Cinema e Argumento

Othon Bastos, o representante de uma classe

Foto: Edison Vara/PressPhoto

Foto: Edison Vara/PressPhoto

Othon Bastos não veio a Gramado para falar sobre ele mesmo. O ator, que recebe o Kikito de Cristal nesta sexta-feira (16), quer dar um outro significado a essa importante distinção entregue a expoentes do cinema latino-americano. “Esse é um prêmio para o ator. Sou apenas o representante de uma classe. É lindo receber o Kikito de Cristal, mas não é para mim. É para todos os atores excepcionais do cinema brasileiro”, indica.

Entre curtas, longas e narrações, Othon Bastos já atuou em 75 produções e, em entrevista ao 41º Festival de Cinema de Gramado, revela que, quando pensa em festivais, imediatamente lembra de Gramado. “É o evento cinematográfico de maior charme do Brasil. Existe um colegiado, uma energia bonita, algo forte. Que ele nunca perca essa força e carinho”, diz o ator, que também comemora o acalanto do público: “A temperatura é fria, mas aí é que fica bonito: o calor humano desse festival quebra qualquer gelo”.

Sobre seus trabalhos favoritos, Othon cita São Bernardo, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Os Deuses e os Mortos e Sermões, mas, quando perguntado sobre suas maiores referências entre atores e diretores, prefere não listar para não cometer injustiças. Isso se deve ao fato de que, para ele, o cinema brasileiro está em constante mudança, sempre com novos nomes promissores que merecem reconhecimento.

Ainda sobre o cinema realizado em nosso país, o homenageado do Kikito de Cristal se mostra entusiasmado com a produção contemporânea. Relembrando os difíceis tempos do audiovisual na era Collor, Othon agora não esconde o entusiasmo com as produções brasileiras: “Estamos voltando a ter a mesma força. Antes estávamos engatinhando, agora já alcançamos a adolescência. E o melhor de tudo: o cinema no Brasil está descentralizado. Filmes são feitos em todos os estados. Isso é lindo!”.

Finalizando, o ator já adianta o que poderemos ver em seu discurso amanhã. “Não vou me vangloriar, ficar dizendo ‘obrigado, meu Deus, que maravilha’, para depois deixar o prêmio na estante. Não. Vou ser sucinto. Estou recebendo uma alma, um coração. E certamente não seria possível sem todos os outros atores com quem trabalhei. Esse prêmio é meu e deles”, reforça o homenageado. A entrega do Kikito de Cristal acontece na sexta-feira, às 21h30, no Palácio dos Festivais.

* Texto realizado como cobertura oficial do 41º Festival de Cinema de Gramado para o site do evento

41º Festival de Cinema de Gramado: Os Amigos, de Lina Chamie

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Uma águia vive, em média, 70 anos. Quando chega aos 40, renova o bico e as asas, preparando-se, de certa forma, para viver os 30 anos restantes. Isso se aplica ao protagonista de Os Amigos que, como bem explica um personagem coadjuvante, pode estar muito bem entrando nessa mesma fase. O tal sujeito em transformação é Theo (Marco Ricca), arquiteto que que parece estar chegando aos 40 anos da águia. Essa transição de sua vida fica mais evidente no dia em que ele precisa, pela manhã, ir ao velório de um amigo de infância – o que vai lhe trazer muitas reflexões e lembranças ao longo dessas próximas horas cinzentas e chuvosas. Lembrando uma conhecida proposta que já vimos em longas como As Horas, Os Amigos narra, assim, um único dia na vida de um homem. E, nesse dia, toda a sua vida.

Para começo de conversa, já se deve salientar que o novo trabalho da diretora Lina Chamie (que dirigiu filmes como A Via Láctea, selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes, em 2007) nunca abraça por completo um determinado perfil. Não tão complexo quanto deveria ser mas também nada necessariamente superficial para classificar como esquecível, Os Amigos opta frequentemente por inventividades (como as crianças encenando a mitologia de Ulisses no teatro) para logo depois se apoiar em dramas mais convencionais. Em certos casos, alcançar um meio termo é saudável, mas, aqui, essa história em cima do muro deixa o filme sempre no quase.

