Cinema e Argumento

Amor Pleno

Life’s a dream. In dream, you can’t make mistakes. In dream, you can be whatever you want.

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Direção: Terrence Malick

Roteiro: Terrence Malick

Elenco: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Javier Bardem, Rachel McAdams, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O’Gans, Charles Baker, Marshall Bell, Casey Williams, Jack Hines, Paris Always

To the Wonder, EUA, 2013, Drama, 112 minutos

Sinopse: Um homem (Ben Affleck), descontente com a sua vida, viaja a Paris e inicia uma profunda relação amorosa com uma europeia (Olga Kurylenko). Ele volta para os Estados Unidos e se casa com esta mulher, para ajudá-la a ter a permissão de estadia americana. Mas após o casamento, a relação dos dois se degrada. Neste momento, ele encontra uma antiga namorada (Rachel McAdams), com quem inicia um novo romance. (Adoro Cinema)

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Ter estilo é para poucos. Mais difícil ainda é criar um e ser celebrado por ele. Quentin Tarantino tem. Pedro Almodóvar também. Só que nem todos conseguem adotar um estilo e alcançar 100% de aproveitamento sempre. O próprio Almodóvar já se repetiu de forma pouco interessante (caso de Abraços Partidos, um filme preguiçoso). E é exatamente nessa armadilha de reciclagem de estilo que o diretor Terrence Malick cai em Amor Pleno, produção que marca o espaço mais curto de tempo entre dois de seus trabalhos (normalmente, esperam-se no mínimo quatro anos). Este lançamento está apenas um ano na frente de A Árvore da Vida, que dividiu opiniões mas que foi celebrado mundialmente, da Palma de Ouro em Cannes até a indicações ao Oscar – incluindo a de melhor direção para Malick. Talvez entusiasmado com tamanha repercussão, o diretor tenha tentado reproduzir tudo desse longa em Amor Pleno. O resultado, no entanto, é uma versão menor e mais desinteressante de A Árvore da Vida – filme que, para o escriba que vos fala, já não era lá tão empolgante.

O que mina a aceitação de Amor Pleno é a falta de novidades, já que, aqui, pouco se cria. Tal repetição poderia ser interessante futuramente, mas não agora, quando A Árvore da Vida foi realizado há tão pouco tempo. Por estar tão próximo deste longa, o novo trabalho de Malick é duplamente cansativo – e isso não se refere apenas ao ritmo pausado, mas a própria insistência do diretor em querer ser contemplativo durante cada minuto da projeção. Por isso, prepare-se: novamente vamos ter pessoas girando incansavelmente entre árvores, folhas caindo, muitas correntezas, vento movimentando cabelos, e por aí vai… Se você foi um daqueles que se sentiu incomodado com isso em A Árvore da Vida, não pense duas vezes: passe longe de Amor Pleno, longa onde a reciclagem é acentuada e excessiva – mas também com uma história menos complexa e com atores que não chegam a instigar. Também pudera: os diálogos são praticamente inexistentes, onde o protagonista entra mudo e sai calado e tudo é construído por meio de breves narrações em off. Eles só precisam girar, correr e se abraçar…

Amor Pleno, claro, é muito bonito. Até porque se, nessa repetição, não fosse certeiro aí seria mesmo de cortar os pulsos. Temos novamente a parceria com o brilhante Emmanuel Lubezki (e o resultado, óbvio, é espetacular), uma bela trilha sonora (sai Alexandre Desplat, entra o igualmente competente Hanan Townshend) e imagens de encher os olhos. Fora os elementos técnicos, outro ponto interessantíssimo do filme é a storyline do personagem vivido por Javier Bardem. Como um padre em plena crise espiritual, seu papel se destaca por duas razões: primeiro porque seus dilemas são, de fato, interessantes (e aqui sim o tom contemplativo é aplicado efetivamente), e segundo porque Javier é um grande ator, cujas expressões por si só já tornam o personagem atraente. Ele quase nos faz esquecer que sua história está quase deslocada e avulsa diante de todo o conjunto. Ainda em relação à história, para um filme que deseja falar de relacionamentos, falta coração em Amor Pleno, que é frio e seco. Sentimos o visual, mas não a história.

