kikito, Léa Garcia foi a melhor atriz de curtas por "Acalanto", o grande vencedor da respectiva mostra. Foto: Cleiton Thiele/PressPhoto

Agraciada pela terceira vez com um Kikito, Léa Garcia foi a melhor atriz de curtas por “Acalanto”, o grande vencedor da respectiva mostra. Foto: Cleiton Thiele/PressPhoto

Entretanto, voltamos ao que deu certo. Ainda que com deslizes (que toda premiação do mundo tem), o resultado foi dentro do esperado, refletindo a boa fase que o evento retomou na edição passada. Era óbvio que Leandra Leal ganharia seu segundo Kikito por Éden, que a montadora Karen Harley não sairia de mãos abanando (concorria por A Coleção Invisível e Os Amigos, ganhando pelo segundo) e que o belo curta-metragem Acalanto seria devidamente agraciado (incluindo um merecido Kikito para a impressionante Léa Garcia, que tem um dos olhares mais marcantes do cinema brasileiro).

A cerimônia ainda contou com três divertidas aparições da dupla do espetáculo Tangos e Tragédias, que espaçou a longa entrega dos Kikitos (mais de 40 prêmios!) sem parecer uma intervenção de mera formalidade. Foi diversão mesmo. Mais um ano pra lá de positivo para o Festival de Cinema de Gramado. Nos próximos dias, comentaremos aqui no blog alguns longas da seleção. Se você ainda não viu, confira nossas críticas já publicadas de Flores Raras (filme de abertura, fora de competição) e Os Amigos.

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Tatuagem, de Hilton Lacerda
MELHOR DIREÇÃO: Andradina Azevedo e Dida Andrade, por A Bruta Flor do Querer
MELHOR ATOR: Irandhir Santos, por Tatuagem
MELHOR ATRIZ: Leandra Leal, por Éden
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Walmor Chagas, por A Coleção Invisível
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Clarisse Abujamra, por A Coleção Invisível
MELHOR ROTEIRO: Domingos Oliveira, por Primeiro Dia de Um Ano Qualquer
MELHOR FOTOGRAFIA: Gallo Rivas, por A Bruta Flor do Querer
MELHOR MONTAGEM: Karen Harley, por Os Amigos
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Eloar Guazzelli e Pilar Prado, por Até Que Sbórnia nos Sepere
MELHOR TRILHA MUSICAL: DJ Dolores, por Tatuagem
MELHOR DESENHO DE SOM: Edson Secco, por Éden
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI OFICIAL: Revelando Sebastião Salgado, de Betse de Paula
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Até Que a Sbórnia nos Separe e A Coleção Invisível
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Tatuagem, de Hilton Lacerda

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: Repare Bem, de Maria de Medeiros
MELHOR DIREÇÃO: Roberto Flores Prieto, por Cazando Luciérnagas
MELHOR ATOR: Cesar Troncoso, por A Oeste do Fim do Mundo
MELHOR ATRIZ: Valentina Abril, por Cazando Luciérnagas
MELHOR ROTEIRO: Carlos Franco Esguerra, por Cazando Luciérnagas
MELHOR FOTOGRAFIA: Eduardo Ramírez Gonzáles, por Cazando Luciérnagas
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): A Oeste do Fim do Mundo, de Paulo Nascimento
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI OFICIAL: Grupo de Teatro Catalinas Sur, por Venimos de Muy Lejos

