Cinema e Argumento

A alquimia musical de Marcelo Zarvos

Compositor de trilhas de filmes como "Flores Raras", "O Bom Pastor" e "Lembranças", além dos seriados "The Big C" e "Ray Donovan", Marcelo Zarvos fala ao Cinema e Argumento sobre sua carreira e sobre o trabalho com trilhas para cinema e TV

Compositor de filmes como Flores Raras, O Bom Pastor e Lembranças, além dos seriados The Big C e Ray Donovan, Marcelo Zarvos fala ao Cinema e Argumento sobre sua carreira e o trabalho com trilhas para cinema e TV. Foto: arquivo pessoal

“A alquimia da música e da imagem é algo muito misterioso. Mesmo depois de ter feito quase 50 trilhas, ainda fico frequentemente surpreso e maravilhado com o poder do cinema”, diz o compositor brasileiro Marcelo Zarvos. Ele, que está em cartaz nos cinemas brasileiros com Flores Raras (filme que tem trilha sonora com a sua assinatura), já tem trajetória de 15 anos nos Estados Unidos, mas tudo começou aqui no Brasil mesmo, quando ainda tinha dez anos de idade. Vindo de uma família sem qualquer raiz musical, o compositor revela que sua relação com a música começou de forma muito intuitiva, em uma busca de puro empenho: “Tive que buscar tudo sozinho, mas sempre com muita confiança no caminho que eu queria percorrer. Aos 14 anos, não só sabia que queria fazer música como também que meu desejo era especificamente trabalhar com trilhas para o cinema”.

A adolescência de Marcelo Zarvos foi, portanto, marcada pela prática da música, mesmo que ainda não em termos cinematográficos. Depois de ter passado o início de sua juventude rock na banda Tokyo, ao lado do até então desconhecido Supla, ele deixou o Brasil em 1998, levando na bagagem a certeza de que o estilo de música que tocara durante três anos com aquele grupo musical não era para ele. O último ano em São Paulo foi marcado por uma atenção especial ao universo acadêmico, com aulas de Koelreutter a Antonio Beazan, já se preparando para finalmente se mudar para Boston, onde estudaria composição de cinema no Berklee College of Music. “Quando cheguei lá, percebi que estava muito cedo para me especializar. Assim, passei dez anos tocando e compondo muitos tipos de música, passando por clássico, jazz e MPB. Foi a minha verdadeira base musical na qual me apoio até hoje”, conta.

Mas não demorou muito para que Zarvos começasse a colocar sua verdadeira paixão em prática. Agora, em 2013, o compositor já contabiliza trilhas para os mais variados filmes, como Lembranças, Você Não Conhece Jack e Um Novo Despertar. Dos trabalhos que já realizou, os que mais marcaram o compositor foram Provocação (“Minha primeira trilha orquestral! Não era um filme de grande orçamento, mas, do meu ponto de vista, era enorme. A partir desse projeto, muitas portas se abriram para mim”) e O Bom Pastor (“Foi incrível. Era realmente um filme muito grande, épico. Eu sempre fui fã do Robert DeNiro e a oportunidade de trabalhar com ele foi muito especial”). Tendo como referência nomes como Ennio Morricone, Bernard Hermann, Philip Glass e Hans Zimmer, o compositor diz que o interesse pelo filme em si é sempre o fator principal na hora de assinar um projeto: “Tento trabalhar em filmes que eu também gostaria de assistir. Procuro desafios tanto no estilo do filme como na trilha em si, analisando o que eu posso fazer e o que ainda não fiz. E, obviamente, o roteiro e diretor sempre pesam muito, além do que eles esperam da música e se vão ser bons colaboradores”.

Estendendo seu trabalho musical também ao mundo televisivo, ele já assinou a trilha de seriados premiados e de repercussão. É o caso do recente The Big C, da Showtime, que rendeu um Globo de Ouro e um Emmy de melhor atriz à protagonista Laura Linney. Para esse formato, ele aponta que o processo de criação é bastante similar, mas que os prazos fazem toda a diferença na hora de se pensar a música. “Em um filme, costumamos ter cerca de seis semanas pra completar uma trilha, mas, na TV, temos, no máximo, uma semana por episódio. Outra grande diferença é a possibilidade de criar um mundo musical muito mais amplo, pois temporadas de seriados como The Big C ou Ray Donovan se estendem por doze horas ou mais”.

Sobre as trilhas realizadas atualmente no Brasil, Zarvos diz não ser tão familiarizado com o material. A distância, porém, não o impede de ter suas raízes profissionais por aqui. Uma prova disso é a recente trilha do brasileiro para Flores Raras, de Bruno Barreto, um dos trabalhos mais sensíveis e minimalistas tanto do diretor quanto de Zarvos. Ambos já haviam trabalhado juntos no longa Última Parada 174, e a repetição da parceria foi, para o compositor, um verdadeiro prazer. “Ele me chamou para fazer o filme quando mal tinha um roteiro. E o Bruno tem idéias musicais muito boas, mas também uma grande qualidade que poucos diretores têm: a de escutar o compositor. Embora, obviamente, a decisão final seja sempre dele, o diálogo entre nós sempre é muito legal”.

Com mais dois longas-metragens que levam sua trilha estreando nos Estados Unidos pelos próximos meses, o compositor se mostra entusiasmado com o envolvimento em tais projetos, refletindo a sua vontade de fazer trilhas para filmes que possuem sua admiração. O primeiro é Enough Said, “uma comédia maravilhosa” dirigida por Nicole Holofcener, o outro é The Face of Love, “um drama psicológico muito bacana” estrelado por Annete Benning e Ed Harris. Daqui para frente, ainda sonha em trabalhar com Terrence Malick, Martin Scorsese, Fernando Meirelles e Gaspar Noé, mas, quando questionado sobre qual conselho o Marcelo Zarvos de hoje daria para aquele que começou a trabalhar com música anos atrás, ele indica que a dica seria a mesma para qualquer fase de sua vida: “Acho que seria ter muita paciência e foco, duas coisas difíceis de conquistar em qualquer idade”. Que ele continue com essas duas virtudes por muito tempo!

* Fica registrado por aqui também o nosso agradecimento mais do que especial ao Marcelo, que gentilmente topou dar essa entrevista para o Cinema e Argumento!

Pelos Olhos de Maisie

You know who your mother is, right?

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Direção: Scott McGehee e David Siegel

Roteiro: Nancy Doyne e Carroll Cartwright, baseado no romance “What Maisie Knew”, de Henry James

Elenco: Julianne Moore, Alexander Skarsgård, Steve Coogan, Joanna Vanderham, Onata Aprile, Sadie Rae, Jesse Stone Spadaccini, Diana García, Amelia Campbell, Maddie Corman, Paddy Croft, Trevor Long

What Maisie Knew, EUA, 2012, Drama, 99 minutos

Sinopse: Em meio ao conturbado divórcio dos pais, Maisie (Onata Aprile), uma garotinha de sete anos, tenta entender o que se passa. De um lado a mãe, Susanna (Julianne Moore), uma estrela do rock. Do outro o pai, Beale (Steve Coogan), um influente galerista. Unindo os dois, a menina, que logo descobre um novo significado para a palavra “família”. (Adoro Cinema)

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Já está na hora de Maisie (Onata Aprile) dormir, mas, antes ela quer ouvir uma canção para pegar no sono. Sua mãe, Susanna (Julianne Moore), pergunta o que a pequena quer ouvir, e a menina logo responde que uma das canções da própria Susanna, que é uma estrela do rock. A mãe diz que suas músicas não são feitas para momentos como esse, mas Maisie insiste e Susanna, sem parecer muito contrariada, logo pega um violão e começa a cantar um de seus sucessos. Mais tarde, vamos descobrir que essa cena é uma bela metáfora para as relações familiares estabelecidas ao longo de Pelos Olhos de Maisie. Para Susanna e o marido, suas vidas e egos são mais importantes que a própria filha. Ela e Beale, na verdade, não nasceram para ter filhos. São pessoas que só sabem olhar para o próprio umbigo, nunca conseguindo colocar a pequena Maisie frente a suas próprias necessidades. “Você não merece a filha que tem”, diz uma personagem à Susanna, em determinado ponto do filme, reforçando bem essa importante temática de Pelos Olhos de Maisie: a da incapacidade de certos indivíduos de saber criar um filho e a de que, sim, adultos esquecem fácil, mas as crianças não. São marcas para a vida inteira.

Só que o filme da dupla Scott McGehee e David Siegel (do bom Até o Fim, que traz um dos melhores desempenhos de Tilda Swinton) se diferencia por não apresentar uma narrativa convencional focada no dia-a-dia dos dois pais ou em suas discussões e batalhas judiciais pela guarda da filha. A história tem foco, como o próprio título brasileiro indica, nas percepções da pequena Maisie sobre tudo o que está acontecendo em sua volta. E a jogada dos diretores e do roteiro escrito por Nancy Doyne e Carroll Cartwright, baseado no romance What Maisie Knew, de Henry James, é ótima. Uma discussão corriqueira entre os pais logo se torna mais impactante quando a câmera acompanha Maise chegando em casa da escola com, aos fundos, os pais se ofendendo aos berros. A câmera permanece com ela por mais alguns segundos, a menina se afasta daquilo tudo sem compreender muito do que está sendo dito e o som se abafa, fazendo com que ela volte para o seu mundo. É uma jogada muito interessante, pois traz um novo ângulo para essa história que poderia ser perfeitamente clichê caso contada apenas do ponto de vista dos pais.

Também existe ao favor de Pelos Olhos de Maisie o fato da menina Onata Aprile ter uma desenvoltura absurda. Adorável em cada segundo de projeção, ela ganha o coração do espectador que, no final das contas, não torce nem pelo pai nem pela mãe, mas sim pela felicidade da garota, independente de com quem ela fique. Além do divórcio dos pais, Maisie ainda precisa lidar com uma constante reposição de figuras na sua vida: a sua babá passa a ser a madrasta e a mãe logo se envolve com um sujeito muito mais novo.  E a adaptação lida bem com essa troca de elenco na vida da garota, mesmo que de vez em quando banalize demais a ferramenta de colocar tudo pelos olhos da pequena (várias sequências são repetitivas, mostrando a garotinha na escola apenas brincando ou procurando algo para fazer). Pelos Olhos de Maisie também perde um pouco de sua força nos momentos finais, quando coloca a personagem de Julianne Moore de escanteio (ela faz uma grande falta) e resolve bagunçar um pouco demais a vida de Maisie com troca-trocas e desenvolvimentos excessivos das figuras adultas. Mas o que fica é que todos se saem bem (vale mencionar, claro, a sempre ótima Moore) nesse filme cuja mensagem atemporal é sublinhada com uma sensibilidade que disfarça suas pequenas falhas.

FILME: 8.0

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O Tempo e o Vento

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Direção: Jayme Monjardim

Roteiro: Letícia Wierzchowski, Marcelo Ruas e Tabajara Ruas, baseado no livro “O Continente”, da trilogia “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo

Elenco: Thiago Lacerda, Cléo Pires, Fernanda Montenegro, Marjorie Estiano, Paulo Goulart, José de Abreu, César Troncoso, Leonardo Medeiros, Luiz Carlos Vasconcelos, Marat Descartes, Janaína Kremer, Leonardo Machado

Brasil, 2013, Drama, 127 minutos

Sinopse: Rio Grande do Sul, final do século XIX. As família Amaral e Terra-Cambará são inimigas históricas na cidade de Santa Fé. Quando o sobrado dos Terra-Cambará é cercado pelos Amaral, todos os integrantes da família são obrigados a defender o local com as armas que têm à disposição. Esta vigília dura vários dias, o que faz com que logo a comida escasseie. Entre eles está Bibiana (Fernanda Montenegro), matriarca da família que recebe a visita de seu falecido esposo, o capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). Juntos eles relembram a história não apenas de seu amor, mas de como nasceu a própria família Terra-Cambará. (Adoro Cinema)

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O povo gaúcho deve ser o mais bairrista do Brasil. Excetuando certos exageros nessa paixão por vezes descabida, não dá para negar que a literatura do Estado é realmente digna de orgulho. O que dizer, então, da obra de Erico Verissimo – e, mais especificamente, da trilogia O Tempo e o Vento? Lançada pela primeira vez em 1949, a primeira parte, intitulada O Continente, foi a merecidamente que ganhou o Brasil, até mesmo com uma minissérie produzida pela Globo na década de 1980 (muito digna, por sinal). É neste tomo que estão os personagens mais marcantes da obra de Verissimo e, sem dúvida, os melhores acontecimentos de toda a série literária escrita pelo autor gaúcho. Apesar do título ser O Tempo e o Vento, todas as produções relevantes sobre a obra se focam em O Continente, e não nas outras partes (O Retrato e O Arquipélago).

Foi assim com a minissérie dirigida por Paulo José e é agora com o filme de Jayme Monjardim, que chega aos cinemas de todo Brasil após estreia antecipada no circuito comercial do Rio Grande do Sul. Só que se, por ser televisiva, a minissérie dirigida por Paulo José teve o tempo necessário para desenvolver os dois séculos de história retratados na obra original, o longa de Monjardim sofre por não conseguir dar a devida intensidade aos fatos em meras duas horas de duração. Ainda que não seja a tragédia e o oportunismo que poderia se esperar, O Tempo e o Vento é corrido e abarrotado de personagens e situações – o que quase castra a emoção da história singular criada por Erico Verissimo. Afastado do cinema desde que dirigiu Olga (filme que não é o desastre que tantos apontam), Jayme Monjardim agora volta a se envolver com a adaptação de uma obra forte e emblemática. Palmas pela coragem, mas também críticas pelas intenções comerciais: mesmo ganhando as telas de cinema, O Tempo e o Vento já está programado para ser exibido na TV em formato de minissérie. Ou seja, são no mínimo duvidosas as intenções “artísticas” do diretor com esse trabalho.

De qualquer forma, é uma produção em alta escala (13 milhões bem empregados), destinada ao grande público e que deve fazer sucesso de bilheteria. Dá gosto de ver a história de Erico com todo esse requinte técnico, especialmente com o mestre Affonso Beato como diretor de fotografia e a Orquestra Sinfônica de Budapeste interpretando a trilha sonora. Mas, em termos narrativos e dramáticos, esta nova adaptação nada acrescenta para quem conferiu a minissérie dos anos 1980 ou é familiarizado com a obra homônima. Isso porque falta unidade ao longa, em uma narrativa que não se sente a cronologia: pouco aprendemos historicamente, não conseguimos nos envolver com todos os núcleos e os dois séculos retratados passam sem qualquer costura mais firme. Por sinal, percebam como O Tempo e o Vento deve ser o filme com o maior número de fade outs da história. Perde-se a conta de quantas vezes a tela escurece para marcar a transição entre épocas e situações.

Estruturado basicamente com dois grandes protagonistas (Ana Terra e Capitão Rodrigo), o filme de Jayme Monjardim tem um elenco que merece atenção à parte. Nele, podem ser encontrados muitos atores globais e outros já conhecidos do grande público. Mas o filme é praticamente todo de um trio que dá todo o subsídio – direta ou indiretamente – para que a história se sustente. Quem primeiro surge em cena com essa missão é a inigualável Fernanda Montenegro, que tem a missão de ser a narradora da história. E se, com outra atriz, o papel óbvio poderia aborrecer o longa, com Montenegro acontece justamente o oposto: sua maestria com as palavras e seu talento arrebatador com a voz transformam em quase poesia até mesmo as frases mais capengas e didáticas. Ela é o coração do filme e ninguém poderia fazer melhor.

Logo, é a vez de conhecermos a Ana Terra de Cléo Pires, em um papel que foi de sua mãe, Glória, na minissérie da Globo. E a sucessora bem que se esforça, mas o seu capítulo é o mais bagunçado de O Tempo e o Vento. Não dá para sentir nada do que acontece com sua personagem e muito menos se envolver com as transformações emocionais e as dinâmicas estabelecidas por ela com outros personagens. Por fim, aparece o Capitão Rodrigo de Thiago Lacerda. E é exatamente com ele que a história começa realmente a valer a pena. Não só porque a trama dá uma guinada em carisma e ritmo mas porque Lacerda está um arraso, dominando como ninguém o sotaque, a postura e a simpatia de um personagem que ganha, nas suas mãos, a melhor representação já vista de Capitão Rodrigo em uma adaptação.

Com momentos divertidos aqui e outros emocionantes ali, O Tempo e o Vento fica em um meio-termo para os que já tiveram algum tipo de contato com o material de Verissimo ou com outras adaptações. Enquanto o trailer do filme acusava que o resultado seria digno de ser guardado como sonífero para noites de insônia, não demora muito para que essa sensação desapareça até mesmo com um certo suspiro de alívio. Não, O Tempo e o Vento não foi vulgarizado ou “globalizado”. O grande empecilho da direção de Monjardim e do roteiro adaptado por Letícia Wierzchowski, Marcelo Ruas e Tabajara Ruas é justamente a proporção entre a obra original e o filme proposto. A saga das famílias Terra e Cambará são épicas demais para caber em um longa de 120 minutos, e tal afirmação fica ainda mais evidente nos minutos finais, quando os acontecimentos da parte intitulada “O Sobrado” no livro ganha foco com acontecimentos ainda mais corridos e displicentes.

Tecnicamente, o espírito da saga familiar gaúcha foi respeitosamente absorvido (as paisagens não poderiam ser mais encantadoras e os figurinos e cenários não parecem novelescos), mas das duas uma: ou Jayme Monjardim se arriscava a fazer um verdadeiro épico de maior duração para abraçar com a devida intensidade todas as riquíssimas histórias (o que afastaria o grande público) ou então nem se preocupava com o lançamento cinematográfico, produzindo uma caprichada minissérie diretamente para a TV – formato que, sejamos sinceros, faz cada vez mais falta na rede Globo. Por fim, O Tempo e o Vento não chega perto de ser um desastre, mas tampouco flerta certeiramente com toda a emoção da saga de Erico Verissimo.

FILME: 7.0

3*

Na TV… a despedida de Dexter

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Six Feet Under foi a série que marcou a minha iniciação no mundo televisivo. Quando fiquei órfão da série – após a pura anestesia que é o impecável desfecho do programa criado por Alan Ball – era natural procurar, justamente, uma opção que tivesse alguma relação com o que eu acabara de assistir. O ano era 2006 e Michael C. Hall, excepcional em Six Feet Under, ganhava um seriado para brilhar sozinho: Dexter, sobre um serial killer que trabalha na polícia de Miami. Tudo deu certo logo de cara: a história era instigante, o roteiro bem amarrado e o suspense conduzido com grande habilidade. Foi assim durante quatro temporadas, com dois picos altamente significativos (leia-se o segundo e o quarto ano da série, maravilhosos), até My Bad, capítulo de estreia da quinta temporada. A série terminou nele. Quer dizer, Dexter continuou, mas qualquer qualidade e inspiração que existia no programa se dissolveu nesse episódio.

É no mínimo curiosa a trajetória de Dexter na TV. Oito temporadas: quatro ótimas, quatro péssimas. 50% de aproveitamento. Vencedora do Globo de Ouro e do SAG e indicada ao Emmy, foi, durante certo tempo, uma das melhores séries em exibição. Mas bastou virar sucesso de público para que tudo fosse por água abaixo, mais especificamente depois do final do quarto ano, quando os roteiristas apostaram em uma tragédia no mínimo corajosa que não foi aceita pelo público mais sensível. A rejeição pela morte de uma personagem fez a série regredir, com uma história andando em círculos, atuações cada vez mais enfraquecidas (inclusive do próprio protagonista Michael C. Hall), fatos fora da realidade, previsibilidade e, o pior de tudo, inexistência de suspense.

Resistente e também fiel a essa memória afetiva de Dexter (como mencionado, um dos primeiros seriados que acompanhei), enfrentei bravamente as temporadas posteriores e, a cada ano, minha incredulidade com a covardia e a previsibilidade da série se acentuava. Mas nada preparava os espectadores para a última sequência de episódios do serial killer, que deu adeus à TV no último domingo (22) da pior forma possível. Chegamos nela já sabendo que nada acontece ao personagem: ele escapa de tudo, sempre dá um jeito de resolver seus problemas e, mesmo quando algo lhe afeta, logo esquece tudo e já parte para a matança de novo. Era de se esperar, no entanto, que a equipe de Dexter retomasse alguma inspiração pelo menos para a despedida. O efeito foi totalmente o contrário: nunca a série esteve tão mal escrita e com episódios sem personalidade, bagunçados e repletos de atentados ao bom senso do espectador.

O mais preocupante da oitava temporada, no entanto, foi como a própria lógica do protagonista se inverteu e qualquer resquício de sua complexidade desapareceu. Nos últimos episódios, por exemplo, os roteiristas tiveram a capacidade de fazer com que o romance tomasse conta da trama, humanizando Dexter de forma descabida. Ao longo da temporada, muitas tentativas também foram frustradas: a introdução de um pupilo, a análise psicológica da personagem de Charlotte Rampling (ainda tento entender o que ela fazia ali), retorno de personagens só para dar algum rumo aos acontecimentos finais, coadjuvantes inúteis (Masuka e uma parente? Qual foi o sentido daquilo?) e outras bobagens que não vale nem a pena mencionar. Não bastasse o formato batido, o suspense mofado e o ritmo arrastadíssimo, o personagem se desconstruiu e passou, de uma hora para outra, a ser alguém que nunca vimos. Não existe sentido nessa brusca transformação, especialmente quando Dexter se sensibiliza com fatos que, em temporadas passadas, foram muito piores e nunca se tornaram qualquer empecilho para que ele seguisse com sua vida.

Tais guinadas dos episódios finais são completamente inverossímeis e a (boa) mensagem de que ter que lidar sozinho com as consequências de seus próprios erros não tem qualquer efeito, visto que passou a ser construída somente no último episódio, quando esse estudo merecia no mínimo uma temporada inteira (como acontece recentemente com a arrebatadora Breaking Bad). Com a bagunça instalada, até mesmo a ótima coadjuvante Jennifer Carpenter, que se manteve ilesa nas últimas temporadas, não sobreviveu ao texto horrível que lhe era destinado. Que Michael C. Hall, esse grande ator que já arrasou em Six Feet Under, tenha projetos melhores daqui para frente. Dexter, nas temporadas iniciais, parecia o papel de sua vida, mas hoje é melhor esquecê-lo. Remember the Monsters?, o vergonhoso episódio final, mostra que ele ainda tem muito a oferecer, mas que não seja em materiais como esse. Dexter já vai tarde.

OITAVA TEMPORADA: [7.0] 8X01 A Beautiful Day [6.5] 8X02 Every Silver Lining… [6.5] 8X03 What’s Eating Dexter Morgan? [7.5] 8X04 Scar Tissue [6.5] 8X05 This Little Piggy [7.5] 8X06 A Little Reflection [7.0] 8X07 Dress Code [6.5] 8X08 Are We There Yet? [6.0] 8X09 Make Your Own Kind of Music [6.5] 8X10 Goodbye Miami [5.5] 8X11 Monkey in a Box [5.0] 8X12 Remember the Monsters?

A seguir, inspirado por um post do Buzzfeed, faço um breve resumo (com imagens e spoilers) do que foi esse trágico episódio final da série.

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Emmy 2013: vencedores

Anna Gunn foi a melhor atriz coadjuvante em série dramática por "Breaking Bad", a grande vencedora do Emmy 2013.

Anna Gunn foi a melhor atriz coadjuvante em série dramática por “Breaking Bad”

Todos os sinais acusavam. Era inevitável: Breaking Bad tinha que ser a grande vencedora do Emmy. Mad Men pode até ter arrebatado a crítica, mas faz anos que não vemos uma série ter tanto buzz e agradar gregos e troianos. As vitórias foram pela primeira parte da quinta temporada, o que já praticamente carimba todas as vitórias possíveis para o ano que vem, quando Breaking Bad concorre por seus excepcionais episódios finais. Desde a quarta temporada, o programa criado por Vince Gilligan já merecia a honraria. Mas não premiá-lo agora despertaria uma indignação sem precedentes. E que bom que os votantes do Emmy foram coerentes com o atual momento da série, que, sem exageros, é a melhor em exibição. Mais do que isso, foram certeiros ao colocar a farsa chamada Homeland de lado e também ao premiar a sempre subestimada Anna Gunn por seu desempenho como coadjuvante. A vitória da atriz foi um dos grandes momentos da noite.

De resto, justo ou não, o Emmy sempre ganha pontos por ser aquilo que todas as premiações não são: imprevisíveis. Certamente você perde muitos pontos no bolão e, todo ano, surpreende-se com alguns vencedores. Não foi diferente agora em 2013, especialmente quando Aaron Paul, Jonathan Banks e Bryan Cranston perderam por suas interpretações em Breaking Bad. Nas comédias, o mofo já reina: quem ainda aguenta ver Modern Family vencendo (quatro anos consecutivos) justo quando 30 Rock se despede?. A inovação também fez falta: Laura Dern bem que poderia ter vencido por Enlightened (ainda que Julia Louis-Dreyfuss esteja sempre inspirada em Veep) e Jane Krakowski merecia pelo menos uma lembrança final por sua eterna Jenna de 30 Rock – que nunca mais terá chances de vencer visto o encerramento da série.

Entre os telefilmes e minisséries, não dá para reclamar. Era mais do que óbvio o total brilho de Behind the Candelabra, que ganhou na categoria principal e também em ator (Michael Douglas, merecedor da honraria, com um dos discursos mais inspirados da noite) e direção (Steven Soderbergh). American Horror Story fracassou pelo segundo ano consecutivo, levando novamente apenas um prêmio para o seu elenco de suporte, dessa vez para o veterano James Cromwell. A vitória de Ellen Burstyn pode até ser uma leve surpresa, mas a atriz tem nome e até que faz um bom trabalho na previsível minissérie Political Animals. Nesse segmento, meu maior aplauso foi para Laura Linney, que não estava presente, mas ganhou por seu impecável trabalho em The Big C: Hereafter. No programa, a atriz tem simplesmente o melhor momento de toda a sua carreira. Não era favorita e ninguém apostava, mas o reconhecimento é incontestável. Ainda uma curiosidade: com esse prêmio, Linney venceu um Emmy por cada um dos quatro papeis que já concorreu na premiação.

O único defeito do Emmy é ser uma cerimônia comprida demais, com momentos que poderiam ser perfeitamente deixados de lado. Não sei o que acontece com os produtores dessas cerimônias, que sempre insistem em deixar os vencedores no palco o mínimo de tempo possível mas não hesitam em colocar esquetes cansativas e outras piadinhas infinitas no roteiro da festa. Neste ano, foram particularmente incômodas as homenagens aos falecidos. Não só porque é até um certo desrespeito dar mais destaque a uns do que outros mas também porque, a cada bloco, o clima pesava quando cada homenagem póstuma tomava conta da tela. Nem Six Feet Under falou tanto de morte em cerca de três horas. Por isso, ainda rezo pelo dia em que as premiações se voltem para aquilo que realmente interessa: prêmios e a chance dos vencedores prestarem suas devidas homenagens em momentos de improviso e emoção. Afinal, a noite é deles.

Confira a lista completa de vencedores (excetuando variedades e reality shows):

MELHOR SÉRIE DRAMA: Breaking Bad
MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA: Jeff Daniels (The Newsroom)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA: Claire Danes (Homeland)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DRAMA: Bobby Cannavale (Boardwalk Empire)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DRAMA: Anna Gunn (Breaking Bad)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DRAMA: David Fincher (House of Cards)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DRAMA: Henry Bromell (Homeland)

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MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Modern Family
MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA: Jim Parsons (The Big Bang Theory)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE COMÉDIA: Tony Hale (Veep)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE COMÉDIA: Merritt Wever (Nurse Jackie)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE COMÉDIA: Gail Mancuso (Modern Family)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE COMÉDIA: Tina Fey e Tracey Wigfield (30 Rock)

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MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Behind the Candelabra
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Michael Douglas (Behind the Candelabra)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Laura Linney (The Big C: Hereafter)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: James Cromwell (American Horror Story: Asylum)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Ellen Burstyn (Political Animals)
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Steven Soderbergh (Behind the Candelabra)
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Abi Morgan (The Hour)