Cansativo e restrito em sua totalidade (seja pelo ritmo da trama ou pelo exaustivo jogo de imagens), Amor Pleno é um exercício acomodado que não precisava existir – o que se reflete na sua própria recepção: até mesmo alguns entusiastas de A Árvore da Vida desaprovaram essa mais recente investida de Terrence Malick. Sem falar, ainda, do fracasso de bilheteria e de um suposto processo de investidores que querem de volta o dinheiro. Para 2014, o diretor tem nada menos que mais três (!) projetos: Knight of Cups, com Christian Bale e Natalie Portman, já em pós-produção; Voyage of Time, com Brad Pitt e Emma Thompson, também em finalização; e um projeto ainda sem título, que reúne um elenco simplesmente absurdo: Ryan Gosling, Cate Blanchett, Michael Fassbender, Rooney Mara, etc. Que todos esses projetos devolvam a fé por Malick e que não sejam, como esse Amor Pleno, um projeto monótono e deveras pretensioso.

FILME: 5.5

2*

TOP 10: Bette Davis

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Talvez Bette Davis tenha sido atriz de um papel só. Mesmo quando não interpretava personagens inegavelmente maldosas, como a Regina Giddens, de Pérfida, ou a própria Baby Jane, de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, ela sempre tinha em seu currículo mulheres de temperamento forte e gênio difícil, marca que esteve presente até os últimos anos de sua carreira (lembro particularmente de Baleias de Agosto, onde Bette, já velhinha, interpretava uma senhora cega e mal humorada). Só que o mais impressionante é que ela nunca deixou a sensação de que estava se repetindo. Sempre inspirada e afiada, a atriz teve uma carreira repleta de personagens marcantes e filmes que, cada um ao seu modo, marcaram época. Bette deu adeus à vida em 1989, quando perdeu uma luta contra o câncer de mama. Fora as figuras icônicas que deixou para o cinema, a atriz, em seus últimos anos, ainda escolheu uma sucessora: Meryl Streep, para quem escreveu uma carta dando seu aval de admiração pela até então iniciante. Assim, não à toa, as duas melhores atrizes que o cinema já viu compartilham as mesmas qualidades: talento e humildade. Por isso, elencar as melhores interpretações de Bette Davis não foi uma tarefa fácil – em qualquer sentido. Torço para que a listagem abaixo faça um bom balanço do que foi a carreira dessa intérprete incomparável…

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1. O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (1962): Já disseram que é um momento decadente de Bette Davis e que ela se perdeu em papeis excessivamente bizarros como esse no final de sua carreira. E não é que eu acho justamente o contrário? Sua Baby Jane é uma síntese extremada de todos os tipos que ela interpretou na vida. Divertidíssima com seu humor ácido e com uma figura completamente única, a atriz entrega aqui aquele desempenho que, junto ao de A Malvada, é o mais icônico de sua carreira. Claro que sua companheira de tela Joan Crowford tem uma personagem ingrata, mas é praticamente impossível concorrer com a Baby Janes de Davis. Simplesmente genial em todos os seus extremos.

2. A MALVADA (1950): Ao contrário do que o título indica, não é Bette Davis a tal malvada e tampouco a estrela absoluta desse filme de Joseph L. Mankiewicz. Ela divide o protagonismo com a ótima Anne Baxter, mas tem este que é um dos grandes momentos de sua filmografia. Como a estrela Margo Channing, Davis entrega aqui o papel que mais reproduz com sutilezas o seu tipo de mulher ácida e geniosa. Ao contrário de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? – que seria realizado na década seguinte -, em A Malvada, a atriz aposta na na lógica de que menos é mais para criar uma personagem marcante. É uma interpretação irretocável e que felizmente é devidamente apreciada até os dias de hoje.

3. A CARTA (1940): Quando Leslie Crosbie arromba portas disparando várias vezes contra um homem logo na cena que abre A Carta, já podemos notar o quão marcante a protagonista será. Aqui, temos uma perfeita combinação entre um personagem muito bem desenvolvido (impossível não se envolver com as atitudes dissimuladas dela) e uma atuação cheia de grandes momentos de Davis. Com direito às clássicas lágrimas quando se atira em uma cama para lamentar alguma coisa, a atriz tem nesse filme uma de suas personagens mais intensas. E o show não é só dela: o filme de William Wyler também é surpreendente como a sua própria protagonista.

4. VITÓRIA AMARGA (1939): Bette Davis não teve qualquer chance contra Vivien Leigh e o furacão … E o Vento Levou no Oscar, mas que justiça seja feita e todos assistam ao belo trabalho da atriz em Vitória Amarga. Como uma mulher que descobre ter uma doença terminal (ela, pouco a pouco, vai perdendo a visão), Davis consegue, inclusive, estar tocante nesse ótimo filme que, fora a indicação para melhor atriz, foi merecidamente lembrado em várias outras categorias do Oscar. Mais do que isso, Vitória Amarga envolveu as plateias da época, tornando-se o maior sucesso de bilheteria da atriz até aquele ano.

5. VAIDOSA (1944): Quando jovem, Fanny tinha todos os homens aos seus pés. Gostava de aproveitar o que podia de cada um deles, sempre encantando-os com um jeito difícil. Mas logo ela trocava de flerte e dispensava qualquer pretendente com extrema facilidade. Só que o tempo passa e não é nada generoso com Fanny, que, em certo ponto, encontra-se sem muitas opções de matrimônio. Por isso, casa-se, justamente, com um homem que era apaixonado por ela antigamente e que, apesar dos pesares, sobreviveu a sua esnobação. Toda essa transição de Fanny é acompanhado com grande talento por Bette Davis, que não se repete ao longo do filme e que distingue com precisão as diferentes fases de uma mulher repleta de transformações.

6. UMA VIDA ROUBADA (1946): Poucos conhecem esse excelente filme, que tem uma história que viria a ser popularizada no Brasil com a novela Mulheres de Areia: a do conflito entre uma irmã gêmea má e outra boa. A atriz consegue tirar os dois papeis de letra, nunca levando qualquer uma das personagens a extremos. Como  a boa, não a inocenta demais. Como a má, nunca vulgariza a figura, deixando-a apenas como uma pessoa complicada. Por já conhecermos o enredo, os rumos são conhecidos, mas vale a pena apreciar o filme, que tem ótimos momentos e excelentes interpretações de Bette.

7. PÉRFIDA (1941): Regina Giddens é uma das “vilãs” mais marcantes da carreira de Bette Davis. Se o filme em si demora a compreender que é nessa personagem que reside o seu maior mérito (todas as outras figuras são bem desenvolvidas, mas não causam o mesmo encantamento), a atriz faz questão de aproveitar cada minuto que lhe é dedicado. A esposa gananciosa que não mede esforços para conseguir o que deseja financeiramente se destaca particularmente no final, com confrontos pra lá de marcantes (destaque para as cenas com a filha e o marido) e uma resolução totalmente coerente com o que plantou ao longo da história. Se fosse a estrela absoluta de Pérfida, certamente seria ainda mais marcante.

8. PERIGOSA (1935): Com esse filme, veio o primeiro Oscar de Bette Davis – após uma indicação por Escravos do Desejo. Por mais que o resultado não seja lá muito especial, é perfeitamente compreensível a celebração da atriz: aqui, temos aquele tipo de trabalho que já mostra toda a força de uma principiante que se revelava uma das grandes apostas da época. No longa de Alfred E. Green, ela é Joyce Heath, uma atriz com problemas alcoólicos que é colocada em reabilitação mas se mostra ainda mais perigosa nesse processo de “desintoxicação”. Falta algo mais forte no filme, só que Bette compensa tudo, pois já começava a construir o tipo de mulher difícil e geniosa que permearia toda a sua carreira.

9. LÁGRIMAS AMARGAS (1952): Foi um dos últimos papeis de Bette Davis indicado a premiações. E o filme é, de certa forma, uma previsão dos últimos dias da carreira da atriz, que, conforme muitos dizem, entregou-se a papeis estranhos e aparições bizarras. Em Lágrimas Amargas, ela é Margaret Elliot, atriz cuja popularidade e fortuna não estão bem das pernas. Toda ironia e senso de humor de Bette estão presentes nesse papel frequentemente óbvio, mas que dá as devidas chances para a atriz. Posteriormente, ela só viria a ser celebrada com O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

10. JEZEBEL (1938): A primeira parceria com o diretor William Wyler já foi de ouro: por seu papel em Jezebel, Bette ganhou seu segundo Oscar (o primeiro, como já mencionado, foi por Perigosa). Porém, é um tanto incompreensível o entusiasmo: primeiro porque este está longe de ser um dos melhores momentos da atriz e segundo porque Jezebel é um longa que beira o monótono. A proposta, contudo, tinha seus atrativos: uma jovem egocêntrica da aristocracia local provoca o rompimento do seu noivado ao usar um vestido vermelho, em uma época em que as moças deviam usar branco. Apesar de seu antigo noivo se casar com outra mulher, ela continua amando-o. Ela tem a grande chance de lhe provar que realmente deixou de ser uma jovem mimada quando uma peste se abate sobre a cidade.

Obsessão

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Direção: Lee Daniels

Roteiro: Lee Daniels e Pete Dexter, baseado no romance “The Paperboy”, de Pete Dexter

Elenco: Zac Efron, Nicole Kidman, Matthew McConaughey, Macy Gray, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Nealla Gordon, Peter Murnik, Kevin Waterman, Danny Hanemann, Adam Sibley, Gary Clarke

The Paperboy, EUA, 2012, Drama, 107 minutos

Sinopse: Ward (Matthew McConaughey) é jornalista de um grande jornal e precisa retornar para sua pequena cidade para fazer a cobertura da prisão de Hillary Van Wetter (John Cusack), acusado e condenado à morte pelo assassinato do xerife local. Os problemas começam quando Jack (Zac Efron), seu irmão mais novo, começa a se envolver com Charlotte (Nicole Kidman), mulher misteriosa e mais velha, que mantinha contato com o prisioneiro. (Adoro Cinema)

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“Erotizado? É impossível evitar isso se tratando de Zac Efron. A câmera não resiste. E eu sou gay!”, defendeu o diretor Lee Daniels, em uma entrevista após a exibição de seu mais novo longa-metragem, Obsessão, no 65º Festival de Cannes. O diretor rebatia os comentários sobre a excessiva fetichização de Zac no filme em questão, onde o ator volta e meia transita descamisado ou apenas de cueca em cenas que não tinham muita relevância para a trama ou para a contextualização da época.  A justificativa de Lee Daniels para o fato da câmera não resistir ao corpo de Efron só é uma pequena prova da sua total incapacidade de saber discernir o que é fetiche pessoal e o que é dar personalidade a uma obra cinematográfica. E Zac em si é o menor dos problemas: em Obsessão, o diretor quer, a todo custo, mostrar que tem algum estilo. Com isso, ele se descontrola em cenas onde a erotização se confunde com o mau gosto e as rimas visuais só tornam o filme ainda mais sujo e bagunçado.

Já não é lá muito original contar uma trama a partir da narração de alguém relembrando o passado. Essa ferramenta raramente amplia a dramaticidade da história e é frequentemente mal conduzida, sendo esquecida ao longo do filme ou inconveniente ao verbalizar situações e sentimentos que ficariam melhores no silêncio ou na subjetividade. Obsessão é mais um caso onde a narração não serve para nada. E ela também não ajuda o espectador a descobrir sobre o que é o filme roteirizado por Lee Daniels e Pete Dexter (com base no livro homônimo do segundo). Quando começa, dá a impressão de ser sobre o dia-a-dia e as descobertas de um adolescente com hormônios em ebulição (Jack, vivido por Efron). Minutos depois, apresenta uma trama de investigação envolvendo um crime mal resolvido. Logo, preocupa-se mais em mostrar as loucuras da excêntrica Charlotte (Nicole Kidman). E, finalmente, no meio disso tudo, faz um rascunho do racismo na década de 1960, traz pitadas de dramas familiares e desenvolve a paixonite de Jack por Charlotte. Obsessão, porém, é ineficiente em todas as suas investidas. O roteiro atira para todos os lados e não acerta em nada, sendo sempre muito superficial e bagunçado.

Digamos que o roteiro pode até ter grande parcela de culpa nesse caráter inconstante e disléxico de Obsessão, mas nada se compara ao pavoroso trabalho de Lee Daniels como diretor. Se Tom Ford fez um belo trabalho ao homoerotizar Direito de Amar com elegância e sutileza, Daniels, em contrapartida, já se mostra completamente incapaz de fazer o mesmo – ou de ser, no mínimo, apenas previsível. O sexo é sempre sujo – em Preciosa – Uma História de Esperança fazia sentido, aqui não – e a história parece apenas um pretexto para que o diretor explore suas fantasias técnicas e sexuais. Pelo menos dois momentos marcam essas terríveis investidas de Daniels. Primeiro, a cena em que Nicole Kidman se masturba na frente de quatro homens para satisfazer o seu “namorado” que está preso e não pode ter qualquer contato físico com ela. Marca porque não é uma cena que apenas sugere: ela faz questão de mostrar pequenos detalhes sórdidos, como Matthew McConaughey, por exemplo, ajeitando a calça para esconder sua ereção. Segundo, a já famosa cena da praia, onde Zac Efron, após ser queimado por várias águas-vivas no mar, é milagrosamente salvo pela urina de Nicole Kidman que é colocada em contato com o seu corpo. O mais preocupante no segundo exemplo é como o momento não diz absolutamente nada: é um devaneio avulso do diretor.

Trazendo e retomando personagens quando bem entende sem qualquer preocupação com uma continuidade, Obsessão falha até em fazer o retrato de um local e de uma época. Como é a cidade onde o filme é passado? Qual o perfil da população? Quais são os hábitos daquela época? Como se dá a tão comentada profissão de jornalista? Mas se o filme não consegue nem se decidir sobre o que vai contar ao longo de toda a sua cansativa duração, como podemos exigir que ele faça um recorte como esse? Tão preocupado em desenvolver mais seus cacoetes do que uma história propriamente dita, o roteiro de Daniels e Dexter, muitas vezes, ainda chega a brincar com o bom senso do espectador: é particularmente absurdo o momento em que um personagem, após a salvar a vida de seu irmão que acabara de ser torturado (incluindo com um rosto mutilado), resolve transar, na cena seguinte, com a maior facilidade, alegria e excitação, anulando completamente o choque, as lágrimas e o trauma de segundos antes.

O que existe de melhor em Obsessão é, sem dúvida, a presença de Nicole Kidman. A atriz, que, possivelmente, nunca esteve tão linda no cinema, é o destaque do longa com a personagem que construiu, seja pelo visual estonteante, pelo discreto sotaque ou por todas as suas excentricidades. Mas arrisco a dizer que ela não vai além dessa composição curiosa, inclusive porque o filme não lhe dá muitas chances com uma personagem que oscila entre extremos de relevância e não tem tantas variações. Dentro das limitações, entretanto, ela se sai bem. Quanto ao resto do elenco: continuo colocando fé em Zac Efron, ator que ainda precisa provar ser mais que um rosto bonito, mas que já é melhor que um Robert Pattinson da vida; John Cusack, achando que estar descabelado é sinônimo de parecer louco, está exagerado e aparece pouco para conseguir fazer um trabalho melhor; e Matthew McConaughey tem um personagem tão bagunçado que nem dá para avaliar muito bem sua performance. Só que a culpa toda mesmo é de Lee Daniels, diretor que precisa urgentemente rever seus conceitos sobre como desenvolver uma trama – o que está bem resumido no desfecho de Obsessão: com o cafona barquinho que se distancia da câmera em um rio com a luz do pôr-do sol ao fundo, já nem sabemos mais o que foi encerrado… A não ser, claro, a nossa tortura de ver um filme tão perdido.

FILME: 3.0

1

Na TV… Political Animals

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Popular promotor estadunidense, Peter Florrick (Chris Noth) tem sua vida colocada de pernas pro ar quando os casos que mantinha com prostitutas vêm à tona. A esposa, Alicia (Julianna Margulies), fica devastada, mas permanece ao lado do marido – seja pelos filhos ou pelas aparências de uma difícil vida política. Só que Alicia não fica imóvel: a princípio, resolve retomar a carreira de advogada depois de anos para ajudar a família, conseguindo, assim, redescobrir-se em diversos aspectos. Essa é a trama de The Good Wife, seriado do canal CBS que também ganhou vários simpatizantes no Brasil. E mais ou menos assim também é Political Animals, minissérie sobre Elaine Barrish (Sigourney Weaver), esposa de um presidente que desiste de aceitar as traições do marido presidente e resolve entrar profissionalmente no universo político.

Resumo da ópera: para quem é ligado em TV, Political Animals não traz nada de novo em termos de originalidade. Impossível não lembrar de outros programas – o que, nos episódios iniciais, traz uma forte desconfiança e falta de fé. Isso porque a minissérie estrelada por Sigourney Weaver tem todas as características de uma dramaturgia de TV aberta: a política é extremamente simplificada, os dramas familiares já são conhecidos, a trilha sonora é constante para acentuar o drama e os diálogos explicativos são essenciais quando a história dá sinais de qualquer complexidade. Também pudera, o criador de Political Animals é Greg Berlanti, produtor executivo de todos os episódios da série Brothers & Sisters, envolvente novelão de dramas familiares com subtramas políticas que tinha basicamente essas mesmas características.

Se, em suas três primeiras temporadas, Brothers & Sisters era clichê de alta qualidade (sucumbindo ao enjoativo nos anos posteriores), podemos dizer que Political Animals tem essa mesma dose de previsibilidade envolvente ao longo de seus seis episódios. Começa quase mal, não ajustando muito bem seus estereótipos: da protagonista que transborda justiça à jornalista que faz questão de trazer todos os idealismos utópicos de uma carreira nessa profissão, a minissérie custa a se desenvencilhar do forçado – e, nisso, encaixam-se as próprias atuações de Sigourney Weaver no papel principal e de Ellen Burstyn, como a mãe beberrona e desbocada. Outro problema é que é meio difícil acreditar que uma personagem tão inteligente como a protagonista tenha se casado com um homem tão canastrão e canalha (o que se acentua no péssimo desempenho de Ciarán Hinds) e perdido um importante cargo político para um profissional tão apático.

Political Animals é, assim, um programa para se assistir desarmado. Não dá para aproveitá-lo esperando algo inteligente, um olhar complexo sobre a política ou uma discussão reveladora sobre o mundo jornalístico. Com esse olhar, a minissérie – que concorre em importantes categorias do Emmy 2013 (minissérie, atriz, atriz coadjuvante e elenco) -, tem vários atrativos que se estendem não só ao bom desempenho de Sigourney Weaver mas à própria forma convencional com que o enredo se desenvolve. Entrando no clima, dá para curtir, pois a série logo pega ritmo e acostuma o espectador com suas previsibilidades e fragilidades. E, de vez em quando, é bom assistir algo mais leve e despretensioso… Principalmente quando a TV está tão carente de uma opção como essa.

Inicialmente planejada como uma minissérie, Political Animals, durante seu desenvolvimento, quase se tornou uma série de verdade, com planos para uma possível segunda temporada. Potencial para isso o programa tinha (desde que desse continuidade aos clichês com a mesma naturalidade), mas a audiência não correspondeu mesmo com críticas generosas e importantes nomes no elenco (além de Weaver e Burstyn, um episódio ainda conta com a presença de Vanessa Redgrave). A USA Network resolveu cancelar o programa de vez, e essa indecisão infelizmente se reflete no próprio resultado: o último episódio termina e parece que Political Animals não tem uma unidade. Não que todas as histórias fiquem incompletas, mas sabemos que a jornada da protagonista Elaine Barrish não terminou ali.

[7.5] 1X01 – Pilot [7.5] 1X02 – Second Time Around [8.0] 1X03 – The Woman Problem [8.0] 1X04 – Lost Boys [8.0] 1X05 – 16 Hours [8.0] 1X06 – Resignation Day

Três atores, três filmes… com Rubens Ewald Filho (primeira parte)

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Essa foto ao lado foi tirada em 2011, quando participei do 39º Festival de Cinema de Gramado. Era a primeira vez que eu encontrava pessoalmente o Rubens Ewald Filho, um cara que fez parte da minha formação cinéfila e que sempre foi uma das minhas grandes referências em cinema. Não sabia naquela época que, posteriormente, eu viria, de certa forma, a trabalhar junto com o Rubens, na organização do próprio Festival de Cinema de Gramado – onde ele, desde o ano passado, assumiu a curadoria dos longas-metragens em competição ao lado de José Wilker e Marcos Santuario. Agora, com esse contato mais próximo, resolvi convidá-lo para o Três atores, três filmes. Ele aceitou o convite prontamente, mas com uma condição: que essa sua participação fosse dividida em duas partes. O motivo? Rubens quis mais tempo para pensar nas interpretações e também para produzir as justificativas. De qualquer forma, temos, abaixo, as duas primeiras escolhas dele, cujas atuações vêm de um mesmo filme: Song for Marion, de 2012. As escolhas me surpreenderam não apenas porque vieram de um longa recente e praticamente desconhecido mas porque me entusiasmaram completamente a procurar tal obra. Alguém aí já conferiu o filme para assinar embaixo dos comentários?

Vanessa Redgrave e Terence Stamp (Song for Marion)

Na internet, descobri, por acaso, um filme que tinha ouvido falar apenas de passagem: Song for Marion (também conhecido como Unfinished Song na Inglaterra). E é coisa rara! Passei o filme todo fungando sem conseguir conter as lágrimas. Podemos creditar também o fato de que ficamos mais sentimentais quando envelhecemos… Ainda mais quando já perdemos os pais, a mãe em particular. Mas chorei, confesso, por admiração. Que atriz maravilhosa é a Vanessa Redgrave! Sou fã dela desde quando a vi muito tempo atrás, no começo da minha carreira, com Blow Up, de Antonioni, onde tinha um jeito de Greta Garbo. Mas era apenas uma impressão já que não podia supor que ela fosse um camaleão, capaz de se transformar e de virar mil e uma coisas, desde a lendária Isadora Duncan até a tenista Renée Richards, no telefilme Second Serve, de 1986 (o maior tour de force que já vi: ela começa como homem vestido de mulher, travesti, depois vira transexual e consegue ser convincente o tempo todo). Felizmente, conheço-a pessoalmente e descobri que é completamente louca. Só que no melhor sentido da palavra. Uma pessoa que faz um mergulho tão profundo dentro de sua própria alma e dos mistérios do ser humano não pode voltar ilesa!

Nos últimos anos, Vanessa voltou a se unir ao antigo namorado Franco Nero, que a ajudou a suportar a perda, em um curto período, da filha Natasha Richardson, da irmã Lynn e do irmão Corin. O sofrimento está estampado no seu rosto neste em Song for Marion, onde faz uma senhora que sofre de câncer mas enfrenta a doença para poder cantar no coral de idosos de seu bairro. É uma interpretação incrível… Toda sensibilidade e doçura está visível nos mínimos detalhes, sem nenhum pudor em se expor. Ela compartilha tudo com o hoje maduro e ainda melhor Terence Stamp, que interpreta o marido duro e caladão. Stamp, lendário astro de Teorema e Histórias Extraordinárias, de Fellini, é adepto de outra linha de interpretação que eu admiro: faz o menos possível, com tudo interiorizado em seus olhos. E consegue o máximo efeito, até mesmo revelando uma voz especial no final do filme. Acho muito interessante o carinho que a gente tem por aqueles com que a gente envelheceu junto. O casal era lindo e hoje são velhos. Mas não perderam nada de seu charme, carisma, talento e, por que não, beleza.