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Acalanto, de Arturo Saboia
MELHOR DIREÇÃO: Arturo Saboia, por Acalanto
MELHOR ATOR: Kauê Telloli, por A Navalha do Avô
MELHOR ATRIZ: Léa Garcia, por Acalanto
MELHOR ROTEIRO: Francine Barbosa e Pedro Jorge, por A Navalha do Avô
MELHOR FOTOGRAFIA: Alexandre Samori, por Arapuca
MELHOR MONTAGEM: Gilberto Scarpa e Vinícius Gotardelo, por Merda!
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Rogério Tavares, por Acalanto
MELHOR TRILHA MUSICAL: Luiz Oliviéri, por Acalanto
MELHOR DESENHO DE SOM: Tiago Bello, Rita Zart e Marcos Lopes, por Tomou Café e Esperou
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Acalanto, de Arturo Saboia
MENÇÃO HONROSA: Carregadores do Monte, de Cassio Santos e Julio Lucena
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI OFICIAL: Os Filmes Estão Vivos, de Fabiano de Souza e Milton do Prado
PRÊMIO CANAL BRASIL: A Navalha do Avô, de Pedro Jorge
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA: Os Filmes Estão Vivos, de Fabiano de Souza e Milton do Prado

PRÊMIO DOM QUIXOTE

VENCEDOR: Repare Bem, de Maria de Medeiros
MENÇÃO HONROSA: Venimos de Muy Lejos, de Ricardo Piterbarg
MENÇÃO HONROSA: A Oeste do Fim do Mundo, de Paulo Nascimento

Ludmila Rosa e Vladmir Brichta apresentam “A Coleção Invisível” em Gramado

Foto: Edison Vara/PressPhoto

Foto: Edison Vara/PressPhoto

A Coleção Invisível marca o último papel de Walmor Chagas no cinema. Porém, seria um tanto injusto limitar o longa-metragem de Bernar Attal a esse título. O filme, que será exibido hoje à noite no 41º Festival de Cinema de Gramado é também uma história sobre mudanças que tem um elenco apaixonado pelo resultado final da obra.

Um deles é Vladimir Brichta, que, chegando hoje a Gramado, conta que participar desse longa foi um verdadeiro presente. O ator, normalmente conhecido por papeis cômicos no cinema, tem trajetória em dramas no teatro, mas só agora pode explorar tal vertente na sétima arte: “Fico feliz por estender esse diálogo com o público. Queria retomar e exercitar essa parte da minha carreira. Principalmente com esse roteiro, que me encantou desde a primeira leitura. É uma grande história de amadurecimento e sobre como a vida pode ser boa mas também muito difícil”.

A atriz Ludmila Rosa também se envolveu por completo com o projeto, ressaltando a força de sua personagem. “Ela é uma mulher de muito vigor. Vem de uma época e de uma região muito patriarcal, mas que nunca se vitimiza. É forte, independente, ligada à cultura”, conta a atriz, que, com esse papel, fez algo inédito em sua carreira: interpretar uma personagem baiana. Ludmila nasceu na Bahia, mas nunca tinha interpretado alguém de lá. “São muitas memórias escondidas: a infância no interior, as fazendas, as dores e delícias de morar em um lugar como esse”, completa.

Road movie sobre transformações – ou, mais especificamente, sobre o início delas -, A Coleção Invisível, baseado no conto homônimo de Stefan Zweig, foi uma aula para os dois intérpretes. Não apenas em função da “direção delicada” e da “adaptação fluida”, conforme definem Brichta e Ludmila, mas pela própria convivência com Walmor. “Ele disse que eu tinha um desafio em mãos. Mas parecia que ele também tinha. Sempre inteiro, inquieto, querendo acertar tanto quanto eu”, conta Vladimir. Era, segundo Ludmila, um intéprete disponível e encantador: “Ele fazia eu esquecer que estava contracenando com o grande Walmor Chagas. Tinha um sentimento de igualdade”.

Previsto para estrear no circuito comercial brasileiro no dia 6 de setembro, A Coleção Invisível desembarca em Gramado com um novo ânimo. “Nós festejamos muito a vinda para cá. É uma injeção de ânimo estar no festival de cinema mais tradicional do Brasil. Com essa participação, vamos cheios de força para enfrentar os Wolverines da vida quando entrarmos em cartaz”, brincou Vladimir Brichta.

* Texto realizado como cobertura oficial do 41º Festival de Cinema de Gramado para o site do evento