Muito em função de suas variações de intensidade, Os Amigos não só perde a chance de ser marcante como também de ser um belo estudo sobre as amizades como a família que escolhemos. Mas o filme tem sua sensibilidade – e não reconhecê-la é no mínimo uma injustiça com o perceptível carinho com que a diretora realizou essa obra. Tem sensibilidade especialmente porque é fácil gostar do protagonista, consequência direta do ótimo desempenho de Marco Ricca, um ator que não chega a trazer entusiasmo mas que nesse filme tem uma bela chance. É difícil lembrar outro momento seu em que esteve tão bem, conseguindo misturar com naturalidade a humanidade, a melancolia e o pessimismo de um protagonista.

Ricca tem suas chances porque Os Amigos se revela um filme mais sobre seu personagem do que sobre as amizades que ele estabelece. É sobre suas angústias, questionamentos e frustrações. O elenco de suporte ainda é um destaque, mais pelos rostos conhecidos do que necessariamente por chances particulares. Com exceção de Dira Paes (que é sempre bem-vinda e tem sua importância no enredo), outros aparecem apenas para dar o ar da graça, como Sandra Corveloni, Alice Braga e Caio Blat. Todos esses personagens estão em uma São Paulo exatamente como ela é: trânsito caótico, constante movimento, arquiteturas grandiosas… E ainda uma certa dose de isolamento no meio de tanto fluxo.

Se fosse um estudo específico de seu protagonista, Os Amigos ganharia mais. O que acontece é que vários elementos elementos esporádicos não chegam a acrescentar muito para a trama apesar das tentativas, com destaque para aqueles que envolvem o elenco infantil. A encenação da odisseia de Ulisses em um teatro e outros diálogos com os atores mirins são um tanto inconvincentes porque é difícil acreditar que pessoas tão novas possam fazer comparações e metáforas adultas. Ainda em relação as crianças, uma cena em particular perde a chance de ter sua devida dose de emoção em função da insistência em mostrar o protagonista se vendo criança: aquela em que Theo reencontra o amigo no reflexo do espelho, dizendo que sente muito a sua falta.

Os Amigos é, enfim, uma história que tem seus momentos (as reflexões e os questionamentos desse homem solitário em uma grande metrópole nunca soam forçados) e que conta com um ótimo protagonista, mas faltou uma pegada, uma decisão de escolher ser totalmente complexo ou definitivamente mais leve. Esse impasse não liquida os méritos de Os Amigos e muito menos impede o filme de ter o seu público. No entanto, para todos os efeitos, o título indicava algo diferente… Talvez mais saudosista e nostálgico? No que vimos, tivemos apenas um bom retrato de um homem de meia-idade em busca de si mesmo.

FILME: 7.5

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* Filme conferido no 41º Festival de Cinema de Gramado

Kleber Mendonça Filho: “Ainda não inventaram o chip do talento”

Foto: Itamar Aguiar/PressPhoto

Foto: Itamar Aguiar/PressPhoto

Para Kleber Mendonça Filho, hoje qualquer pessoa com um iPhone pode gravar um curta-metragem com qualidade de imagem para uma boa exibição no Palácio dos Festivais, por exemplo. No entanto, o diretor premiado em 2012 no Festival de Cinema de Gramado e jurado de longas-metragens brasileiros na edição deste ano, diz que ainda não inventaram o mais importante: o chip do talento. “Eu não faria o que faço hoje se não tivesse praticado e errado desde que comecei a fazer curtas na década de 1990. A ideia é não desistir, fazer, aprender, e não se guardar até o momento em que você acha já estar pronto”, comenta o diretor em entrevista ao Festival de Cinema de Gramado.

Presente na edição passada com o longa-metragem O Som ao Redor – que saiu de Gramado para o mundo com menções até mesmo na lista de melhores do ano do The New York Times -, Kleber Mendonça Filho marca presença mais uma vez no evento como jurado da categoria de longas brasileiros. A experiência, segundo ele, é completamente diferente. “Se você vai com um filme a um festival, existem várias preocupações, por mais que você queira se divertir. Você se preocupa com a exibição, com a coletiva, com a recepção. No meu caso, tive a felicidade de ter uma boa passagem por Gramado no ano passado”, conta Kleber.

