Cinema e Argumento

Na coleção… Longe do Paraíso

colffheaven

Julianne Moore vivia a era de ouro de sua carreira com Longe do Paraíso, filme que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza e uma indicação ao Oscar de protagonista no mesmo ano em que concorria como coadjuvante por As Horas.

Hoje é impossível voltar no tempo para revisitar Longe do Paraíso sem vê-lo como o irmão primogênito de Carol. Em ambos os filmes, o diretor Todd Haynes coloca os anos 1950 de forma romantizada na tela para falar sobre preconceitos, mas com uma diferença fundamental para distinguir as duas obras na forma: enquanto o filme protagonizado por Cate Blanchett e Rooney Mara lançado este ano nos cinemas brasileiros evidencia o preconceito com a homossexualidade a partir de uma história de amor muito íntima e pessoal, o drama estrelado por Julianne Moore em 2003 opta pelo olhar mais amplo da sociedade, onde a protagonista, uma dona-de-casa que estampa colunas sociais por sua devoção ao lar e à família, é julgada pela opinião alheia e vê sua vida ser desconstruída quando descobre a verdadeira natureza sexual do marido ao mesmo tempo em que passa a se relacionar de forma “questionável” para os padrões da época com o seu jardineiro negro.

No centro de Longe do Paraíso estão os preconceitos e as contradições de uma conservadora população norte-americana (e por que não mundial?) dos anos 1950. Que sentido existe no posicionamento dos estadunidenses que abandonam uma piscina após a entrada de um negro na água, mas não hesitam em comer uma refeição preparada pela empregada negra uniformizada? E qual a real carga de preconceito existente no comentário aparentemente corriqueiro da melhor amiga que diz respeitar homossexuais, mas preferir “homens que são homens”? Nada panfletário ou gratuito ao abordar esses temas, Haynes acerta mesmo quando resolve ser mais expositivo, compensando a simplicidade do roteiro escrito por ele com uma direção que, cheia de estilo, engrandece o seu próprio texto. 

Frequentemente criticado por romantizar e florear demais a década de 1950 (e que mal há nisso?), o californiano usa estilo com inteligência – e, francamente, só implica mesmo quem quer: se Carol embeleza todo e qualquer frame, é porque faz todo sentido, já que estamos acompanhando o nascimento de uma paixão através dos olhos de uma jovem em plena descoberta amorosa; já em Longe do Paraíso, ele faz uma carta de amor ao cinema da década em questão, compondo o visual da obra com todas as características de uma produção daquela época. É como se a história realmente se teletransportasse para o passado tamanha a fidelidade estética, contemplando desde a perfeita estilização dos créditos iniciais à linda fotografia de Edward Lachman trabalhada toda a partir de equipamentos, lentes e técnicas características do fazer cinematográfico dos anos 1950. Novamente, toda a estilização está a serviço de uma inteligência muito maior. 

Contudo, seria fácil reduzir Longe do Paraíso a um filme meramente estético (os figurinos de Sandy Powell e a trilha de Elmer Bernstein também são fantásticos), pois toda essa romantização, além de servir como homenagem cinematográfica, age como um grande complemento narrativo para a vida cercada de aparências da protagonista. É notável a trajetória da Cathy Whitaker de Julianne Moore (o papel foi escrito especialmente para a atriz), que começa o filme perturbada com a descoberta da homossexualidade do marido e aos poucos percebe que a melhor saída para a sua vida é deixar de ser apenas “a grande mulher por trás de um grande homem”.

Interpretada magistralmente por Moore, que vivia a era de ouro de sua carreira (naquela temporada, conquistava Veneza por Longe do Paraíso e Berlim por As Horas), Cathy se descobre uma mulher à frente do seu tempo, o que, assim como em Carol, revela-se dolorosamente trágico. Não é fácil se apresentar ao mundo como realmente somos, e não há romantização que possa amortecer essa tristeza ainda tão presente nos dias de hoje, quando a paixão e a sexualidade alheia ainda são misteriosamente julgadas pela sociedade. Homossexual assumido, Todd Haynes sempre soube dessa batalha. E ele tem toda razão em tornar uma realidade triste por si em algo mais bonito, palatável e, por que não, idealizado. Afinal, às vezes, relatos como o de Longe do Paraíso precisam realmente de algum tipo de alento frente à dura realidade, seja ela a dos anos 1950 ou a de agora.

Na coleção… Johnny & June

wthelinecol

Tanto Johnny Cash (Joaquin Phoenix) quanto June Carter (Reese Witherspoon) eram estranhos dentro de suas próprias casas antes de alcançarem o estrelato no mundo da música. Ele, que vivia com uma mãe submissa, um pai alcoolista e à sombra do bondoso irmão, teve que abandonar o convívio familiar em uma longínqua fazenda do estado de Arkansas, nos Estados Unidos, para construir sua própria história depois da trágica e precoce morte do irmão, cuja culpa sempre lhe foi atribuída equivocadamente pelo pai. Já June Carter não veio de um ambiente tão conturbado, pois, desde criança, já sabia o que era o sucesso cantando com a irmã Anita nas rádios. O senso de não pertencimento, no entanto, era o mesmo que consumia Cash, uma vez que June sempre soube que a agraciada com grande talento vocal na família era a irmã, o que, segundo ela, levou-lhe a “fazer graça” nos palcos para que fosse notada de alguma forma. Não há dúvidas de que Johnny & June é infinitamente mais sobre Johnny Cash do que sobre June Carter, mas é a partir do encontro dessas duas histórias que o filme de James Mangold constrói a sua maior força: a de que o amor – o verdade mesmo, não o nascido a partir de conveniências ou do que os outros esperam – é realmente capaz de transformar carreiras, caminhos e pessoas.

Assim como o próprio filme, a mensagem não deixa de ser batida, mas tudo em Johnny & June é bem executado, o que se revela uma ótima surpresa quando é difícil encontrar biografias que assumam uma personalidade tradicional e ainda assim consigam empolgar de alguma forma. Tudo o que já conhecemos a respeito de uma produção nesse formato está presente aqui: a vontade de abarcar a maior quantidade de fatos possíveis, a clássica pegada motivacional para falar sobre um sujeito de origem humilde que conquista a fama aparentemente impossível, os percalços com drogas e bebidas e até a jogada de começar o filme pelo desfecho. Por isso faz a diferença ter um diretor como James Mangold atrás das câmeras. Com uma carreira marcada por vários projetos interessantes (IdentidadeOs Indomáveis Garota, Interrompida), Mangold nunca construiu uma assinatura em seus trabalhos, mas a experiência nos mais diversos gêneros influencia diretamente a segurança narrativa encontrada nesse filme. Ele, que também escreveu o roteiro em parceria com Gill Dennis, nunca torna Johnny & June um relato atropelado da vida de Johnny Cash, especialmente porque o longa dá conta por completo da personalidade do cantor norte-americano.

A duração excessiva permite que Johnny & June transpareça suas formalidades e seus eventuais descuidos, como o de nunca apresentar devidamente a dupla que começa a carreira com o protagonista e depois simplesmente some ou a verdadeira personalidade da primeira esposa do cantor, reduzida a ser a filhinha do papai cuja única função dramática é cuidar da casa e chorar pelo afastamento do marido. Tudo é amplamente compensado por um longa bem sucedido na construção de seu repertório musical (são apenas 11 as músicas interpretadas pelos protagonistas, e quase todas executadas apenas parcialmente) e que a todo momento nos leva ao que mais impressiona em todo o conjunto: a impecável interpretação de Joaquin Phoenix. Em mais um dos tantos momentos que nos lembram das razões de seu nome ser considerado um dos melhores em atividade, Phoenix dá literalmente voz e alma para um Johnny Cash extremamente crível e que ultrapassa qualquer acomodação envolvendo a mera reprodução de trejeitos tão corriqueira em cinebiografias. Reese Witherspoon, que, assim como Phoenix, também canta e toca todos os instrumentos em cena, é uma graça e tem sua parcela de contribuição para o ótimo romance do filme (o que, por outro lado, em nada justifica seu equivocado Oscar de melhor atriz). Entretanto, o show é mesmo de Phoenix nesse longa de emoções sinceras e que ainda segue um pouco mais com o espectador após a sessão, já que é impossível não recorrer à trilha sonora de tempos em tempos.

Na coleção… À Deriva

aderivacol

Crianças e adultos sentem o tempo de forma muito diferente, e esse é um material riquíssimo para qualquer dramaturgia. À Deriva, dirigido por Heitor Dhalia em 2009, captura bem a tese ao trabalhar dois pontos de vista bastante distintos nesse sentido. Enquanto um veraneio em Búzios, no Rio de Janeiro, pode ser apenas uma pequena temporada de reflexões e discussões para que Clarice (Débora Bloch) e Matias (Vincent Cassel) tentem ajustar os ponteiros de um casamento em pedaços, é bem provável que a jovem Filipa (Laura Neiva), de 14 anos, sinta as semanas veranis como uma difícil e inconsciente jornada de amadurecimento rumo a respostas que só as dores da vida podem trazer. Os pais da garota não se atentam tanto a essa disparidade de tempos enquanto vivem momentos derradeiros de um casamento falido, mas Filipa, cercada por todos os questionamentos da transição para a vida adulta, sabe muito bem o que acontece em casa, o que só amplia a confusão emocional de uma temporada na praia que, em alguns dias, sintetiza o emocional de todos os membros da família.

Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, À Deriva é o exemplo máximo da sofisticação estética e narrativa do diretor pernambucano Heitor Dhalia, que, antes desse filme estrelado pela estreante Laura Neiva e pelos já conhecidos Débora Bloch e Vincent Cassel, havia dirigido NinaO Cheiro do Ralo. No roteiro escrito por ele, com colaboração de Vera Egito, o contexto e a desintegração familiar ganham frescor porque são narrados a partir do ponto de vista da filha do casal. Ao mesmo tempo em que acompanha o atrito entre os pais e secretamente descobre a infidelidade de um deles, a jovem precisa lidar uma adolescência que cada vez mais lhe impõe interesses amorosos e o inevitável desabrochar sexual. Muito à frente do tempo de seus amigos, ela, por de certa forma tomar consciência dessa sua evolução, acha que entende tudo da vida – e essa interpretação errada do que é de fato conhecer a vida lhe coloca equivocadamente a missão de tentar fazer alguma diferença dentro de casa, onde pensa que pode – e deve – influenciar determinadas resoluções que simplesmente estão fora de seu alcance.

Heitor Dhalia, que, logo após a realização de À Deriva viajou aos Estados Unidos para fazer o já esquecido 12 Horas com Amanda Seyfried, só ganha ao transferir a interpretação dos dramas para os olhos de Filipa, até porque, caso contado a partir de visões independentes dos núcleos, o resultado poderia ser dos mais mornos. E o saldo positivo não é apenas na questão do texto: Laura Neiva é espetacular como a garota que pode até não ter a nossa simpatia, mas cujos conflitos nunca despertam indiferença. Em seu primeiro trabalho no cinema (ela, infelizmente, não alcançou o reconhecimento que merecia, inclusive na TV), tira de letra um papel repleto de desafios e não fica devendo nada aos também ótimos Débora Bloch e Vincent Cassel. De estética impecável (não são apenas as belíssimas paisagens de Búzios que engrandecem a fotografia do já falecido Ricardo Della Rosa), À Deriva ecoa após a sessão, claro, pela linda e inesquecível trilha sonora de Antonio Pinto, e, acima de tudo, pela forma franca e natural com que transforma temas essencialmente convencionais em momentos pequenos, mas únicos em suas particularidades.

Na coleção… Hairspray – Em Busca da Fama

colhairspray

Não são todos os musicais contemporâneos que conseguem ser tão bem resolvidos com sua própria identidade quanto Hairspray – Em Busca da Fama. Refilmagem do longa-metragem homônimo de 1988 (aqui no Brasil apenas o subtítulo E Éramos Todos Jovens foi modificado), esta nova versão dirigida por Adam Shankman encena uma história que, mesmo ambientada nos anos 1960, infelizmente ainda se mostra incrivelmente atual. Afinal, não é só a jornada de Tracy Turnblad (Nikki Blonsky), garota gordinha que ouve de todos (inclusive da própria mãe!) que nunca será uma estrela de TV ou conquistará o garoto mais desejado do colégio em função de seu peso, que se revela inspiradora na busca da quebra por preconceitos, mas também o retrato feito de uma época em que os negros não podiam frequentar a mesma piscina ou até mesmo a mesma pista de dança com os brancos. Tracy, que sabe muito bem o que é fazer parte das minorias, abraço como missão mudar tudo isso, especialmente o fato do Corny Collins’ Show, programa musical febre entre os jovens, aceitar negros em sua programação em apenas um dia do mês. Repleta de música, inocência e nostalgia, essa jornada da adorável protagonista terá suas previsibilidades, mas também será uma das mais autênticas que você verá nos musicais recentes.

Até surpreende o repentino talento do diretor Adam Shankman ao comandar Hairspray, visto que seus projetos anteriores a esse são de qualidade muito duvidosa (Operação BabáA Casa Caiu) ou de uma infinidade de clichês (Um Amor Para Recordar). Na refilmagem do musical, ele traz personalidade ao universo de Tracy Turnblad, colocando nele muita graça e doçura sem que o resultado pareça infantilizado ou até mesmo restrito a um público jovem (caso de muitos musicais como High School MusicalGlee). Claro que o elenco de veteranos dá certo respeito ao filme (Allison Janney, Christopher Walken, John Travolta, Michelle Pfeifer!), mas é notável como Hairspray acerta musicalmente em dois aspectos fundamentais: na escolha do ótimo repertório transposto para esta nova leitura (bônus: praticamente todas as canções são ferramentas narrativas!) e na seleção de um elenco talentoso em voz e carisma. Se John Travolta não é uma grande presença quando resolve cantar, dá gosto de ver Nikki Blonsky demonstrando plena segurança já na cena de abertura, por exemplo. A sequência final ao som de You Can’t Stop the Beat ainda justifica o porquê das premiações terem levado a sério esse grupo de atores, uma vez que Hairspray chegou a ser indicado ao Screen Actos Guild Awards de melhor elenco (algo raro para um filme menor, musical e cômico como esse).

O singelo mas crível design de produção nos ambienta perfeitamente neste filme de muitos sonhos que de repente se tornam realidade. Isso mesmo: não são necessários muitos minutos para você perceber que, apesar de um obstáculo ou outro, tudo dará certo em Haispray. Esse é o espírito que o filme assume sem qualquer medo, e basta entrar nele para curtir de verdade a história,  que tem uma simplicidade da mais sinceras – e por isso mesmo conquista tantos corações facilmente. Talvez tenha sido proposital o fato do diretor ter encenado as sequência musicais de forma tão tradicional (são muitos os momentos que usam planos bastante abertos para mostrar dezenas de pessoas alinhando uma coreografia perfeita), mas isso pode eventualmente frustrar quem busca um exemplar do gênero mais criativo e até ambicioso tecnicamente falando. Sinceramente, não vejo isso como um problema quando Hairspray surge tão autêntico quanto sua protagonista. Colorida, feliz e otimista. Assim é esta refilmagem que, além de tudo, é uma pequena mas valiosa homenagem à força das minorias. Musicais carinhosos como esse sempre fazem falta.

Na coleção… Amor Sem Escalas

UP IN THE AIR

Amor Sem Escalas tem uma premissa das mais trágicas, mas prefere seguir um caminho que demonstra a total maturidade de seu diretor: o da leveza. E está errado quem pensa que essa escolha amortece ou anula a força emocional do filme. Pelo contrário. Assim como Transamérica, por exemplo, Amor Sem Escalas se torna ainda mais agridoce em função de olhar para a tragédia a partir de pequenas felicidades e de momentos corriqueiros. A missão não é fácil: afinal, como não pesar a mão na história de Ryan Bingham (George Clooney), sujeito cujo emprego é demitir pessoas em todos os cantos dos Estados Unidos? Mais do que isso: como resistir à tentação de tornar depressivo este homem que viaja o ano inteiro, não tem qualquer raiz com família, amigos ou romances e ainda dá palestras que dizem que as relações são os componentes mais sufocantes da vida? Pois o diretor Jason Reitman, em parceria com Sheldon Turner no roteiro, realmente escolhe outras direções e entrega um trabalho que, ainda hoje, é o mais maduro de sua carreira.

Quando realizou Amor Sem Escalas, Jason Reitman recém havia saído de uma repentina (e superestimada) consagração por Juno, uma comédia adolescente sobre uma garota que enfrentava uma inesperada gravidez em circunstâncias atípicas (o filho era do menino mais “loser” da escola, e os pais não entraram em pânico com a notícia), o que poderia nos deixar em dúvida quanto às chances do diretor saltar com êxito para um projeto completamente oposto, sobre pessoas de meia-idade, casadas com a carreira e independentes. Seria Reitman um diretor apenas das angústias jovens? Ou também das reflexões maduras? Felizmente de ambas. E uma cena específica de Amor Sem Escalas sintetiza com perfeição não apenas o talento eclético do diretor como também todos os temas abordados no filme: aquela em que a jovem Natalie (Anna Kendrick), devastada por uma recente separação, tenta encontrar algum conforto nos conselhos de Ryan e Alex (Vera Farmiga). No impecável diálogo, estão as expectativas de diferentes gerações quanto aos relacionamentos e ao sucesso profissional – e o filme, apesar de ter como pano de fundo as demissões em massa que assolaram os Estados Unidos anos atrás (o que foi seu maior atrativo quando lançado), é exatamente sobre o que procuramos ou evitamos nessa transição entre a casa (onde quer que ela seja) e o trabalho.

Delicado e carinhoso, Amor Sem Escalas consegue desenhar o desabrochar de um homem distante de todos com uma precisão cirúrgica mas nada acadêmica. Não existe nada mais clichê do que um filme derrubar todas as verdades de um personagem quando ele encontra um relacionamento marcante, e o que Amor Sem Escalas faz é basicamente isso, com a diferença de ter um conjunto de acertos simples e discretos que pouco percebemos conscientemente a mudança deste homem, até porque Reitman prefere arquitetar a história de Ryan não com grandes acontecimentos, mas sim com uma conversa de bar ou com um breve encontro em um aeroporto. Clooney, em um de seus melhores momentos como ator, acha o ponto ideal entre seu charme marcante (é difícil vê-lo como um personagem e não como George Clooney) e a criação dramática do protagonista, melhorando em grande escala quando contracena com a igualmente ótima Vera Farmiga. Ambos foram indicados ao Oscar e formam um dos casais mais críveis e marcantes dos últimos anos. Dá gosto vê-los junto porque acreditamos que Ryan e Alex são de fato a versão do outro – só que de sexo oposto. Maturidade, sucesso profissional e independência estão estampados no comportamento dos dois, mas, quando estão juntos, surge também a discreta carência, o carinho nunca mostrado – e é aí que Amor Sem Escalas alcança seus momentos mais especiais.

Ao contrário do que o título brasileiro indica e até mesmo estes comentários avaliam, Amor Sem Escalas não é, porém, uma mera descoberta do amor em tempos de desconexão ou a escalada romântica de um homem solitário e convicto disso. Apesar de viverem belos momentos juntos e o filme pontuá-los com emoção (as conversas são inteligentes, a trilha é nostálgica), Ryan e Alex agem como se estivessem alheios tudo isso, como que seus êxitos profissionais – esses sim – fossem o bem mais precioso. O que conta mais para eles é quem tem o maior número de cartões ou qual o próximo destino de suas agendas profissionais. Eles se aproximam, mas parecem negar tal aproximação porque, novamente, a profissão e a independência estão acima de tudo – como se o fato de se acomodar com alguém fosse sinônimo de fracasso. E isso não é verdade, conforme eles próprios passam a perceber silenciosamente mesmo sem admitir. É no nascimento deste sentimento tão renegado por pessoas orgulhosas de não o terem que Amor Sem Escalas se torna tão agridoce, e a escolha de cercar a história com bom humor (muito dele centrado na personagem de Anna Kendrick) torna tudo um tantinho mais triste. Atual, já que estamos cada vez mais centrados em profissões do que relações, Amor Sem Escalas tem, assim, um coração muito grande, mas é o contraste com os pés bem firmes no chão que torna o resultado tão especial.

Na coleção… A Escolha de Sofia

colsophies

Demorou apenas três anos para que Meryl Streep ganhasse o seu segundo Oscar. O feito não é comum até os dias de hoje, mas basta conferir A Escolha de Sofia para entender a urgência do prêmio. Aliás, mesmo se tivesse dezenas de Oscars em casa, Meryl ganharia mais um pela atuação no filme de Alan J. Pakula. Isso porque não é nenhuma hipérbole afirmar que seu desempenho como a sofrida Sofia Zawistowska está entre os mais marcantes já entregues ao cinema. Fora ter aprendido a falar polonês e alemão em questão de poucos meses, ela mergulha por completo nos complexos dilemas da personagem e consegue, inclusive, vencer todos os problemas do roteiro escrito pelo próprio Pakula, que insiste em perder um tempo precioso ao colocá-la  à beira de um triângulo amoroso repetitivo e tedioso. 

Em termos históricos, não há o que se reclamar de A Escolha de Sofia. Além de irrepreensíveis para a narrativa (eles justificam com perfeição as razões e os comportamentos de Sofia no presente), as passagens exploram o nazismo de forma atípica. Aqui, os campos de concentração não são encenados com torturas ou câmaras de gás, mas sim com detalhes sufocantes, como no momento em que a protagonista caminha com janelas ao fundo onde enxergamos apenas os braços de pessoas aprisionadas clamando por socorro. Nós não precisamos ver o que acontece lá dentro – e deixar isso para a imaginação é muito mais impactante. Outra escolha preciosa é mostrar os bastidores das vidas das pessoas que cometiam tais atrocidades, uma vez que Sofia passa a trabalhar na casa de uma família nazista.

Toda a força histórica só não é diluída no filme porque sua construção é realmente poderosa. Sem esses momentos, A Escolha de Sofia seria um verdadeiro tédio. Ao escrever o roteiro com foco em Stingo (Peter MacNicol), um jovem escritor que encontra no convívio com o casal Sofia e Nathan (Kevin Kline) o que faltava para seu desabrochar artístico, Pakula dá voltas e mais voltas para sempre cair no estereótipo do casal “entre tapas e beijos”. Não demora muito para que o espectador compreenda o fascínio de Stingo por Sofia ou então o porquê dela suportar o comportamento inconstante de seu namorado. Por isso, A Escolha de Sofia bate demais na mesma tecla, o que testa a paciência de qualquer um em relação àquele quase triângulo amoroso entre os três.

Se A Escolha de Sofia construísse no presente questionamentos e problemáticas suficientes para serem explicados posteriormente pelo passado (que só começa a aparecer após cerca de 90 minutos de duração), a escolha de mostrar tardiamente a vida nazista de sua protagonista seria perfeitamente compreensiva. Não é o que acontece e, com isso, vem a velha – e incômoda – sensação de que existem dois filmes dentro de um. O elo entre presente e passado não é forte, incluindo quando Pakula coloca na tela a tão esperada cena-título. Resultado: ela é guardada para ser explicada a partir de uma desculpa quase rasa (é difícil crer que a protagonista abriria este momento tão doloroso para alguém daquela maneira apenas para não ter que simplesmente negar um convite). Por outro lado, a transição para os flashbacks é estupenda, pois colocar a câmera grudada no rosto de Meryl enquanto ela conta sua história olhando diretamente para o espectador cria uma conexão tremenda entre ela e quem está no lado de cá do filme.

Irretocável, Meryl Streep irradia como a encantadora Sofia, hoje uma mulher aparentemente feliz ao lado de Nathan (e nesta fase seu sotaque é algo absurdamente natural), mas também parte o coração como um ser humano colocado em uma situação simplesmente inimaginável. A cena de sua escolha em específico é uma das mais brutais já realizadas. Concebida sem nenhuma intervenção (não existe trilha ou qualquer artifício nela, deixando a crueza falar por si só), a sequência foi gravada apenas uma vez, já que Meryl se negou a repeti-la tamanha a dor que sentiu ao se colocar na situação da personagem. Esse é o maior testamento do porquê dessa atuação ser uma das mais emblemáticas: é verdade que a prótese dentária, o alemão, o polonês e a perda e o ganho de peso realmente impressionam na atuação de Meryl, mas Sofia Zawistowska só se tornou histórica por ser interpretada uma pessoa que não hesita em se colocar por completo na pele do personagem.

Existe outra escolha que Sofia faz ao final do filme, e é uma que será de importância emblemática para a sua vida repleta de feridas.  É com uma nova decisão que A Escolha de Sofia encerra com notável emoção o relato desta mulher que sobreviveu a uma das decisões mais impossíveis que a vida pode impôr, simbolizando com perfeição a ideia de que algumas dores podem nunca ser superadas. Com este momento, pontuado pelo belo tema de Marvin Hamlisch, finalmente o filme compreende a força de uma narrativa que, ao lidar com diferentes tempos, precisa ter uma conexão especial para que tais épocas conversem. Infelizmente, é somente aos 45 do segundo tempo que Pakula se atenta a isso, o que não faz com que a sensação do quase tédio relacionado ao cansativo relacionamento entre os três personagens principais desapareça. Se não fosse por esse grande tropeço, A Escolha de Sofia seria grande como filme e não apenas como um dos momentos mais inesquecíveis da maior atriz que temos e ainda podemos ver atuando.

Na coleção… Orações Para Bobby

colbobby

Quando esteve com seu filho caçula pela última vez, Mary Griffith (Sigourney Weaver) foi enfática ao confrontá-lo e se despedir dizendo: “Eu não vou ter um filho gay”. Esse era, até então, o auge dramático de uma família que presenciava, sem exageros, um verdadeiro embate entre mãe e filho. De um lado, Bobby (Ryan Kelley), o garoto perfeito que, ao se assumir gay, pela primeira vez trazia um “problema” para dentro de casa. De outro, Mary, a católica fervorosa que acreditava que poderia curá-lo com terapias e o poder da Bíblia. Bobby seguiu em frente: se mudou para Portland com a prima, conquistou um emprego e até arranjou um namorado. Já Mary permaneceu altiva até o último momento com o filho, quando o descreditou como sangue de seu sangue em função da homossexualidade. O jovem nunca superou o desafeto materno e, após ser traído pelo namorado (mais um golpe do destino em uma sucessão de rejeições), entrou em uma derrocada emocional que, permeada pelas lembranças de uma mãe incompreensiva e preconceituosa, culminou em seu suicídio.

É com toda essa angústia de um conturbado relacionamento familiar que o telefilme Orações Para Bobby, exibido pela primeira vez em janeiro de 2009 pelo canal Lifetime, norteia a primeira parte de sua história. Já a partir do suicídio do protagonista, o longa dirigido pelo diretor australiano assumidamente gay Russell Mulcahy transfere o drama para outro ponto de vista: o da mãe que, devastada pela perda do filho, passa a encontrar, nos diários de Bobby, as respostas que nunca quis ouvir enquanto ele ainda era vivo. E as conclusões que vêm a partir dessas descobertas não a confortam. Ora, Mary percebe – e admite – que o suicídio de Bobby foi consequência direta da ignorância dela e de sua família sobre o universo gay. Inclusive, a matriarca discursou sobre sua culpa diante do congresso estadunidense em 1995, quando passou a ser uma ativista das causas gays. A bonita mas devastadora jornada de transformação de uma mãe que precisou de uma tragédia fatal para poder compreender e aceitar o próprio filho é o que constrói a força dramática de Orações Para Bobby, um telefilme que pode não ser propriamente uma grande produção, mas que, com sua realidade repleta de impacto, alcança um nível único de emoção.

Para apreciar o filme da maneira correta, é bom saber que ele foi encomendado pela Lifetime, o que nos leva a duas questões. Primeiro: Orações Para Bobby segue um estilo televisivo bastante clássico, com blocos facilmente identificáveis (com direito a fade outs em suas transições) e uma duração enxuta de 90 minutos para se adequar à grade de programação da emissora. Segundo: a obra é pensada para atender ao público-alvo do canal, basicamente formado por mulheres e donas de casa dos Estados Unidos que preferem acompanhar histórias mais acessíveis em sua forma. Assim, com todas essas circunstâncias, não espere ver um filme bem elaborado ou repleto de escolhas, digamos, inteligentes. Orações Para Bobby, reiterando, não é superlativo se analisado friamente. O que acontece é que é simplesmente impossível ficar indiferente à força dramática do filme. A história é tão humana e transformadora que pode tocar até Marcos Feliciano ou Jair Bolsonaro – mesmo que eles, claro, não venham a admitir.

Baseado no livro Prayers for Bobby – A Mother’s Coming to Terms With the Suicide of Her Gay Son, de Leroy Aarons, o telefilme de Mulcahy, além do belíssimo serviço que faz em prol da causa gay (e o mais importante: sem sequer ser mera panfletagem), traz uma chance de ouro para Sigourney Weaver, uma atriz que, nos últimos anos, só amargurou papeis que em nada se aproximam da altura de seu talento. Pois Orações Para Bobby chega lá e entrega à atriz um dos papeis mais intensos de sua carreira. Weaver incomoda como a mãe religiosa (mas em momento algum a vilaniza) e momentos depois emociona como o ser humano arrependido em busca de alguma redenção frente ao evento trágico causado por ela. O jovem Ryan Kelley não fica atrás e torna Bobby uma das figuras mais críveis, transmitindo todas as dúvidas e angústias de um adolescente em descoberta que não tinha a quem recorrer em tempos que a AIDS começava a se espalhar e que Harvey Milk era assassinado por levantar a bandeira gay.

Mais de duas décadas se passaram desde que Bobby se suicidou e, mesmo depois de tanto tempo, Orações Para Bobby se revela um filme incrivelmente atual. Necessário, melhor dizendo, visto que, ao invés de evoluirmos como sociedade no que se refere aos direitos humanos, temos encontrado cada vez mais combatentes ao livre arbítrio das identidades sexuais. Quando Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, duas damas da dramaturgia com mais de 80 anos, chegam ao horário nobre da TV brasileira interpretando lésbicas com a maior naturalidade do mundo, é no mínimo estranho constatar que ainda exista tanta rejeição a qualquer forma de amor. E o longa protagonizado por Weaver é um belo lembrete de como a intolerância é frequentemente uma consequência da ignorância. Por acompanhar essa jornada de compreensão com tanta humanidade, Orações Para Bobby se torna um filme especial. Mostrando com delicadeza o íntimo de um jovem homossexual incompreendido e com verossimilhança a total evolução de uma mãe que por sua própria definição já deveria amar o filho por o que quer ele fosse, esta se torna uma experiência das mais humanas e necessárias. Uma obra que certamente deveria passar toda semana na TV para tornar o mundo um lugar melhor.

Na coleção… Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto

coldevilknows

Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto foi o adeus do mestre Sidney Lumet. Falecido em 2011 aos 86 anos, o diretor de clássicos como 12 Homens e Uma SentençaRede de Intrigas se despediu em grande estilo. Ao dar vida a um inteligentíssimo roteiro da iniciante Kelly Masterson (que recentemente voltou à ativa com a boa ficção Expresso do Amanhã), Lumet realizou um filme cuja estrutura se assemelha muito a de filmes como Fargo – Uma Comédia de Erros, onde um crime aparentemente infalível dá errado e coloca os personagens em uma espiral de acontecimentos trágicos e imprevisíveis. Não se engane, entretanto, ao pensar que o resultado somente reproduz uma fórmula com competência: Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto tem autenticidade – e uma das mais fortes criadas por Lumet ao longo de sua vasta carreira.

Começando com um assalto à joalheria da família planejado pelos dois irmãos do clã (Ethan Hawke e Philip Seymour Hoffman), o longa se utiliza de uma narrativa não-linear para voltar aos dias que levaram à decisão do crime e depois avançar mostrando as consequências do plano mal sucedido. Mais do que isso, constrói a sua estrutura a partir de três pontos de vista: o do filho mais velho e supostamente bem realizado (Hoffman), o do caçula endividado com uma filha para sustentar (Hawke) e futuramente o do patriarca vivido por Albert Finney. Nada relacionado ao formato do filme vem para esconder uma história simplista. Bem pelo contrário. Além da fórmula por si só funcionar em termos de suspense (o resultado fica cada vez mais instigante na medida em que as razões e consequências dos personagens começam a se encaixar), a essência dramática é muito bem conduzida, com personagens de personalidades marcantes e motivações extremamente críveis.

Como um drama familiar, Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto é excepcional. Mesmo que não acompanhemos propriamente o cotidiano compartilhado entre os membros da família, conseguimos entender perfeitamente como funcionam suas interações. Em pouco tempo, já se percebe de forma crível como o irmão mais velho manipula o mais novo com assustadora facilidade ao mesmo tempo que descobrimos pouco a pouco todas as mágoas entre o primogênito e o pai (em uma cena que só poderia ter a intensidade apresentada nas mãos de grandes atores como Hoffman e Finney). Só que Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto vai além e também nos reserva um estudo individual fascinante de seus personagens – além, claro, de dar a devida chance a um elenco de gigantes. Hoje, por sinal, chega a ser até doloroso ver Hoffman tão extraordinário como um homem frustrado que secretamente se droga com heroína (para quem não sabe, o ator foi encontrado morto aos 46 anos de idade justamente com 50 pacotes da droga em sua casa).

Menos movimentado em sua adrenalina e mais contundente na forma como encena seus conflitos dramáticos, Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto pode ser um tanto decepcionante para quem espera um suspense repleto de tomadas de tirar o fôlego. Estamos falando, na realidade, de um poderoso drama com toques de suspense – o que só deve ser rejeitado por quem aprecia obras de fácil digestão (e certamente não é o caso dessa). Durante quase duas horas, Sidney Lumet nos leva para dentro da total desestruturação de uma família e principalmente do desmoronamento de vidas várias vidas pessoais. Os mais otimistas talvez não embarquem em toda a negatividade que toma conta do longa especialmente a partir de seu final, cuja cena derradeira chega a ser perturbadora de tão crua, mas estruturalmente e conceitualmente Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto é tão sólido que fica difícil arranjar desculpas para depreciá-lo. Foi uma grande despedida, Sidney Lumet!

Na coleção… O Leitor

colreader

É provável que O Leitor tenha a sua parcela de “contribuição” na mudança de cinco para dez indicados na categoria de melhor filme do Oscar. Na disputa de 2009, era esperado que filmes como Batman – O Cavaleiro das TrevasWALL-E conseguissem uma indicação na corrida pelo prêmio principal. Aparentemente a disputa tinha uma vaga em aberto, que acabou ficando justamente como este terceiro filme do diretor britânico Stephen Daldry. Os detratores criticaram a produção em peso, alegando que a lembrança veio unica e exclusivamente em função de O Leitor ser sobre o Holocausto. Eles não deixam de ter razão, especialmente porque a adaptação do livro homônimo de Bernhard Schlink é bastante acadêmica, mas existem sim outros assuntos complexos e interessantes discutidos no roteiro adaptado por David Hare.

Ainda que o tempo não tenha sido muito generoso com O Leitor (hoje parece um longa muito mais antigo do que realmente é), vários aspectos positivos se preservam de forma intacta, como a unânime primeira parte da narrativa, onde acompanhamos toda a construção do relacionamento entre o jovem tímido e virgem Michael Berg (o iniciante David Kross, que dá conta do recado) e a reservada e quase bruta mulher mais velha Hanna Schmitz (Kate Winslet, vencedora do Oscar de melhor atriz por seu desempenho aqui). Com delicadeza, Daldry constrói a relação dos protagonistas com um envolvimento singular, nunca deixando que a diferença de idade e experiência entre o casal se torne um empecilho para a verossimilhança dele. Por mais que seja fácil sentir que existe algum mistério ou algo ali que de fato não está encaixando, é fácil torcer pelos dois, em especial porque ele, maravilhado, começa a desbravar um mundo até então desconhecido e ela passa a adquirir uma sensibilidade que não lhe parecia possível justamente com a pessoa mais inesperada: um mero garoto inexperiente de 15 anos.

A mesma força não é preservada pelo filme a partir de sua metade, quando a trama revela um importante segredo sobre Hanna Schmitz que muda o tom da narrativa por completo. A discussão proposta é muito interessante, mas aí O Leitor se torna gélido, preocupando-se muito mais em discutir a culpa e o horror do nazismo em um longo arco ambientado em um tribunal do que se aprofundar no turbilhão de emoções que tomam conta do jovem Michael Berg ao literalmente testemunhar a desconstrução do ícone afetivo e sexual chamado Hanna Schmitz. Ao optar por longas cenas nos tribunais – que obviamente cumprem a missão de entregar ótimos momentos para Winslet (a sequência em que ela discute a autenticidade da escritura de um relatório é de cortar o coração) -, Daldry descamba para as formalidades. Inclusive o diretor não resiste a colocar o protagonista visitando antigos campos de concentração para complementar a discussão sobre o Holocausto.

Quando retoma a relação dos dois protagonistas e volta a compreender que o retrato de toda uma geração traumatizada pelo nazismo está mais simbolizada nos conflitos internos do próprio Michael Berg e nas razões de Hanna Schmitz do que no desenvolvimento linear de um julgamento, O Leitor retoma parte de sua força emocional. Contudo, outro filme já se formou e, por mais que Daldry tente imprimir emoção ao resultado, a abordagem já se tornou racional demais – e a boa mas excessiva trilha de Nico Muhly só incentiva essa percepção de que O Leitor tenta mas não consegue ser mais acalantador. Winslet e Kross – ele posteriormente substituído em sua versão adulta pela discrição habitual de Ralph Fiennes – seguem eficientes e plenamente convincentes até o final enquanto o roteiro de Hare também traz vislumbres de momentos preciosos (a conversa com a personagem de Lena Olin é um dos pontos altos da história), mas o tom acadêmico parece sufocar demais uma história que merecia – e deveria – ter uma perspectiva muito mais humana.

Na coleção… Harry Potter e o Enigma do Príncipe

colbloodp

O Enigma do Príncipe marcou a primeira repetição de um diretor na série Harry Potter desde que Chris Columbus deixou o cargo com A Câmara Secreta. Se em A Ordem da Fênix o britânico David Yates teve, logo em sua estreia, muitos méritos ao transpor para as telas o livro frágil e quase desinteressante de J.K. Rowling, particularmente já não consigo dizer que O Enigma do Príncipe goza das mesmas qualidades – o que é bastante decepcionante, pois o material original é um dos mais empolgantes escritos por Rowling. Da forma como foi adaptado novamente por Steve Cloves e dirigido por Yates, Harry Potter e o Enigma do Príncipe resultou desestimulante, um tanto cansativo e até mesmo frequentemente bobo.

O que mais incomoda nesse sexto filme em que o jovem bruxo Harry (Daniel Radcliffe) precisa lidar com as ameaças do consumado retorno de lorde Voldemort (Ralph Fiennes) é o tom insistentemente piadista da trama. Se em O Cálice de Fogo as descobertas adolescentes dos personagens eram tratadas de forma natural e genuinamente bem humoradas, aqui já soam forçadas, como se precisassem existir apenas para fazer dar um alívio à dramaticidade cada vez mais adulta e perigosa da saga. Com isso, sai perdendo Rupert Grint, por exemplo, que interpreta um Rony Weasley sem qualquer profundidade, já que este parece eternamente reduzido ao papel de bobo da corte. O novo coadjuvante Jim Broadbent também não tem muito o que fazer como o professor maluquinho e descabelado de poções que, apesar de ter uma função importante no filme, é outra extensão da tal insistência cômica.

A atenção excessiva ao humor parece incongruente porque os acontecimentos de Harry Potter e o Enigma do Príncipe estão em outra batida. Tudo é muito urgente e quase desesperançoso. O reflexo disso está no próprio visual da série, cada vez mais desprovido de cores – e a bela fotografia de Bruno Delbonnel indicada ao Oscar é peça fundamental para que possamos compreender, já em um primeiro contato, que o universo do jovem Harry é bem diferente daquele apresentado por Columbus em 2001. A trilha de Nicholas Hooper ainda completa essa sensação, com melodias que raramente evocam a magia de John Williams e que constroem uma nova identidade para esse universo em constante redefinição.

Narrativamente, ainda existem muitos aspectos que não engatam em O Enigma do Príncipe. Os flashbacks, concebidos com impecável apuro visual, começam interessantes, mas aos poucos se banalizam e não têm o devido impacto – até porque, sem querer, surgem meio avulsos em um cotidiano humorístico e de paixonites adolescentes. Infelizmente, não surtem o efeito que tinham na obra original, que ainda revelava com grande emoção a identidade do tal príncipe do título, enquanto, no filme, o momento é encenado sem qualquer invenção, com direito ao personagem tendo que bradar, em uma luta, “eu sou o príncipe mestiço!” como se estivesse tirando revelando a identidade de um fora da lei após arrancar sua máscara para uma multidão como nos velhos tempos do desenho Scooby Doo. Isso acontece logo após a morte de um importante personagem, que, aí sim, reforça com boa intensidade o novo tom urgente de Harry Potter que não deveria ser distraído por firulas de romances colegiais.

Confira também:

– Harry Potter e a Pedra Filosofal

– Harry Potter e a Câmara Secreta

– Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

– Harry Potter e o Cálice de Fogo

– Harry Potter e a Ordem da Fênix

Na coleção… Harry Potter e a Ordem da Fênix

harryorder

Harry Potter e a Ordem da Fênix é um filme de transição – em todos os sentidos, da história criada por J.K. Rowling até as escolhas do novo diretor David Yates (que assumiu o cargo após Mike Newell ter comandado o capítulo anterior). É por estar nesse meio de campo que o quinto filme da saga não chega a ser superlativo. Aqui, a introdução de novos personagens e situações bem como a repaginada estética e narrativa fazem toda a diferença no resultado. Na trama, Harry (Daniel Radcliffe, em um de seus piores momentos) descobre que boa parte da comunidade bruxa foi levada a acreditar que o retorno de Voldemort (Ralph Fiennes) é uma mentira inventada por ele, o que põe a sua credibilidade e a de todos que acreditam nele em dúvida.

Importante perceber que, a partir de A Ordem da Fênix, a magia de Hogwarts deixa de ser o foco. Alsonso Cuarón, em O Prisioneiro de Azkaban, já tinha anunciado essa virada, mas é na direção de David Yates que a história passa a ganhar contornos mais adultos e políticos, com storylines que possuem conflitos contínuos e que colocam os detalhes mágicos daquele universo apenas como um bônus. A Ordem da Fênix traz  um forte tom de conspiração (causado pela volta de Voldemort), que divide o mundo bruxo: de um lado, a ala conservadora que se recusa a acreditar no retorno do temido assassino; do outro, os que se vêem acuados e apreensivos com essa volta. E é a partir do embate de posicionamentos tão diferentes que o filme constrói as principais desavenças entre os personagens.

Essa abordagem é bem explorada pelo roteiro de Michael Goldenberg, que, mesmo sofrendo com a enorme quantidade de novos personagens e subtramas, consegue fazer um satisfatório trabalho ao resumir mais de 700 páginas em aproximadamente 140 minutos. E, se A Ordem da Fênix não chega a ser necessariamente empolgante, em parte a culpa é do material original, visto que o livro homônimo é um dos que menos preza pela objetividade e por grandes acontecimentos na série. Mas Yates foi esperto e, ao perceber que o material é, sem dúvida, um dos mais complicados (ou tortuosos?) de Harry Potter, ele resolveu dar uma bela repaginada em todos os aspectos cinematográficos possíveis.

Com isso, tecnicamente, o resultado surpreendente – e é uma pena que as premiações não tenham reconhecido tal mérito (A Ordem da Fênix não teve sequer uma indicação ao Oscar). Parece que nesse filme conhecemos uma Hogwarts completamente diferente (o que é ótimo, diga-se de passagem). Também conhecemos novos ambientes do mundo dos bruxos, em especial o departamento de ministérios, reproduzindo com um admirável requinte. Nicholas Hooper ainda dá um novo tom ao enredo com uma trilha sonora extremamente original, que se afasta de qualquer repetição e que apresenta melodias completamente originais, terminando com a indiferença trazida por Patrick Doyle nesse mesmo setor em O Cálice de FogoÉ, certamente, um novo clima, que amplia o tom mais pausado e conspiratório da saga.

Impossível, entretanto, falar de A Ordem da Fênix sem ainda mencionar a importância de Imelda Staunton. Representando uma enviada do conservador ministério da magia que instaura uma verdadeira ditadura em Hogwarts, ela mostra uma grande versatilidade em sua participação – especialmente quando O Segredo de Vera Drake recém havia lhe dado celebração dois anos antes com um papel completamente diferente. Ela está não menos que espetacular como Dolores Umbridge, uma professora perfeccionista que, à primeira vista, parece uma senhora sorridente vestida de rosa mas que, pouco a pouco, se mostra sádica e intolerante.

Perto de seu desfecho, A Ordem da Fênix ganha momentos realmente grandiosos (a batalha entre Dumbledore e Voldemort é um primor e a morte de um personagem acontece em uma cena de ação muito bem conduzida), mas o problema mesmo é essa transição, tanto cinematográfica quanto narrativa, com novos personagens (Helena Bonham Carter é a principal nova adesão como Belatrix Lestrange) e fatos sendo instalados para acontecimentos posteriores. São pouco mais de duas horas corridas e de muitas informações, o que causa um certo estranhamento. O bom mesmo é que Yates já se mostra um bom diretor e uma escolha acertada para dar uma linha a essa saga que terminou de maneira impecável no oitavo filme.

FILME: 8.0

35

Confira também:

– Harry Potter e a Pedra Filosofal

– Harry Potter e a Câmara Secreta

– Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

– Harry Potter e o Cálice de Fogo

Na coleção… Lembranças de Hollywood

postedge

Quem está acostumado a acompanhar apenas o Mike Nichols ácido e afiado de filmes como Closer – Perto DemaisQuem Tem Medo de Virginia Woolf? certamente poderá se decepcionar com Lembranças de Hollywood. Ainda que o diretor comande esse longa de 1990 com certa dose de sarcasmo, não temos aqui uma trama necessariamente pesada ou de diálogos complexos. Isso, no entanto, não diminui o resultado, que, oscilando entre o drama e a comédia, consegue falar sobre vários temas de forma leve e sucinta. Baseado na vida da atriz Carrie Fisher (que escreveu o roteiro) e em sua batalha para equilibrar drogas, fama e conturbadas relações familiares, Lembranças de Hollywood é bastante feminino e diz muito sobre o universo cinematográfico e famílias que se formam nesse meio – tanto que a própria Liza Minelli escreveu à Carrie Fisher confessando que o resultado em muito se parece com a relação que ela estabelecia com a sua mãe, Judy Garland.

Mesmo com uma indicação ao Oscar para Meryl Streep (a nona da atriz e a única vez que ela não compareceu à cerimônia) e o claro protagonismo da mesma, o filme de Nichols é todo de uma dupla. Falar de Meryl sem mencionar sua parceria com Shirley MacLaine é uma heresia: como mãe e filha, ambas se saem igualmente bem (com Shirley extravagante na medida exata) quando trocam faíscas de inveja e afeto em uma relação permeada por carinho mas também por competição. A própria temporada de premiações daquele ano ficou confusa ao ter que escolher entre elas: ambas foram indicadas ao Globo de Ouro, apenas Shirley foi lembrada pelo BAFTA e Meryl foi a única finalista ao Oscar – juntamente com a canção I’m Checking Out. E aqui um adendo: antes mesmo de ganhar o mundo soltando a voz em Mamma Mia!, ela já dava um show ao soltar a voz em Lembranças de Hollywood, inclusive frente a um piano cantando You Don’t Know Me, de Ray Charles.

A cena da canção de Charles, por sinal, exemplifica bem a dinâmica de Suzanne (Meryl) e Doris (Shirley): enquanto a primeira dá uma versão muito sensível e intimista para a música, a segunda já dá sequência à apresentação da filha soltando com I’m Still Here, saltando em cima do piano e cruzando as pernas com uma acrobacia visivelmente planejada. Uma competição intrínseca por parte da mãe, que sempre precisa aparecer mais, e uma suposta derrota assumida da filha, que nunca se dispõe a entrar no caminho da matriarca, seja por admiração ou por medo mesmo. E é assim durante todo o filme: elas têm o mesmo sangue, mas são figuras opostas e que encaram a vida e a fama de maneiras opostas. Precisam se encontrar – afinal são atrizes e dividem o mesmo meio – só que não possuem nada em comum além da profissão, do sangue e dos deveres familiares em comum.

Contudo, todo esse interessante cenário se constrói muito mais em função das ótimas performances de Meryl e Shirley do que do filme em si, uma vez que Lembranças de Hollywood carece de um clímax e termina, justamente, com número musical de Meryl sem qualquer aviso prévio de que aquela trama estava chegando ao fim. Com incontáveis atores em breves pontas (Annette Bening, Richard Dreyfuss, Gene Hackman, Oliver Platt), o longa de Nichols chama a atenção em função das duas. Leve e descompromissado, Lembranças de Hollywood conseguirá seu carinho durante pouco mais de 90 minutos, mas não se perpetuará por muito tempo. Falta uma força maior nessa história, que pouco se aprofunda em algumas questões (Dennis Quaid só serve para ser mais um obstáculo passageiro na vida infeliz da protagonista). Talvez seja resultado de uma grande confiança depositada na até então inexperiente roteirista Carrie Fisher, que ainda se baseou em um livro de autoria própria! Ela não foi muito além do previsível formato de uma discreta biografia apegada mais à linearidade dos fatos de sua vida do que a uma narrativa diferenciada.

FILME: 7.5

3*

%d blogueiros gostam disto: