Cinema e Argumento

Um intervalo…

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…para colocar a vida em dia, produzir textos e ficar alinhado com o ritmo do blog. Voltamos em alguns dias!

Na coleção… Transamérica

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No papel, a proposta de Transamérica justificaria um filme completamente diferente. Ora, a história dirigida por Duncan Tucker mostra a vida de uma transexual que está prestes a fazer a tão esperada cirurgia de troca de sexo. Solitária e sem qualquer contato com a família, ela descobre ter um filho – fruto de uma única relação sexual com uma mulher na adolescência. O filho está preso por porte de drogas e vive uma vida sem rumo, prostituindo-se para ganhar dinheiro e morando em um apartamento caindo aos pedaços. Ou seja, na teoria, Transamérica tinha tudo para ser um drama pesadíssimo e restrito, mas o que o diretor Duncan Tucker faz é seguir um caminho totalmente diferente: não, ele não deixa de explorar os dramas da protagonista, mas o faz adotando uma abordagem leve e espirituosa.

Esse foi o primeiro longa-metragem de Tucker (até hoje, ele não realizou nenhum outro) e logo de cara o diretor já impressiona com o belo controle que tem sobre a história que ele próprio escreveu. Se o roteiro coloca a densidade esperada de escanteio, isso não quer necessariamente dizer que Transamérica seja superficial. Bem pelo contrário: é exatamente na habilidade de tornar ainda mais especial a jornada de Bree Osbourne (Felicity Huffman) com esse posicionamento que ele surpreende. É na leveza e no bom humor que Tucker fisga o espectador. Assim, é impossível não se envolver com a jornada da protagonista e com cada momento que ela passa na estrada com o jovem Toby (Kevin Zegers, premiado em Cannes como revelação por seu trabalho aqui). Mais do que isso, o filme traz um olhar muito humano sobre a transexualidade (não há espaço para estereótipos ou julgamentos por parte do roteiro) e sobre como nos encontramos com nós mesmos de diferentes maneiras nessa vida.

A condição de Bree é, claro, o que move os acontecimentos de Transamérica, um road movie que compreende por completo o sentido de colocar personagens na estrada. As transformações da protagonista e do jovem Toby durante o tempo que passam juntos são devidamente pontuadas – o que faz com que o espectador sinta e aceite cada evolução ou regressão deles. Prova desse eficiente arco é a questão da cirurgia da protagonista. Inicialmente tratada por ela como o dia que será o mais feliz de sua vida, a cirurgia logo surge como um dos momentos mais tristes do filme. Além disso, todas as figuras coadjuvantes que aparecem na viagem acrescentam algo ao que está sendo contado: do caubói no restaurante aos familiares indesejados mais inevitáveis, Transamérica dá sentido a todos – e, assim como a dupla principal, eles são plenamente condizentes com a vida real.

É recompensador acompanhar a jornada de Bree, especialmente porque Felicity Huffman entrega um desempenho não menos que épico. Remoer o absurdo de ela ter perdido o Oscar para Reese Witherspoon já não é mais válido nessa altura do campeonato, até porque é o trabalho de Huffman que permanece lembrado com o passar dos anos. Fora a impressionante maquiagem e o trabalho corporal, Huffman humaniza a protagonista com um calibre de veterana, transitando com maestria entre o drama e a comédia e criando uma personagem tão querida que chega quase a se tornar parte da nossa família. Bree tem a nossa total torcida e compaixão, o que certamente é fruto do impecável desempenho da atriz. Ela ainda faz uma ótima dupla com o jovem Kevin Zegers, que segura bem o passado traumático e os problemas de um personagem que poderia soar exagerado e inverossímil nas mãos de outro ator. No elenco, Fionulla Flanagan ainda merece destaque como a mãe perua e insuportável que deseja comandar a vida de todos.

Muito além da histórica interpretação de Huffman e do já citado enfoque diferenciado para um tema pesado, Transamérica é, sem qualquer exagero, uma verdadeira lição de vida e respeito. Sempre honesto com os personagens e com a vida de cada um deles, Duncan Tucker mostrou ter um talento inegável como contador de histórias. Pena que, por alguma razão, ele não seguiu carreira. Deveria voltar à ativa, já que fez escolhas pra lá de admiráveis. Entre elas, a de chamar Dolly Parton para criar Travelin’ Thru, a canção-tema do filme (também indicada ao Oscar e finalista do Grammy). Resumindo perfeitamente a proposta da estrada como fator fundamental para a reaproximação dos personagens com a vida e com eles mesmos, a música ainda fala sobre identidade, companheirismo e esperança. Ela é, enfim, uma bela síntese de Transamérica. Outro elemento muito especial de um filme que, com o perdão do comentário clichê, merece ser visto por todos.

FILME: 9.0

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Os filmes em competição do 41º Festival de Cinema de Gramado

Dira Paes e Marco Ricca integram o elenco de "Os Amigos", filme que narra o dia em que um homem precisa ir ao enterro de um amigo de infância.

Dira Paes e Marco Ricca integram o elenco de “Os Amigos”, filme que narra o dia em que um homem precisa ir ao enterro de um amigo de infância.

Foram divulgados, na manhã dessa terça-feira (2), os filmes em competição do 41º Festival de Cinema de Gramado. O evento, que acontece de 9 a 17 de agosto, apresenta quatro mostras competitivas: longas brasileiros, longas estrangeiros, curtas brasileiros e curtas gaúchos (Prêmio Assembleia Legislativa). Entre os longas – cuja curadoria está com José Wilker, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho pelo segundo ano consecutivo -, a seleção reafirma o perfil universal e sem preconceitos adotado desde a edição passada. Na lista, uma animação (Até Que a Sbórnia nos Separe), debuts (A Bruta Flor do Querer, dos curta-metragistas Andradina Azevedo e Dida Andrade), um documentário (Revelando Sebastião Salgado, de Beste de Paula) e até mesmo uma história gay (Tatuagem, sobre um romance homossexual em tempos de ditadura). Nomes como Leandra Leal, Maitê Proença, Dira Paes, Caio Blat, Paulo Cesar Pereio, Domingos Oliveira, Sandra Corveloni e Alice Braga estão nos elencos dos oito filmes brasileiros em competição.

Já a seleção de estrangeiros (aqueles de língua latina) traz seis longas, históricos em sua maioria. Por isso, a expectativa fica com Cazando Luciérnagas, da Colômbia, que conta a jornada de Manrique, homem encarregado de supervisionar os resquícios de abandonadas minas de sal no meio de um árido ponto perto do oceano. Nesse emprego, ele encontrou uma desculpa para se isolar de um mundo com o qual não se importa. Entretanto, a aparição extraordinária de um cachorro pedigree que gosta de caçar vagalumes e a inesperada aparição de Valéria, sua filha de 12 anos até então desconhecida, darão a esse homem a oportunidade de reencontrar a alegria de viver. Em uma seleção que não inspira tanta curiosidade – justamente por ter um perfil que aposta bastante no documental, esse longa colombiano parece ser o sopro de humanidade em termos de drama na competição. Entre os curtas, é quase impossível prever alguma coisa. A curiosidade fica com Os Filmes Estão VivosO Matador de BagéTomou Café e Esperou, todos com exibições duplas por concorrerem nas mostras de curtas brasileiros e gaúchos. Confira abaixo a lista completa de concorrentes:

LONGAS BRASILEIROS

– A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade
– A Coleção Invisível, de Bernard Attal
– Até Que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra e Ennio Torresan Jr.
– Éden, de Bruno Safadi
– Os Amigos, de Lina Chamie
– Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, de Domingos Oliveira
– Revelando Sebastião Salgado, de Betse de Paula
– Tatuagem, de Hilton Lacerda

LONGAS ESTRANGEIROS

– A Oeste do Fim do Mundo, de Paulo Nascimento – coprodução Brasil/Argentina
– Cazando Luciérnagas, de Roberto Flores Prieto – Colômbia
– El Padre de Gardel, de Ricardo Casas – Uruguai
– Puerta de Hierro: El Exilio de Perón – Argentina
– Repare Bem, de Maria de Medeiros – Portugal
– Venimos de Muy Lejos, de Ricardo Piterbarg – Argentina

CURTAS BRASILEIROS

– A Navalha do Avô, de Pedro Jorge
– A Voz do Poço, de Patrícia Black
– Acalanto, de Arturo Saboia
– Arapuca, de Hélio Villela Nunes
– Arremate, de Rodrigo Luna
– Carregadores de Monte Serratde Cassio Santos e Julio Lucena
– Colostro, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet
– Faroeste: Um Autêntico Wester, de Wesley Rodrigues
– Merda!, de Gilberto Scarpa
– O Matador de Bagé, de Felipe Iesbick
– Os Filmes Estão Vivos, de Fabiano de Souza e Milton do Prado
– Os Irmãos Mai, de Thais Fujinaga
– Pouco Mais de Um Mês, de André de Novais Oliveira
– Sanã, de Marcos Pimentel
– Simulacrum Praecipiti, de Humberto Bassanelli
– Tomou Café e Esperou, de Emiliano Cunha

CURTAS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)

– Armada, de Filipe Ferreira
As Memórias do Vovô, de Cíntia Langie
– Catalogárgula, de Lucas Neris e Luan Salce
– Codinome Beija-Flor, de Higor Rodrigues
Contrato de Amor, de Camilo Rodriguez, Leonor Jiménez e Thais Fernandes
– Ed, de Gabriel Garcia
– Entrevista, de Gabriel Horn
– Férias, de Iuli Gerbase
– Kassandra, de Ulisses da Motta Costa
– L’anime, de Diego Urrutia
– Logo Ali ao Sul, de Marcio Kinzeski
– Notícias Tuas, de Vicente Moreno
– O Matador de Bagé, de Felipe Iesbick
– Os Desconhecidos, de Eduardo Teixeira
– Os Filmes Estão Vivos, de Fabiano de Souza e Milton do Prado
Roda Gigante, de Julia Barth
– Somos Todos Ilhas, de Pedro Martins Karam
– Tomou Café e Esperou, de Emiliano Cunha

Além da Escuridão – Star Trek

The needs of the many outweigh the needs of the one.

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Direção: J.J. Abrams

Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof, baseado na série de TV “Star Trek”

Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Anton Yelchin, Karl Urban, Simon Pegg, Bruce Greenwood, John Cho, Peter Weller, Alice Eve, Noel Clarke, Nazneen Contractor, Amanda Foreman, Jay Scully

Star Trek – Into Darkness, EUA, 2013, Ficção Científica, 132 minutos

Sinopse: Em sua nova missão, a tripulação da nave Enterprise é enviada para um planeta primitivo, que está prestes a ser destruído devido à erupção de um vulcão. Spock (Zachary Quinto) é enviado para dentro do vulcão, onde deve deixar um dispositivo que irá congelar a lava incandescente. Entretanto, problemas inesperados fazem com que ele fique preso dentro do vulcão, sem ter como sair. Para salvá-lo, James T. Kirk (Chris Pine) ordena que a Enterprise saia de seu esconderijo no fundo do mar, o que faz com que a nave seja vista pelos seres primitivos que habitam o planeta. Esta é uma grave violação das regras da Frota Estelar, o que faz com que Kirk perca o comando da nave para o capitão Pike (Bruce Greenwood). A situação muda por completo quando John Harrison (Benedict Cumberbatch), um renegado da Frota Estelar, coordena um ataque a uma biblioteca pública, que oculta uma importante base da organização. Não demora muito para que Kirk seja reconduzido ao posto de capitão da Enterprise e enviado para capturar Harrison em um planetóide dentro do império klingon, que está à beira de uma guerra com a Federação. (Adoro Cinema)

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Se Steven Spierlberg é responsável por grandes clássicos da ficção, J.J. Abrams pode muito bem estar no caminho de ser o sujeito que será a grande referência do gênero no cinema contemporâneo. Sim, o que menos importa na carreira desse nova-iorquino é o que ele fez no superestimado seriado Lost. Abrams achou seu lugar de verdade como realizador no cinema, especialmente quando se envolveu com a adaptação de Star Trek. Existe um mediano Super 8 entre o primeiro filme e, agora, Além da Escuridão – Star Trek, mas todo o talento do diretor para alinhar os principais elementos de uma boa ficção continua intacto. No mesmo nível – se não superior – ao filme anterior, essa continuação traz um inigualável senso de diversão e é aquele tipo de experiência que dá grande fôlego a um cinema blockbusters que cada vez menos surpreende.

O longa de 2009 já havia sido sucesso de crítica e público, desvinculando-se de maiores comparações com a obra original e trazendo um produto de personalidade própria. Por isso mesmo, as expectativas em torno de Além da Escuridão – Star Trek não eram poucas. E elas foram atendidas. Aqui, permanecem os pontos que fizeram do primeiro filme um acerto e outros são ampliados. Isso quer dizer que Star Trek segue pegando vários elementos da série clássica original e trazendo para a atualidade. Com isso, Abrams conquista novas plateias e ensina que é possível sim esquecer o universo comum de blockbusters meramente explosivos. Toda essa conquista acontece, claro, sem nunca perder os fãs do produto original – o que é um delicado e difícil exercício que hoje o diretor já executa com maestria.

Em Além da Escuridão – Star Trek, já estamos mais cientes dos perfis dos personagens e das dinâmicas estabelecida por eles – o que certamente abre espaço para que o roteiro de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof se aproveite mais do carisma de cada um e para que os atores se aproximem ainda mais do espectador. Vale mencionar como Chris Pine tem cada vez mais desenvoltura como Kirk ou como cada coadjuvante contribui para o conjunto – nem que seja apenas descontraindo com momentos de humor avulsos mas que, sim, funcionam. Nessa continuação, a história ainda tem uma ótima aquisição: Benedict Cumberbatch, da série Sherlock, que imprime uma frieza certeira ao eficiente vilão. Todos à serviço de uma boa história que consegue balancear com bastante ritmo os conflitos e as cenas de ação.

Impossível falar de Além da Escuridão – Star Trek sem passar pelo impecável trabalho técnico realizado. Para quem for conferir o filme em 3D ou em IMAX (tive minha primeira experiência nesse formato e saí da sessão ainda mais abismado), o longa se torna uma verdadeira experiência de imersão. E esse elogio vai muito além dos efeitos especiais (que atingem um nível absurdo de perfeição), mas também ao notável detalhismo da direção de arte ou ao impressivo trabalho de som (incluindo a excelente trilha de Michael Giacchino), que são fundamentais para colocar o espectador dentro da ótima ação da história que merece ser conferida na melhor sala de cinema possível. Se a história não tem lá muitos mistérios – e isso não é necessariamente um problema – logo a técnica trata de deixar tudo grandioso.

Firmando a franquia desde já como uma das mais interessantes da atualidade, Além da Escuridão – Star Trek tem ritmo e personalidade, apresentando um resultado muito completo que, como já citado anteriormente, atesta a preciosa capacidade de J.J. Abrams de orquestrar com precisão todos os elementos de uma boa ficção. É por ser tão disciplinado e original durante todo o tempo que o desfecho do filme acaba de certa forma assustando. Não dá para acreditar que Além da Escuridão – Star Trek conclui suas histórias de forma tão desleixada e quase clichê. Em mais ou menos cinco minutos, tudo se resolve rapidamente, o que incomoda por deixar a sensação de que o longa foi finalizado de última hora, sem qualquer planejamento. Nada disso combina com o que vimos anteriormente, mas tampouco apaga o brilho dessa série pra lá de especial. De certo Abrams tirou férias nos últimos dias de gravação.

FILME: 8.5

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Três atores, três filmes… com Alex Gonçalves

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Das relações que estabeleci quando passei a fazer parte do mundo de blogueiros cinéfilos, uma das que mais me marcou foi certamente a do Alex Gonçalves. Como ele bem comentou quando me convidou para participar da seção Os Cinco Filmes Prediletos, do Cine Resenhas (blog atualizado com afinco e personalidade por ele), nos conhecemos ainda nos tempos de Orkut, quando defendíamos ferrenhamente o filme A Vila, do hoje fracassado M. Night Shyamalan. Com o tempo, descobrimos que nossos gostos cinematográficos não são lá tão parecidos, mas permanecemos firmes e fortes nesse mundo blogueiro onde tanta gente vai e vem. Acompanhamos a trajetória um do outro nesse meio – o que é muito legal! E, quando pedi ao Alex para participar do Três atores, três filmes, tinha uma certa ideia das escolhas que viriam. Acertei duas delas! Como sempre, ele justifica sua lista com uma admirável argumentação. Uma satisfação tê-lo participando aqui. Fiquem abaixo, então, com as escolhas do Alex!

Anthony Hopkins (O Silêncio dos Inocentes)
Melhor suspense criminal que o cinema já produziu, O Silêncio dos Inocentes é notável porque vai além da maestria com que conduz a busca pelo assassino em série Buffalo Bill. O elemento que verdadeiramente nos prende ao filme (e que Jonathan Demme perceberia de antemão ao dirigi-lo) é a interação entre a agente em formação Clarice Starling e Hannibal Lecter, doutor e canibal há anos enclausurado em uma prisão de alta segurança que a auxiliará a traçar o perfil de Buffalo Bill. Em algumas entrevistas posteriores ao filme, Anthony Hopkins assumiu que pressentia que a indicação ao Oscar pelo papel se converteria em vitória. Porém, o que o ator provavelmente não imaginou foi a popularidade que atingiria como Hannibal Lecter, um dos mais fascinantes personagens do cinema. Através de uma composição meticulosa, que funde elegância e perigo, Hannibal parece se comunicar conosco ao encarar a câmera de Demme. Em seu último encontro com Clarice Starling, atinge nosso âmago ao agradecê-la por contar o episódio que a marcou na infância e a motiva a capturar Buffalo Bill.

Nicole Kidman (Os Outros)
A australiana Nicole Kidman é uma das poucas profissionais do cinema que não deixa indícios de que estamos diante de uma mera atriz e sim de uma mulher capaz de desaparecer em inúmeras personagens. Nicole Kidman pode incorporar tanto figuras reais, como escritora Virginia Woolf, a fotógrafa Diane Arbus e a jornalista Martha Gellhorn, quanto criações da própria ficção, como a bruxa Gillian Owens e uma heroína romântica de Henry James, Isabel Archer. Porém, o momento em que fiquei fascinado por Nicole Kidman pela primeira vez veio como Grace Stewart, a personagem central de Os Outros. Em um filme em que a escuridão é o refúgio e a luz é a inimiga, Nicole processa como Grace todas as dúvidas e temores que a acompanham diante dos obscuros eventos da história. Assim como Grace, somos seres humanos a todo o instante desorientados com as nossas próprias crenças e com a linha tênue entre a vida e a morte. Não estranhe se o nome Grace e o sobrenome Stewart remeterem aos protagonistas de Janela Indiscreta, Grace Kelly e James Stewart. Se estivesse vivo, Alfred Hitchcock, assim como nós, teria caído de amores por Nicole Kidman.

Sigourney Weaver (quadriologia Alien)
Na minha infância e adolescência, muitos amigos estranhavam quando apontava a Tenente Ellen Ripley como o meu “herói” favorito. É hábito considerar para este título personagens das histórias em quadrinhos, como o Superman e o Homem-Aranha. Pois, para mim, eles não passam de criaturas insossas, quase ordinárias. Feita por Sigourney Weaver, Ellen Ripley só se tornou protagonista de Alien – O Oitavo Passageiro em sua meia hora final. Adquiriu mais espaço e bravura nos três capítulos seguintes da franquia Alien. É o papel que toda atriz do mundo desejaria desempenhar. Ripley jamais é amedrontada pelos homens, mas não perde sua feminilidade quando precisa assumir o papel de mãe de uma garotinha (Aliens – O Resgate) ou ter compaixão por suas versões defeituosas (Alien – A Ressurreição). Sigourney Weaver já atingiu meu coração em muitas ocasiões: quem viu filmes como Nas Montanhas dos Gorilas, A Morte e a Donzela, O Mapa do Mundo e Orações Para Bobby sabe que ela é uma das maiores bênçãos do cinema. No entanto, o nosso primeiro herói a gente nunca esquece.