Ao avaliar os longas em competição, o pernambucano conta que, quando assiste a um filme, prefere achar que é um espectador comum – mesmo adaptando suas preferências e o contexto de cada filme em questão. “O cinema tem uma base técnica que não podemos ignorar. E cada filme é uma nova experiência, uma nova curiosidade”, explica Kleber, que trabalhou com crítica de cinema após se formar em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco. Ainda que jurado do 41º Festival de Cinema de Gramado, ele, que abandonou o trabalho de crítico para se dedicar exclusivamente à realização de filmes, confessa não se arrepender da escolha: “Eu descobri algo maravilhoso: não preciso mais ter opinião. Não preciso pensar agora no filme. Pode ser amanhã. Fazendo cinema ao mesmo tempo em que produzia críticas, cheguei a um grande nível de exaustão com a escrita. No final das contas, tinha virado uma máquina de opinião para vários veículos que eu colaborava”.

Com dois projetos em andamento, Kleber Mendonça Filho volta a filmar em 2014, mas, antes de ir para um set, é minucioso no seu processo de criação. “Não posso fazer um filme com pesar, achando que será cansativo fazer uma cena ou conduzir um ator. Quando escrevo um roteiro, tenho que pensar que vou gostar de filmar cada cena. Por isso levo tempo nesse processo”, conta. Sobre os trabalhos de sua filmografia, ele – que antes de 2012 e 2013 já havia marcado presença em Gramado para cinco edições do evento como crítico -, destaca o reconhecimento que teve com O Som ao Redor, longa que considera muito especial: “Foi um período enriquecedor. Fazer esse longa trouxe um grande trabalho de escrita, discussão, planejamento e execução”.

Quanto ao tipo de cinema que lhe interessa? Bom, para Kleber, o melhor não se relaciona em nada com grandes dimensões tecnológicas ou estrelismos de elenco. “Hoje, podemos acompanhar no Brasil uma nova geração que aposta em uma pequena escala de produção. Mas não é por a escala ser pequena que o resultado também será. É esse cinema que me interessa. Fiz O Som ao Redor, filme que muitos consideram ‘pequeno’, pensando mais ou menos por essa lógica. O que interessa é querer fazer”. Valorizando, claro, a tecnologia, mas nunca a colocando como principal elemento de um filme, Kleber Mendonça Filho volta ao Festival de Cinema de Gramado reafirmando que, de fato, o chip do talento não se inventa em massa. Alguns simplesmente o têm. E ele é certamente um deles.

* Texto realizado como cobertura oficial do 41º Festival de Cinema de Gramado para o site do evento

Flores Raras

Lose something every day.

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Direção: Bruno Barreto

Roteiro: Carolina Kotscho, Julie Sayres e Matthew Chapman, baseado no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Lucia de Oliveira

Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Treat Williams, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Anna Bella, Marcio Ehrlich, Griffin Addison

Brasil, 2013, Drama, 118 minutos

Sinopse: A história de amor entre Elisabeth Bishop (poeta americana vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956) e Lota de Macedo Soares (“arquiteta” carioca que idealizou e supervisionou a construção do Parque do Flamengo). Ambientado no Brasil dos anos 50 e 60, quando a Bossa Nova explodia e Brasília era construída e inaugurada, o longa acompanha a história dessas duas grandes mulheres e suas trajetórias inversas.

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As armadilhas envolvendo Flores Raras não eram poucas. Além de contar uma história de amor entre duas mulheres (alguém lembra do tema ser tratado com a devida dignidade pelo cinema nacional?), o filme de Bruno Barreto também é baseado em figuras reais – sendo uma delas Elizabeth Bishop (Miranda Otto), marcante poeta do século XX. Por isso, era perfeitamente compreensível se o longa ficasse abaixo da média, caísse em estereótipos de uma relação homossexual ou ficasse cansativo ao transpor para o cinema a poesia da nova iorquina. Felizmente, não é o que acontece com Flores Raras, um filme que surpreende pela maturidade e pela sutileza com que desenvolve temas tão complicados com o devido êxito (e, ao contrário do que aparenta, a homossexualidade está longe de ser a principal engrenagem).

Exibido na abertura do 41º Festival de Cinema de Gramado, Flores Raras escapa das armadilhas que tinham tudo para torná-lo um fracasso. No relacionamento entre as duas protagonistas, consegue universalizar o amor. No processo criativo da poeta Bishop, apresenta a obra da escritora com o devido interesse. Só que antes de amor homossexual ou poesia, o filme de Bruno Barreto é sobre duas pessoas desencontradas – e que talvez só tenham acertado os ponteiros no momento em que se apaixonaram. Lota (Glória Pires) e Bishop (Otto) eram de mundos completamente diferentes. Também não tinham as mesmas visões de mundo e se expressavam de maneiras distintas. Ainda faltava sintonia: quando uma dizia sim, a outra apostava no não. Quando a incapacidade de se expressar passava a ser tratada de um lado, de outro isso já não parecia mais importar.

Ao longo de quase duas horas, Flores Raras, então, mostra ao espectador as distintas trajetórias pessoais e profissionais dessas duas mulheres. E toda essa passagem de tempo – que acompanha desde a chegada de Elizabeth ao Brasil, passando por sua adaptação cultural e emotiva, até sua volta para Nova York 20 anos depois – é muito bem pontuada por Barreto. Muito além da maquiagem (não deixem de perceber como o cabelo de Glória pouco a pouco se torna grisalho), é o roteiro que consegue acompanhar com uma excelente dramaticidade os conflitos e as evoluções dessas duas mulheres. Elizabeth e Lota se amavam, mas estavam em constantes mudanças, e quase nunca andavam na mesma linha. Nós absorvemos essa distância das duas, mas também abraçamos o amor “opostos se atraem” delas – que é encenado de forma muito sincera e natural pelas duas atrizes.

Glória Pires, por sinal, consegue superar as barreiras entre o idioma (quase toda a história é falada em inglês) e sua interpretação – o que não é nada fácil, especialmente se considerarmos os últimos intérpretes estrangeiros que saíram de seus países de origem para ganhar a vida em Hollywood (das mais recentes, quem mais vem à cabeça entre as vitoriosas é Marion Cotillard). Porém, o show mesmo é da australiana Miranda Otto, atriz que já atuou em O Senhor dos Anéis e que recentemente finalizou The Homesman, ao lado de Meryl Streep e Tommy Lee Jones. Acertando muito mais do que a mera reprodução de trejeitos e sotaques de Bishop, ela é impecável ao construir uma personagem complexa e difícil. Otto não tem medo de abraçar toda timidez e antipatia da poeta, nunca facilitando sua aceitação para o espectador – e, por isso mesmo, sua trajetória como ser humano e profissional se torna tão natural, recompensadora e emocionante.

Outro achado de Flores Raras é a trilha sonora do brasileiro Marcelo Zarvos (que fez carreira lá fora trabalhando recentemente para a HBO, em Phil Spector, e para a Showtime, no seriado The Big C). Eficiente, a trilha inova por conseguir sublinhar diversos momentos dramáticos do filme sem exagerar ou irritar. E isso merece reconhecimento, pois o cinema brasileiro raramente acerta no uso de trilhas sonoras. Com duas atrizes que se entregam de corpo e alma ao projeto, Flores Raras pode trazer certo desconforto para os brasileiros (por melhor que Glória Pires seja no inglês, é estranho vê-la falando outro idioma), assim como também deve decepcionar um pouco com o final que deveria ser mais mastigado e algumas mudanças que parecem um tanto superficiais (principalmente as de Lota, que repentinamente se torna a frágil e problemática da história). Entretanto, o diretor Bruno Barreto supera tais detalhes e entrega um longa-metragem que, mesmo não sendo necessariamente empolgante, surpreende pelas pequenas escolhas, que vão da sensibilidade com temas difíceis (ainda temos alcoolismo!) à economia de emoções. Escolhas essas que, no final das contas, tornam a experiência mais do que válida.

FILME: 8.0

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* Filme conferido no 41º Festival de Cinema de Gramado

Três atores, três filmes… com Rubens Ewald Filho (segunda parte)

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Nesta segunda parte do Três atores, três filmes, com o Rubens Ewald Filho, ele mais uma vez surpreendeu. Se, na postagem passada, Rubens escolheu duas interpretações de um mesmo filme praticamente desconhecido, agora ele resolveu fazer uma análise de um tipo pouco reconhecido pelo cinema: o das mocinhas. Ou melhor, o das ingênuas. Muitas são os vilões que conhecemos e que são celebrados pelo cinema… Mas quem são aqueles intérpretes que realmente sabem fazer uma pessoa de boa índole e ainda assim surpreender? No comentário abaixo, Rubens fala um pouco sobre isso e ainda define a sua maior queridinha quando esse assunto vira pauta. Mais uma vez, agradecemos a presença dele aqui no blog!

Nunca entendi porque a crítica – e, por vezes, o próprio público – confunde personagem com ator. Até hoje mesmo em novelas é muito comum o ator ser chamado pelo nome do personagem e não o dele. E o sistema de colocar as identificações todas rápidas e sem foto em nada ajuda. Antigamente, com freqüência, os trailers identificavam os nomes e hoje somos obrigados a recorrer às revistas de fãs ou fofocas para reconhecê-los. Tem uma hora que todos ficam com a mesma cara, em particular as meninas. E, quando uma delas consegue ter um tipo mais marcante (como Juliana Paes), é um milagre. Por isso, não se criam estrelas e, hoje, os verdadeiros astros da TV estão com 60 anos, velhos demais para serem galãs. Mas onde estão os de 40 para substituí-los, tanto homens quanto mulheres?

Bom, não é problema nosso. Viemos falar de cinema e louvar os coitados que tem a infelicidade de fazer papeis de ingênuos, mocinhos e mocinhas, heroínas e galãs. Todo mundo do meio sabe que nada melhor do que ser vilão: são personagens mais ricos, mais cheio de nuances e de altos e baixos, e muito mais difíceis de esquecer do que alguém que está ali porque é bonitinho. São tantos os nomes que se tornaram inesquecíveis como vilões (Vincent Price, Boris Karloff, Bela Lugosi, Christopher Walken) ou mulheres fatais (Marlene Dietrich, Hedy Lamarr, Bette Davis, Joan Crawford). E todos com maior longevidade de carreira. Mas o que você pode fazer com uma ingênua quando ela envelhece? No máximo fazer papel de mãe, tia ou futuramente de avó. Outra chatice total. Pode render surpresas (como a ingênua Shirley Jones, que levou um Oscar injusto por Entre Deus e o Pecado só porque fez papel de prostituta!) ou aposentadoria precoce.

Sempre tive um fraco, porém, pelas “girls next door” – fruto, sem dúvida, da minha juventude reprimida. Atrizes como Sandra Dee, Piper Laurie, Pat Crowley, Jane Powell, Diane Baker, a atlética Esther Williams (com quem me identificava porque era também nadador), Terry Moore, Natalie Wood, Pier Angeli (ainda que algumas como esta tivessem “o diabo no corpo” como se dizia antigamente) tiveram esse problema: não conseguiram se livrar do tipo e tiveram que recorrer a outras saídas. Sandra Dee se aposentou, se tornou alcoólatra e destruiu sua vida traumatizada por ter sido violentada quando criança pela padrasto. Diane foi para a TV, Esther vender piscinas, Piper foi procurar papeis bons em teleteatros…

Mas nenhuma delas resiste tanto tempo quando a minha favorita foi e continua a ser, por fidelidade, Debbie Reynolds. Não pensem que ela deve tudo a Cantando na Chuva – até porque esse filme só foi reconhecido e descoberto décadas depois de ter sido lançado. Antes, era apenas mais um musical da Metro e pronto. Debbie não era dançarina nem cantora. Mera ginasta. Mas começou com 17 anos, passou a estudar e aprender. Tinha uma notável energia e concentração que se tornaram sua marca registrada. Essa personalidade, que, com o tempo, floresceria em um incrível senso de humor e autocrítica, seria a base para transmitir na tela a irresistível graça de Tammy, a Flor do Pântano (ela teve dois discos de ouro pelos sucessos de Abba Daba Honey Moon e do tema musical de Tammy). Mas seu maior êxito foi na vida real, quando enfrentou um marido (Eddie Fisher) que a deixou por Elizabeth Taylor, com quem teve dois filhos pequenos. Depois, dois outros maridos que roubaram tudo que ela tinha e fizeram falir inclusive um cassino!

Mas Debbie não desistiu e se tornou realmente unsinkable, “inafundável”, como a sua personagem Molly Brown, que escapou do naufrágio do Titanic no filme A Indomável Molly, de 1964, que lhe deu sua única indicação ao Oscar. Se gostava dela criança é porque suspeitava que ela tinha dentro de si essa força de vida que me serviu de lição também na minha própria experiência. Como Debbie, há poucos anos fui roubado por um parente que fugiu com meu dinheiro e causou uma crise em família, que praticamente acabou. Não a crise, a família! Seguido por outra amiga que também fez parecido, usando trapaça para pagar as contas dela. Processar não daria resultado. Fiz como Debbie: enfrentei a situação, estou dando ainda a volta por cima (mais difícil psicologicamente do que na grana). Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo.